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No Mattarello, as pastas frescas e as pinsas são as estrelas, mas a carta começa pelas sobremesas

Também há tábuas de queijos e enchidos italianos e sangrias feitas à vista de todos. Francesco Giorgi pegou nas receitas da avó e das tias, pendurou fotos antigas e estendeu as toalhas de xadrez vermelho na Avenida da República.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Mattarello
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Não, não é um erro de impressão. O menu começa pelos doces porque para Francesco Giorgi, responsável pelo Mattarello, cada cliente deve tentar calcular à partida quanto espaço vai querer reservar para as sobremesas antes de atacar a restante carta. E assim, este artigo seguirá a mesma ordem, trazendo-as logo para o primeiro parágrafo. Sem mais suspense, há crazy panna cotta (5€), com coco, rum e topping de frutos vermelhos; semifrio com amêndoas, avelã e chocolate quente (5€) e o clássico tiramisù (6€), que é servido dentro de uma cafeteira antiga. Cremoso e fresco, é o final – e, neste caso, o arranque – perfeito de uma tradicional refeição italiana. 

É precisamente de tradição, memória e comida de conforto que vive o novo restaurante da Avenida da República. As mesas estão cobertas com toalhas de xadrez vermelho e branco e nas paredes há recortes de jornais desportivos, filmes clássicos, utensílios de cozinha e fotos de família. São da colecção pessoal de Francesco, o dono, que se mudou para Lisboa há três anos – já tinha o irmão a viver em Portugal e esse foi um dos seus maiores incentivos. O outro foi ter percebido que havia espaço para abrir um restaurante. Assim nasceu L’Osteria Italiana, o seu primeiro projecto na cidade. Correu tão bem que Francesco foi pensando na possibilidade de um segundo, que nasce agora no espaço de uma antiga tasca portuguesa. “Há muito tempo que sonhava com um espaço pequenino com conceito italiano, com comida típica italiana e massas frescas cuja preparação os clientes pudessem ver”, conta à Time Out.

Mattarello
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Esse é um dos elementos diferenciadores do Mattarello. Assim que entramos, encontramos atrás do balcão, do lado direito da sala, alguém a enfarinhar a bancada, a estender a massa e a reservá-la cuidadosamente para que depois seja cozinhada. Há vários tipos (já lá iremos), todos preparados diariamente e de forma artesanal.

Os produtos que depois se juntam às pastas vêm de Itália e chegam várias vezes por semana. Nas entradas, é incontornável a bruschetta Itália (6€), com pão torrado a servir de base para as camadas de tomate cherry, burrata, pesto de manjericão e azeitonas. É pouco provável que precise de mais alguma coisa, mas na mesa estão sempre azeite, vinagre balsâmico, sal e pimenta. Se a refeição for pelo menos para duas pessoas, la nostra treccia di bufala (18€) é uma boa alternativa. Na tábua de madeira comprida convivem enchidos italianos, pinsa quente e grissini rústico. Para acompanhar, venha uma sangria de maracujá (18€). Chega à mesa um jarro com fruta, gelo e licores e a garrafa de espumante é aberta já à frente do cliente. 

Mattarello
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Herança de família

Nascido no sul de Itália, na Calabria, Francesco Giorgi trabalhou mais de 20 anos em restauração, em Roma, antes de se mudar para Lisboa. Está muitas vezes presente na sala – onde vai tomando nota dos pedidos dos clientes, apesar de ainda não perceber todas as frases portuguesas se falarmos muito depressa – e vai dando um pulo à cozinha, onde o próprio é capaz de dar uma ajuda em caso de necessidade. Foi entre as panelas fumegantes a transbordar de pasta que cresceu e há um legado que se sente orgulhoso de cumprir.

Nas paredes estão fotos de mulheres de mangas arregaçadas, rodeadas por massas de inúmeros feitios. “Esta é a minha tia, esta é a minha nonna [avó]...”, vai enumerando. “A minha família tinha um espaço pequeno que fazia massa fresca para levar, era tudo para takeaway. No cantinho servia-se a comida e havia quem levasse o vinho de casa e comesse ali.”

Apesar de ter estudado gestão de empresas, sempre soube que esse conhecimento serviria para gerir um restaurante. A paixão é tal que faz questão de ter o Mattarello aberto todos os dias, contando com uma equipa de 25 pessoas que se divide em vários turnos. “Durante a Covid tivemos os restaurantes fechados demasiado tempo, agora não quero descansar”, justifica. A sala tem espaço para 50 pessoas e a esplanada senta mais 20. A maioria dos clientes é portuguesa, garante Francesco, fazendo deste espaço o ponto de encontro ideal para quem vive na zona (sobretudo ao jantar) ou uma escolha segura para quem trabalha por ali (ao almoço).

Mattarello
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E os pratos que saem mais, quais são? A pappardelle tartufata (18€), com creme de trufas, natas, parmesão, tartufo fresco e burrata; e o strozzapreti della mamma (15€), com almôndegas, tomate e queijo pecorino. O maccheroncini stracotto (14€) tem uma carne desfiada e cozinhada seis a oito horas; e o maccheroncini caseiro (13€) é a típica bolonhesa. Há dias em que é só mesmo isso que o estômago pede: algo simples, clássico e saboroso, com a receita que Francesco sempre comeu em casa, desde miúdo. 

Há ainda mais nomes para dizer com pronúncia italiana: raviolo, caramelle, spaghettoni, strozzapreti, mas o segredo está na qualidade dos básicos. “O nosso cavalo de batalha, sinceramente, é o spaghetti amore (simplesmente com molho de tomate, burratina e pesto, 14€), feito como antigamente, com tomate e massa fresca. É comida de conforto, remete-nos para a infância.”

Pinsa time

As pinsas são outro dos destaques e, garante Francesco, são diferentes da maioria. “A massa é leve e tem uma fermentação longa, superior a 48 horas.” A preferida dos clientes tem sido a Favolosa (com mozzarella fior di latte, rúcula, presunto de Parma, tomate cherry, burrata e pesto, 16€), seguida de perto pela Bologna (mozzarella fior di latte, mortadella fior di latte, rúcula e presunto crudo, 15€). 

Mattarello quer dizer rolo, mais especificamente o rolo que estende a massa das pastas. Há muitos, com diferentes tamanhos e ranhuras, pendurados nas paredes. Ao fundo, do lado direito, ergue-se também uma estante repleta de frascos de tomate, azeitonas, pickles e azeite – quase como se fosse uma versão em ponto grande da despensa da avó. “Queremos que seja um lugar familiar, com algum saudosismo.”

Para Francesco, o segredo do negócio não é complexo. “É importante saber cozinhar e fazer com o coração. O cliente deve ser o rei quando chega. Porque o cliente, graças a Deus, é aquilo que no final do mês garante o nosso trabalho. Devemos prestar um serviço com alegria em tudo, desde a forma como cozinhamos à simpatia com que recebemos, para que ele queira voltar. Queremos que se sinta em casa mas que tenha a oportunidade de dizer: ‘Hoje não me apetece cozinhar, mas aqui vou comer bem’.” 

Av. da República, 20. 215 865 511. Seg-dom 12.00-23.00

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