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No Polémico, António Lobo Xavier quer ter boa comida, ambiente descontraído e preços acessíveis

O restaurante, eleito o favorito do público nos últimos TheFork Awards, fica no Rato. A carta muda de dois em dois meses, as influências são várias e os pratos são simples, mas conquistam qualquer um.

Beatriz Magalhães
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Beatriz Magalhães
Jornalista
Polémico
Rita Chantre | António Lobo Xavier, chef e um dos proprietários do Polémico
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Já lhe chamaram muitas coisas: neo-tasca, tasca moderna, fine dining com pratos de tasca. António Lobo Xavier não se fica por nenhuma das definições. Decide antes chamar o seu restaurante pelo nome: Polémico. “Achámos que Polémico era um bom nome por sermos quatro amigos novos com vontade de trazer a Lisboa um restaurante aonde se possa ir comer bem e estar com amigos, e que tenha um serviço de fine dining – com os guardanapos de pano, por exemplo –, mas, ao mesmo tempo, super amigável”, explica o chef à Time Out. Quando chegamos ao Polémico, é exactamente isso que encontramos.

Passando as portas de vidro e os pesados cortinados verdes à entrada, deparamo-nos com a primeira sala do restaurante e, mais à frente, a cozinha aberta. As mesas de madeira, as cadeiras e o balcão da cozinha verdes, a pedra exposta nas paredes e a meia-luz tornam o espaço acolhedor. Na sala ao lado fica o bar e uma mesa oval – aliás, a mesa comunitária. Depois da cozinha, percorrendo o corredor, temos a última sala. O tecto é retráctil, o que é útil nas noites quentes de Verão, e a decoração mantém-se simples: de um lado, a parede está revestida com uma colagem de fotografias e textos, do outro, as prateleiras expõem objectos diversos (incluindo um Labubu).

Os funcionários com quem nos cruzamos são simpáticos e o ambiente descontraído. Sentados à mesa há, sobretudo, grupos de amigos. Alguns talvez sejam os regulares de que António Lobo Xavier nos fala: “Quando abrimos, começámos a perceber que tínhamos repetentes – pessoas que vinham uma vez por semana, ou de duas em duas semanas.” Então, sentiram “que, passado três vezes, as pessoas já tinham provado tudo do menu” e, por isso, passaram “a mudar o menu de dois em dois meses”. 

Há apenas duas propostas que se mantêm sempre na carta. A alga crocante com tártaro de novilho e gema curada (9€/duas unidades) é uma delas – e percebe-se porquê. É gulosa, viciante até. A outra é a Maria (6€), uma sobremesa de bolacha que vai buscar o seu nome à avó do chef. “A minha avó não cozinhava muito bem e o meu avô odiava doces. Ele estava habituado àqueles bolos de bolacha com camadas e natas, então a minha avó decidiu triturar a bolacha toda e tirar as natas, o leite condensado e tudo o que fosse um bocadinho esquisito. É como se fosse um salame de bolacha, só que em vez de fazer com a bolacha torrada, fazemos com a bolacha Maria”, explica.

Polémico
Rita Chantre
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Rita Chantre

O menu é fruto de inspirações várias. “O Polémico nasce da mistura de imensas coisas. Nasce de influências francesas, japonesas, portuguesas – de tudo o que nos lembramos”, diz o chef de 26 anos, que antes de abrir este restaurante há cerca de um ano, esteve à frente da cozinha do Chez Chouette. Antes disso, já tinha trabalhado no Belcanto, de José Avillez; no Boubou’s, de Louise Bourrat; e no Bocca e no Flow, no Porto, de onde é natural. Em Setembro do ano passado, abriu o Sem Côdea, no Cais do Sodré, com sanduíches e cocktails de autor.

Desta vez, para criar a nova carta, houve vontade de dar destaque à cozinha francesa. Para couvert, além do pão de massa mãe, fornecido pela Padaria do Miguel, na Parede, com manteiga de tomate seco e manjericão (3€), há terrine de foie gras (16€). Também temos alho francês assado, creme de cebola e parmesão (14€), raia à meunière (frita em manteiga) com alcaparras e puré de batata (25€), e lula de anzol cozinhada a baixa temperatura com beurre blanc e espinafres (18€), uma das estrelas do menu.

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Rita ChantreAlga crocante com tártaro de novilho e gema curada
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Rita ChantreCrudo de lírio dos Açores com ponzu da casa e salsa

Não se ficam atrás o crudo de lírio dos Açores com ponzu da casa e salsa (16€), a foccacia de biqueirão e aioli de azeitona (7,50€/duas unidades) ou o arroz de forno com fraldinha (28€) servido numa travessa de barro, que é, sem dúvida, um dos pratos mais consistentes. Não podemos esquecer ainda os pastéis de massa tenra de berbigão e aioli de coentros (9€/duas unidades), as chalotas e burrata em massa folhada (14€), o bacalhau fumado com batata palha e ovo a baixa temperatura (15€), e finalmente o kiev de corvina com emulsão de alcaparras e pico de gallo (17€). Para sobremesa, além da Maria, há rabanada com vinho da Madeira, crême fraîche e caramelo (7€). 

Na base de cada um dos pratos, que são pensados para partilha, estão três coisas muito importantes para António Lobo Xavier: um produto de qualidade, uma abordagem simples e um preço acessível. Este último é aquele que o chef mais reitera. “Queríamos que as pessoas pudessem provar o máximo de coisas diferentes e não pagar um preço absurdo – que é o que começa a acontecer em qualquer lado.”

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Rita ChantreLula de anzol cozinhada a baixa temperatura com beurre blanc e espinafres
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Rita ChantreArroz de forno com fraldinha e chouriço

Numa altura em que se fala tanto da crise na restauração, é impossível dizer que no Polémico também não se sintam os efeitos, ainda que ligeiros. “Nós somos uns bebés autênticos – bebés na idade e neste sítio. Portanto, claro que sentimos um bocadinho [a crise]. Sentimos principalmente em Junho, durante os Santos Populares. Hoje em dia, tentamos ser o mais dinâmicos possível para não ter casa vazia”, diz. 

Uma das formas de combater a “casa vazia” é o Wine’s Day, às quartas-feiras, em que abrem uma garrafa de vinho de seis litros “mais especial”, que é depois vendido a copo. “Introduzimos o Wine’s Day para trazer pessoas. Sabemos que tão cedo não vai parar de ser difícil, mas estamos a tentar os possíveis e os impossíveis para continuar. Neste momento, não nos podemos queixar.” No final de 2025, o restaurante foi, aliás, eleito o favorito do público nos TheFork Awards.

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Rita Chantre"Maria", sobremesa de bolacha

Por falar em vinho, a carta tem inúmeras referências nacionais: verdes de Melgaço e Penafiel, da Graça da Pedra e Gazalha; brancos do Dão, da Bairrada ou do Alentejo, da Quinta dos Carvalhais ou Herdade Papa Leite; e tintos do Douro e do Alentejo, da Dinâmica Filipa Pato ou da Letra F. “O nosso vinho mais barato é um verde que está nos 15€. Também temos vinho de 20€ e vinho para quem gosta de gastar mais dinheiro. A ideia é oferecer um serviço descontraído, mas bom e a preços acessíveis”, realça o chef.   

Há ainda rosé, espumante e champanhe, e cocktail e mocktail do mês (10€ e 6€, respectivamente). Outros cocktails incluem reinvenções como o bulhão-pato (10€), vodka, Porto branco, coentros, salsa e limão; o mango lassi (14€), tequila, manga e cardamomo; ou o negroni português (10€), per se, moscatel e gin.

Rua do Sol ao Rato, 61A (Rato). Ter-Qui 19.30-00.00, Sex-Sáb 19.30-01.00

As últimas de Comer & Beber na Time Out

A Gala Michelin aproxima-se – e nós já sabemos alguns detalhes sobre a cerimónia de 10 de Março. O relançamento de Henrique Sá Pessoa, fora do grupo Plateform, deve acontecer antes – e o chef espera nada menos do que duas estrelas Michelin. "Até ambiciono mais", disse em entrevista à Time Out. Nos Prémios Mesa Marcada, o Ocean foi eleito o melhor restaurante e Avillez o melhor chef. Leia ainda sobre os novos Goose, Kosuke Saito, 11:11, Mattarello e Jacca.

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