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Conan Osiris. Um Buéréré para adultos

Conan Osiris

O músico de Adoro Bolos actua no sábado na festa de antecipação do Indie Lisboa. Encontrámo-nos com o sucessor de Variações, como lhe chamam, nas cabines da sex shop onde trabalha. 

O espaço lúdico abriu em 1990, é a mais antiga sex shop do país e uma das mais antigas da Europa em funcionamento. É lá que nos encontramos com Conan Osiris, o rapaz da música do futuro, como o apelidaram, que há seis anos ali tem o seu “day job” atrás do balcão. Tiago Miranda, o nome que poderia usar numa placa na farda se aqui se usasse disso, vai se revezando pelas quatro lojas da cadeia de sex shops lisboetas ContraNatura – “uma segunda família”, diz. “A maioria da minha vida é passada aqui. O Silk [o seu primeiro álbum, lançado em 2014, com músicas para desfiles de amigos designers de moda] já foi composto cá.”

Sentamo-nos na zona das minúsculas cabines de vídeos, com cadeiras que já viram melhores dias, um rolo de papel higiénico e uma ranhura para moedas que alimentam os vídeos porno. “[A loja] deu-me a conhecer partes da humanidade que nunca iria conhecer em mais sítio nenhum”, conta Tiago. “[Aqui] tens de ser muito neutro e profissional. As pessoas nem sempre estão à vontade, tens de dar um édredon de neutralidade a uma coisa que às vezes é vista com vergonha”, explica. “Tens essa responsabilidade de envolver e abraçar a pessoa, para mostrar que isso é uma coisa supernormal e legítima. Às vezes é só uma pessoa que quer falar. As pessoas estão bué sozinhas...”

É para falar que aqui viemos, e entrevistas não têm faltado a Conan Osiris (uma fusão entre o protagonista da série “Conan – o Rapaz do Futuro”, de Hayao Miyazaki, e do deus egípcio do Além) desde que lançou o terceiro álbum, Adoro Bolos, no fim de Dezembro. Um sucesso galopante que chegou na última semana ao Brasil, à Folha de São Paulo, com o título: “Revelação da música em Portugal tem 29 anos e trabalha numa sex shop.” Como lidar com isso? “Lido mesmo [de forma] normal. É óbvio que sinto bué gratidão, mas isso sinto sempre. E há aquela regra: don’t google yourself.”

Começou a fazer música aos 16 anos, no PC do padrasto, nos idos anos zero. “Na altura eram cenas bué vocais, não sabia compor. Eram rimas que escrevia, que cantava na escola, na [secundária] Gama Barros, no Cacém. Depois, pouco a pouco, fui mexendo nos programas e foi aí que comecei mais a sério”, conta.

O Cacém foi importante para este caldeirão de influências que vão do “eterno Variações ao funaná, do electro-chunga ao hip-hop”, lê-se no comunicado da festa de antecipação do Indie Lisboa, onde Conan Osiris será o centro das atenções no próximo sábado (seguido do DJ Quesadilla), no Hub Criativo do Beato. “Foi uma época de transição, do escudo para o euro, das cassetes para CD… O pessoal de Angola, Moçambique e Cabo Verde trazia os CD que os primos gravavam em casa e na escola aquilo era um troca-troca”, conta. “[As músicas] eram sacadas do Emule, do Kazaa… eram assim as mixtapes.”

Em casa, mais influências da mãe: “Música brasileira, fado, Edith Piaf… Havia cenas que na altura detestava, passava-me da cabeça, e hoje penso: ‘ya, bué fixe’. Por exemplo, fado. A minha vida foi beber influências sem saber o que estava a ingerir, um cocktail molotov.”

O cocktail pelos vistos explodiu. A semana passada actuou na primeira parte do concerto da cantora trans brasileira Liniker e em Fevereiro já tinha aberto o concerto da também activista trans Linn da Quebrada. “A vida e as cenas que eu quero espelhar têm totalmente a ver com isso”, afirma. “O mundo é para respeitar toda a gente misturadamente.”

No primeiro concerto, na ZDB, sentiu-se, como lhe disse uma amiga, “num Buéréré para adultos”. Aliás, Ana Malhoa também pode ser uma das suas influências. Por que não? “Se me apetecer ouvir ‘Junta a bolacha com o biscoitinho’ [canta], eu oiço. Não curto gostar das coisas ironicamente, se eu chego ao pé de ti e digo ‘eu adoro esta merda’, é porque eu adoro mesmo. A Cristina Ferreira, que não tem nada a ver com a música, influencia-me para caralho. Ela é mesmo fixe.”

Quando o comparam a António Variações sente-se obviamente elogiado e “às vezes um pouco assustado”. “Quando dizem ‘o novo [Variações]’, calma. Eu não me quero meter no lugar de ninguém, não quero causar-me essa própria pressão, é uma responsabilidade bué grande. Mas sinto sempre [que é] elogioso.”

Sábado, 21.30, na festa de antecipação do Indie Lisboa. Fábrica do Pão, Hub Criativo do Beato (Beato). 6€

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