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Goose: o sonho de Francisco Froes já é um ponto de encontro na Lapa

Lobster rolls, sandes de rosbife e tártaro são alguns dos imperdíveis no pequeno restaurante do actor.

Andreia Costa
Escrito por
Andreia Costa
Goose
Gonçalo Santos
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Aconteceu por acaso: no meio da azáfama da primeira semana, Francisco Froes fez um pedido banal à responsável pela cozinha, Paula Grings. “Temos uma opção que é rosbife no prato [com molho de anchovas, nozes, pimentos guindilla e rúcula, 16€] e, um dia, estava cheio de fome e perguntei: ‘Não dá para colocar uns pedaços de rosbife no pão, uma coisa rápida’?”, recorda o responsável pelo Goose, o novo restaurante da Lapa. Paula alinhou mas dedicou-lhe tanta atenção como se fosse para um cliente. E, assim, criou algo que ganhou entrada imediata no menu. A sandes de rosbife com maionese picante (16€) vem para a mesa dividida em duas metades e, quem se distrair, fica sem nada. O pão (shokupan, um brioche japonês) é crocante, a carne da vazia suculenta e o molho picante o toque final que torna esta sandes numa escolha obrigatória.

O actor Francisco Froes viveu durante 12 anos nos EUA, onde trabalhou paralelamente em alguns restaurantes. “Primeiro em Nova Iorque, num sítio que se chama Café Gitano, no Soho, pequenino, um franco-marroquino. Depois, durante dez anos, no WeHo Bistro [em Hollywood] que era um restaurante de brunch. Acabei por ficar gerente e braço direito do dono. Tomei muitas decisões estratégicas e isso deu-me imensa experiência na área”, recorda. 

Goose
Gonçalo SantosAs sandes de couve-coração e de rosbife do Goose

De regresso a Portugal, percebeu que a representação não era suficiente, tinha saudades da restauração. “Gosto do contacto com as pessoas, gosto da forma como isso até me inspira. Conhecemos pessoas novas, recebemos essa energia e isso acaba por nos abrir um bocadinho a cabeça.” A viver na Lapa, há quatro anos que passava diariamente em frente a este espaço, onde funcionava um típico snack-bar. Conseguia visualizar o potencial do local e sabia que fazia falta um ponto de encontro no bairro – e é precisamente isso que pretende com o Goose. “Estamos sempre todos enfiados nas nossas casas e deixamos de ter aquela coisa de vila, não é? O que eu mais queria era poder ligar-me às pessoas aqui à volta, e isso tem acontecido cada vez mais.” 

Além disso, havia neste espaço de esquina uma ligação sentimental que Francisco jamais encontraria noutro lugar. “O meu avô tinha uma casa nesta rua, o meu pai tinha uma casa nesta rua... Havia um simbolismo engraçado e, quando as coisas estão certas, começamos a encontrar sinais em todo o lado”, conta.

Demoraram cerca de um ano a negociar com o arrendatário. Em Junho de 2025 fecharam o negócio, um mês depois começaram as obras e, a meio de Outubro, abriram as portas. “Tenho um grupo de WhatsApp com muita gente aqui da Lapa e mandei uma mensagem que dizia: ‘Pessoal, estamos abertos, open bar. Não vamos servir comida, mas há tremoços e azeitonas. Venham’. E as pessoas apareceram, com carrinhos de bebé, com crianças, estava uma noite de Verão. De repente, foi brutal ver este sítio a respirar vida.”

Goose
Valerio Barbarossa

Cerca de três meses depois, é sexta-feira, passam poucos minutos das 19.00 e as mesas vão-se enchendo de portugueses e estrangeiros. Consciente das mudanças na Lapa nos últimos anos, com muitos expats, Francisco Froes queria também que o Goose fosse um ponto de união entre as comunidades de várias línguas. “Eu sabia que conseguia trazer os portugueses, mas queria ter a sensação de que estava num sítio que também pudesse juntar organicamente os estrangeiros. E é isso que se tem tornado.”

Na parede à direita da entrada, dois espelhos enormes suspensos dão profundidade ao espaço. Há mesas ao longo de um banco em L com almofadas e um balcão alto que oferece uma vista privilegiada para o que se passa na cozinha aberta. O espaço é pequeno, mas acolhedor e moderno – o projecto ficou a cargo de Miguel Mouzinho. 

No interior sentam-se 18 pessoas e na esplanada, delimitada por dois bancos de jardim numa rua calma, há lugar para mais 20. No Inverno, desde que não esteja a chover, os aquecedores de exterior dão o conforto necessário para ficar por ali. Lá mais para o Verão haverá mais um balcão com alguns lugares, já que a janela que dá para a zona da cozinha passará a estar aberta para a rua. 

Goose
Valerio Barbarossa

Desde que o Goose abriu, Francisco (que conta com mais dois sócios) não tem estado a gravar nenhum projeto televisivo ou de cinema, o que lhe permite estar mais presente, exactamente o que queria na fase inicial. Contudo, diz confiar plenamente na equipa. “O que é essencial em qualquer negócio é termos pessoas melhores do que nós a trabalhar, que vestem a camisola, que se sentem respeitadas e bem tratadas.” 

Iris Cayatte, funcionária e também actriz, e Paula Grings são dois dos talentos que não se cansa de elogiar. Foi esta última que desenvolveu o menu em colaboração com Francisco. “Já andava há algum tempo a guardar receitas do género de coisas que eu tinha imaginado para este espaço, mas é um menu que tem de ser adaptado às limitações da cozinha. É tudo feito por uma pessoa, é tudo feito à vista, e não dá para fazer coisas como um bife com batatas fritas.”

O que vai ser?

Goose
Gonçalo SantosBurrata com tomates secos, figos, dióspiro e nozes

O menu foi pensado para ser partilhado, começando pelas batatas trufadas com maionese picante (8€). São palitos com casca, perfeitos para acompanhar, por exemplo, a sandes de rosbife ou o lobster roll. Provámos ainda a burrata com tomates secos, figos, dióspiro e nozes (16€) que chega à mesa com pão da Padaria doBeco, o crudo de atum com ameixa (18€) e o tártaro de novilho com nozes, shiitake e Grana Padano (18€).

Precisamos de um momento para nos recompormos deste prato. 

Ok, aqui vamos nós: o tártaro faz-se de coração de alcatra temperada com vinagrete, shitake confit e castanhas do Brasil. No topo, o queijo Grana Padano ergue-se como a coroa do prato, mas nem era necessário tanto, porque o que vem por baixo, escondido como um segredo, já é suficientemente rico. Trata-se de umas fatias de polvilho azedo panado. É incrivelmente crocante, é salgado, é a jangada perfeita para encavalitar o tártaro numa viagem até à boca. “Há quem venha cá pelo polvilho”, conta Francisco, e percebe-se porquê. A memória deste tártaro fica na cabeça até ao final da refeição – e mesmo depois disso.

Goose
Gonçalo SantosO tártaro do Goose

Para aligeirar, há salada de funcho, laranja, cebola roxa e azeitonas com citronete, pesto de beterraba e couve kale tostada (16€), onde a velha expressão de que os olhos também comem se aplica. Tudo é colorido e bonito. Segue-se o mais recente reforço: lobster roll, coleslaw e morcela crocante (23€). “Desde que entrou no menu, há cerca de um mês, tem sido um bestseller. Estivemos muito tempo a ajustá-lo e a Paula deu-lhe um toque português, com morcela tostada no topo. Ela está sempre à procura de apontamentos portugueses para podermos pôr aqui e ali.” Prova superada. O pão brioche é alto e fofo, servindo de cama para pedaços de lagosta com manteiga de paprica e coleslaw com spicy mayo da casa, terminando com a crocância da morcela. A tarefa fica difícil para o candidato que vier a seguir a isto, mas ainda há sobremesas para provar. Seguimos caminho com coragem. 

Terrina de chocolate com uvas balsâmicas, chantilly e praliné (8€) ou bolo malva com ganache de iogurte e dióspiro (8€). Este último há-de desaparecer quando o dióspiro deixar de ser fruta da época, por isso o relógio está a contar. 

Goose
Gonçalo SantosBolo malva bolo malva com ganache de iogurte e dióspiro

Lá vai o ganso

O nome, Goose (ganso), impôs-se sozinho. “Passava aqui à porta com os meus cães, antes disto ser meu, e quando imaginei o espaço, o nome veio-me à cabeça e não tive a menor dúvida de que estava certo.” Num espaço despretensioso, as peças juntaram-se com o que podiam pagar, admite Francisco. O certo é que o ambiente é clean, os pratos escuros com pintas são da Cerâmicas da Linha, há bancos e mesas pequenas, onde as pessoas se encaixam sem estarem preocupadas por terem o vizinho do lado tão perto.

Por cima da cozinha aberta está uma bola de espelhos porque… porque não? “Simplesmente, fez sentido.” O Goose também vive de música, com um vinil sempre a tocar, que Francisco vai trocando . “Queria que as pessoas entrassem aqui e se sentissem um pouco irreverentes, soltas.” 

Sextas-feiras e sábados já enchem a sala com dois turnos, o primeiro a começar por volta das 19.00, o segundo um pouco depois das 21.00 — neste momento, o Goose só serve jantares, mas lá para Fevereiro deverá acrescentar um brunch à festa. Também é possível fechar o restaurante para grupos. “Ficam em pé, a conversar, é quase como se estivessem na sala lá de casa com a Paula a cozinhar para elas.”

Goose
Valerio Barbarossa

Além da comida, há para acompanhar os tradicionais cocktails – margarita (10€), gin tonic (9€) ou negroni (10€) –, mas também whisky sour com licor de milho ou um martini com uma alcaparra gigante, ingrediente que usam nos pratos. Estes últimos não estão no menu, mas podem ser pedidos. Cervejas, água e vinhos complementam a carta. Há opções a copo que começam nos 6€, como o Conde Vimioso (tinto) ou o Monte da Penha (branco), assim como garrafas a partir de 24€.

O Goose ainda agora nasceu, mas já corresponde totalmente ao sonho de Francisco Froes. “É um bocadinho como na realização, quando escrevemos um guião e filmamos. Depois vamos ver o filme e percebemos: ‘Aquilo que imaginei na minha cabeça está aqui vivo’. É uma dopamina sem igual.”

Rua dos Remédios à Lapa, 19 (Lapa). Ter-Sáb 18.00-00.00

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