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Prokofiev e Tchaikovsky

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Lorenzo Viotti
©DRLorenzo Viotti.
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A história de Romeu e Julieta tem uma longa tradição anterior a Shakespeare, mas foi a peça do dramaturgo inglês que cristalizou o modelo e serviu de inspiração a inúmeras obras musicais. Tchaikovsky tinha Shakespeare em grande estima e a Abertura-Fantasia Romeu e Julieta, de 1870, não foi a sua única obra que colheu inspiração no dramaturgo inglês: viria também a compor as aberturas A tempestade (1873) e Hamlet (1888). Quem o incitou a abordar o tema de Romeu e Julieta foi outro compositor russo apaixonado por Shakespeare, Miri Balakirev, ele próprio autor de uma abertura Rei Lear.

Balakirev, que acabou por funcionar como “consultor”, foi fazendo sugestões e reparos, que o jovem e inseguro Tchaikovsky adoptou apenas parcialmente. A estreia, a 16 de Março de 1870, em Moscovo, foi um fiasco por razões alheias à obra – o maestro Nikolai Rubinstein estava envolvido num processo judicial escandaloso e foi nele, não na música, que a atenção do público se focou – mas Tchaikovsky concluiu que os reparos de Balakirev que ele rejeitara seriam, afinal, fundamentados. Assim, empreendeu uma profunda revisão da partitura e voltou a fazê-lo em 1880, sendo esta terceira versão a que hoje costuma ser tocada.

O bailado Romeu e Julieta foi uma das últimas obras compostas por Prokofiev antes de regressar definitivamente ao país natal, em 1936. O enredo, de Adrian Piotrovsky e Sergey Radlov, seguia a peça de Shakespeare, mas o compositor insistiu que Romeu e Julieta deveriam ficar vivos no fim, alegando que “os mortos não dançam”. Este desvio ao cânone desagradou à direcção do Bolshoi, de Moscovo, e Prokofiev acabou por desistir do “final feliz”. Nem assim a estreia teve lugar: em Fevereiro de 1936, o Pravda lançou um ataque contra Piotrovsky, a pretexto do libreto de um bailado com música de Shostakovich, o que terá gerado o receio de levar à cena uma obra de alguém malquisto pelo regime – receio que redobrou em 1937, quando Piotrovsky foi preso e executado. Assim, o bailado acabou por estrear, a 30 de Dezembro de 1938, em Brno, na Checoslováquia, e só chegou ao Kirov, de Leningrado, em 1940, já sem o nome de Piotrovsky nos créditos.

Do bailado, Prokofiev extraiu três suítes orquestrais, que são ouvidas mais frequentemente do que a versão integral – também no domingo se ouvirá uma selecção de trechos, da responsabilidade de Viotti. E na próxima semana (15 e 17), Romeu e Julieta regressam à Gulbenkian, com a mesma orquestra e maestro, mas sob outra encarnação: a ópera de Gounod estreada em 1867.

Escrito por
José Carlos Fernandes

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