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A ‘Liga da Justiça’ é finalmente um filme de Zack Snyder

Durante anos, alguns fãs exigiram que a DC lançasse a ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’. Na quinta-feira, vão fazer-lhes a vontade.

Luís Filipe Rodrigues
Editor
Zack Snyder's Justice League
Photograph: Warner Bros. Pictures
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“Um filme de Zack Snyder”. É uma das primeiras coisas que lemos na Liga da Justiça estreada em 2017 nos cinemas e ainda disponível na HBO Portugal, mas não é verdade. Apesar de ser creditado como realizador, Snyder nunca viu nem sabe ao certo o que acontece nesse filme, porque a sua mulher, Deborah, uma das produtoras, não o deixou. “Sabia que lhe partiria o coração”, disse recentemente numa entrevista à Vanity Fair, que escreveu um longo artigo sobre a atribulada história do filme. Uma história que terá um novo capítulo na quinta-feira, quando a Liga da Justiça de Zack Snyder estrear na HBO.

O novo filme – porque é disso que estamos a falar, de um novo filme – é o que se devia ter estreado em 2017. O terceiro capítulo de uma saga começada em 2013, com Homem de Aço, e continuada em 2016, em Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça, ambos de Zack Snyder, o principal arquitecto do universo cinematográfico da DC, que tinha passado vários anos a trabalhar rumo à Liga da Justiça. Só que depois de os resultados comerciais de Batman v Super-Homem terem ficado aquém das expectativas, e de os fãs e os críticos terem dito cobras e lagartos do que viram, os responsáveis pela DC e pela Warner Bros. perderam a confiança no realizador.

Zack Snyder começou a filmar a Liga da Justiça um mês depois da estreia de Batman v Super-Homem. Com rédea curta. A administração da Warner Bros. ordenou que ou Geoff Johns, na altura o director criativo da DC e um celebrado escritor de banda desenhada, ou Jon Berg, que era um dos vice-presidentes da empresa, estivessem todos os dias no estúdio, para acompanharem a rodagem e controlarem o realizador. Muitas das ideias de Snyder, como um romance entre Bruce Wayne e Lois Lane, foram chumbadas, mas ele continuou a lutar e a tentar defender a sua visão sempre que possível, alienado das críticas. A dada altura, os patrões do estúdio chamaram Joss Whedon para o “ajudar”. 

Pouco tempo depois da chegada de Whedon, a filha de Snyder suicidou-se. Sem forças para continuar a lutar contra um dos maiores estúdios do mundo, abandonou o projecto. Whedon foi convidado a terminar a longa-metragem. Reescreveu o guião, remontou o filme, cortou-lhe quase duas horas e ainda filmou novas cenas. Nos créditos iniciais, no entanto, surge apenas como co-argumentista, ao lado de Chris Terrio. Quando o seu nome aparece no ecrã, um indigente preenche o plano. Antes de o seu nome desaparecer, a câmara foca um papelão colocado junto a seus pés. Lêem-se duas palavras: “eu tentei”.

Nunca foi confirmado pelo próprio, mas pensa-se que foi uma mensagem de Whedon para o público. Fica subentendido um “mas não consegui”. E é que não conseguiu mesmo. Liga da Justiça foi justamente arrasado pelos fãs e pelos críticos; nas bilheteiras, conseguiu apenas arrecadar 650 milhões de dólares – um número que pode parecer bom, mas não chegou sequer para cobrir os custos de produção e de marketing. Supostamente, 70% a 80% das cenas foram filmadas por Snyder. E não têm nada a ver com aquelas que Whedon filmou a seguir. O tom cabisbaixo e o negrume operático de Snyder misturam-se tão bem com a leveza característica das produções de Whedon como a água com o azeite.

O descontentamento com a Liga da Justiça de Joss Whedon fez um número considerável de pessoas começarem a clamar pelo chamado Snyder Cut no Twitter. De ano para ano, os pedidos aumentaram de tom. E, no ano passado, a Warner fez-lhes a vontade. Com muitas produções audiovisuais adiadas por causa da pandemia, a empresa anunciou que ia estrear a Liga da Justiça de Zack Snyder nas plataformas de streaming da HBO. Era fácil, era barato e talvez desse milhões. Snyder tinha uma versão de quase quatro horas do filme no seu computador, mas estava a preto e branco, e sem efeitos especiais. A HBO ainda tentou lançá-la, todavia o realizador não foi na conversa. Exigiu mais 70 milhões para gastar em efeitos especiais e filmar novas cenas. Para fazer justiça à sua visão.

A partir de quinta-feira, a sua visão vai ser partilhada com o mundo. E é bem diferente da de Joss Whedon. Os super-heróis de Snyder são menos humanos que os de Whedon. Não valorizam a vida da mesma forma. Há múltiplos exemplos disto em ambos os filmes, mas um dos mais explícitos é a forma como a Mulher Maravilha lida com os terroristas no início de ambas as versões – matando pelo menos dois homens e causando danos desnecessários a um prédio na visão de Snyder, enquanto no original não matava ninguém. Ambas as sequências partem das mesmas filmagens, dos mesmos planos, porém a forma como Whedon os edita, e aquilo que deixa de fora, faz toda a diferença.

Whedon deixou muito de fora em 2017. Das quatro horas da nova versão, apenas uma e meia se encontra na Liga da Justiça original. Os problemas desse filme eram que, por um lado, Whedon cortou tantas sequências para chegar às duas horas de duração que muitas coisas já não faziam sentido; por outro, as sequências que adicionou, para aligeirar o tom, pareciam fora de lugar, e tentavam transformar a Liga da Justiça num filme que nunca podia ser. A Liga da Justiça de Zack Snyder tem a vantagem de ser o que sempre quis ser. 

O início é consideravelmente diferente do que já vimos, mas a partir daí as semelhanças entre o que acontece em ambas as versões são mais do que as diferenças. Steppenwolf está a tentar reunir três artefactos extraterrestres, as Caixas Maternas (ou Mother Boxes), para refazer o mundo à imagem de Darkseid (um dos mais icónicos vilões dos comics, que não aparecia nem era referido na versão de Whedon), e Batman reúne a Liga da Justiça, e pelo caminho ressuscita o Super-Homem, para salvar o mundo. Acontecia o mesmo em 2017, mas a história estava mal contada. Agora, as motivações das personagens são mais óbvias. 

Com mais de quatro horas de duração, no entanto, o filme de Snyder é pomposo e entediante, falta-lhe ritmo. Mas nada a que não estejamos habituados. Esta Liga da Justiça é Zack Snyder em estado puro, sem cortes nem aditivos. Para o bem e para o (muito) mal.

HBO. Qui (estreia)

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