Oito compositores judaicos do período barroco

Um concerto do Ludovice Ensemble revela um dos segredos mais bem guardados da história da música: os compositores judaicos do período barroco. Eis alguns dos nomes representados no programa “Barroco Sefardita”
Salamone Rossi
©DR Salamone Rossi
Por José Carlos Fernandes |
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Gostamos de nos pensar como um povo tolerante e menos racista do que a maioria dos nossos vizinhos europeus. Tal perspectiva assenta, entre outros aspectos, na ausência de expressões recentes de antissemitismo em Portugal, em contraste com a tenebrosa história de perseguição a judeus da Europa Central e de Leste entre o final do século XIX e meados do século XX. Claro que a comparação não é legítima, pois o racismo requer a existência de comunidades significativas de “outros” e Portugal e Espanha viram-se livres dos seus judeus há meio milénio, o que explica que o nosso cadastro antissemita recente esteja tão limpo. Os judeus que os Reis Católicos e D. Manuel I expulsaram da Península Ibérica (a Sefarad judaica) no final do século XV refugiaram-se na Holanda e na bacia mediterrânica e alguns dedicaram-se à música. São eles e outros ligados à música nas sinagogas (nem todos sefarditas e nem todos judeus) que nos são reveladas pelo programa “O Barroco Sefardita”, a cargo do Ludovice Ensemble, com direcção de Fernando Miguel Jalôto e que inclui peças de Leonor Duarte, Cristiano Giuseppe Lidarti e Salomone Rossi.

Fundação Gulbenkian. Seg 21.00, 15€

Oito compositores judaicos do período barroco

Salomone Rossi (c.1570-1639)

O violinista Salomone Rossi (por vezes grafado como Salamone) é o mais conhecido dos compositores judaicos do barroco. Entre 1587 e 1628 esteve ao serviço, na qualidade de primeiro violino, de uma das mais faustosas cortes italianas, a da família Gonzaga, em Mântua, onde foi colega de Claudio Monteverdi e onde também cantava a sua irmã Europa Rossi (mais conhecida como Madama Europa), a primeira judia que abraçou uma carreira de cantora profissional de que há notícia.

O vínculo de Salomone Rossi a Mântua fez com que fosse conhecido como “Il Mantovano Ebreo” e o seu prestígio como músico levou a que fosse dispensado de usar a marca amarela que identificava os restantes judeus da cidade. As circunstâncias da sua morte não são conhecidas, mas é possível que tenha perecido quando as tropas imperiais austríacas saquearam Mântua e destruíram o seu gueto.

Além de obras em italiano (madrigais e canzonette) e música instrumental (em que se mostrou muito inovador), Rossi compôs numerosas obras litúrgicas em hebraico, nomeadamente as da colecção Ha-Shirim Asher li-Shlomo (1622), ou seja, “As Canções de Salomão”, no sentido de serem da autoria de Salomone, não no de empregarem textos do Cântico dos Cânticos).

[“Adon Olan”, por The Boston Camerata, dirigida por Joel Cohen (Harmonia Mundi)]

Thomas Lupo (1571-1627)

Se a Inglaterra não é usualmente associada a anti-semitismo, tal resulta de ter sido um dos primeiros países a desfazer-se dos judeus, através do “Édito de Expulsão” promulgado em 1290 por Eduardo I (Portugal e Espanha só dariam passo análogo no final do século XV).

Quando, em meados do século XVI, Henrique VIII se dispôs a rivalizar com o esplendor musical do continente, “importou” de Veneza duas famílias de músicos judeus, os Bassanos e os Lupos, que ocupariam lugar de relevo na corte inglesa durante um século e que acabariam até por unir-se pelo casamento. A actividade dos Bassanos e Lupos centrou-se exclusivamente na música para consort de violas e o seu membro mais notável foi Thomas Lupo, filho de Joseph (Giuseppe) Lupo e Laura Bassano e que fez parte dos músicos de Isabel I, a cujo serviço entrou com apenas 16 anos. Mais tarde serviria os príncipes Henrique (a partir de 1610) e Carlos (a partir de 1617) e foi para este último que compôs a maior parte da sua obra para ensemble de violas.

[Fantasia, pelo Leonhardt Consort]
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Leonora Duarte (1610-1678)

Nascida em Antuérpia, filha de Catharina Rodrigues e Gaspar Duarte, um próspero e culto mercador judeu de jóias (em particular de diamantes) e obras de arte, de ascendência portuguesa e estabelecido na Holanda. As irmãs Catarina e Francisca também tinham aptidões musicais (Francisca, que cantava e tocava cravo, era conhecida como “O Rouxinol de Antuérpia”), tal como o irmão Diego (1612-1691), que foi compositor (embora dele nada tenha sobrevivido) e coleccionador de arte, chegando a possuir 200 quadros onde, além de vários Vermeer de temática musical, havia obras de Rafael, Holbein, Ticiano, Rubens e Van Dyke. A mansão dos Duarte era um florescente pólo cultural, que recebia visitas de grandes figuras das artes, das letras e das ciência, como o poeta Constantijn Huyghens e o seu filho Christiaan, matemático, físico e astrónomo, e tinha vínculos fortes a Inglaterra.

Leonor Duarte foi compositora – algo muito invulgar para uma mulher do século XVII – e deixou-nos sete obras para ensemble de cinco violas da gamba, ao estilo então dominante em Inglaterra.

Dela não existe nenhuma amostra disponível na internet mas a sua música pode ser ouvida no excelente CD Birds on Fire, pelo ensemble de violas Fretwork, na Harmonia Mundi.

Louis Saladin (século XVII)

Sabe-se muito pouco sobre Louis Saladin, cujo nome próprio é por vezes mencionado como Ludovico, o que sugere ascendência italiana. Sabe-se que esteve associado à comunidade judaica da Provença, para a qual terá composto, por volta de 1670 a cantata Canticum Hebraicum, destinado a uma cerimónia de circuncisão. Alguns trechos da obra foram apropriados, sob forma simplificada e “popular”, para uso em cerimónias de circuncisão na região.

[Canticum Hebraicum, pelo ensemble Marin Baroque, dirigido por Daniel Canosa, ao vivo na Igreja Presbiteriana de San Anselmo, 2014]
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Carlo Grossi (c.1634-1688)

Grossi não era judeu, mas a sua inclusão nesta lista justifica-se por ter composto obras sobre textos hebraicos, encomendadas pela comunidade judaica de Modena. Grossi nasceu provavelmente em Vicenza, foi organista na Basílica de João e S. Paulo, em Veneza, cidade onde viria a falecer. A sua obra mais famosa é a Cantata Hebraica in Dialogo (1681), ou Canticum Hebraicum, que faz parte das obras compostas para Modena.

[Cantata Hebraica in Dialogo]

Giacobbe Cervetto (1680-1743)

O violoncelista Giacobbe Basevi, que adoptou o nome artístico de Giacobbe Cervett, nasceu em Livorno, Itália, numa família judaica e mudou-se em 1728 para Inglaterra, onde decorreu o resto da sua carreira. Deixou obra relevante no domínio da música de câmara.

[N.º12 dos 12 Solos para violoncelo e baixo contínuo, publicados em Londres c.1750, por Elinor Frey e Shirley Hunt]
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Abraham Caceres (fl.1718-1740)

Abraham Caceres (também grafado como Abraão Casseres), descendente de judeus portugueses, foi cantor da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão e recorreu frequentemente a textos do rabi, cabalista e filósofo judeu Moshe Chaim Luzzatto (1707-1746), também grafado como Moses Hayyim Luzzatto, que nasceu em Pádua e se mudou para Amesterdão em busca de um ambiente de maior abertura intelectual.

[“Leel Elim”, sobre texto de Moshe Chaim Luzzatto, por Geneviève Cirasse (mezzo-soprano) e Angèle Meunier (contralto) e Ensemble Texto, do CD Musiques Juives Baroques: Venise, Mantoue, Amsterdam: 1623-1774 (Buda Musique)]

Cristiano Giuseppe Lidarti (1730-1795)

Tal como Grossi, Lidarti era um “gentio”, mas compôs obras em hebraico destinadas ao culto nas sinagogas. O seu nome é por vezes grafado como Christian Joseph, pois apesar da ascendência italiana, nasceu em Viena. Após ter recebido instrução musical do seu primo Giuseppe Bono, mestre da capela imperial, aos 21 anos encaminhou-se para a terra dos seus antepassados, a fim de prosseguir os estudos – foi aluno em Roma do célebre Jommelli – e acabaria por passar o resto da vida em Itália, onde se distinguiu sobretudo na música instrumental. O facto de a carreira se ter desenvolvido em Itália não o impediu de compor várias obras para a comunidade judaica de Amesterdão, que lhe encomendou, entre outras obras, a oratória Esther (1774), cantada em hebraico, que só foi redescoberta em 1999.

[“Boji Besalom”, seguido (a partir de 5’04) de “Col Anesama” (Halleluyah), dois dos três cantos destinados à Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, por Janet Pape (soprano), Yoko Honda e Xavier Lambert (violinos), Elena Adreyev (violoncelo) e Nicholas Fairbank (cravo)]
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