Jazz em Agosto 2019

Música, Jazz
Ambrose Akinmusire
©DR Ambrose Akinmusire

A Time Out diz

Atenção, continuamos a tentar dar-lhe a informação mais actualizada. Mas os tempos são instáveis, por isso confirme se os eventos continuam agendados.

No segundo round do Jazz em Agosto só há um projecto com conteúdo político explícito, pela mão de Ambrose Akinmusire – os restantes revolucionários evitam o confronto directo, mas nem por isso representam menor perigo para o statu quo.

O trompetista Ambrose Akinmusire (na foto) traz-nos música do 
seu álbum mais recente, Origami Harvest. Em The Imagined Savior Is Far Easier to Paint (2014), o seu segundo álbum para a Blue Note, em que vozes
e cordas desempenham papel crucial, o trompetista assumiu uma clara vontade de intervenção na sociedade e, em particular, no candente problema racial nos EUA. A tendência foi reforçada
no disco de 2018. Origami Ghosts não tem, musicalmente, arestas cortantes, mas os textos são de combate: a faixa “Free, White and 21”, por exemplo, assenta na recitação de uma lista de nomes de afro-americanos mortos por elementos das forças da ordem ou dos grupos de “vigilância de bairro”.

O guitarrista Julien Desprez regressa com os Abacaxi
, cujo nome poderá evocar um duo de MPB vocacionado para providenciar música de fundo a restaurantes de rodízio, mas que é um ferocíssimo power trio, que cruza a faceta mais experimental de Sonic Youth com math rock e free jazz.

O violinista Théo Ceccaldi 
é outro reincidente. Esteve
 em Lisboa em 2016 com o quarteto Petite Moutarde, cujo jazz anguloso, zombeteiro e imprevisível tem continuação e intensificação no sexteto Freaks, que amplia a paleta instrumental, acelera a velocidade dos acontecimentos e realça a componente histriónica, fazendo pensar em Frank Zappa e nos Naked City de Zorn.

A promiscuidade entre músicos de jazz pode gerar teias de relações mais emaranhadas do que a árvore genealógica da dinastia ptolemaica do Egipto (que cultivava a tradição do casamento entre irmãos).
 O baterista Tomas Fujiwara cruza-se regularmente com os guitarristas Mary Halvorson e Brandon Seabrook e os trompetistas Taylor Ho Bynum e Ralph Alessi em diversas bandas, pelo que decidiu juntá-los, somando-lhes, a fim de assegurar simetria, outro baterista, Gerald Cleaver. O resultado é um duplo trio de trompete, guitarra e bateria,
ou um triplo duo de trompetes, guitarras e baterias, ou um sexteto, conforme se queira contar – dá pelo nome de Triple Double e permite admirável variedade de interacções.

A guitarrista Mary Halvorson encerra o festival com o quinteto Code Girl, que se estreou em 2018 com um (duplo) álbum homónimo. É um projecto que abre nova faceta na prolífica carreira de Halvorson (24 discos em 11 anos), ao colocar no seu centro a voz de Amirtha Kidambi, num equilíbrio delicado entre jazz e pop.

O Jazz em Agosto inclui ainda três formações heterodoxas: um duo de baterias, com Joey Baron & Robyn Schulkowsky, um duo de harpa eléctrica
e bateria, com Zeena Parkins & Bruce Chase, e o trio ERIS 136199, com saxofone e duas guitarras.

Por José Carlos Fernandes

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