Rui Massena: “Os Da Weasel são história e são uma história viva, e são do melhor que nós temos em Portugal”
Os Da Weasel regressam ao palco do MEO Marés na edição 2026 com orquestra, sob a direcção do prestigiado maestro Rui Massena, recuperando o espírito de Da Weasel Goes Symphonic, espectáculo apresentado em Lisboa, junto à Torre de Belém, há precisamente 20 anos, perante uma imensa plateia. A Time Out esteve à conversa com todos.
O que se pode esperar deste espectáculo no MEO Marés 2026?
Rui Massena: Acho que isto é trazer uma página de história para o presente. A Torre de Belém foi o cenário de uma experiência que nós consideramos épica para aquela geração, e para essa geração, e sobretudo para os filhos dessa geração e para todas as pessoas que acompanham os Da Weasel ao longo destes anos, acho que é a possibilidade de assistirem a um novo momento – um momento que fecha uma porta e deixa para trás um percurso grande na nossa colaboração, mas sobretudo abre uma nova porta que se inscreve com a mesma irreverência, a mesma vontade e a mesma fome que nos fez chegar todos até aqui. Para mim isto representa também uma experiência muito particular porque estes rapazes acabaram por me influenciar decisivamente na altura em que os conheci, porque eles representam para mim uma verdade artística, criativa, de pessoas que são abertas. Na primeira experiência que tivémos com a orquestra, uma junção de dois mundos, eles estiveram sempre abertos à construção colectiva de um mundo novo, e acho que isso foi para mim a imagem de que a música não tem barreiras – quem tem barreiras são as pessoas ou são as pessoas que as levantam. Portanto, eu diria que os Da Weasel são história e são uma história viva, e são do melhor que nós temos em Portugal, porque são a verdade, são a irreverência, são a atitude, e acho que é isso que as pessoas vão poder ter a felicidade também de testemunhar, uma banda com tantos anos e com tanta presença e com tanta verdade artística.
Enquanto grupo, há alguma resolução para 2026?
João: Não, por ora só temos este concerto. Não há mais planos no imediato, mas é uma escolha. Nós escolhemos actuar pouco, em determinados contextos, em determinadas condições de produção. Mais vale concentrar esforços e gerar produção com palcos que possam receber este tipo de concertos. Como também referi há pouco, é raríssimo poder levar uma produção desta natureza, com a orquestra, no âmbito de um festival, por questões logísticas, de produção, é algo mesmo muito complicado. Mas nós fizemos um esforço incrível para que isso acontecesse e o Rui aceitou. Preferimos concentrar-nos em poucos eventos mas com todas as condições para que possamos dar um excelente espectáculo.
Como é que se conheceram? Há algum episódio caricato?
Rui Massena: Há [risos]! Há vários, mas não posso contar todos [risos]. Em 2005 tomei contacto com a música dos Da Weasel, estava à frente da Orquestra Clássica da Madeira, era director artístico e maestro titular, e tínhamos as comemorações dos 500 anos do Funchal, digamos, do nascimento da cidade do Funchal, e eu tomei contacto com a música deles que à época era totalmente disruptiva porque estávamos a falar de patterns rítmicas com 16 compassos, sempre como mesmo groove, depois com esta ideia de um refrão cantado e um texto com intervenção, por assim dizer, dito e dito com a voz do Carlão e cantado pelo Virgul. Achei aquilo à época completamente disruptivo e pensei que seria incrível aumentar a experiência para nós, músicos clássicos, numa orquestra. Porque a música clássica também tem muitas leituras disruptivas, de compassos compostos, de coisas que estão fora, mas que as pessoas no geral não tinham ideia que uma banda pudesse fazer, e portanto ao colocar aqueles 16 compassos seguidos e, por assim dizer, estruturas completamente diferentes, trazíamos para o imaginário colectivo o som deles. Lembro-me de ouvir um concerto em Santa Cruz que tinha um som completamente avassalador, uma coisa penetrante ao máximo, e então achei que esta junção era incrível. Falei-lhes e começámos uma relação discutida e que chegou, no episódio mais caricato, ao Carlão sem camisola nos ensaios onde estavam os músicos todos no auditório onde fazíamos concertos de música clássica [risos]. O Carlão sem camisola com as suas tranças longas e o Virgul a dar saltos em cima do palco, e o pessoal a tocar já nem olhava para as partituras [risos]. A grande imagem que eu tenho, sobretudo quando fizemos isso na Torre de Belém, é os músicos em êxtase como quem não estava a acreditar no que lhes estava a acontecer.
A Torre de Belém foi o cenário de uma experiência muito marcante para uma geração, diziam há pouco. Agora decidiram que está na hora de a apresentar aos filhos dessa geração, foi esse o mote para este concerto?
Rui Massena: No tempo em que estamos as referências são fundamentais de manter porque é isso que nos vai equilibrar o mundo, e os Da Weasel são uma referência. Acho que há muita gente que assistiu a esta experiência, que já conhecia os Da Weasel, que continuou a consumir Da Weasel ao longo destes anos, mas nós escolhemos, tal como o João dizia há bocadinho, repetir esta experiência, por assim dizer, no contexto certo, e aconteceu agora o contexto certo – é tudo uma escolha. Acho que o nosso caminho tem sido fruto de escolhas. Também fico contente por perceber que eles continuam a fazer grandes escolhas. Não estão simplesmente a tocar por aí; vão escolhendo os contextos para poderem oferecer um espectáculo de qualidade. Acho isso muito relevante e revejo-me nisso também, porque gosto de escolher os contextos onde estou. Trazer este espectáculo a outras idades é amplificar uma experiência geracional fundamental. Não sei quantas bandas de culto existem em Portugal, mas não são muitas, e acho que eles continuam a ter esse padrão de qualidade e de culto. Tendo aberto a paleta de público a quem chegam, mantêm-se de culto, e isso é super difícil de fazer. Terá acontecido a mais quem? Aos Xutos e Pontapés, talvez, não sei…
Qual é o segredo da longevidade dos Da Weasel apesar das duas quase rupturas na vossa história?
Carlão: Não há segredos. Somos uma banda de seis pessoas, com tudo o que isso implica para o bem e para o mal. Fizemos uma paragem de bastante tempo, e a ideia até era nem voltar, mas acho que a música falou mais alto, o nosso feeling falou mais alto, a nossa vontade de voltar a pisar palcos e sentir o que fazemos enquanto banda, todos juntos, que é algo que nos transcende a todos nós... A soma destas seis pessoas num palco é de facto algo único, portanto não diria que é o segredo, mas a razão da nossa longevidade é a música, o nosso prazer e a nossa alegria em fazê-la e partilhá-la com aquele que é um público que, a brincar, a brincar, já está connosco há três décadas, portanto acho que é por aí.
O que sentem hoje em dia quando entram em palco? É porque ao ver-vos aqui a interagir parecem miúdos a brincar e a meter-se uns com os outros…
Carlão: Por um lado, obviamente há mais segurança, há uma confiança diferente, mas há também sempre um certo nervoso, e essa comparação que fizeste com miúdos, e o brincar para mim é fundamental… O Manuel Cruz disse há muito tempo, olha quando estávamos precisamente a fazer o Casa, na casa dele, a mãe dele ligou-lhe e ele disse assim: “Olha, estou aqui a brincar com o Carlitos” [risos], que é a resposta que um filho tantas vezes dá a um pai, “estou aqui a brincar com o meu amigo”, e é isso que nós fazemos de facto, é uma brincadeira, que é uma brincadeira séria porque é muito trabalhosa, mas no final do dia o que nós estamos ali a fazer é mesmo isso, a brincar, a curtir, a transcender-nos, a ir para outros universos.
Houve alguma vez em que a interpretação do público de uma música vossa tivesse mudado a vossa percepção sobre a mesma?
Carlão: As gerações mais novas nestes concertos que temos dado desde 2022… Francamente não esperava que os mais jovens tivessem uma adesão tão grande ao nosso lado mais musculado, mais pesado, não diria rock porque é mais pesado do que rock, é algo que vem da nossa escola, muito do thrash metal ou do hardcore, sei lá… Então, essa sonoridade mais ruidosa, mais pesada, que é muito característica ali dos anos 90, não estava à espera que os putos de agora sentissem esse peso dessa forma e estivessem a curtir, para mim foi uma grande surpresa.
Houve alguma coisa que tenha corrido mal em palco mas que hoje vos dê vontade de rir?
Carlão: Há um clássico, não é [risos]?
Virgul: [Risos] Hoje podemos rir à vontade, mas no dia… Foi em 1999, no Sudoeste em que fiz uma acrobacia e parti a perna em palco, fractura exposta, e foi complicado, não só pela perna mas também porque tivémos de parar aquilo que mais gostamos de fazer, eles tiveram de actuar aquilo que podiam, e hoje rimo-nos disso mas na altura… Eu fui ginasta e achei que de vez em quando podia brilhar mais do que aquilo que devia em palco [risos].
João: Agora rimo-nos todos mas na altura não teve graça nenhuma. Estávamos todos à rasca.
Virgul: Sim, nunca mais me desejaram break a leg [risos].
