Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Pedro Mafama: “A minha música é homenagem e carga de ombro à tradição”
Pedro Mafama
© Manuel Manso Pedro Mafama

Pedro Mafama: “A minha música é homenagem e carga de ombro à tradição”

Pedro Mafama é o artista do momento. Antes de dois concertos esgotados no Lux, trocámos ideias sobre ‘Por Este Rio Abaixo’.

Por Luís Filipe Rodrigues
Publicidade

De uma das primeiras vezes que escrevemos sobre Pedro Mafama nas páginas da Time Out, em 2019, elencámos um ramalhete de referências e tentámos descrever a sua música: “é portuguesa e global, deste tempo e do próximo; tem qualquer coisa do trap e do drill de Chicago, do kuduro e da batida dos subúrbios de Lisboa, do fado e de outras músicas do mundo”. Passados dois anos, tudo isto e muito mais (cada vez mais) continua a confluir nas suas canções. No novo Por Este Rio Abaixo, porém, as referências encontram-se mais esbatidas. Já não ouvimos os discos e as músicas que ele ouviu; ouvimos Pedro Mafama. “Se as referências não estão bem perceptíveis quer dizer que a coisa está bem apurada”, responde, com um sorriso na voz, quando isto é apontado, dias antes do concerto no Lux.

De facto, o cantor e compositor lisboeta teve tempo para apurar a coisa. “Antes da pandemia acontecer, o disco estava quase pronto para ir para a fábrica. Estava fechado”, lembra. Só que durante o primeiro confinamento e nos meses que se seguiram, ele, Ana Moura e o produtor Pedro da Linha não pararam de trabalhar juntos. “Sobretudo no disco da Ana”, confidencia. Mas também no dele. Muitas das canções que agora ouvimos nasceram nesses meses de trabalho e criatividade intensa. “A pandemia deu-me a oportunidade de reavaliar algumas coisas a nível pessoal e do que ia ser o meu primeiro disco. Ficaram para aí metade das músicas do disco antigo, e o resto são novas. E mesmo as que ficaram foram todas refeitas.” Desta vez de forma mais pensada, mais estruturada.

O resultado é um disco onde o fado e ritmos tradicionais portugueses se confundem com a música árabe, a kizomba e a batida africana, e onde tudo isto é moldado pelas técnicas de produção modernas do trap e do r&b. E nada soa forçado, como se todos estes géneros e estas músicas que ganharam forma ao longo dos séculos, em diferentes geografias, fossem na realidade uma só. Pedro Mafama, convenhamos, não é o único artista contemporâneo a cozinhar com estes ingredientes. Ele sabe e gosta disso. “Em Espanha isso resulta em misturar flamenco e as suas ramificações com as novas sonoridades urbanas”, começa por dizer, evocando Rosalía ou C. Tangana. “Em Portugal, dá para misturarmos esta música africana toda com sonoridades meio árabes e com o fado. Nada disto é coincidência, nada disto é maluquice e nada disto é a procura do exótico. É a procura de nós mesmos.”

“Há toda uma história negra e árabe enterrada debaixo das pedras brancas da calçada portuguesa que tu pisas todos os dias. Que te foi escondida”, denuncia. “Houve todo um trabalho de casa, do Estado Novo e de um Portugal que se quis tornar europeu, para nos lembrar das diferenças entre Portugal e África, entre Portugal e Magrebe. Com a minha música, quero apontar as semelhanças. Porque não são tão óbvias, mas são tão reais quanto aquilo que nos dizem que são as diferenças”, continua. “Uma coisa que me deixa muito feliz é falar acerca de nós, da minha geração, e conseguir pegar em músicas que fazem parte da nossa memória como jovens, da kizomba e tudo, e desenterrar um passado histórico que se calhar só é acessível hoje em dia através de livros e de visitas a museus. Gosto muito de ligar o museu ao altifalante do telemóvel e do carro tuning.”

Esta conversa toda leva-nos de volta ao título do disco: Por Este Rio Abaixo. É todo um programa. A referência ao clássico Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias, é óbvia. Contudo, enquanto o disco de Fausto versava sobre os chamados Descobrimentos, sobre o que os portugueses deram, ou pelo menos levaram, para outros sítios, Mafama move-se em sentido oposto, apontando o que esses outros sítios deram a Portugal. Pedro concorda com estas ideias. “A minha música é uma homenagem e ao mesmo tempo uma carga de ombro na tradição. Gostei muito que o nome do disco reflectisse isso”, declara. “E também foi útil para mostrar como é que me posiciono de forma diferente desse grande trabalho do Fausto, que em termos formais tem muitas semelhanças com o meu disco.”

Conversa afinada

Beautify Junkyards
© Lois Gray

Beautify Junkyards: “O passado nunca é uma prisão”

Música

Nascidos das cinzas dos Hipnótica, os Beautify Junkyards chegam ao quarto álbum com uma formação que inclui João Branco Kyron (vozes e sintetizadores), Helena Espvall (violoncelo, flauta e guitarra acústica), João Moreira (guitarra acústica e sintetizadores), Sergue Ra (baixo), António Watts (bateria e percussão) e Martinez (vozes). Cosmorama expande o universo tropicalista e psicadélico da banda e pede o título emprestado a uma galeria que existia em Londres na era vitoriana, com projecções de locais distantes e exóticos, um portal para viajar no tempo e no espaço – no fundo, tudo o que pode esperar deste disco.

Mariza
© DR

Mariza: “Ainda olham para mim como uma miúda”

Música Portuguesa

Desde que Mariza apareceu, nunca mais olhamos o fado da mesma forma. Num mundo globalizado, deu-lhe novas cores e coordenadas, mas sem desrespeitar a tradição. Agora a completar 20 anos de percurso musical, Mariza canta Amália, no centenário do nascimento da diva. Já a interpretou várias vezes, mas é a primeira vez que lhe dedica um álbum inteiro. Gravado entre Lisboa e o Rio de Janeiro, o disco conta com arranjos do músico e produtor brasileiro Jaques Morelenbaum. Com guitarra portuguesa, viola e orquestra, afloram influências do jazz e da música clássica, mas também da lusofonia.

Publicidade
Pedro Lucas
Fotografia de Marianne Harle

Pedro Lucas: “Cada vez me interessa mais a capacidade de emocionar”

Música

Pedro Lucas, que a solo assina como P.S. Lucas, nasceu no Faial, passou por Lisboa, viveu na Dinamarca e está de regresso à capital. Depois do cruzamento entre a electrónica e a música tradicional portuguesa nos discos de Medeiros/Lucas e O Experimentar Na M'Incomoda, assume influências de nomes como Leonard Cohen e Bill Callahan e aposta tudo em canções belas, onde redescobre o prazer da guitarra. O novo álbum In Between conta com o trio nuclear João Hasselberg (contrabaixo), David Eyguesier (guitarra) e João Sousa (bateria), e participações de Catarina Falcão ou Jerry The Cat.

Recomendado

    Também poderá gostar

      Publicidade