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Em Novembro, Tiago honrou a linhagem da qual descende e abriu uma taberna (chamada adega). Com 50 vinhos portugueses e petiscos para forrar o estômago, quer ver os boémios de outros tempos regressar ao Bairro Alto.

Etelvina. Assim se chamava a avó de Tiago Pinheiro Alves. E abrir um estabelecimento, com adega como prefixo, é na verdade uma homenagem. "Aliás, é uma homenagem às mulheres da minha família. A minha bisavó emigrou para o Brasil com 14 anos, sozinha, sem saber ler nem escrever. Casou em Manaus e abriu a Casa Baliza, uma taberna. Em 1930, voltou para Lisboa – grávida de gémeos, um deles o meu avô – e abriu uma taberna na Rua do Paraíso. O meu avô casou-se com a minha avó Etelvina e abriram a terceira taberna da família. A minha mãe e eu fomos criados nessa taberna", conta.
Mais do que uma segunda vida – Tiago foi, durante 13 anos, um dos sócios da badalada Taberna da Rua das Flores –, a Adega Etelvina mas parece uma sina. Cansado dos encargos da restauração e dado o interesse crescente por vinhos, no novo projecto, que abriu em Novembro, cabem 50 referências de vinhos, todas de produção nacional. Não há cerveja (algo que anuncia com satisfação) e os acepipes e petiscos são humildes complementos à copofonia.
Em três palavras: "comida da avó". Tibornas, conservas, quejios, carnes frias, boquerones e ostras da Ria de Aveiro. Depois, alguns petiscos quentes também para picar e que vão variando. É comum apanhar lulas recheadas e alcatra estufada.
Mais uma vez, sem desprimor para os sólidos, quem aqui vem, vem pelo vinho. É um espaço para entendidos, mas também para quem não quer levar o vinho que bebe demasiado a sério. A adega é pequena, mas tem lugar para todos. "Hoje em dia, o vinho é visto de uma forma um bocado snob, de uma forma que quase afasta as pessoas. E não tem que ser isso. Não precisas de ser um sommelier para apreciar um bom copo de vinho. Podes vir aqui para conversar sobre fermentações malolática, mas não acho que seja isso que o público procura", admite. A frase "não percebo nada de vinhos" é recorrente. De trás do balcão, Tiago responde quase sempre: "Sabes do que gostas e do que não gostas. Não precisas de saber mais do que isso."
Com a Adega Etelvina quis vir ocupar um buraco no mercado. Os bares de vinhos abrem a bom ritmo em Lisboa, mas o foco nos vinhos naturais, bem como os preços praticados, na maior parte dos casos, afastam o público local. "Aqui tenho uma mistura interessante e cuidada daquilo que são os vinhos naturais e de baixa intervenção e os vinhos clássicos. Porque o português não gosta de vinhos naturais. E a maior parte dos [novos] bares são só vinhos naturais", remata.
A selecção é vasta. Inclui tintos, brancos, verdes, rosés, espumantes. Como em qualquer outra área, também aqui há tendências para tomar nota. "Estão a voltar os palhetes e os claretes, que são vinhos de pouco extracção. E a tendência que vejo é os tintos mais leves. Já ninguém procura aquele tinto alentejano pesadão, com 14% de álcool, muita madeira, muito açúcar, muita fruta. Aliás, o próprio Alentejo está a mudar", explica.
Num bar onde todos os vinhos podem ser servidos a copo, os preços começam nos 4€ (14€ a garrafa). Tiago é o primeiro a reconhecer o esforço em criar uma carta democrática. "É muito mais fácil seres um bar de vinhos caro. O difícil é estares no meio, conseguires ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, descobrires cooperativas e produtores mais pequenos e mais escondidos, ou seja, vinhos que sejam igualmente bons e que possas vender a um bom preço. Porque, lá está, toda a gente tem direito a beber um copo de vinho sem ter de pagar 7€ ou 8€", completa.
A missão da Adega Etelvina é dupla, no entanto. Ao mesmo tempo que quer trazer bons vinhos e preços justos, veio parar à Travessa dos Fiéis de Deus numa tentativa de ressuscitar o velho Bairro Alto, um dos pontos da cidade mais moldados pelo turismo de massas. "Ao mesmo tempo, há um grupo de pessoas que tem vindo a fazer o trabalho inverso. Há uma série de novos restaurantes, não falando nos clássicos, que funcionam e têm sucesso. Há uma série de bares a abrir no sentido oposto. Temos de fazer alguma coisa pela cidade e pelo Bairro Alto. Era muito mais cómodo para mim ter ido para a Penha de França ou para Arroios, mas é este sentido de missão", refere.
Ao balcão da adega (sim, porque não há mesas) sentam-se pessoas para tomar um copo ao final da tarde, outras para improvisar um jantar ligeiro e outras ainda aparecem mais tarde para conversar noite dentro. Embora a morada seja numa pacata travessa, a localização não deixa de ser estratégica – estamos a meio caminho entre Teatro do Bairro, Cinema Ideal, São Luiz e Teatro da Trindade, o que tem feito deste pequeno espaço um ponto de encontro para os espectadores. Entre eles, Tiago já começa a ter clientes habituais. Afinal, parece que é mesmo possível voltar ao Bairro Alto.
Travessa dos Fiéis de Deus, 74 (Bairro Alto). Ter-Qui 18.00-02.00, Sex-Sáb 18.00-03.00
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