[category]
[title]
Tradicional e contemporâneo convivem num primeiro andar do Chiado. Há bacalhau, polvo e cabrito, mas também ovo cozido a baixa temperatura e pão de ló com gelado de queijo de ovelha, com assinatura de dois jovens chefs.

A entrada faz-se pela Associação 25 de Abril. É preciso subir até ao primeiro andar, no elevador ou pelas escadas, e aí o espaço ganha outra sofisticação. O verde escuro domina as paredes e acompanha-nos ao entrar na sala, com espaço para 46 pessoas. As janelas dão para um varandim com arcadas e, lá fora, o sobe e desce dos carros na Rua da Misericórdia (no Chiado) nunca abranda. Contrasta com a calma (há música ambiente) e o conforto do interior. Uma das paredes está coberta com cortiça, para isolar o som, e frente a frente, nas duas extremidades da divisão, estão dois sofás amarelos corridos. Há cadeiras vermelhas e amarelas, com design moderno, os tampos das mesas são de pedra e a loiça da marca portuguesa Terrafina.
Aqui, quase tudo tem uma ligação pessoal, começando pelo nome do restaurante. Cravó junta as palavras "cravo" (que remete para a associação) e "avó". Estamos a falar da Dona Alzira, avó de André Ribeiro, um dos sócios, com experiência na restauração através da cadeia Giorno, e que há algum tempo sonhava ter um espaço fora de centros comerciais. "Teve sete filhos, todos homens, portanto imagine o que era cozinhar para sete filhos, sete noras e todos os filhos que essa geração teve", conta Camila Melo, chefe de sala e amiga da família há muito. Ela parece saber tudo, desde a origem dos ingredientes ao percurso do produtor. Desdobra-se de mesa em mesa (embora haja mais três funcionárias a servir) e, em caso de dúvida, desempata. Sommelière de formação, conhece igualmente bem a carta de vinhos. É extensa, praticamente toda portuguesa – “tirando o whisky e a cachaça, só porque não temos produção cá” – e tem uma variedade a copo maior do que é habitual.
Está na hora de nos instalarmos, até porque a carta é extensa. Começa-se com um pão com azeite (4€), que chega à mesa na garrafa de origem, bonita e em forma de balão. É do Prior Lucas, produtor de Souselas que tem igualmente vinhos na carta. Já o pão é de fermentação lenta, de um fornecedor local, o Pão do Farinha, de Camilo Farinha.
Continuamos na companhia do Prior Lucas, desta vez o espumante (6€, copo), para atacar as entradas. A salada de polvo com batata doce e coentros (7€) já é das mais pedidas e podia fazer parte da secção dos peixes. O molusco é cozido e os pedaços, que se desfazem na boca, descansam numa cama de puré de batata doce assada. Tudo se completa com folhas de coentros e vinagrete de limão. Há ainda gambas de coentrada (9€), salteadas em alho, malagueta, temperadas com coentros picados e raspas de limão, ou pica-pau de novilho (7€), acompanhado por pickles caseiros. Aproveite o pão para limpar o molho do fundo do pequeno tacho. Os cogumelos salteados com ovo cremoso (6€) são outra opção (ou será que devemos dizer perdição?). Salteados com alho e azeite, são acompanhados por um ovo cozido a baixa temperatura e lâminas de toucinho fumado: um trio com sabores e texturas diferentes, mas que se encaixam na perfeição. Conte ainda com os carapaus alimados (8€), conservados em salmoura, curados, alimados e braseados na hora. Chegam à mesa em cima de um pedaço de pão torrado e pimentos assados, a fazer lembrar os Santos Populares e o Verão.
Pode ficar só por aqui, a picar. Há, aliás, um menu de grupo só com entradas. Por falar em grupo, para uma ocasião especial ou um evento com privacidade o Cravó tem uma segunda sala, onde pode sentar 12 pessoas. Há lustres antigos por cima do balcão do bar, com a pedra de origem. As paredes mantêm o mesmo verde, as mesas e cadeiras juntam madeira, pedra, laranjas e vermelhos.
Na cozinha estão Rodrigo Simões e Leonardo Silva. Ambos com pouco mais de 20 anos, estudaram na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril. Foi aí que conheceram André Ribeiro, que também lá tinha estudado. “Ele teve a ideia de abrir um restaurante em homenagem à avó e fez-nos o convite de trabalhar com ele. Já tínhamos passado por restaurantes e hotéis, mas este é um desafio de outro nível”, diz Leonardo à Time Out. A carta teve a consultoria do chef Manuel Lino, a carta de vinhos a de Manuel Moreira e as sobremesas ficaram a cargo de Rita Souto. “Por enquanto somos só nós os dois e conseguimos gerir bem. Com o feedback dos clientes também vamos percebendo o que funciona e o que é preciso limar”, continua Rodrigo.
O Cravó está aberto desde o início de Novembro e os pratos são todos tradicionais, embora possam ter um ingrediente ou uma abordagem mais contemporânea. Nos peixes, o bacalhau serve-se confitado com batatas a murro e puré de grelos (24€) e o robalo grelhado com puré de ervilhas e limão (19€). A raia alhada com rosti de batata e cebolada (18€) tem sido uma surpresa. “Estávamos reticentes, mas tem sido um dos pratos com mais saída”, explica Leonardo. “A raia é um peixe difícil de manusear e o sabor é muito intenso. Mas quem prova diz que adora, o feedback tem sido muito positivo.”
Nas carnes, há o clássico cabrito assado (26€) com batatas e alecrim, e o pato confitado (25€) com puré de cenoura e espargos selvagens. Porém, se é para embarcar numa viagem a sério às memórias da infância, a escolha certa é a carne de porco à alentejana com amêijoas e coentros (18€). Opções vegetarianas são duas: a salada de grão “meia desfeita” (9€), com legumes frescos picados; e os legumes assados no forno com ervas aromáticas (9€).
Nem vamos colocar a hipótese de não restar espaço no estômago, porque é proibido sair daqui sem comer sobremesa. O Garibaldi (8€) é o mais tradicional — apesar de ter um nome italiano, o doce ganhou forma e fama em Almada. É uma fina camada de pão de ló, uma camada alta de mousse de chocolate, ganache de chocolate e gelado de café. Porém, o pudim de laranja (8€) tem um trio de sabores que vão fazê-lo querer voltar — para o caso pouco provável de ainda não ter ficado convencido até aqui. O pudim de laranja faz-se acompanhar por caramelo de laranja, gelado de canela e crocante de torresmos. Os mais esquisitinhos não vão perceber o sabor da carne, prometemos. Reina a crocância e o salgado que controlam a explosão de açúcar no pudim. Além disso, há igualmente as tradicionais farófias (5€) e pão de ló com gelado de queijo de ovelha (7€).
Rodrigo Simões e Leonardo Silva nunca trabalharam tanto, mas também nunca se sentiram tão realizados. “Saí de uma área completamente diferente, que era ciências. A cozinha foi onde me encontrei e onde quero continuar até à reforma, se for possível”, confessa Rodrigo. “O que me marca mais é ver que as pessoas saem daqui satisfeitas. E, mais do que isso, voltam e dizem a mais pessoas para virem também”, remata Leonardo.
Rua da Misericórdia, 95 - 1.º andar (Chiado). 214 005 952. Seg-sáb 12.00-16.00 e 19.00-23.00
Maluquinhos do chocolate, a Raro Cacau abriu na Guerra Junqueiro para elevar a loucura a outro nível. A sua praia é mais tiramisù? Então experimente os da Misú, que podem ser de Biscoff ou Nutella. Pausa nos doces para dar conta do sushi no Ryōshi!, do bife do novo Blade ou da chegada do Sea Me a Alvalade, algumas das novidades mais recentes no panorâma gastronómico da cidade.
Discover Time Out original video