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Barulho, cozinha criativa e outros encantos de um restaurante sem conceito

Começou com uma ideia imprecisa do que poderia ser um restaurante no centro de Lisboa. Hoje, o Entropia é o recreio de José Bonneville, um chef que brinca na cozinha para depois servir à mesa.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Entropia
RITA CHANTRE
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A sala é pequena e barulhenta, mesmo numa noite de quarta-feira, que, sem surpresa, não foi favorecida pela meteorologia. Não há mais de 30 lugares sentados e também não é sítio para se comer de pé. Desta porta para dentro, procura-se proporcionar conforto – no serviço, na acomodação, mas sobretudo no que se põe na mesa. O Entropia abriu em Junho, na Bica, e – garantem os proprietários – tem sido um entra-e-sai que nem os próprios anteciparam. Afinal, numa cidade povoada por ementas cheias de especificidade, não é todos os dias que entramos num restaurante sem conceito. Não é desleixo ou falta de ideias. Quem cozinha prefere manter tudo em aberto.

"Começámos com a ideia de fazer uma tasca muito portuguesa. Depois, como somos os quatro do Instituto de Espanhol, quisemos tornar a coisa meio ibérica. Com o passar do tempo, as coisas foram mudando e chegámos a um ponto em que eu só dia que queria ser um restaurante, sem estar limitado por nenhum tipo de comida. Não queria conceitos", começa por explicar José Bonneville, o chef de serviço.

O empreendimento envolveu mais três sócios, os irmãos Francisco, Guilherme e Pedro Caiado, todos engenheiros. Foi deles que partiu a ideia de abrir um novo restaurante onde anteriormente funcionava um outro, a Casa Liège. Um serviço pronto e afável – será esse, no limite, o conceito desenhado para este espaço. "Não queremos estar limitados por um estilo. O Entropia nasce daí. Não queremos definir-nos com nada. Somos um restaurante, vamos servir a comida que acharmos que faz sentido", continua o chef.

Entropia
RITA CHANTREA equipa do Entropia, com o chef em cima, à direita

Há vestígios de sazonalidade na carta, ainda que essa não seja uma bandeira. Na cozinha, separada por um balcão, as experiências de Bonneville cruzam diferentes inspirações e influências. Algumas vêem a luz do dia – ou melhor, a pouco luz da sala –, outras não. Vamos encontrar pratos mais ou menos corriqueiros, receitas dentro da caixa, às quais o chef adiciona um factor surpresa.

"Tento sempre fazer um prato a partir do que é familiar e depois meter-lhe alguma coisa, dar-lhe um toque diferente. Tenho um bocado essa escola de agradar às massas, porque trabalhei numa cadeia, então é essa a nossa maneira de olhar para a comida: fazer com que as pessoas encontrem algo de familiar no prato, seja pelo estilo ou pelos ingredientes, mas depois ter também algo de original e diferente, que também o torne entusiasmante de comer. Fazer com que sintam que não comeram aquilo em mais nenhum sítio, apesar de ser um prato que já conhecem."

Entropia
RITA CHANTREO crudo de peixe branco, a tosta de paté de cogumelos e o tártaro

Não é preciso procurar muito para encontrar bons exemplos, até porque o menu não é extenso e vive sobretudo de entradas, tendo apenas dois pratos principais. Comida para partilhar? Também não há esse conceito por aqui – cada um come como quer. Peguemos nos dois grandes sucessos da carta do Entropia: uma tosta de paté de cogumelos (11€) e um tártaro de vaca (13€). O primeiro chega à mesa na forma de uma circunferência perfeita. Traz um ovo frito escondido no interior, de gema cremosa. Leva também vinho do Porto e "iogurte escorrido e temperado", como assinala a carta, a acentuar a cremosidade, presente logo na primeira dentada. O segundo inclui-se no rol de pratos de sabor intenso, já que a carne vem temperada com um ketchup fumado (feito em casa) e limão.

Em menos de nada, multiplicam-se as travessas de inox em cima da mesa. Na hora de escolher o que beber, nenhuma imperial (2,50€) vai desonrar o cardápio do chef, embora os vinhos e cocktails sejam escolhas bem mais empolgantes. Neste último capítulo (8,50€-10€), há cinco opções, cada uma delas preparada a partir de uma espirituosa de base: gin, cachaça, vodka, tequila e whisky. A carta de vinhos surge com 17 referências, todas elas portuguesas. A copo, vão dos 4€ aos 8€. As garrafas começam nos 21€ e chegam aos 74€, preço do Comendinha, o vinho da casa. É alentejano e quis o produtor que chegasse a Lisboa numa colossal garrafa de três litros.

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RITA CHANTREOs dumplings de ricota, cebola e misu

Entre conversas intimistas e a algazarra das mesas de grupo, o Entropia proporciona também este conforto, o da atmosfera cheia, animada, toleravelmente barulhenta. Ainda assim, dá para perceber que há uma playlist. É das poucas coisas feitas fora. Amigos e criativos são desafiados a construir a banda sonora mensal, o que expande consideravelmente o leque musical do restaurante.

No prato, a música continua. O crudo de peixe branco (11€) é especialmente melodioso, com avelãs e sumo de kiwi gold. Ainda assim, não tão surpreendente como ver dumplings chegarem à mesa. Segundo Bonneville, é um "prato de extremos" – ou se fica maluco ou se fica indiferente, nas palavras do chef. Apresentam-se numa travessa de cinco (11€), recheados com ricota e cebola queimada e afogados em misu.

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RITA CHANTRE

A ambição de provar tudo é real, mas não realista. Uma última sugestão do chef (sem desprimor para a salada de aipo, hortelã, noz pecan e parmesão ou para a tortilha com aioli de alcaparras): o beignet (10€). Esta massa francesa frita faz lembrar um dónute, embora a mistura de especiarias (entre outras coisas) pulverizada na parte de baixo deixe estes pastéis com um vago sabor a Cheetos. Não são para comer a seco, servem-se com mostarda de laranja e queijo de cabra.

O departamento de entradas tem material suficiente para uma refeição inteira. Ainda assim, o chef propõe dois pratos principais: robalo com molho brasserie (20€) e bife de picanha com manteiga de vinho (22€). Tampouco as sobremesas foram deixadas em mãos alheias. A estrela é o bolo mascavado ao vapor, com crème fraîche e caramelo de maple (7€).

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RITA CHANTREBeignet, mostarda de laranja e queijo de cabra

A carta quer-se dinâmica, mas não com demasiada rotatividade. Entre apresentar novos pratos e atender a quem se afeiçoou aos que já existem, o Entropia fica no meio. Pode não ser uma tasca tradicional, como a que aqui funcionou durante décadas, mas numa Lisboa super turística, há que saber deixar algumas modernices à porta. Conforto à mesa também é isso.

Rua da Bica de Duarte Belo, 74 (Bica). Ter-Sáb 19.30-23.00

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A Gala Michelin aproxima-se – e nós já sabemos alguns detalhes sobre a cerimónia de 10 de Março. O relançamento de Henrique Sá Pessoa, fora do grupo Plateform, deve acontecer antes – e o chef espera nada menos do que duas estrelas Michelin. "Até ambiciono mais", disse em entrevista à Time Out. Nos Prémios Mesa Marcada, o Ocean foi eleito o melhor restaurante e Avillez o melhor chef. Leia ainda sobre os novos Goose, Kosuke Saito, 11:11, Mattarello e Jacca.

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