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Alunas, Chapitô, circo
©Gabriell VieiraCatarina (em baixo) e Gabriela (em cima) no ginásio do Chapitô

Duas alunas do Chapitô têm vista sobre a cidade. E um ginásio só para elas

Numa das altas colinas de Lisboa, duas alunas estrangeiras encontraram uma casa chamada Chapitô com vista sobre a cidade. Tocámos à porta. E elas abriram.

Por Renata Lima Lobo
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Na Costa do Castelo, silêncio, apenas interrompido pelas máquinas da limpeza urbana que dão conta das ervas, ou pelos passos dos poucos moradores que vão circulando neste bairro histórico da cidade. Tocamos à campainha do Chapitô e depois, subindo umas escadas, tocamos outra vez para entrar na nova casa de Catarina e Gabriela. Um luminoso T0 com vista desafogada para o Tejo.

Catarina Paolino e Gabriela Ramos atravessaram um oceano para estudar em Lisboa. A pandemia podia ter-lhes trocado as voltas, mas neste momento são as únicas alunas que têm acesso ao interior da escola de circo, embora acompanhem, como o resto dos colegas, as aulas que estão a ser dadas online pelos professores do Chapitô. Catarina, 19 anos, e Gabriela, 20 anos, partilham o melhor “quarto” da casa. Um T0 espaçoso, onde são independentes e dão música aos funcionários da escola que por ali vão passando.

Chapitô
©Gabriell Vieira

Eu vim de longe

Chegada há ano e meio a Lisboa, Catarina está no 2.º ano do Curso Profissional de Interpretação e Animação Circense (IAC) – o circo corre-lhe nas veias. “O meu avô trabalhou no circo no Rio de Janeiro. Nunca o cheguei a conhecer, mas quis seguir a carreira dele”, lembra esta aluna que descobriu o Chapitô com a ajuda do pai. “Eles têm uma escola de circo no Rio de Janeiro, mas era para maiores de 18 e eu tinha 17. Eu estava querendo fazer escola de circo, mas não queria fazer no Brasil, porque estava meio complicado e o meu pai apresentou-me o Chapitô”, diz Catarina, que confessa ter um fraquinho pelo contorcionismo.

Ao seu lado está a sua companheira de quarto Gabriela Ramos, caloira nestas andanças. Chegou ao Chapitô há apenas três meses para se juntar à turma do 1.º ano do IAC, não por sugestão de um familiar, mas por sugestão de Catarina, que já conhecia. “Eu fazia teatro há algum tempo, mas conheci o Chapitô por ela. Fiquei completamente apaixonada, a escola é incrível, o espaço é maravilhoso. Tomei um pouquinho de coragem e vim”, conta. Quando começou a fazer teatro, Gabriela não se imaginou logo no circo, de que se aproximou “primeiro com a palhaçaria e depois com os aéreos”.

Durante o dia acompanham as aulas online como qualquer outro estudante do Chapitô. Mas têm uma vantagem. Enquanto os colegas têm de fazer os exercícios práticos em casa, Catarina e Gabriela têm acesso ao ginásio da escola, onde podem praticar os aéreos. “Os professores estão o tempo todo incentivando a nossa criatividade e colocando a gente para fazer circo com coisas inimagináveis. É incrível porque faz com que a gente cresça como artistas e como pessoas. Você pode fazer arte com tudo, é muito legal”, diz Gabriela, que está desejosa de regressar às aulas presenciais e estar em grupo. “Circo não se faz sozinho. Circo se faz em grupo e se aprende em grupo, mas mesmo online a gente está conseguindo.”

Chapitô
©Gabriell Vieira

A vida no coração de Lisboa

Um apartamento T0, mobilado, electrodomésticos incluídos, com casa de banho privativa e uma kitchenette para preparar as refeições. Entre o estudo, as idas à mercearia ou a culinária, fazem muito barulho, no melhor dos sentidos. Catarina trouxe consigo um acordeão de 13 kg para não perder o embalo da aprendizagem que começou no Brasil. Com um repertório que vai das valsas ao forró e músicas circenses (ou o tema de A Guerra dos Tronos), é acompanhada ao pandeiro por Gabriela, que dá o ritmo. Afinal, são as únicas residentes em permanência da escola de circo e há que manter o espírito.

“Desde que cheguei aqui me sinto em casa. Antes da pandemia era muito movimentado, mas agora é bom também, porque se a gente não estivesse aqui, estaria em casa. Aqui é o melhor lugar que poderia estar”, diz Catarina, que não se cansa de elogiar a vista que tem quando olha pelas janelas. “Nunca imaginei que fosse assim, fiquei desacreditada. A gente morava num lugar que era só montanha, verde, bois e uma casa do outro lado da montanha”, descreve Catarina. Gabriela acompanha o entusiasmo: “Estamos numa zona muito incrível, eu fiquei encantada quando cheguei aqui, a cidade é muito charmosa.”

Catarina no Chapitô
©Gabriell Vieira

A “dona” disto tudo

“O Chapitô não deixa ninguém para trás. Oh pá, não pode. Para trás estou eu, porque os miúdos estão todos a andar”, diz Teresa Ricou (ou Teté, a mulher-palhaço), fundadora da escola de circo. Recebeu estas duas alunas de braços abertos, como é tradição da casa, e fica orgulhosa por terem escolhido o Chapitô. “É engraçado, porque eles gostam de vir para Portugal e têm uma escola fantástica lá no Brasil”, diz.

O Chapitô está a fazer 40 anos, mas para já não há grandes planos. “Vamos ver o que vai dar”, diz Teresa Ricou. Certo é que está finalmente em andamento um antigo desejo: a publicação de um livro sobre a história do Chapitô, e um outro sobre a história do circo em Portugal. “Se eu estiver viva ainda estou com vontade de fazer isso. Há muito pouca gente a mexer nestas áreas. Senão é mais um projecto que fica pelo caminho, e eu não vou deixar. Os papéis estão lá, os documentos estão lá…”. E as memórias? “As minhas memórias vão estar ao serviço do livro.”

Teté
©Gabriell VieiraTeresa Ricou (Teté) junto a uma peça do Curso Profissional de Cenografia, Figurinos e Adereços

Em andamento

A Companhia do Chapitô está confinada em Portugal, mas desconfinada em Espanha. Até 27 de Março anda em tour por território dos nossos vizinhos com os espectáculos Napoleão ou o Complexo de Épico e Hamlet. Arrancaram em Donostia (16 e 17 de Março), já passaram por Lugo (20), e ainda vão a Ponferrada (25), Segovia (26) e Valladolid (27). Em Abril, o Chapitô promete disponibilizar em streaming versões gravadas de Hamlet e da peça ATM – Atelier de Tempos Mortos.

Também em Abril, no dia 7, a Escola de Circo do Chapitô realiza Um Open Day Online ao final da tarde, via Zoom, destinado a alunos do 9.º ano que queiram estudar na área das artes do espectáculo.

+ Leia a edição desta semana: Silêncio, finalmente

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