Sete óperas sobre monstros mitológicos

A estreia portuguesa de "O Monstro no Labirinto", de Jonathan Dove, uma releitura moderna do mito do Minotauro, é ocasião para lembrar outras óperas inspiradas na mitologia greco-romana que têm monstros como protagonistas

©Jacobo Ligozzi

As primeiras óperas, surgidas no dealbar do século XVII, andaram em volta dos mitos de Dafne e de Orfeu e Eurídice e a mitologia clássica foi o principal tema dos libretos do século e meio seguinte e ainda continua a inspirar compositores no século XXI.

Não só a maioria dos mitos existem em múltiplas versões, pois foram sofrendo alterações à medida que foram sendo recontados pelos diversos autores da Antiguidade Clássica, como os libretistas dos séculos XVII e XVIII os moldaram de acordo com as suas conveniências, suavizando a sua crueza e empurrando para fora de cena os eventos mais sangrentos, suprimindo personagens e acrescentando outras, introduzindo intrigas amorosas ou dando-lhes maior relevo e impondo finais felizes, que eram obrigatórios na época barroca, por muito incongruentes que fossem com tudo o que acontecera antes. Os enredos que se seguem dizem respeito à narrativa do libreto, não à das fontes greco-romanas, e o mesmo critério é empregue nos nomes das personagens, indicando-se entre parêntesis o nome que usualmente lhe é dado em português.

The Monster in the Labyrinth tem agora estreia em Portugal como O Monstro no Labirinto, numa versão portuguesa da autoria de Tiago Marques, já que a ópera foi concebida para ser sempre apresentada na língua do próprio país. Os papéis “profissionais” serão confiados aos cantores Cátia Moreso (mãe de Teseu), Carlos Cardoso (Teseu) e Rui Baeta (Dédalo) e ao narrador Fernando Luís (Minos), que estarão acompanhados em palco por 300 cantores amadores das mais diversas idades; o Coro & Orquestra Gulbenkian têm direcção de Quentin Hindley, a encenação é de Marie-Eve Signeyrole.

Fundação Gulbenkian, quarta-feira 27 a sexta-feira 29, 20.00, 15-30€

Sete óperas sobre monstros mitológicos

Cadmus et Hermione, de Lully

Estreia: 1673, Paris
Monstros: Draco, o gigante, e o seu dragão

Enredo: Cadmus (Cadmo) está apaixonado por Hermione (Harmonia), filha de Marte e Afrodite, mas o pai pretende que ela se case com o gigante Draco. Para conquistar Hermione, Cadmus tem de enfrentar um dragão que intimidava toda a gente. Morta a besta, Cadmus recolhe os seus dentes e semeia-os sobre a terra, mas cada um deles se transforma num guerreiro que, incitado por Marte, lhe dá combate. Cadmus está à beira de ser subjugado por esta inesperada multiplicação de inimigos quando é salvo por intervenção divina: o Amor espalha a discórdia entre os guerreiros, que acabam por chacinar-se uns aos outros. Falta agora enfrentar Draco, que é um adversário formidável, mas Atena está do lado de Cadmus e transforma o gigante numa estátua de pedra.

Obra: Esta tragédie lyrique marca o início da colaboração de Jean-Baptiste Lully (1632-1687) com o libretista Philippe Quinault (1635-1688) e irá definir os moldes da ópera francesa durante os próximos 100 anos.

[Dueto do IV acto, entre Cadmus (o barítono André Morsch) e Hermione (a soprano Claire Lefilliâtre). Com Le Poème Harmonique, dirigido por Vincent Dumestre; a encenação de Benjamin Lazar e a coreografia de Gudrun Skamletz tentam aproximar-se dos usos da época. Esta soberba produção está disponível num DVD editado pela Alpha]

Bellérophon, de Lully

Estreia: 1679, Paris
Monstro: Quimera, descrita como colagem de partes de diversos animais, variando as componentes consoante as fontes e as circunstâncias. Hesíodo faz dela esta descrição: “aterradora, gigantesca, lesta de patas, forte, com três cabeças, uma das quais de um leão de olhar austero, sendo outra de dragão e a do meio de cabra, a qual projecta um temível bafo de fogo”.

Enredo: A rainha Sténobée (Estenebeia), rainha de Argo, apaixonou-se pelo jovem guerreiro Bellérophon (Belerofonte), mas este ignora os seus avanços, e Sténobée, despeitada, consegue fazer, por meio de falsas acusações, que Bellérophon seja expulso do reino e enviado para a Lícia, onde reina o seu sogro, Jobate (Ióbates). Porém, em vez de mandar matar Bellérophon, como Sténobée esperava, Jobate concede-lhe a mão da sua filha, Philonoé, o que deixa Sténobée ainda mais furiosa. Esta recorre ao mágico Amisodar, que envia um monstro – a Quimera – para devastar a Lícia. Este semeia a destruição e a morte até que Bellérophon, montado em Pégaso, um cavalo alado providenciado por Atena, o mata.

Obra: Mais uma ópera de Lully sobre um exterminador de monstros, desta feita com libreto de Thomas Corneille. Foi um dos grandes sucessos de Lully e continuou a ser representada após a sua morte, até 1773, caindo num sono que só seria interrompido em 2010 por Christophe Rousset e Les Talens Lyriques.

[Final, pelo Choeur de Chambre de Namur e Les Talens Lyriques, dirigidos por Christophe Rousset, ao vivo na Opéra du Château de Versailles, 17 de Dezembro de 2010]

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Persée, de Lully

Estreia: 1682, Paris
Monstro: Medusa, a mais famosa das três górgonas (as outras são Esteno e Euríale), monstros imortais com aspecto de mulher mas com serpentes venenosas em vez de cabelo e cujo rosto era tão terrível que convertia em pedra quem o fitasse directamente.

Enredo: O reino da Etiópia está a ser devastado por Méduse (Medusa), e o rei Cephée propõe a Persée (Perseu) conceder-lhe a mão da sua filha Andromède (Andrómeda) se ele livrar o reino do terrível monstro. Persée tem a seu favor uma espada forjado por Vulcano, um capacete oferecido por Plutão que confere invisibilidade e um escudo de diamante oferecido por Atena e, usando o escudo como espelho, consegue decapitar Medusa sem a fitar directamente.

Obra: Mais uma colaboração Lully-Quinault. A ópera teve várias reposições nas décadas seguintes, uma das quais, em 1770, para abrilhantar o casamento do futuro Luís XVI com Maria Antonieta, que, ironicamente, acabariam ambos como Medusa – sem cabeça.

[Excertos e entrevista de Hervé Niquet, líder do ensemble Le Concert Spirituel, sobre a recriação da versão de 1770 de Persée, cuja gravação, realizada na Opéra du Château de Versailles, foi lançada em 2017 pela editora Glossa)] 

Aci, Galatea e Polifemo, de Handel

Estreia: 1708, Nápoles
Monstro: Polifemo, cíclope, isto é, um gigante com um só olho, situado no meio da testa.

Enredo: O cíclope Polifemo tenta seduzir a ninfa Galatea, mas esta rejeita os seus avanços – provavelmente também os rejeitaria mesmo que não estivesse apaixonada pelo belo pastor Acis, pois Polifemo é abrutalhado e ter um único olho situado no meio da testa também não ajuda. Polifemo fica doido com ciúmes e esborracha o rival com um pedregulho.

Obra: Para sermos rigorosos, Aci, Galatea e Polifemo, não é uma ópera mas uma serenata, ou seja, uma ópera sem acção cénica, destinada a abrilhantar um evento (casamento, baptizado, chegada de viagem) envolvendo figuras da realeza. Foi composta em 1708, tinha Handel apenas 23 anos, durante a sua estadia em Itália, e destinou-se, provavelmente, a abrilhantar o casamento de Tolomeo Saverio Gallo, Duque de Alvito, com Beatrice di Montemiletto, Princesa de Acaja.

[Excertos e entrevistas com Emmanuelle Haïm, líder do ensemble Le Concert d’Astrée, e os cantores Sandrine Piau (Galatea, soprano), Sara Mingardo (Aci, contralto) e Laurent Naouri (Polifemo, baixo) sobre a gravação realizada para a Erato]

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Andromeda Liberata, de Vivaldi

Estreia: 1726, Veneza
Monstro: Monstro marinho, por vezes identificado como Ketos (Cetus em latim), nome que os gregos aplicavam indistintamente a tubarões, baleias e grandes peixes e que mais tarde seria apropriado pela ciência para designar os “cetáceos”.

Enredo: Cassiopeia, rainha da Etiópia, gabou-se de ser a mais bela mulher do mundo, o que despertou a indignação das nereidas (se houvesse internet, ter-se-iam “incendiado as redes sociais”). Para aplacar as nereidas (ou ninfas marinhas), Poseidon, deus do mar, decidiu punir a presunção de Cassiopeia enviando um monstro marinho para devastar as costas da Etiópia. Quando os aflitos etíopes consultaram um oráculo para saber como pôr fim àquele flagelo foi-lhes respondido que teriam que sacrificar Andrómeda, filha de Cassiopeia. Assim fizeram, acorrentando a pobre rapariga a uma rochedo junto ao mar, mas quando o monstro se aproximou para a devorar, entrou em cena Perseu, o herói-para-todo-o-serviço (ver Persée de Lully), que matou o monstro e libertou Andrómeda.

Obra: Serenata provavelmente destinada a festejar o regresso do Cardeal Pietro Ottoboni à sua Veneza natal, após ter sido anulado o decreto que o banira da cidade por, no Vaticano, onde era figura influente, ter agido em prol dos interesses franceses e contra os interesses da Serenissima Republica. A autoria é atribuída a Vivaldi, pelo menos parcialmente (na época era frequente a criação de pasticci, isto é, óperas resultantes da colagem de trechos de várias óperas de vários autores, o que torna o conceito de autoria difuso). Seja ou não de Vivaldi, é uma obra-prima. A acção começa quando Perseo acabou de matar o monstro marinho e libertar Andromeda.

[Ária “Sovente il Sole”, pelo contratenor Max Emanuel Cencic (Perseo) & Orquestra Barroca de Veneza, dirigida por Andrea Marcon (Archiv)]

Andromeda e Perseo, de Michael Haydn

Estreia: 1787, Salzburgo
Monstro: ver Andromeda Liberata, de Vivaldi

Enredo: ver Andromeda Liberata, de Vivaldi

Obra: Note-se que o autor não é Joseph Haydn, mas o seu irmão mais novo, Michael (1737-1806), que passou a maior parte da sua vida – 43 anos – como mestre de capela em Salzburgo, tendo exercido notória influência sobre o jovem Mozart, que com que ele conviveu e tinha a sua música em grande estima. Michael Haydn deixou copiosa obra no domínio sacro, orquestral e camarístico, mas apenas uma ópera – esta Andromeda e Perseo, composta para celebrar o 15.º aniversário da elevação de Hieronymus Colloredo ao posto de Príncipe-Arcebispo de Salzburgo. Leopold Mozart (o pai de Wolfgang) opinou que a ópera mostrava que o compositor era pouco dotado para a música dramática; Mozart Jr., que detestava Colloredo (e que tinha boas razões para isso) deve ter pensado que qualquer música que homenageasse o Príncipe-Arcebispo era um desperdício. O libreto era de Giambattista Varesco, capelão da corte de Salzburgo, que tinha sido o autor do texto da ópera Idomeneo (1781), de Mozart.

[Abertura, pela Deutsche Kammerakademie Neuss, com direcção de Johannes Goritzki]

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The Monster in the Maze, de Dove

Estreia: 2015, Aix-en-Provence
Monstro: Minotauro, criatura com cabeça de touro e corpo de homem, resultante do envolvimento de Pasífae, esposa de Minos, rei de Creta, com um touro branco oferecido por Poseidon a Minos (o boi fora oferecido para ser sacrificado, mas Minos achara o animal tão belo que preferiu ficar com ele, o que levou Poseidon, despeitado, a vingar-se fazendo Pasífae apaixonar-se pelo boi).

Enredo: Minos preferiu ocultar de todos o produto da paixão contra natura da sua esposa e ordenou ao arquitecto Dédalo que construisse um Labirinto de onde ninguém conseguisse sair e colocou no seu centro o Minotauro. Este tinha uma dieta estritamente antropófaga, o que tornava a sua alimentação um quebra-cabeças mais difícil do que se fosse vegan. Quando Minos derrotou os atenienses, impôs-lhes um cruel tributo: a entrega regular de um certo número de jovens de ambos os sexos, destinados a servir de repasto ao Minotauro. Porém, quando da entrega do terceiro tributo, o príncipe Teseu ofereceu-se corajosamente para matar o monstro. De pouco lhe valeria a coragem se Ariadne, filha de Minos (e meia-irmã do Minotauro), não se tivesse apaixonado por Teseu; Ariadne deu instruções a Teseu de forma a poder orientar-se no labirinto, mas, após ter matado o Minotauro, o ingrato príncipe deu de frosques sem sequer se despedir de Ariadne.

Obra: O britânico Jonathan Dove (n. 1959) é dos compositores que mais tem contribuído para a renovação da ópera, nomeadamente através daquilo a que chama “óperas comunitárias”, que requerem um número limitado de cantores profissionais, sendo o resto do elenco constituído por cantores amadores de todas as idades e uma orquestra mista de profissionais e jovens músicos. Uma vez que The Monster in the Labyrinth é uma “ópera comunitária” e prevê que parte do público e dos intérpretes seja muito jovem, o libreto de Alasdair Middleton omite as partes mais cruentas e sexuadas do mito original e transporta a acção para um tempo que poderia ser o nosso.

[Excertos e comentários do maestro Simon Rattle, relativos à estreia da ópera, em versão francesa, no festival d’Aix-en-Provence, em 2015]

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