Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Luís Varatojo: “O rock esqueceu o papel de abanar a sociedade”
Luta Livre é o novo projecto de Luís Varatojo
Fotografia de Sara Varatojo Luta Livre é o novo projecto de Luís Varatojo

Luís Varatojo: “O rock esqueceu o papel de abanar a sociedade”

Nome histórico da música portuguesa, Luís Varatojo tem um novo projecto chamado Luta Livre, que o revela mais interventivo que nunca. Falámos com ele.

Por Ana Patrícia Silva
Publicidade

Luís Varatojo foi um dos fundadores, na década de 80, dos Peste & Sida, uma das maiores referências do punk português, que tiveram uma reencarnação mais lúdica nos anos 90 como Despe & Siga. Com João Aguardela, entre outros, integrou o projecto Linha da Frente em 1999, que juntava a electrónica aos grandes poetas portugueses. Mais à frente, com A Naifa, o fado reinventou-se com a poesia contemporânea. Depois, juntou a sua guitarra portuguesa ao acordeão de Gabriel Gomes (Sétima Legião, Madredeus) para o duo Fandango. Em 2019, começou a escrever textos com base em notícias e a fazer instrumentais a partir de samples de discos de jazz. O resultado foi o novo álbum Técnicas de Combate, em que denuncia as notícias falsas, a desinformação na era da informação, os nomes dos activistas que foram assassinados quando tentavam salvar o planeta, a gentrificação de Lisboa e a precariedade de quem anda por aí a entregar comida ao domicílio. É música de carne e osso, feita da memória colectiva, para despertar consciências e mobilizar o pensamento crítico.

Como foi a reacção das pessoas à medida que lançavas estas músicas?
Alguns temas causaram imensa discussão, porque acho que estou a pôr em música assuntos que talvez não têm estado na música. Algumas pessoas ficaram um pouco eriçadas, a dizer que se calhar devia ir fazer músicas de amor, outros identificam-se com o que está em questão. Notei que há muitas pessoas que neste momento não estão disponíveis para entrar dentro da informação, para querer saber mais. Às vezes dizem-me que isto é música de intervenção, mas para mim é mais música de esclarecimento ou de informação. No disco tenho uma série de observações, mas é mais num tom de expor os casos e deixar o critério da interpretação às pessoas, é assim que a música deve funcionar. Eu noto que a sociedade está muito crispada, a pandemia ainda trouxe mais isso. Recebi observações a dizer-me para ir para Cuba ou para a Venezuela, como se eu em alguma das músicas dissesse que um sistema é bom em relação a outro. Mas mesmo com essas reacções, vale a pena ir a jogo.

Hoje em dia, a palavra "política" é quase um palavrão, as pessoas pensam que a política é só para políticos.
Isso foi um trabalho que foi feito com algum pormenor nos últimos anos, se calhar décadas, isso não nasce espontaneamente do povo, das pessoas. É um trabalho que é feito por alguém, a descredibilização do voto e da participação política, o que descredibiliza todos os actos que temos ou poderemos ter como colectivo e que faz com que determinadas pessoas tenham muito mais poder do que deveriam ter. Porque mesmo se não formos votar, alguém é eleito sempre – não participamos na escolha, mas alguém vai chegar ao poder. Quando não nos juntamos nos sindicatos, temos muito menos força para negociar os nossos salários, as férias. As pessoas não se sindicalizam porque têm medo de ser despedidas e isso convém muito a quem manda. Eu, sozinho, não tenho nenhum poder, temos muito mais força em conjunto. Se nos juntarmos, conseguimos atingir melhor os objectivos.

Numa altura em que temos cada vez mais acesso à informação, também cresce a desinformação e as notícias falsas. Como é que podemos combater isso e cultivar o pensamento crítico?
Podemos combater as notícias falsas esclarecendo-as, e tentando fazer esse debate com as pessoas que estão à nossa volta. O que nem sempre é fácil, porque isto das notícias falsas acaba por ser quase uma religião – uma pessoa que acredita numa notícia falsa não é tão fácil de demover como uma pessoa que acredita numa notícia verdadeira. Acho que os meios de comunicação têm um papel muito importante aí e as redes sociais também têm ajudado muito a que as notícias falsas se propaguem. Por exemplo, o Trump esteve a disseminar notícias falsas a toda a hora e isso provocou o que nós sabemos nos Estados Unidos. O caso das notícias falsas é mesmo grave.

E em Portugal a imprensa também teve um papel na ascensão do populismo, na forma como normalizaram um candidato de extrema-direita.
Sim, foi muito tempo de antena a veicular aqueles soundbytes, porque não se veiculam ideias de fundo, são frases-chave. O Trump e o Bolsonaro também usaram esses soundbytes que batem certinho, sobretudo nas pessoas que não procuram informação mais a fundo e que foram influenciadas nos últimos anos a não ligar à política. Se houvesse informação e cultura, nós seríamos cidadãos com muito mais poder de decisão de escolha, com mais poder de seleccionar a informação e pensar pela própria cabeça. De certeza que esses fenómenos seriam contidos de outra forma. Eu percebo que isso puxa espectadores e cliques, é polémico, mas temos de ter cuidado com o que estamos a fazer, porque estamos a branquear uma situação com que não estamos de acordo, nem a imprensa de certeza está de acordo com divisões étnicas, com os princípios que estão a ser vinculados. Devíamos ter mais consciência do que estamos a fazer e não correr só atrás do espectador imediato e do clique para angariar dinheiro em publicidade.

Este disco mostra que os problemas políticos, sociais, económicos e ambientais estão interligados.
Eu fui recolhendo assuntos que me diziam alguma coisa e achava importantes, uns mais do domínio público, outros menos. Por exemplo, há um tema que se chama "Terra" que fala do que tem acontecido nos últimos anos em países com pouca visibilidade mediática, na América Latina, em África, até na Índia, onde há pessoas que morrem a defender o ambiente e o planeta. Há uma lista enorme de mortes de activistas. As empresas que se estabelecem nesses países para fazer a exploração e sacar as matérias-primas quando têm dificuldades pela frente não têm problema nenhum em matar e isso não chega aos nossos meios de comunicação. A mensagem principal do disco é que nos devemos organizar, porque só assim conseguimos minorar estas questões todas.

Achas que a pandemia vai levar as pessoas a juntar-se e questionar mais, a individualizar-se mais, ou a entregar-se a rebanhos e gurus?
Acho que vai acontecer isso tudo. No início, quando nos confinámos, foi tudo solidariedade, palminhas à janela. Nesta terceira vaga, isso já não aconteceu. Vai haver pessoas que se vão organizar porque acordam para a vida e sabem que se se juntarem vão conseguir coisas melhores, e vai haver pessoas que vão fugir deliberadamente para um individualismo ainda maior porque é um salve-se quem puder. A crise económica vai ser brutal, o desemprego vai ser brutal, nos próximos anos não sei o que aí vem, mas vai ser muito grave. E depois há pessoas que vão seguir, e já estamos a ver isso, vão entrar em determinados rebanhos porque acham que está ali a solução. Tenho visto pessoas por quem tenho consideração que de repente alinham em teorias da conspiração, a alinhar no discurso da descredibilização do vírus, das vacinas. Há muita gente a tentar aproveitar-se deste desespero para ganhar seguidores e acólitos.

Como leitor diário de jornais, como é que lidas com esta avalanche de notícias negativas, da contagem diária de mortos e internados?
Eu acho que isso é um pesadelo. No início seguia mais do que agora, vou estando atento, mas procuro outro tipo de notícias relativas à pandemia. Esse massacre de notícias está a pôr muita gente em desespero. Vou-me desligando um bocado dessa questão dos números e venho aqui para o meu estúdio fazer música.

As letras deste disco têm uma linguagem muito crua e directa, não embelezas nada, pegas nas palavras pelos cornos.
Isso veio da origem dos textos. Nos artigos de jornais e revistas, a linguagem é bastante factual, não é poética, não há metáforas. E, em termos estéticos, ganhou interesse experimentar por cima da música palavras como sindicatos, partidos, carvão, petróleo, precário. Por vezes, afinei essa linguagem, mas nunca é muito rimado. Apesar de ser um registo que anda próximo do spoken word, o texto não é tão livre assim, é mais feito para entrar em cima da música, mas não tanto como no rap, que é mesmo muito hermético e tem de encaixar. Achei interessante o contraste entre a sonoridade do jazz com estas palavras.

No ano passado deste um concerto no Avante!. Como foi essa experiência?
Foi muito forte o que vivemos naquele dia, por vários motivos. Primeiro, por ser a primeira vez que esta música saía de um estúdio e passava para um palco com nove músicos. O disco foi criado de forma bastante solitária, depois os convidados foram entrando, mas já com as canções prontas, por isso ensaiar e passar para o palco com nove músicos foi altamente poderoso. A maior parte dos músicos estava sem tocar há algum tempo, estavam todos com muita gana para tocar. Depois, a Festa do Avante! foi quase boicotada em termos mediáticos, houve uma força mediática muito grande para que não acontecesse. Mas estava tudo lindamente organizado, todas as regras foram cumpridas e com muito menos pessoas. Proporcionou-se um espectáculo único que nunca mais vou esquecer. As canções ganharam outra vida no palco, sobretudo porque estou a tocar com vários músicos de jazz que improvisam com uma facilidade extrema, por isso criámos espaço dentro das canções para a liberdade e o improviso e as músicas tornaram-se elásticas.

O Avante! foi um bom teste para outros festivais? Será possível fazer mais festivais nesses moldes?
Em termos das condições de segurança, acho que sim. Em termos das condições financeiras, não. O Avante! é uma festa de um jornal de um partido político, eles fizeram aquilo mesmo sabendo que iam perder dinheiro. Isso não acontece nos grandes festivais de música, em que o objectivo é o lucro. Com cartazes que custam milhões de euros, se reduzirem a lotação a um terço, não vão poder contratar esses artistas. A menos que – e isso seria o supra-sumo da ironia – tivessem que reduzir o orçamento e contratar só músicos portugueses. Isso seria muito interessante.

Será esta uma boa oportunidade para dar mais palco à música portuguesa, ou não vai mudar nada?
Acho que não vai mudar grande coisa. Anunciaram um aumento da quota de música portuguesa nas rádios de 25% para 30%, o que por si só não é nada de especial. Nem deveria ser necessário uma quota, devia ser normal passar música portuguesa. Basta olhar para os nossos irmãos espanhóis, ou os nossos irmãos brasileiros, para perceber a diferença entre o culto do que é deles e o que vem de fora. Quando a ministra lançou essa notícia, os directores de rádios mainstream ficaram escandalizados. Temos vivido mais para a importação do que para o estímulo do que fazemos cá, e também muito pouco para a exportação. Os festivais importam muita coisa e o espaço para a música portuguesa é reduzido. É uma questão cultural. Mas espero que as coisas possam avançar com festivais como o Bons Sons, é um excelente exemplo de comunhão à volta da música portuguesa de todos os géneros.

Dantes, a desculpa das rádios era não haver música portuguesa suficiente para essas quotas, mas agora não se justifica.
É uma ideia do marketing: quando repetes até à exaustão uma determinada mentira, ela torna-se verdade. Quando pões uma música em playlist quatro vezes por dia, ela vai entrar. E depois há a formatação, como determinada rádio passa só aquele tipo de música, tudo o que fica fora disso não entra. Nos anos 80, quando se liberalizaram as frequências de rádio, criaram-se muitas rádios piratas, muitas delas universitárias. Algumas ainda existem, como a RUM (Rádio Universitária do Minho), talvez a melhor rádio nacional, que é um exemplo a passar todo o tipo de música portuguesa. Os ouvintes têm o seu gosto, evidentemente, mas o papel de uma rádio, ou de um jornalista, de alguém que serve de intermediário, é muito importante.

Acreditas que a música tem o poder de mudar o mundo?
Tem o poder de influenciar, pelo menos. Mudar o mundo é uma ficção, mas ajuda a mudar alguma coisa porque a música acaba por influenciar as pessoas que a ouvem. Ao longo da história, houve vários movimentos musicais que influenciaram o comportamento de gerações. O punk, que é o que me diz mais respeito, influenciou bastante o comportamento, a forma como nos posicionamos perante os outros, como olhamos para a sociedade. Quando somos teenagers, somos bastante influenciáveis, é muito importante a música que ouvimos nessa altura. Por isso, é importante que a música nos diga alguma coisa, que não seja um vazio total. Senão, não é arte.

Achas que a música portuguesa tem andado desligada da política?
Não só da política, é de uma determinada intervenção, porque a intervenção pode ser feita sem se falar de política. Intervenção pode ser fazer música numa determinada direcção, mesmo em termos musicais, que vá contra as normas vigentes. O punk é isso. Foi criado para arrombar com tudo o que estava para trás na forma musical, o tocar de forma simples, só dois acordes, com aquela atitude. Até podes estar a cantar canções de amor – como os Buzzcocks, as canções tinham a ver quase todas com amor, e no entanto era uma atitude punk. Mas, por exemplo, numa altura em que em Portugal só se cantava em inglês, fazer música em português podia ser uma atitude política.

Foi o caso d'A Naifa, por exemplo.
Sim, no início dos anos 2000, o que se passava à nossa volta era música feita cá, mas em inglês, e termos usado a língua portuguesa foi romper com o que se estava a passar. Portanto, acho que se tem feito algumas coisas, mas está tudo um pouco rendido a determinados formatos. Mesmo em termos musicais, há coisas muito bem feitas em termos de som, de composição, de arranjos, mas depois soa sempre a isto e àquilo. Obviamente que há excepções, mas o panorama é este. Se falarmos mesmo de política, só o hip-hop é que fala realmente de política, porque o rock esqueceu completamente o papel que tinha de abanar a sociedade e passou a ser mais um sabonete. Na música rock, neste momento, não se passa nada. No hip-hop sim, há muitos artistas que escrevem canções à volta dos problemas da sociedade e do meio em que vivem. O facto de não haver nos últimos anos muita música virada para a política e os problemas sociais tem a ver com estarmos adormecidos numa classe média, média-burguesa, que é de onde tem saído a maior parte dos músicos, que não sentem esses problemas na pele. Estive a ver o documentário Break it All / Rompan Todo, sobre a música rock na América Latina desde os anos 50, em que começaram a imitar os Beatles (como nós cá), até aos dias de hoje. Muitos deles sempre uma vertente política interventiva, porque são países onde as pessoas vivem pior, viveram em ditadura durante mais tempo, isso faz com que os músicos escrevam aquilo que vão sentindo no dia-a-dia. Aqui, como há músicos que não sentem determinados problemas na pele, eles não aparecem na música. Mas devemos preocuparmo-nos com o que se passa à nossa volta. Mesmo que não sintamos os problemas, devemos falar deles.

Nesta altura, há músicos que começam a vender os instrumentos, a pensar desistir da música. Que efeitos a longo prazo é que a pandemia vai ter na criação musical?
Há músicos e técnicos que vão sentir-se muito desmotivados. E não foi só no ano passado, este ano já estamos a ir no mesmo caminho. Muitos espectáculos que estavam marcados para 2020 vão passar para este ano, alguns já estão a remarcar para 2022, isto quer dizer que tudo o que entretanto apareceu não vai ter espaço para se integrar no mercado. Só para meados de 2022 é que isto vai normalizar, é muito tempo para alguém que esteja à espera para entrar. E mesmo para outros projectos mais consolidados, isto vai dar uma facada em muita coisa.

Apesar disso, tens esperança no futuro? Como são as tuas perspectivas?
São boas, só posso ter esperança, nós só vivemos uma vez. Fazer música é isso, fiz este disco porque acho que vale a pena fazer, há pessoas que vão interagir com ele e pensar nesses assuntos, isso só pode ser feito por alguém que tem um ponto de vista positivo. Por exemplo, eu participei em algumas manifestações pelo clima organizadas por estudantes – foi daí que tirei samples e frases para a música "O Problema é o Sistema" – e fiquei muito contente quando vi malta de 15-17 anos a organizar-se e a estarem preocupados com as alterações climáticas, com o seu futuro. Vão ser essas as pessoas que no futuro vão decidir coisas, vão ter poder, isso só nos dá alegria e faz pensar que as coisas podem sempre melhorar. Acho que temos de ter esse ponto de vista positivo.

Conversa afinada

Beautify Junkyards
© Lois Gray

Beautify Junkyards: “O passado nunca é uma prisão”

Música

Nascidos das cinzas dos Hipnótica, os Beautify Junkyards chegam ao quarto álbum com uma formação que inclui João Branco Kyron (vozes e sintetizadores), Helena Espvall (violoncelo, flauta e guitarra acústica), João Moreira (guitarra acústica e sintetizadores), Sergue Ra (baixo), António Watts (bateria e percussão) e Martinez (vozes). Cosmorama expande o universo tropicalista e psicadélico da banda e pede o título emprestado a uma galeria que existia em Londres na era vitoriana, com projecções de locais distantes e exóticos, um portal para viajar no tempo e no espaço – no fundo, tudo o que pode esperar deste disco.

Mariza
© DR

Mariza: “Ainda olham para mim como uma miúda”

Música Portuguesa

Desde que Mariza apareceu, nunca mais olhamos o fado da mesma forma. Num mundo globalizado, deu-lhe novas cores e coordenadas, mas sem desrespeitar a tradição. Agora a completar 20 anos de percurso musical, Mariza canta Amália, no centenário do nascimento da diva. Já a interpretou várias vezes, mas é a primeira vez que lhe dedica um álbum inteiro. Gravado entre Lisboa e o Rio de Janeiro, o disco conta com arranjos do músico e produtor brasileiro Jaques Morelenbaum. Com guitarra portuguesa, viola e orquestra, afloram influências do jazz e da música clássica, mas também da lusofonia.

Publicidade
Pedro Lucas
Fotografia de Marianne Harle

Pedro Lucas: “Cada vez me interessa mais a capacidade de emocionar”

Música

Pedro Lucas, que a solo assina como P.S. Lucas, nasceu no Faial, passou por Lisboa, viveu na Dinamarca e está de regresso à capital. Depois do cruzamento entre a electrónica e a música tradicional portuguesa nos discos de Medeiros/Lucas e O Experimentar Na M'Incomoda, assume influências de nomes como Leonard Cohen e Bill Callahan e aposta tudo em canções belas, onde redescobre o prazer da guitarra. O novo álbum In Between conta com o trio nuclear João Hasselberg (contrabaixo), David Eyguesier (guitarra) e João Sousa (bateria), e participações de Catarina Falcão ou Jerry The Cat.

Recomendado

    Também poderá gostar

      Publicidade