Oito peças clássicas para ouvir junto à lareira

O frio e outras inclemências invernais convidam a que se fique em casa? É uma boa oportunidade para recordar algumas peças de compositores de séculos passados a quem a estação inspirou magnífica música
Fabio Biondi
©Simon Fowler Aqueça com Inverno, d'As Quatro Estações de Vivaldi, por Fabio Biondi (violino e direcção)
Por José Carlos Fernandes |
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Oito peças clássicas para ouvir junto à lareira

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Inverno, de As Quatro Estações, de Vivaldi

Os concertos que formam As Quatro Estações (Le Quattro Stagioni), do veneziano Antonio Vivaldi, fazem parte de uma colecção de 12 concertos para violino publicada em 1725, em Amesterdão sob o título Il Cimento dell’Armonia e de l’Inventione (O Certame da Harmonia e da Invenção) e dedicada a um mecenas do compositor, o conde boémio Wenzel von Morzin. Cada um dos quatro concertos é acompanhado de um soneto, que, embora de dúbia qualidade poética, vale a pena seguir de forma a atestar como a música ilustra as palavras com engenho e arte. Eis o que acompanha L’Inverno: Allegro non molto: “Tremer, enregelado, na neve álgida/ Nas feras rajadas do hórrido vento/ Correr, batendo os pés a cada passo/ Batendo os dentes no frio extremo”. Largo: “Dias tranquilos e felizes passados junto ao fogo/ Enquanto lá fora a chuva todos encharca/ Caminhar sobre o gelo com passo mesurado/ Por receio de escorregar e cair”. Allegro: “Correr apressado e tombar por terra/ Retomar a carreira desvairada sobre o gelo/ Até que ele se quebra e uma fenda se abre/ Ouvir sair dos portões de ferro/ Sirocco, Bóreas e todos os ventos em luta/ Assim é o Inverno, mas também traz alegrias”.

[Por Fabio Biondi (violino e direcção) e o ensemble Europa Galante. Existe versão em discos pelos mesmos intérpretes na Erato]

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Ária “What Power Art Thou?”, de King Arthur, de Purcell

A ópera King Arthur, com música de Henry Purcell e libreto de John Dryden, estreou no Queen’s Theatre de Londres em 1691. O enredo não trata a faceta mais conhecida das lendas arturianas mas antes os conflitos do rei Artur com os Saxões (o rei Oswald raptou a sua noiva, a princesa Emmeline) e mescla personagens da mitologia greco-romana (Vénus, Cupido) e nórdica (Thor, Freya). Como era usual nas óperas inglesas da época, os papéis principais são falados e só as personagens secundárias cantam. O seu momento mais célebre é a ária “What Power Art Thou”, cantada pelo Génio do Frio, que se ergue em tom ameaçador quando é despertado por Cupido: “Que potestade és tu, que das profundezas/ me fazes erguer, contrariado e entorpecido,/ do leito de neves eternas?/ Não vês que anquilosado pelos anos,/ Me tornei incapaz de suportar o frio acerbo,/ Que a custo me movo e é curto o fôlego?/ Deixa-me deslizar de novo para a gélida morte”. A cadência entrecortada das palavras sugere a condição enregelada do Génio e é reforçada pelo acompanhamento glacial das cordas.

[Pelo baixo-barítono Petteri Salomaa e Les Arts Florissants, direcção de William Christie (Erato)]

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Inverno, de As Estações, de Haydn

As Estações (Die Jahreszeiten), estreada em Viena em 1801, é uma das duas grandes oratórias que Joseph Haydn compôs no fim da vida, influenciado pelas oratórias de Handel que ouvira quando da estadia na Grã-Bretanha. O libreto, em alemão, foi traduzido e adaptado por Gottfried van Swieten a partir de um longo poema publicado em 1730 por James Thomson. Van Swieten também produziria, a partir do original alemão, um libreto em inglês (pouco idiomático), pois Haydn era uma vedeta do lado de lá do Canal e o público britânico tinha grande avidez de ouvir novas obras suas. A parte correspondente ao Inverno inclui, inevitavelmente, trechos mais sombrios do que as outras estações: a introdução orquestral retrata “o espesso nevoeiro que marca o início do Inverno” e a primeira cavatina (“Licht und Leben Sind Geschwächen”) pinta este cenário: “A luz e a vida definham/ O calor e a alegria desvaneceram-se/ Dias enfadonhos dão lugar/ A noites negras e intermináveis”. A ária “Hier Steht der Wand’rer Nun” prefigura a figura do Wanderer romântico e, em particular, o viandante solitário em paisagem nevada da Viagem de Inverno de Schubert: “Aqui está o viandante/ Confuso e hesitante/ Quanto ao caminho a tomar/ Em vão busca a sua rota/ Mas não há senda ou pista que o guie/ São vãos os seus esforços/ Para avançar na neve profunda/ E deixam-no cada vez mais perdido”.

[“Inverno”, por Sybilla Rubens (Hanne, soprano), Andreas Karasiak (Lukas, tenor), Stephan MacLeod (Simon, baixo) e pelo Coro de Câmara da Gewandhaus de Leipzig e pela Orquestra de Câmara de Leipzig, direcção de Morten Schuldt-Jensen (Naxos)]
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Winterreise, de Schubert

Winterreise (Viagem de Inverno) é menos um ciclo de canções do que um drama peripatético e febril para um homem só e, se prestarmos atenção, percebemos que a caminhada obstinada de “Gute Nacht”, a primeira das 24 canções sobre poemas de Wilhelm Müller, é, no fim de contas, uma marcha fúnebre. Quando Schubert convidou os seus amigos a ouvir a sua nova obra, foi nestes termos: “Tocar-vos-ei um ciclo de canções apavorantes, que me marcaram mais do que qualquer canção jamais o fez”. E quando os amigos se quedaram desconcertados perante tanto negrume e desolação, Schubert retorquiu: “Estas canções agradam-me mais do que quaisquer outras e, com o tempo, agradar-vos-ão também”, Em “Der Leiermann”, a última canção do ciclo, o viandante encontra, pela primeira vez na sua errância cada vez mais alucinada, uma figura humana: um velho, de pés descalços sobre a neve, que faz girar a manivela do seu realejo com os dedos entorpecidos pelo frio; o viandante interroga-se: “Estranho velho, deverei ir contigo? Tocarás o teu realejo para acompanhar as minhas canções?”. Resta ao ouvinte decidir quem é o velho do realejo: um homem tão incompreendido e desprezado pela restante humanidade como o viandante (e como Schubert), o que abre uma possibilidade de identificação, fraternidade e redenção? Uma alucinação causada pela hipotermia e pela exaustão? A Morte?

[“Der Leiermann”, por Matthias Goerne (barítono) e Markus Hinterhauser (piano); imagens/encenação por William Kentridge]
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“Janeiro: Junto à Lareira”, de As Estações, de Tchaikovsky

A colecção de 12 peças breves para piano As Estações (que o compositor publicou como Les Saisons) foi composta por encomenda de uma revista de música, em 1875, e não anda longe da música de salão, embora dela se evole por vezes um lirismo naïf de sabor schumanniano. Cada peça ilustra musicalmente uma actividade ou evento associado tipicamente a um mês do ano. Assim temos em Agosto, as colheitas, em Setembro, a caça, em Novembro, a troika (a original, entenda-se: o trenó puxado por três cavalos). Tal como em As Estações de Vivaldi, cada peça é acompanhada por um breve poema e em “Janeiro: Junto à Lareira” lê-se “Um cantinho de tranquila bem-aventurança/ A noite envolta em lusco-fusco/ O pequeno fogo extingue-se na lareira/ E a vela já se consumiu”.

[“Janeiro: Junto à Lareira”, por Lev Oborin, Moscovo, 1971]

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Januarius GWV 109, de Monatliche Clavier Früchte, de Graupner

Johann Christoph Graupner (1683-1760) está hoje muito esquecido, mas foi um dos mais prestigiados compositores do barroco germânico, a ponto de no concurso para Kantor de Leipzig ter ficado em 2.º lugar nas preferências do Conselho Municipal, à frente de Johann Sebastian Bach. Entre a sua copiosa produção (sobreviveram cerca de 2000 obras) estão 40 partitas (ou suítes) para cravo (Graupner era exímio cravista) e entre elas está a colecção de 12 suítes Monatliche Clavier Früchte (1722, GWV 109-120), cada uma delas dedicada a um mês do ano. Em 1733, Graupner daria início a um ciclo de suítes intitulada As Quatro Estações, mas que se ficaria pelo Inverno (GWV 121).

[Gavotte I da suíte Januarius]

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The Winter, de The Seasons, de Simpson

O inglês Christopher Simpson (c.1602/6-1669) distinguiu-se como executante de viola da gamba e todas as obras que dele se conhecem se destinam a este instrumento, a solo ou em ensemble. Entre as segundas estão as séries The Monthes e The Seasons, destinadas a uma viola soprano, duas violas baixo e baixo contínuo.

[“Fancy”, de The Winter, pelo Cordial Consort, numa gravação ao vivo em Höör, Suécia, 2012]

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Invierno Porteño, das Cuatro Estaciones Porteñas, de Piazzolla

As Cuatro Estaciones Porteñas de Ástor Piazzolla nasceram como peças separadas e só depois foram agrupadas num ciclo, que retrata as diferentes estações do ano em Buenos Aires. O Invierno Porteño foi composto em 1970 e foi concebido, como as restantes, para um quinteto de bandoneon, violino, guitarra eléctrica, piano e contrabaixo (ou seja, a instrumentação do quinteto de Piazzolla), embora entretanto tenham surgido arranjos para diversas formações.

[Invierno Porteño, pelo quinteto de Piazzolla, com Fernando Suárez Paz (violino), Oscar López Ruiz (guitarra), Pablo Ziegler (piano) e Héctor Console (contrabaixo), em 1985]
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