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Música, World Music, Mayra Andrade
© DR Mayra Andrade

Mayra Andrade: "Sinto-me em casa em Lisboa"

Mayra Andrade volta aos concertos neste fim-de-semana. Falámos com a cantora.

Por Luís Filipe Rodrigues
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É sempre problemático falar em “músicas do mundo”, no entanto é difícil evitar a expressão quando se escreve sobre Mayra Andrade. Afinal, ela é cabo-verdiana, nasceu em Cuba e viveu em vários continentes antes de começar a cantar e a ser conhecida em França. Hoje encontra-se radicada em Lisboa, mas continua a cantar e a viajar pelo mundo. Ou melhor, continuava. Em Março, foi forçada a cancelar uma digressão que, além de Porto e Lisboa, ia passar por cidades como Berlim, Hamburgo, Varsóvia, Londres ou Paris, e só agora é que começa a voltar aos concertos. Sexta-feira à noite deve actuar no Coliseu Porto Ageas, e no sábado vai dar dois concertos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O público fica em lugares sentados e relativamente distanciados, para garantir a segurança de todos.

 

Nasceste em Cuba, mas cresceste entre África e a Europa. Viveste em diferentes países e ouviste muitas línguas. Isso influenciou a tua maneira de ver o mundo?
Completamente. Hoje olho para trás e penso que isso me preparou para a vida que me esperava. Desenvolvi uma capacidade de adaptação e também uma abertura de espírito que influenciou imenso a forma como vivo e a música que faço. É claro que nem sempre foi fácil, principalmente quando era uma criança, perder os laços que criava e tudo isso, mas pronto. Foi como foi e só tenho de estar grata.

Onde é que te sentes em casa?
Neste momento sinto-me em casa em Lisboa. Mas também me sinto em casa em Cabo Verde.

E em França?
Em França vivi muito tempo, tive muitas oportunidades, construí uma carreira muito bonita, mas acho que nunca consegui sentir-me em casa.

Estás a viver em Lisboa há quantos anos?
Vim para cá há cinco anos. Tinha necessidade de um estilo de vida mais calmo, mais próximo de algo que consideraria uma casa. Nunca tinha vivido cá, mas vinha a Lisboa desde que nasci. O meu avô era português e passei muitas férias em Portugal.

Actuaste na final da Eurovisão em Portugal, há dois anos, com a Sara Tavares, o Branko, o Dino D’Santiago e o Plutónio. Já havia uma relação entre vocês todos?
O único que não conhecia muito bem antes era o Plutónio. Mas conheço a Sara há muitos anos, e o Dino e o Branko também. Foi uma experiência muito enriquecedora, porque temos todos os nossos projectos a solo e raramente temos uma oportunidade de estar juntos. Ainda por cima num acontecimento tão importante e com tanta exposição. Sou muito grata ao Branko por aquele convite para representar esta Lisboa de hoje.

Sentes-te parte da “nova Lisboa” de que o Dino D’Santiago fala?
Completamente. Porque o feedback que tenho, tanto dos meus amigos artistas como do público, é que sou de Lisboa, que isto é casa. E que é casa em toda a sua diversidade e beleza. Portanto, como não me sentir lisboeta? Como não defender essa nova Lisboa, quando somos parte dela?

Se não me engano o Manga é o teu primeiro disco sem uma única canção em francês. Porquê?
Não fazia sentido. Parecia-me forçado, porque estava num momento muito mais lusófono da minha vida e tinha uma visão para o disco que havia de se sustentar independentemente de gravar em francês ou não.

Como reagiu a tua editora, que é francesa, quando disseste que não ias cantar em francês?
Passaram um ano a tentar que gravasse uma música em francês. Disse que se me enviassem uma música linda de morrer, a que não conseguisse resistir, a gravava, mas não ia procurar nada. E foi o que aconteceu. Mandaram-me duas ou três, não gostei de nenhuma e portanto não gravei. E não fiz de propósito para não gostar. Não gostei mesmo.

Compreendo.
Acho que às vezes é preciso pôr um bocado os pés no chão e esquecer um bocadinho o marketing. É verdade que há coisas que são importantes e que temos de fazer para ajudar a promoção do disco, mas também é importante defender a minha liberdade artística e a coesão do projecto.

Como é que olhas para esse disco agora, mais de um ano depois da sua edição?
Continuo a olhar com muita satisfação. Foi um disco que demorou dois anos a nascer, porque inaugurou uma etapa nova na minha música. Ao início, muita gente não entendia o que queria fazer e demorei a encontrar os parceiros certos para concretizar este sonho. Entretanto, as músicas já evoluíram imenso em palco, e sinto que podia ter ido mais longe aqui e ali, mas mesmo assim é um disco que me orgulho muito de ter feito. Tenho muito amor por ele. Gosto de dizer que cada disco é um retrato de quem sou naquele momento, mas talvez o Manga seja o disco mais fiel à essência de quem sou realmente. Porque, como diz o Miles Davis, é preciso tempo para nos tornarmos aquilo que realmente somos.

Coliseu dos Recreios, Lisboa. Sáb 16.30 e 21.30. 27€.

Conversa afinada

Benjamim
Fotografia de Vera Marmelo

Benjamim: “Nós, músicos, temos que inventar o futuro”

Música Portuguesa

O novo disco de Benjamim começou com um sintetizador. Foi a brincar com um velhinho Roland Jupiter-6, com uma caixa de ritmos e um gravador de quatro pistas que encontrou a liberdade que precisava. Depois, inundou-o com a solidão, as loucuras da noite e o calor da sua banda.

Vias de Extinção lembra os tempos que já não existem e as coisas que já não podemos fazer, mas que aos poucos tentamos reconquistar. Como os concertos. Para ouvir este disco como deve ser – ao vivo e com todas as cores – apanhem-no no Teatro Maria Matos, em Lisboa (26 e 27 de Outubro), no Teatro Sá da Bandeira, no Porto (30 de Outubro), no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra (6 de Novembro), ou no Centro de Artes de Águeda (5 de Dezembro).

Foi um sintetizador que ditou o tom deste disco. O que te atraiu nele?
É um instrumento muito especial, extremamente expressivo, um clássico dos anos 80. Inspirou-me muito, tanto na construção tímbrica, como na construção melódica e harmónica do disco. Eu estava a tocar em casa sozinho e já me estava a imaginar ao vivo a poder tocar estas canções. Para mim, isso foi bastante mágico. Durante um bom período de tempo, o disco existiu numa caixa de ritmos e em dois sintetizadores, foi assim que comecei a construir a música, um processo um bocado arcaico. Mas isso também fez com que o processo se tornasse mais humano.

“Humano” não é uma palavra que muitos associem à electrónica.
Mas acho que é um disco bastante humano, não é aquela ideia de música electrónica mais matemática ou mecanizada. Os timbres, apesar de serem electrónicos, são moldados para uma ideia que na sua essência é humana, são canções sobre temas da vida comum, do quotidiano.

Compor com sintetizadores libertou-te?
Sim. Desde o início que comecei a querer tocar muitos instrumentos de uma só vez. Tenho crises de identidade em relação aos instrumentos, à minha música, ao meu papel na música. Como trabalho como produtor, às vezes torna-se difícil eu próprio me definir. Mas a verdade é que o piano é a pedra basilar daquilo que é a minha identidade musical. Foi o único instrumento que estudei seriamente, é com ele que tenho uma relação mais próxima. A partir do momento em que percebi que era viável ir para a estrada com os teclados, isso foi libertador. Deixei a guitarra de lado e agarrei nos teclados que ando a colecionar. Sempre fui fascinado por teclados. Tive a sorte de uma novela ter agarrado numa canção minha há uns anos e todo o dinheiro que eu recebi disso foi para comprar um piano. Ando a escrever coisas muito diferentes ao piano, sinto que estou a crescer enquanto músico e isso também é importante, sentir que não estou preso às coisas que fiz.

Cresceste com o som dos sintetizadores? Eras um gajo da electrónica ou nem por isso?
Inicialmente não, mas tento libertar-me dos meus preconceitos. Quando tinha 16-17 anos, era preconceituoso em relação à música. Ouvia rock, ouvia Bob Dylan, The Doors, Neil Young, aquilo que era “música a sério”. Achava que Daft Punk não era música a sério, mas isso mudou. Hoje todos os estilos de música me fascinam. Adoro dançar, gosto de sair à noite. A música electrónica faz parte do meu ADN, da minha cultura.

Como foi conjugar a raiz electrónica do disco com o som mais orgânico da banda?
Foi um processo mesmo fixe. Este disco deu-me mesmo imenso gozo fazer, sinto que também deu muito prazer à minha banda. Tenho uma banda do caraças, têm um talento monumental, por isso quis perceber como é que podia envolvê-los de maneira assertiva. Esse processo foi um pouco longo – testámos as canções em alguns concertos, ensaiámos e com o input deles as canções começaram a ganhar músculo, tornaram-se muito sólidas.

Como produtor do teu próprio disco, receias não conseguir distanciar-te o suficiente?
Sim, a toda a hora (risos). Há momentos em que eu percebo o quanto me faz falta ter alguém a ajudar-me, mas neste disco senti isso de uma maneira muito mais intensa. Quando estava a finalizar e gravar as vozes, foi quando entrou a quarentena, acabei por ficar completamente sozinho no estúdio. Isso foi muito complicado, não ter ninguém com quem partilhar as dúvidas. O disco que me deu imenso prazer a fazer, deu-me imensa angústia a acabar. É sempre complicado perceber se as minhas músicas são boas ou uma merda, a minha banda é também o meu filtro.

O que aprendeste sobre ti próprio enquanto estiveste isolado?
Eu vivi sozinho durante bastante tempo, a experiência de estar sozinho não é propriamente nova. O confinamento passei-o mais aqui com a minha avó. Ela mora no mesmo prédio que eu, vinha à hora do almoço, via o Joker na RTP e depois ia para casa dormir.

Isso é lindo.
Sim, mas ao mesmo tempo foi complicado, porque para fazer um disco destes tens que sentir o ambiente da coisa. No início da quarentena, a música tornou-se completamente irrelevante para mim, aquilo que eu estava a fazer era a coisa menos importante do mundo. Aliás, houve um período em que achei que não fazia sentido nenhum estar a fazer este disco. O que me motivou foi o instinto de sobrevivência. Porque de repente tinha a minha banda a duvidar se podia continuar a viver da música. Nessa altura não fazíamos ideia de quando é que íamos pisar um palco, foram dias mesmo assustadores. Mas tinha que pensar na sobrevivência da minha equipa. Como é que posso salvaguardar o meu futuro? Trabalhando, acabando as coisas que tenho para acabar. E tive muita sorte, porque a Sony assinou o meu contrato discográfico em plena pandemia.

Como é que encaras o futuro?
Eu estou sempre a pensar para além do horizonte. Tenho cuidado e estou consciente das limitações, mas de resto não penso na pandemia, não deixo que isso escravize a minha vida, os meus sonhos, as minhas ambições. Estou a gravar música nova, estou a ensaiar com a minha banda, estou a pensar em concertos novos, em remixes (o Rui Maia está a fazer uma muito fixe), tenho um disco perdido que nunca lancei – um disco de música electrónica muito mais instrumental, estou a ver o que é preciso acabar. Nós, músicos, somos inventores, nós temos que inventar o futuro, estamos sempre a inventar o futuro. Quero fazer colaborações, quero produzir mais discos, quero pensar em chutar a bola para a frente, não vou ficar deprimido nem vou ficar preocupado.

Musica, Indie, Noiserv
© Vera Marmelo

Noiserv: “Hoje não há tempo para ouvir um disco inteiro”

Música

Na recta final de 2019, David Santos, o cantor e compositor que conhecemos como Noiserv, anunciou que ia lançar um novo disco em 2020 e revelou uma das suas faixas, “Meio”. Nos meses seguintes, foi partilhando as restantes canções, uma a uma, antes de reuni-las todas no álbum Uma palavra começada por N, editado no final de Setembro, e começar a apresentá-las ao vivo pelo país. A sua digressão chega finalmente ao Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, no dia 13 de Novembro, pelas 20.00  – começa mais cedo, para podermos estar todos em casa antes do toque de recolher obrigatório.
 

O teu mais recente disco, Uma palavra começada por N, foi antecedido por uma dezena de singles, lançados mensalmente. Por que decidiste apresentar o disco desta maneira?
Acima de tudo, porque parece que hoje não há muito tempo para ouvir um disco inteiro. Parece que às vezes os discos se limitam àqueles dois ou três singles, e muitas músicas não são ouvidas. E quando comecei a pensar no disco, e no seu conceito, achei que não fazia sentido destacar à partida duas ou três músicas. Então decidi dar quase um mês a cada uma, para que pudessem ser todas ouvidas com atenção. 

O primeiro tema que partilhaste, ainda no ano passado, o “Meio”, é quase um instrumental. Faz sentido no meio do disco, como uma espécie de interlúdio, mas não me parece uma escolha óbvia para single.
Quis surpreender as pessoas de alguma forma. E achei que devia ser a primeira também porque indicava uma ideia, um registo. Era uma música mais ou menos estranha, mas grande parte dos elementos mais estranhos que estão ali acabam depois por se espalhar ao longo de todas as músicas. Portanto, era quase um teaser do que vinha aí.

Quando partilhaste a primeira canção já tinhas todo o disco gravado?
Já tinha tudo. Quer dizer, acabei o disco em Novembro, mas depois ainda teve de ser masterizado. Ou seja, ainda não estava mesmo tudo pronto quando lancei a “Meio”, mas em termos de gravações e de estúdio e de mistura estava tudo feito. Só consigo assumir que vai sair um disco novo quando ele está todo acabado e já sei o que vai ser.

Curiosamente, pouco depois de lançares o “Meio”, o primeiro avanço deste disco, editaste um álbum diferente, o Soundtracks Vol. 1 (2019), com canções compostas para banda sonoras. O que te levou a editar essa compilação poucos dias depois de começares a apresentar o álbum de 2020?
Aquelas músicas fazem parte de um trabalho que eu tenho feito e que muitas pessoas não conhecem. E achei que fazia sentido tornar aquilo mais público, porque quem ouviu o meu disco anterior, de 2016, se ouvir aquelas músicas que fiz nos últimos quatro anos, e depois escutar Uma palavra começada por N consegue perceber uma ligação. Pode ser um exercício engraçado de fazer. Por isso achei que era uma boa ideia editá-las naquela altura.

Consideraste suspender este plano de apresentação do disco, com os lançamentos mensais, quando a Covid-19 nos fechou em casa e te forçou a cancelar os concertos? Ou achaste sempre que a ideia tinha de ser levada até ao fim?
A única coisa que me preocupou foi ter de adiar o lançamento do disco. Porque a ideia era dar um mês a cada música, e isso só fazia sentido se depois o disco saísse em Setembro. Mas decidi deixar a coisa correr, e depois mais tarde lidava com o que tivesse de lidar. E por muito chata que toda a situação tenha sido, houve um lado positivo. Comecei a perceber que as pessoas que me acompanham mais de perto sabiam que na última segunda-feira de cada mês ia haver uma música e um vídeo novo, e estavam à espera disso. Numa altura em que os concertos não existiam, em que estávamos mais tempo em casa e tudo o que era entretenimento estava reduzido quase a nada, estes lançamentos acabaram por ter até um papel.

Deve ser sempre complicado esperar quase um ano para partilhar ao vivo canções que estão prontas há muito tempo, e imagino que agora seja ainda mais estranho. Estás a tocar canções que foram feitas num mundo diferente. Isso faz-te impressão?
Não me faz impressão porque eu sempre trabalhei assim. Demoro muito tempo a terminar as coisas e só gosto de começar a lançar depois de estar tudo feito. E como as músicas são um pouco transversais a tudo o que seja exterior a mim, não é esta questão da pandemia que vai tornar agora a temática das músicas menos actual.

Mas imagino que a pandemia tenha mudado a tua vida, o que tu sentes. Mudou-nos a todos.
Sim, sim, sim. É claro que mudou muita coisa com a pandemia, porém não mudou a temática daquilo que é o disco, os receios que o disco tem. Eles existem na mesma.

Que temática é essa? Há alguma ideia transversal ao disco?
Muitas músicas falam de uma dificuldade que a pessoa às vezes tem de se auto-elogiar. E essa dificuldade manda-te para baixo, porque é difícil perceber o quanto as pessoas gostam daquilo que fazes ou não fazes. E isso faz-te duvidar. E essa dúvida faz-te questionar se deves ou não continuar. Músicas como a “Neutro” ou como a última do disco, que ainda não saiu, falam todas dessa questão. Da importância que a opinião dos outros tem sobre aquilo que tu fazes. E do medo que eventualmente tenho de me preocupar demasiado com isso, deixando de ser eu próprio.

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Loosers
DR

Loosers: “A humanidade já estava confinada antes desta pandemia”

Música

Os Loosers ajudaram a escrever várias páginas da história recente da música portuguesa. Nos anos zero, num momento em que parecia que não se passava nada nesta terra, eles e outros grupos como eles – os Caveira, os Frango, os Fish & Sheep e mais uns quantos –  trabalharam e fizeram com que muitas coisas se passassem. Muitos concertos, muitas edições... “Muita música nova”, completa e resume Rui Dâmaso, um dos fundadores da banda, que no final de Outubro voltou a editar “música nova”, pela primeira vez em sete anos. É muito tempo de silêncio, para quem lançava vários discos e cassetes por ano.

Mas isso era dantes, quando os Loosers eram a banda de rock libertário de José Miguel Rodrigues, Rui Dâmaso e Tiago Miranda, que saiu em 2008. Desde então, abrandaram o ritmo, receberam sangue novo – Jerry The Cat e Guilherme Canhão completam a actual formação – e o seu som mudou. As canções passaram a ser o resultado de um “processo mais longo”, segundo o percussionista José Miguel Rodrigues; a ser feitas com “mais cuidado”, nas palavras do guitarrista Rui Dâmaso. “Não são gravações tão improvisadas”, aprofunda Rui. “[Dantes] havia ali um rasgo qualquer que saía de nós e passava para o disco praticamente em processo directo. Agora é um pouco diferente. Há uma tentativa de melhorar um bocadinho o que quer que seja. Não só o som, mas a música também.” 

Se a música soa melhor, considera José Miguel, é porque “há tempo para a fazer soar melhor”. O primeiro registo da segunda vida da banda, Hot Jesus, saiu em 2013, e o segundo, Kill Screen, só foi lançado nos últimos dias de Outubro, apesar de estar em gestação desde 2018. Desde antes, até. “Em 2018 demos um concerto em que metade do disco, ou até um pouco mais, foi posta à prova perante o público – mas com as músicas completamente diferentes do que são agora”, explica o baterista. “Nos meses anteriores tínhamos andado a enviar coisas uns para os outros e a fazer dubs e a sobrepor. E depois desse concerto ficámos com a impressão de que havia ali material que gostávamos de imprimir.”

Ao longo destes dois anos, nunca se encontraram em estúdio. Trabalharam à distância – remotamente, como se diz agora. Mas ao contrário dos milhões que hoje são forçados pelos governos e as empresas e as circunstâncias a trabalhar assim, para eles foi uma escolha. Cada um gravava sozinho, em casa, e ia partilhando o que estava a fazer com os restantes membros, que depois somavam as várias partes. Somavam e subtraíam, como fazem questão de sublinhar José Miguel e Rui, que equipara o processo de gravação a “uma bola de neve”: ao longo de dois anos, foi ganhando novas camadas e características, foi crescendo, mas também “foi perdendo muita coisa desde o início”. 

Esta conversa de bolas de neve e o facto de as faixas terem sido gravadas à distância, sem o calor humano gerado por quatro tipos a tocarem na mesma sala, podem sugerir que Kill Screen é um disco frio. Porém, Rui Dâmaso não concorda com a ideia. Insinua-se que “frio” não será a melhor palavra – até porque a voz de Jerrald James, aka Jerry The Cat, e as palavras que vocifera emanam calor –, mas que esta música soa “digital”. O guitarrista interpõe que “o digital não tem de ser frio” e “que o disco tem o seu calor próprio. Um calor digital”. Esqueça-se então a temperatura. Independentemente dela, Kill Screen é um disco denso e opressivo, talvez o mais electrónico do grupo, sem ser um disco de electrónica. 

“É um disco destes tempos, dos nossos tempos”, declara José Miguel. E é-o por diferentes razões, de várias formas. Por um lado, foi influenciado pelo confinamento – não só aquele a que fomos forçados nos últimos meses, mas algo que lhe é anterior, porque “a humanidade já estava bastante confinada muito antes desta pandemia”, segundo Dâmaso. Por outro, o facto de ser um objecto digital, sem edição física, vai ao encontro da maneira como cada vez mais gente consome música. Também (mas não só) por isso, fizeram vídeos para acompanharem as novas canções, filmados por realizadores como Edgar Pêra, João Ana ou Miguel Soares. Os ecrãs dos telemóveis e computadores são o habitat natural desta música, mesmo que a banda defenda que ela “tem que se ouvir alto, numa aparelhagem”.

E fora dos ecrãs, quando é que vamos voltar a ver os Loosers? “Estamos a trabalhar com o Teatro do Vestido numa peça que foi adiada para 2021 por causa da pandemia, chamada Aquilo Que Ouvíamos”, avança José Miguel. Mas, por enquanto, não há planos para apresentar Kill Screen ao vivo. “Isso é difícil agora”, diz o baterista. “Não está a dar muita pica neste momento, neste futuro próximo, programar o que quer que seja”, completa Rui Dâmaso. Concordamos. “Podemos é aproveitar o facto de esta ser a nossa primeira edição digital para ir fazendo updates, mudar os vídeos, até acrescentar músicas. De alguma forma, isso pode colmatar a falta de concertos”, conclui José Miguel. “Tudo é possível.”

Música, Cristina Branco
©Joana Linda

Cristina Branco: "Sinto horror em não cantar"

Música

Cristina Branco criou o alter ego Eva Haussman para domar os seus demónios, para saborear a verdadeira liberdade. Criou-a para viver mais livremente dentro de si. “A Eva ajudou-me a perder o medo de mim”, diz-nos Cristina Branco. “Deu-me a liberdade de simplesmente ser eu, sem aquela fragilidade do ‘talvez não seja assim que vocês me querem ver’, mas esta é a minha verdade e preciso de confrontar-me com ela, em nome da minha sanidade mental.”

Para perceber melhor a Eva, quis vê-la pelo prisma de diferentes compositores. Nomes como Filipe Sambado, Francisca Cortesão, André Henriques, Sara Tavares, Pedro da Silva Martins, Kalaf ou Márcia assinam os dez temas do álbum Eva. Esta grande pluralidade de vozes, cada uma a trazer a sua visão do mundo, acaba por convergir na essência de Cristina Branco. A diversidade de autores é importante na sua música porque “ninguém é apenas uma coisa”. “Ninguém é estanque. Aprendo sobre mim observando a forma como os outros me vêem também. Preciso sempre de fazer esse exercício, eu não existo apenas num estilo musical, no fado. Gosto de me passear livremente por onde a minha alma de pássaro me levar. Para isso, preciso das mãos dos outros, de me surpreender, eu não descubro todos os caminhos da minha intrincada mente sozinha. Haja música e criatividade para me guiar, e quantos mais, melhor, mais diversidade, mais pluralidade. E depois regresso a mim, já com novos ângulos, perspectivas. É dessa riqueza que vive a minha música.”

O disco saiu a 20 de Março, numa altura em que estávamos todos recolhidos em casa sem grandes perspectivas de futuro. Para Cristina Branco, acabou por ser uma altura de olhar mais para dentro, mas também para fora. “Descobri que sinto horror em não cantar, em não abraçar as pessoas, que isso me tolhe os movimentos. Ao mesmo tempo, aguçou o meu instinto de sobrevivência, de protecção das minhas crias e dos meus mais próximos. Fez-me ainda olhar para fora e dar tempo, disponibilidade física e mental para ajudar quem precisa. Comecei a fazer voluntariado e comprovei que ajudar os outros é ajudar-me a mim.”

Os tempos que temos pela frente deixam um véu de incertezas. “Preocupa-me a incógnita sobre o rasto que tudo isto vai deixar, sobre a forma como nos relacionamos uns com os outros, sobre como rapidamente temos que remodelar o trabalho, para podermos continuar. Será que somos resilientes o suficiente, enquanto comunidade? Como é que a arte absorve e regurgita o que está a acontecer e em que medida é que isso ajudará as massas a compreender e renascer?”, questiona.

Com um álbum novo nas mãos, ansioso de se mostrar, foi particularmente complicado lidar com a ausência dos palcos. “Foi difícil, penoso mesmo, ao ponto de parar de cantar para dentro, de ouvir música ou ler”, recorda Cristina Branco. “Tive muitos altos e baixos e as emoções em carrossel, desde a primeira hora da manhã até à noite. Queria tanto, mas tanto mostrar a Eva. Foi como estar já nos blocos de partida dos 100 metros de barreiras, no chão da pista, e receber uma falsa partida... Foi isto.”

Agora cantará as suas canções, fora das paredes de casa. Levará finalmente a Eva aonde ela precisa de estar: em cima do palco. “Tenho neste momento a possibilidade de mostrar de onde vem a Eva e para onde a Cristina quer ir. Vou voltar à prova de esforço e isso dá-me um alento desmedido. As circunstâncias roubaram-nos alguns meses, mas não nos roubaram a vida.”

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