Miguel Araújo: “A música é que manda em mim”

Miguel Araújo editou recentemente o álbum 'Giesta'. Fomos ao seu estúdio-quarto conhecer o lugar onde as canções nascem

Fotografia: João Saramago

O que te fascinou tanto na tua infância para fazer um disco inteiro à volta dela?

A infância em si é fascinante. É uma altura de ouro na vida de um ser humano. A minha infância não teve nada de fascinante, foi normalíssima. Mas a maior parte das pessoas também não teve nada de fascinante na sua infância. 

Mas a piada se calhar é mesmo essa, é pegares em algo que toda a gente teve para transformar em canções.

Sim, sim. Mas há muitos discos sobre a infância. O dos Rio Grande é incrível, adoro esse disco. E o Land of Dreams do Randy Newman. O Fernando Pessoa é que dizia que à falta de assunto uma pessoa tem sempre a infância para ir buscar as coisas mais ricas da criatividade. Vendo bem, a minha infância teve coisas fascinantes. A casa da minha avó, que era viúva e vivia com duas irmãs, tinha coisas muito engraçadas. Na porta da despensa tinha um chicote tipo Indiana Jones para afugentar os ladrões. Isso é incrível. Depois eu ia perguntar aos meus amigos: Onde é que as vossas avós guardam os chicotes? (risos) A minha avó e as minhas tias eram super peculiares, mas eu achava aquilo normal. Mas não sou um saudosista de infância nem coisa que se pareça. A minha infância foi óptima, mas já passei pelos primeiros namoros, as bebedeiras. Não queria voltar a isso de maneira nenhuma.

Não és daqueles que diz que dantes é que era bom.

Nem pensar.

Gostas de viver no presente?

Claro que gosto, nenhuma música minha fala do que bom que era, a única que fala é em sentido irónico, o “Fizz Limão”, o narrador é uma pessoa presa aos ícones do passado, mas não sou eu. A única deste disco em que se nota algum fascínio é a “1987” e o narrador sou eu aos nove anos. A ver um shopping que se chama Dallas e tem a fachada toda em espelho como a série americana. E a ver o clube da sua cidade a ser campeão. 

Ainda tens uma criança dentro de ti?

Acho que não, já se foi. Eu tenho amigos de uma alegria e uma jovialidade quase infantil invejável, mas eu não sou assim. Infelizmente.

Ser pai influencia a forma como escreves e o que escreves?

Há uma música neste disco chamada “Acalanto” que tem tudo a ver com o facto de ser pai. Agora a minha vida é rodeada de crianças, não só os meus filhos, mas os filhos dos meus amigos. Passamos as férias com a canalha toda de um lado para o outro. Isso germinou em mim várias músicas.

Como é conciliar a vida de músico e a vida de estrada com a família?

Muitas vezes eles vêm aos concertos e depois estou sempre em casa. É onde adoro estar, adoro trabalhar em casa, adoro levar os meus filhos à escola, almoçar com eles. A minha vida é muito caseira, sou um bicho-do-mato.

Este disco tem como fio condutor as tuas memórias de infância. Como é que chegaste até aí? Foi espontâneo ou quiseste propositadamente escrever um disco sobre isso?

Foi um misto entre as duas coisas. Eu estou sempre a fazer músicas e não tento dar-lhes nenhum nexo colectivo. Depois olho e reparo que às vezes há músicas que funcionam em conjunto. Tinha umas cinco músicas sobre a casa da minha avó, sobre esses tempos, sobre pessoas da minha família que já tinham morrido. Pode haver a ideia que eu estou a fazer um disco infantil, mas não tem nada a ver com isso, não é um disco sobre a infância. São as minhas observações adultas sobre, por exemplo, uma tia-avó que nunca chegou a casar mas viveu com o namorado, o que na altura não se usava muito. É uma análise sobre o que ela seria porque eu não a conheci bem. Não é o meu olho da altura, é o meu olho de agora. Mas reparei que tinha de facto algumas músicas sobre a minha infância, a casa da minha avó, e então pensei que daria um álbum porreiro e fui fazer as outras. Aí já a pensar em enquadrar nesse lote de canções. Teve o seu quê de espontâneo e o seu quê de pensado.

Fizeste algum tipo de trabalho de campo, voltaste a esses lugares, falaste com a tua família?

Não fiz isso já de propósito. Tive medo que depois as histórias não fossem exactamente como eu as lembrava. Estas histórias de família são coisas que se ouve à mesa e eu fui apanhando algumas coisas. Provavelmente apanhei algumas de maneira errada, que não correspondem à realidade dos factos. A minha mãe é que é a arquivista da família, ela sabe tudo. Podia ter perguntado à minha mãe, mas preferi não perguntar, preferi deixar as coisas como estavam na minha imaginação. Muitas coisas são fantasias, são imaginar como seriam essas pessoas. Quando eu nasci aquilo não era nenhuma aldeia, eram prédios e casas por todo o lado. Eu sou talvez da primeira geração cuja infância se passa assim nesse ambiente, porque a geração dos meus pais foi passada ao ar livre. Acabei por ir lá numa reportagem depois de o disco estar gravado e constatei que as coisas estão iguais, mas ao mesmo tempo completamente diferentes. A casa de que eu falo já não existe, foi demolida.

Já mostraste o disco à tua mãe?

Ainda não… Não tenho dúvida que me vai corrigir em muitos aspectos, mas eu acho que as coisas não têm que ser factuais. Para a minha família isso interessa, mas não interessa a mais ninguém.

A imaginação é muitas vezes mais interessante do que a realidade.

Sim. O Randy Newman tem um disco chamado Land of Dreams, um dos discos que me inspirou para fazer este, que é sobre a infância dele, a adolescência. Ele diz lá que nasceu na Willow Street no Garden District, mas depois explica numa entrevista que na música soava melhor assim, mas a rua não pertence a esse distrito. Eu não estou nada preocupado em fazer um registo factual e histórico de uma coisa que não interessa para nada, que é a história da minha família.

O que importa são as canções, estão sempre acima de tudo.

Claro. Eu mudei os nomes das pessoas, mas não foi para reservar a privacidade nem nada. Foi porque soava melhor.

Os processos de composição e gravação deste disco diferiram dos anteriores?

Faço as músicas sempre da mesma maneira, vou andando com as melodias na cabeça, gravo as melodias num gravador. Há melodias que me ficam na cabeça durante dias e eu ando à procura de palavras para aquilo, é uma coisa muito inconsciente. O processo de gravação é que foi completamente diferente porque foi gravado em casa, enquanto os outros foram em estúdio. Eu queria gravar as músicas só a voz e guitarra, mas depois arrependi-me. Como eu não estava ainda preparado para as músicas, mudei muita coisa. O single “1987” não estava na primeira versão do disco, gravei-o em Outubro. O disco já estava gravado em Julho do ano passado, mas decidi não lançar. Para fazer como queria, tinha de ter a calma e o à-vontade para estar em casa. Eu tenho muitas vezes constipações e a minha voz não está sempre disponível. É impossível marcar uma semana de estúdio e estar bem para cantar nessa semana. Tem que ser ao ritmo das exigências do meu organismo. (risos) E depois tenho os meus horários, dos meus filhos, dos concertos. E acho que não se grava um disco numa semana ou duas. Uma pessoa vai ver os Beatles e no Anthology uma das músicas tem 60 e tal takes. O “Refugee” do Tom Petty é o take 50 e tal. As coisas eram assim dantes, os Beatles iam para o estúdio como quem ia para um escritório, o ano inteiro. Então gravei o disco ao longo de meses e meses e meses, aqui enfiado, com muita calma, a mudar o tom da música se não estava certo. Mudei, acrescentei partes, tirei, andei muito tempo com aquilo. Para mim tem que ser demorado, nunca mais ninguém me apanha num estúdio. 

Mas não acaba por ser uma desvantagem teres o estúdio em casa? Porque podes estar sempre a mudar e se calhar nunca ficas satisfeito.

Podia ser, mas eu por acaso não sou assim. Podia entrar em colapso de perfeccionismo mas não. Para mim o perfeccionismo não tem nada a ver com o que é para as outras pessoas, não é estar certinho. Há ali uma magia que a música tem que ter que não se explica muito bem. Por exemplo, eu fiz as músicas e gravei de uma maneira tosca, com uma guitarra e depois outra. Mas depois a “1987” fui tentar fazer direitinho, só que nenhuma das versões tinha a magia que tinha a primeira. Então a que saiu foi a primeira, sou eu a cantar e tocar displicentemente. Aconteceu isso com “O Quarto de Glória” – nós fizemos uma versão com alto arranjo de cordas, está excepcional, com vários instrumentos, eu toquei contrabaixo, piano, duas guitarras. Aquilo estava fixe, mas não consegui cantar com a intenção que queria. E então fui à maquete e é isso que depois pus no disco. Eu sou um bocado picuinhas mas não é essa picuinhice do perfeccionismo convencional de pôr tudo certinho, a bater certo umas com as outras.

Ou de acrescentar coisas desnecessárias. No teu caso até foste tirando coisas…

Às vezes é acrescentar, às vezes é tirar. A música é que manda, a música é que sabe o que quer para ela. Eu não tenho a capacidade de ir para um estúdio e fazer as coisas à primeira. Alguns amigos meus dizem-me que é um disco arriscado.

Porquê arriscado?

Há pessoas que acham que eu agora devia aproveitar que estou assim num pico de carreira para fazer uma coisa, sei lá, mais radiofónica. Já o outro não era nada assim. Mas há sempre músicas minhas que depois ficam, por sorte.

Desde que um disco tenha duas músicas fortes...

É, e este tem para aí três. (risos)

Se bem que tu podias editar uma música qualquer e pronto. Já estás nesse patamar.

Não penso muito nisso, quando faço uma música não penso que alguém vai ouvi-la, senão não conseguia acabá-la. Imagina que alguém se põe aí atrás de ti a ler os teus apontamentos, começas a ficar com aquele desconforto. Agora imagina eu estar a fazer uma música e sentir o bafo do país inteiro aqui na minha nuca... Não conseguia acabar a música. Quando faço uma música estou a pensar que o mais provável é não editá-la. Porque a maioria das minhas músicas eu não as edito. Talvez uma em dez, na melhor das hipóteses. Sempre que estou a fazer uma música, estou a fazê-la pela música em si. As exigências vêm da música, não vêm do público. 

Este disco tem vários instrumentos, mas os arranjos são mais subtis.

São mais subtis por uma razão. É que no outro disco fizemos os arranjos, fomos para o estúdio e a guitarra e a voz ficaram para o fim, por isso tive que me sujeitar ao que já estava feito, submeti-me a tudo o que estava para trás. Aqui foi exactamente o contrário. Eu gravei tudo ali no quartinho e depois passei ao João Martins já com tudo finalizado, ele fez todos os seus arranjos por cima do produto final. A última camada são os arranjos, que é assim que devia ser e não o contrário. Normalmente o desgraçado do cantor fica para o fim, fica o cantor desesperado a tentar cantar por cima do que os outros fizeram. E aqui é o contrário, por isso é que os arranjos assentam de uma maneira mais orgânica.

E o som também está diferente. Por que é que não masterizaram o disco?

Antigamente não se masterizava os discos. Já tive conversas com o Rui Veloso e os discos dele não eram masterizados, as músicas antigas soam muito melhores que agora. O que começou foi a guerra de na rádio a música ouvir-se mais alto e masterização aumenta o volume e então entrou-se numa insanidade tal... Mas para quê? A masterização põe tudo assim mais bonitinho, mas são coisas meio falsas. Não foi masterizado porque neste género de música assim tocada e cantada fica muito mais próximo. 

Até se ouvem as tuas respirações. E ouvem-se melhor os silêncios.

Pois, pois. E as respirações são coisas que o pessoal normalmente tira e dá-me uma falta de ar (risos). Eu gosto de ouvir as respirações, gosto de ouvir a cadeira a ranger, acho que isso aproxima, não afasta as pessoas. Eu até fiz várias masterizações, o disco atrasou por causa disso. Até que cheguei à conclusão que gostava dele não masterizado. Um disco assim tão frágil como este, com a guitarra tocada baixinho, eu a sussurrar ao microfone, a mistura e a masterização determinam muito, podem sem querer estragar tudo o que está feito. E eu dei por mim, com a masterização toda feita, a decidir que era fixe não fazer tanta cena. E foi isso que fizemos, tirámos coisas. Há um disco, o American Recordings do Johnny Cash, que o Rick Rubin produziu – o Rick Rubin foi a casa do Johnny Cash, pôs um microfone na voz e outro na guitarra e pediu para ele tocar a ideia que ele tinha para as músicas. Ele tocou aquilo, o Rick Rubin andou um ano a produzir aquilo de várias maneiras, com banda, sem banda, mas depois decidiram que fixe mesmo foi aquela versão inicial e foi a que editaram. Às vezes não interessa se uma pessoa teve um ano inteiro de trabalho. O disco foi demorado, mas foi mais a tirar coisas do que a pôr coisas. 

As coisas parecem mais espontâneas, parece que estás ali a tocar ao vivo.

Era o que eu queria, a minha voz é mais assim, a minha maneira de tocar é mais assim, estou habituado a tocar no sofá a mostrar a música à minha mulher. Tenho mais prática disso do que de estúdio. Já fiz discos de estúdio, mas prefiro isso. Há uma essência que dá para captar.

E como a tua música é mais íntima e introspectiva, até resulta melhor.

Sim, sim. Claro que dito isto estou mortinho por fazer um disco mais pop, vai ser o meu próximo.

Vais fazer o teu Pet Sounds.

Sim, uma cena mais Beatlesca mais Jeff Lynne, mais Tom Petty, eu adoro isso. Não sou o melhor cantor do mundo para esse género de coisa, mas o George Harrison também não é, e aquilo soa lindamente.

Não gostas da tua voz?

Agora já me habituei. Eu não gostava, mas eu fui operado ao nariz. Houve aí uns anos em que andava sempre constipado e então embirrava com o som da minha voz porque estava sempre nasalado. Agora já estou mais fixe e já estou a cantar muito melhor. Fez-me bem aquele estágio com um dos melhores cantores do mundo [António Zambujo], ele deu-me algumas dicas. Aquela coisa que se ouve na Operação Triunfo – respira, respira! – eu nunca liguei nada a isso. Mas realmente ajuda uma pessoa inspirar antes de cantar uma frase. E o Zambujo andou um bocado em cima de mim e eu andei em cima dele em termos de guitarra. Já canto melhor e a voz já não me chateia. Agora já gosto de cantar. Mas não gostava nada, dantes era um pesadelo.

Quando te dizem que a tua música é simples, é um elogio ou levas a mal?

Eu sempre fui fascinado com músicas como a “Let It Be”. Tem quatro acordes que são os mais básicos à face da terra, é a coisa mais básica que pode haver e é mágica. Eu acho muito mais difícil fazer uma “Let it Be” do que uma música cheia de acordes. E é isso que eu tento, eu tento fazer melodias que parecem básicas. Mas se calhar essa vertente da simplicidade é mais apreciada por colegas meus que também fazem música do que por uma pessoa que nunca tentou. É como diz o Tom Waits: “I never heard the melody until I needed the song.” Nem todas as minhas músicas são simples, mas as mais simples são aquelas de que eu gosto, em que acho que fiz o melhor trabalho. Como a “Meio Conto”. É a coisa mais cacaracá que há, só que eu agora quero ver outros a fazer assim. (risos) Há uns diamantes algures que é preciso apanhar e isso não é nada fácil. É isso que eu tento, a minha grande ambição é fazer as coisas que o Paul McCartney faz, o Paul Simon. O Paul Simon para mim perde o interesse do Graceland em diante. Tem ritmos interessantes, mas a parte da melodia está menosprezada e isso já não me chama. Gosto muito mais das músicas de Simon & Garfunkel. Mas dizerem-me que a música é simples é o maior dos elogios. Depois há pessoas que desdenham disso, mas é porque nunca precisaram de fazer uma música.

Quem ouve uma canção tua pensa: pá, eu também conseguia fazer isto. Mas não é bem assim.

Em muitas artes e formas de expressão artística privilegia-se a simplicidade, mas na música não. E acho que é tão valorizável como nas outras artes. O Zambujo é incrível nisso. Ele não faz letras, mas faz músicas, e ele pega em três acordes e faz a coisa mais incrível, isso é uma coisa que eu ambiciono. Não me chateia nada que digam que é simples.

As pessoas não vêem o engenho que está por detrás dessa simplicidade.

A melhor música que eu fiz em toda a minha vida, “Anda Comigo Ver os Aviões”, saiu-me inexplicavelmente. É a minha preferida, eu não sofro da síndrome da proximidade excessiva porque eu tenho isso com todas. E quase nunca canto a música, só quando o pessoal pede. Foi a que saiu melhor até hoje e saiu super rápida. Já a “1987” é simplicíssima mas demorou quase um mês a fazer. Não é uma coisa fortuita, mas é bom que soe fortuito. É preciso andar ali a garimpar com muita paciência. Paciência é a palavra. A maior parte do pessoal não tem paciência para andar um mês à volta de uma música. O Leonard Cohen tem músicas que demoraram dez anos a fazer. 

Às vezes falta uma só palavra para a música ficar completa...

O engenho talvez seja perceber se já está feito ou não. O Pedro Silva Martins tem isso. Eu perguntei-lhe como é que ele sabia quando é que uma música estava pronta. E ele disse: pá, uma pessoa sabe. Pronto, uma pessoa sabe. Mas se calhar a cena é essa, é saber quando já está feita ou não. Eu ando agora há oito dias à volta de uma música e falta-me só o desfecho, a última frase do refrão, que é o principal de tudo numa música. Mas há-de sair. Depois eu vou dar uma volta a pé, esqueço-me, largo e depois volto. É um processo de paciência. 

Mas é fácil para ti escrever? As melodias vão ter contigo?

Vêm. Não sei se é uma coisa mística ou o que é, provavelmente está no nosso subconsciente. Há quem diga que as melodias vêm de dentro, há quem diga que vêm de fora. O Paul McCartney é super místico e diz que as músicas andam aí no ar. Eu estou sempre a cantarolar melodias. Enquanto o pessoal anda com a “Macarena”  e o “Mambo No. 5” na cabeça, eu tenho melodias que não existem. E aponto-as. Tenho o telemóvel cheio dessas melodias. Depois o trabalho é fazer disso uma música.

Quando vêm essas melodias, alguma vez aconteceu descobrires que alguma já existia?

Aconteceu uma vez numa música minha que não vou dizer qual é (risos), depois ouvi passados dois anos e ai Jesus. O nosso inconsciente é atraído por ele próprio. Mas eu sou muito obcecado por música, estou sempre a pensar em música, por isso é natural que haja aqui uns restinhos que são meio traiçoeiros.

Uma música como a “1987” tem muitas referências temporais – receias que músicas como essa fiquem datadas e percam a intemporalidade?

Não penso nisso. Mas acho que uma música por ter referências temporais não perde a sua intemporalidade. O “Russians” do Sting fala da Guerra Fria, mas para mim é intemporal, há-de ser adorada por muitos e bons anos. Acho que acrescentar detalhe às músicas não retira universalidade. Quanto muito, acrescenta. Isso dá verdade à música.

Às vezes quanto mais pessoal, mais universal é a música. As pessoas acreditam mais nela.

Um escritor disse uma vez ao Leonard Cohen: tu nunca digas “árvore”, diz “eucalipto”. Cada um tem o seu Dallas. Quem ouvir a música sabe perfeitamente do que estou a falar quando falo dum shopping de cidade daquele tempo. Acho incrível uma música do Caetano Veloso que fala dos melhores golos do Pelé e eu não percebo nada de futebol. Eu não gosto de futebol, mas gosto de músicas que falem de futebol. Sou indiferente ao Pelé a jogar, mas à música não sou.

Como é escrever uma canção na solidão do teu quarto e depois ouvi-la amplificada por milhares de pessoas num Coliseu?

É incrível. Ao princípio até era meio intimidante, tipo: eh lá, o que eu fui fazer agora... Era muito avassalador. Dá uma certa sensação que é essa a razão de ser da coisa. Esta música da Luísa Sobral [na Eurovisão] não é uma coisa muito óbvia de se cantar e toda a gente tem cantado, é inacreditável, eu fiquei viciado nessa música. Quando ouvi a música pela primeira vez foi a Luísa que me mostrou. Eu achei a música fixe, mas pensei: epá, coitada, isto não tem nada a ver com o festival. Foi o que toda a gente disse. Mas ela não se preocupou, disseram-lhe para fazer uma música e fez uma música à sua maneira. E teve toda a razão. E mesmo quando ouvi o Salvador a cantar adorei, mas não me ficou logo na cabeça. É incrível como a música se tornou um hino de dia para dia, estou a acompanhar isso com muito orgulho e agrado. [A entrevista foi feita um dia antes da final da Eurovisão]

Eu vou ver a final como se fosse a final de um campeonato de futebol.

Eu tenho um concerto nessa noite, claro que vai ser um fiasco (risos). Mas eu fui jantar com o Zambujo no dia da semi-final e estivemos a ver como quem vê futebol, de cerveja na mão. Eu acho que ele ganha. Se passou, ganha. Aquela música ali no meio daquelas todas ou fica em primeiro lugar ou em último, não há outro sítio para ela. Esta música está a ser maior que o Festival da Eurovisão.

Já te ouvi dizer que o teu público são as pessoas que não ligam muito a música…

Eu vejo amigos dos meus pais que adoram ir aos meus concertos mas que nunca foram a nenhum concerto porque não ligam muito a música. Muito dessa cena com o Zambujo de serem 28 Coliseus foi com essas pessoas que se estão a borrifar para a música. A maior parte das pessoas nunca ouviu falar do meu nome, muito do meu público são pessoas que não acompanham muito a música, não têm grande colecção de discos em casa, têm tipo o best of dos Gipsy Kings, o Pavarotti & Friends, o meu e a banda sonora do Bodyguard. (risos) Mas isso é uma maravilha, a música popular é isso. Há muito a cena de a música se virar para ela própria e a canção ser sobre a canção. Mas a música popular é tanto melhor quanto atender às questões do amor, da morte, etc. Esta “Amar Pelos Dois” é um sucesso por causa disso. Se perguntares às pessoas que têm os discos todos do David Bowie e que assinam a Mojo vão-te aparecer com mil teorias e vão meter os pés pelas mãos logo à primeira teoria, porque a música atende a questões universais. Eu também já não ando metido no meio da música, não sei nada do que se passa, estou enfiado no meu quarto, já não sei quais são as tendências. Ando muito arredado. E já fui um super entendido, já fui grande geek, mas depois desinteressei-me. Eu comecei a fazer música dez anos depois de já me ter desinteressado. Tenho muitos amigos na música, mas sou muito outsider do meio musical. Por isso também já não sei ir ao encontro das pessoas que assinam a Mojo. Não estou aqui a fazer o lamento do velho deslocado, mas eu faço o que a música me pede, a música é que manda em mim. É como diz o Gilberto Gil: a minha música é o que ela quiser ser.

Continuas a escrever para outras pessoas, o que tens aí no horizonte?

A Ana Bacalhau vai lançar um disco e o single é a música que eu fiz, estive a ouvir hoje e está espectacular, está bem melhor que o reles esboço que eu lhe mandei. Fiquei todo contente, é o que mais gosto, é ouvir o que as pessoas fazem da minha música. O Rui Veloso mandou-me umas músicas para pôr letras, mas ainda não consegui. Também fico um bocado intimidado quando é o Rui Veloso, não é? Ainda está em processo.

Imaginas-te a deixar de ser músico e cantor e passar a ser só autor/compositor?

Até há pouco tempo odiava ir para o palco. Arrependia-me sempre de ser músico. Tinha sempre esperança que houvesse um incêndio ou uma inundação e não houvesse concerto. De cada vez que o tour manager se aproximava, os meus olhos brilhavam na esperança de não haver concerto. Mas houve sempre concerto e eu habituei-me ao ponto de agora gostar. Agora gosto mesmo, já não me importo nada de cantar. Estou muito melhor da voz, canto muito melhor, estou super à-vontade em palco. Naquelas duas horinhas ninguém me chateia, ninguém me telefona, ninguém me fode a cabeça. Não tenho vontade nenhuma de parar, talvez de abrandar daqui a uns anos. No ano passado dei cento e tal concertos. O Zambujo dá cento e tal concertos por ano há dez anos. Não sei como é que ele ainda está vivo (risos). Mas não me apetece nada parar. 

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