Oito óperas passadas na Roma Antiga

Com encenação de Luís Miguel Cintra, apresenta-se no Teatro São Carlos 'The Rape of Lucretia', de Benjamin Britten, que é uma das muitas óperas cuja acção decorre na Roma da Antiguidade Clássica
Roma Antiga
©Robert Lowe
Por José Carlos Fernandes |
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The Rape of Lucretia no São Carlos

Britten foi um dos maiores compositores de ópera do século XX, mas, com excepção de Peter Grimes, as suas óperas são raramente ouvidas fora da Grã-Bretanha, pelo que deverá agarrar-se esta proposta, que conta com Maria Luísa de Freitas (Lucretia), Luís Rodrigues (Collatinus), André Baleiro (Tarquinius), Christian Luján (Junius), Joana Seara (Lucia), Marco Alves dos Santos, Dora Rodrigues e músicos da Orquestra Sinfónica Portuguesa, direcção de João Paulo Santos e encenação de Luís Miguel Cintra.

Teatro Nacional de São Carlos, sábado 2, 20.00, domingo 3, 16.00, terça-feira 5, 20.00, 10-40€.

Oito óperas passadas na Roma Antiga

Camera

L’Incoronazione di Poppea, de Monteverdi

Estreia: 1643, Veneza
Contexto histórico: Final da década de 50 d.C. Popeia Sabina casara aos 14 anos com Rúfio Crispino, que era comandante da Guarda Pretoriana. Quando Rúfio foi demitido deste cargo pela imperatriz Agripina, mãe de Nero, Popeia divorciou-se dele e foi em busca de um marido mais adequado às suas ambições: Marco Sálvio Otão, que era um dos amigos mais próximos de Nero, que entretanto chegara a imperador. Popeia e Otão casaram-se (ela por interesse, ele por paixão), mas não tardou que Nero e Popeia se apaixonassem e começassem a maquinar para se desembaraçar dos respectivos cônjuges. Nero acabaria por enviar o “best friend forever” Otão para uma espécie de exílio, ao nomeá-lo governador de uma província distante e pobre – a Lusitânia –, Agripina, que se opunha ao casamento, foi liquidada em 59 d.C. (após vários atentados mal sucedidos) e Nero divorciou-se da sua esposa Octávia (alegando que esta era estéril) e condenou-a ao exílio (alegando, desta vez, adultério) na minúscula ilha de Pandateria (mais tarde, achando que isso não bastava, ordenou que ela se suicidasse). Popeia pôde então casar-se com Nero, tornando-se imperatriz. Em 63 d.C., por ocasião do nascimento do primeiro rebento imperial, Nero conferiu-lhe o título de “Augusta”. Viveram felizes para sempre? Não: quando Popeia estava grávida de um segundo filho, Nero, numa discussão conjugal, matou-a com um pontapé no ventre.

Libreto: Giovanni Francesco Busenello baseado nos historiadores romanos Tácito e Suetónio e numa peça de autor romano anónimo. Foi o primeiro libreto de ópera a inspirar-se em factos históricos – até aí tinha-se recorrido sobretudo à mitologia clássica.

Ópera: Foi a derradeira ópera de Claudio Monteverdi (1567-1643), cujo L’Orfeo, de 1607, fora uma das primeiras óperas da história. L’Incoronazione di Poppea marca uma admirável evolução desde esse ensaio pioneiro e contém elementos que irão definir a progressão da ópera no século e meio seguinte.

[“Dorme l’Incauta Dorme”, por Sandrine Piau (Amore) e Les Talens Lyriques, com direcção de Christophe Rousset, na Nederlandse Opera, Amesterdão, 1994 (DVD Opus Arte)]

Camera

Agrippina, de Handel

Estreia: 1709, Veneza
Contexto histórico: É similar ao de L’incoronazione di Poppea, mas uns anos antes e com o foco na imperatriz Agripina e nas suas maquinações para fazer o filho Nero imperador. Agripina foi a quarta esposa do imperador Cláudio e conseguiu, pouco depois do casamento, em 49 d.C., que este tomasse Nero (filho de um casamento anterior de Agripina com Cneu Enobarbo) como filho adoptivo, colocando-o à frente de Britânico, filho de Cláudio, na linha sucessória. Em seguida, através de intrigas maquiavélicas e assassinatos, removeu todos os rivais ou opositores (reais ou potenciais) do filho e fez este casar-se, aos 16 anos, com Octávia, filha de Cláudio. Quando Cláudio morreu, em 54 d.C. (há quem diga que envenenado por Agripina), Nero tornou-se imperador. Nero empenhou-se em minar ainda mais a posição de Britânico (um jovem adolescente), mas ainda assim não se sentiu seguro, pelo que acabou por encomendar o seu envenenamento (à mesma especialista que despachara Cláudio, diz-se).

Libreto: Cardeal Vincenzo Grimani, baseado nos historiadores romanos Tácito e Suetónio. A intriga diz respeito a eventos anteriores aos de L’incoronazione di Poppea e centra-se nas conspirações de Agripina em favor de Nero e na disputa de Nero e Otão pelo amor de Popeia. Termina com uma decisão salomónica de Cláudio: cedendo às pressões de Agripina, faz de Nero o seu sucessor, mas Popeia casar-se-á com Otão (embora saibamos, por L’incoronazione di Poppea, que Nero também acabará por ficar com Popeia).

Ópera: Chegado a Veneza, Georg Friedrich Handel foi confrontado com a inesperada encomenda de uma ópera para a temporada do Teatro San Giovanni Grisostomo, o que o obrigou a aviar a partitura em apenas três semanas – tal rapidez só foi possível mediante a reciclagem de trechos de cantatas que tinha vindo a compor durante a sua estadia em Itália.

[“Vaghe Perle”, por Ida Falk Winland (Poppea) e a Festspiel Orchester Göttingen, com direcção de Laurence Cummings, no Festival Internacional Handel de Göttingen, 2015]

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Camera

Tito Manlio, de Vivaldi

Estreia: 1719, Mântua
Contexto histórico: Quando Tito Mânlio (Titus Manlius Torquatus) foi nomeado cônsul de Roma pela terceira vez, em 340 a.C., teve de enfrentar uma revolta dos latinos, povo aliado de Roma que reclamava estatuto igual aos dos romanos na coligação que formavam. Na guerra que se seguiu, Tito Mânlio repôs no exército romano a velha e estrita disciplina militar que estipulava que qualquer soldado ou oficial que desobedecesse às ordens seria executado. Quando o seu filho, que tinha o mesmo nome, se deixou arrastar pelas provocações dos latinos e se envolveu numa refrega apesar das ordens em contrário, o cônsul não hesitou em condená-lo à morte.

Libreto: Matteo Noris. O libreto embrulha os factos históricos numa complexa intriga de amores cruzados – entre romanos e latinos – que é completamente fantasiosa. O desfecho também é alterado: no último minuto, Tito Mânlio pai (Tito no libreto) acaba por perdoar o filho (Mânlio no libreto) e os amantes separados pelo destino acabam por ficar unidos – mas que outra coisa poderia esperar-se numa ópera destinada a abrilhantar umas núpcias?

Ópera: Se a composição de Agrippina em apenas três semanas parece um feito invulgar, empalidece perante a celeridade de Antonio Vivaldi (1678-1741) em Tito Manlio: a ópera foi composta num frenesim de cinco dias e cinco noites, pois a encomenda surgiu no dia de Natal de 1718, quando Filipe de Hesse-Darmstadt, governador de Mântua, anunciou o seu casamento com a princesa Eleonore di Guastalla, que deveria ter lugar a 20 de Janeiro. Claro que Vivaldi não teria esses 25 dias para compor a ópera, pois era preciso contar com o tempo para ensaios. Porém, o casamento desfez-se tão abruptamente como tinha sido anunciado e a ópera acabou por estrear na temporada do Teatro Arciducale de Mântua.

[Dueto “Parto Mio Bene”, pelas mezzo-sopranos Vivica Genaux (Manlio) e Ann Hallenberg (Servilia) e Concerto de’ Cavalieri, com direcção de Marcello Di Lisa]

Camera

La Clemenza di Tito, de Gluck

Estreia: 1752, Nápoles
Contexto histórico: Tito Vespasiano (39-81 d.C.) reinou como imperador entre 79 e 81 d.C., sucedendo ao pai, Vespasiano, que subira ao poder depondo Vitélio. Teve a infelicidade de, num tão breve reinado, se ter defrontado com duas grandes calamidades, a erupção do Vesúvio de 79 d.C. e o incêndio de Roma de 80 d.C. Ao contrário de muitos governantes que se recusam a assumir responsabilidades pelo que se passa nas suas barbas, Tito ficou de tal modo convencido da sua inépcia como governante que pensou em suicidar-se. Reconsiderou a decisão, mas foi levado por uma febre pouco depois.

Libreto: Pietro Metastasio. O primeiro compositor a musicar o libreto foi Antonio Caldara, em 1734, a que se seguiram dezenas de outros, antes e depois de Gluck. O enredo é, essencialmente, uma ficção urdida a partir de umas insinuações vagas contidas em As vidas dos Césares, do historiador Suetónio. Vitellia, filha do deposto imperador Vitellio, pretende vingar o pai assassinando Tito e alicia Sesto, que está apaixonado por ela, a cometer o crime. O plano (ingénuo) fracassa, mas Tito mostra-se magnânimo e perdoa os conspiradores. Os perdoados exaltam a generosidade de Tito e este roga aos deuses que o fulminem se ele alguma vez deixar de zelar pelos interesses de Roma.

Ópera: O austro-germânico Christoph Willibald Gluck (1714-1787) passou a juventude na Boémia e mudou-se aos 23 anos para Milão, para estudar com G.B. Sammartini, estreando aí a sua primeira ópera em 1741. Ganhou renome rapidamente e nos anos seguintes foi solicitado a apresentar óperas nos principais centros musicais da Europa: Londres, Praga, Dresden, Viena e Nápoles. Foi nesta última cidade que estreou La Clemenza di Tito, nos festejos do aniversário onomástico do rei Carlos VII de Nápoles.

[“Se Mai Senti Spirarti Sul Volto”, pela mezzo-soprano Joyce DiDonato (Sesto) e a Orquestra da Ópera Nacional de Lyon, com direcção de Kazushi Ono, no álbum Diva, Divo (Erato)]

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Camera

La Clemenza di Tito, de Mozart

Estreia: 1791, Praga
Contexto histórico: ver La Clemenza di Tito de Gluck.

Libreto: Versão revista por Caterino Mazzolà (poeta oficial da corte de Viena) do libreto de 1734 de Metastasio.

Ópera: O libreto já tinha sido musicado por mais de 40 compositores antes de cair nas mãos de Mozart e, embora estando já fora de moda, ainda seria musicado por mais três depois dele. A popularidade deste enredo que celebra a magnanimidade e sabedoria dos monarcas explica-se em parte por ser muito adequado a festejos da realeza. Foi o caso da ópera de Mozart, que foi encomendada para abrilhantar a coroação do imperador Leopoldo II como rei da Boémia. O bafiento e hirto libreto não parece ter inspirado Mozart – o facto de a ópera ter sido composta em 18 dias também não ajudou – e suspeita-se até que ele terá delegado a composição dos recitativos no seu assistente Franz Xaver Süssmayr.

[“Parto, Parto”, pela mezzo-soprano Elina Garanca (Sesto) e Orquestra da Metropolitan Opera, com direcção de Harry Bickett, encenação de Jean-Pierre Ponnelle, na Metropolitan Opera, Nova Iorque temporada de 2012-13]

Camera

La Vestale, de Spontini

Estreia: 1807, Paris
Contexto histórico: As vestais eram as sacerdotisas devotadas ao culto de Vesta, deusa do fogo sagrado, do lar e da família, e deveriam ser modelos de castidade – a quebra dos seus votos era vista como uma afronta aos deuses e a Roma e era punida com a morte, por decapitação ou por sepultamento em vida.

Libreto: Victor-Joseph-Étienne de Jouy. Não intervêm figuras históricas, as personagens são ficcionais: o general Licinius parte em campanha e quando volta descobre que a noiva, Julia, se juntara às vestais. Licinius não resiste a reencontrar a amada, mas a sua intrusão no templo é detectada e, ao mesmo tempo, a chama sagrada do altar extingue-se. Julia é condenada a ser sepultada viva, mas quando a sentença vai ser cumprida, um relâmpago abate-se sobre o altar do templo e reacende a chama – o Sumo Sacerdote interpreta o evento como manifestação divina, anula a sentença de morte e abençoa o casamento de Julia e Licinius. Isto é tudo um pouco tolo, mas a montante há uma tolice ainda maior: as meninas eram consagradas ao culto de Vesta antes da puberdade, pelo que Julia, mulher madura, não poderia ter-se feito vestal.

Ópera: Gaspare Spontini (1774-1851) já lograra um sucesso em Nápoles com uma ópera cómica, mas foi quando se mudou para Paris e beneficiou do patrocínio de Josefina, esposa de Napoleão, que a sua carreira ganhou ímpeto – e La Vestale foi a ópera que o imortalizou.

[“Tu Che Invoco Con Orrore”, pela soprano Maria Callas e a Orquestra Sinfónica da Rádio do Norte da Alemanha, com direcção de Nicola Rescigno, em Hamburgo, 1959]

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Nerone, de Mascagni

Estreia: 1935, Milão
Contexto histórico: Final do reinado de Nero, 68 d.C. Os 13 anos de reinado de Nero foram marcados pela crueldade, pela excentricidade, pelo abuso de poder e pelo devastador incêndio de Roma, em 64 d.C. (calamidade de que Nero saiu airosamente, usando os cristãos como bodes expiatórios). O que o perdeu foram os aumentos de impostos, que fizeram Caio Vindex, governador da Gália, rebelar-se contra Roma. Sérvio Galba, governador da Hispânia juntou-se a Vindex e, após muitas movimentações, hesitações e escaramuças, Nero acabou por ver-se abandonado pelas suas tropas e pelos seus aliados. Em pânico, pensou em suicidar-se, mas não encontrando coragem para o fazer, pediu a um dos seus derradeiros fiéis que se matasse para ele ver como era. Acabou por ter de ser o seu secretário a matá-lo. O Senado apressou-se a aclamar Galba como novo imperador.

Libreto: Giovanni Targioni-Tozzetti, a partir da peça homónima de Pietro Cossa. O enredo comprime os últimos meses de reinado de Nero sem respeito pelo rigor histórico e rodeia o imperador de personagens ficcionais e circunstâncias fantasiosas. Só o final se cinge, aproximadamente, aos relatos históricos, embora as últimas palavras de Nero no libreto – “Que artista morre comigo!” – tenham sido pronunciadas uns dias antes.

Ópera: Pietro Mascagni (1863-1943) estava decidido a fazer uma ópera passada na Roma Antiga, talvez estimulado pelo empenho de Mussolini em colar a Itália fascista à glória do Império Romano. Entre 1900 e 1906 labutara, sem sucesso, na ópera Vistilla, com um libreto “romano” inspirado numa peça de Rocco de Zebris e chegou a considerar a hipótese de adaptar o romance Quo vadis?, de Henrik Sienkiewicz. Em Nerone acabou por reciclar muita da música que escrevera para a inacabada Vistilla – o que faz com que texto e música nem sempre casem bem.

[“Quando al Soave Anelito”, pelo tenor Rolando Villazón]

Camera

The Rape of Lucretia, de Britten

Estreia: 1946, Glyndebourne
Contexto histórico: O fim da monarquia e o início da República Romana, em 509 a.C. O romano estava farto do governo tirânico de Lúcio Tarquínio, o Soberbo, sétimo rei de Roma, mas a centelha que desencadeou a revolta terá sido a violação de Lucrécia, a esposa de um nobre romano por Sexto Tarquínio, filho de Lúcio Tarquínio. Consumida pela vergonha e incapaz de viver com o ultraje a que fora sujeita, Lucrécia ter-se-á suicidado.

Libreto: Ronald Duncan, baseado numa peça do francês André Obey, que, por sua vez, se baseia nos relatos de Tito Lívio e Dionísio de Halicarnasso, que escreveram sobre os “factos” cinco séculos depois da sua ocorrência. A informação sobre este período da história de Roma é muito vago e não permite destrinçar factos de lendas.

Ópera: É uma ópera de câmara, que requer apenas oito cantores e 13 instrumentistas. O libreto é um dos mais fracos musicados por Benjamin Britten (1913-1976), mas a música é inspirada e explora inteligentemente os parcos recursos instrumentais, com o piano a ter um relevo invulgar em partituras operáticas. A estreia foi dirigida pelo próprio compositor e teve Kathleen Ferrier no papel principal. A primeira gravação também sob a direcção de Britten, só foi realizada 24 anos depois, com Janet Baker no papel titular.

[“Good Morning My Lady... Flowers Bring to Every Year”, por Janet Baker (Lucretia). Esta é a cena da manhã seguinte à violação: Bianca e Lúcia, as aias de Lucrécia, celebram o novo dia; Lucrécia surge e começa a tecer uma coroa funerária com as flores que elas trouxeram]

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