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Pelas vielas de Alfama com Cuca Roseta

Amália cantava, com letra de Ary dos Santos e música de Alain Oulman, que “Alfama não cheira a fado mas não tem outra canção”. Antes do Caixa Alfama 2015, passeámos com Cuca Roseta, atrás desse e de outros perfumes

D.R.
A fadista Cuca Roseta

No Largo do Chafariz de Dentro ensaia-se uma ópera e na Rua de São Miguel ouve-se Zouk Love. Mas ainda é o fado que espalha os seus odores em todos os recantos do bairro. Para Cuca Roseta, que nos guia neste passeio, Alfama representa a sua descoberta e a sua afirmação: “Ouvi fado pela primeira vez ao vivo no Clube de Fado, do guitarrista Mário Pacheco, quando tinha 18 anos e ainda estava nos Toranja. Dois anos depois, comecei a cantar aqui regularmente e foi aqui que me fiz fadista”.

É de manhã e o Clube de Fado está fechado. Ainda assim as portas abrem-se para receber Cuca Roseta, que durante mais de dez anos foi fadista residente neste restaurante. Nas paredes alinham-se dezenas de fotos de cantores – fadistas e não só, desde Caetano a Rui Veloso – e outras celebridades. Cuca também está por todo o lado, incluindo numa imagem em que, mesmo ao lado, surgem Cristiano Ronaldo e Eusébio a segurarem uma guitarra portuguesa.

“Foi no Clube de Fado que tive mestres como a Maria da Nazaré ou o Alcino de Carvalho, e principalmente o Mário Pacheco, com quem aprendi quase tudo. E era aqui que eu estava a cantar quando fui ouvida pelo Gustavo Santaolalla, que viria a produzir o meu primeiro álbum, e pelo Carlos Saura, que depois me convidou para o filme Fados”.

Cuca Roseta não sabe, como ninguém sabe, se o fado nasceu em Alfama (ou na Mouraria ou noutro bairro de Lisboa). Mas sabe uma coisa: “É aqui que se mantém a chama acesa e todos os fadistas vêm cá parar”. De seguida, ressalva: “O fado é de Lisboa, mas também é de todo o país. No Porto adoram fado e vieram de lá grandes fadistas. Este ano tenho actuado em inúmeros sítios, de norte a sul, e sinto que o fado é acarinhado em todo o lado”.

À entrada do Museu do Fado, outro dos seus locais de eleição no bairro, Cuca é parada por duas fãs para as fotos que têm como fundo a fachada do museu. “O Museu do Fado é um sítio inevitável. Para nós, fadistas, é um lugar de honra. Gosto muito de visitar o museu e os seus responsáveis têm um papel muito importante, pelas suas iniciativas: as exposições, os concertos”, sublinha. “Cantei aqui várias vezes, incluindo em visitas guiadas que terminavam com fados. Este museu é o primeiro sítio visitado pelos estrangeiros que se interessam pelo género e foi determinante na eleição do fado enquanto Património Imaterial da Humanidade.”

Mais acima, na Rua de São Pedro – que serve de morada à Taverna d’El Rey, ao Barracão de Alfama ou à Tasca do Jaime –, um grupo de trabalhadores fardados de uma empresa de telecomunicações cruza-se com a fadista. Um deles vira-se e lança um grito: “Cuca Roseta!” Ela ri-se sem dar muita importância à fama. Prefere falar sobre o que esta rua representa: “É espectacular. Cantei a vida toda no Clube de Fado e, apesar de a rua onde está (Rua de São João da Praça) também ser muito portuguesa, sempre se ouviram outras músicas. Há o Lusitano Clube, há o Onda Jazz...”. E há fado por todos os lados. “Passamos por aqui à noite e ouve-se fado vindo de todos os restaurantes, de todos os recantos. É um mundo completamente novo e antigo ao mesmo tempo. É o coração do fado, do fado a que chamam castiço, vadio ou bairrista. E é tudo muito intenso, muito verdadeiro”.

Continuando a subir por Alfama, paramos nas Escadinhas de São Miguel. Ali à entrada, no Largo de São Miguel, vê-se uma inscrição com um graffiti manhoso: “Largo Fadista”. Para Cuca, esta parte de cima do bairro está mais associada à folia dos santos populares e a um género-irmão do fado intimamente associado a estas festas, as marchas de Lisboa: “Nos Santos, é inevitável vir parar a esta zona de Alfama, onde se fazem os maiores arraiais e onde se junta toda a gente. No meu primeiro álbum gravei a ‘Marcha de Sto. António’...”

Católica, Cuca elege também como um dos seus locais de culto em Alfama a Sé de Lisboa. “É um símbolo muito importante para mim, pelo seu peso histórico e principalmente pelo seu lado espiritual. É um local maravilhoso e fortíssimo. Muitos lisboetas vêm aqui em pequenos e nunca mais voltam, só lhe passam à porta”.

Subindo, subindo, acabamos a almoçar no terraço do hotel Memmo Alfama, um edifício moderno que respeita a história e a traça dos três antigos prédios que usou como base de construção. No terraço, onde alguns turistas estrangeiros mergulham alegremente na piscina, o que mais impressiona Cuca Roseta é a vista, com o Panteão do lado esquerdo e o Tejo em frente. E principalmente o silêncio. Um silêncio quase absoluto no coração de Alfama. A quebrá-lo, em murmúrio e como banda sonora do terraço do hotel, ouve-se “Vou Dar de Beber à Dor”, de Amália. Mesmo ali, inesperadamente ou nem tanto, o fado está presente.

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