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Esta banda desenhada retrata vivências de pessoas com deficiência

São seis histórias curtas ilustradas por grandes nomes da BD nacional, como Luís Louro, Joana Afonso e Paulo J. Mendes. A ideia é denunciar preconceitos e tornar visível os desafios enfrentados por pessoas com deficiência.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
inVISÍVEIS
© Jorge Coelho | Ilustração para a capa de ‘inVISÍVEIS’
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Estávamos em 1975 quando um grupo de pais e técnicos de reabilitação fez nascer uma cooperativa para ajudar pessoas com deficiência. 50 anos depois, a CERCIOEIRAS reúne grandes nomes da BD nacional numa antologia que denuncia preconceitos e nos convida a reflectir sobre a urgência de construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Com coordenação de Hugo Pinto, presidente do júri dos prémios Amadora BD e editor do blogue Vinheta 2020, inVisíveis reúne seis histórias curtas, que dão voz a experiências reais, mas também imaginadas, a partir de testemunhos e vivências distintas. A capa é de Jorge Coelho, autor reconhecido internacionalmente e com obra publicada por editoras de renome como a Marvel.

Como é que se constrói um lugar onde todos possam crescer, aprender e viver com dignidade? O que significa igualdade para todos? Como é que se lida com os preconceitos no mercado de trabalho? Como é que se cuida de alguém que não é capaz de falar? Como viver numa cidade que não foi feita para nós? Como experienciar o amor e o desejo quando parecemos invisíveis ao olhar do outro? São algumas das questões a que Daniel Maia, Joana Afonso, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo, Susana Resende e Hugo Pinto se propõem responder, ao mesmo tempo que convidam os leitores a olhar criticamente para os estereótipos e as barreiras que ainda hoje condicionam a forma como a deficiência é entendida e vivida.

inVisíveis
© Hugo Pinto e Paulo J. Mendes'O Que Os Olhos Revelam', em 'inVisíveis'

“Lançaram-me o convite há menos de um ano e confiaram totalmente em mim. Disse logo que seria interessante, em vez de termos apenas um autor, fazermos uma colectânea, e aproveitei para lançar o desafio a artistas de quem sou confesso admirador”, revela o coordenador Hugo Pinto, que se estreia como argumentista, assinando quatro das seis histórias originais. “Abrimos com uma homenagem à CERCIOEIRAS, que assino [com desenho de Daniel Maia e cor de Susana Resende], mas procurámos não criar uma antologia institucional. É um livro sobre a deficiência e como afecta pessoas e famílias”, explica, antes de falar um pouco sobre o seu processo criativo, em particular.

“Alguns dos autores convidados devolveram-me o desafio e incentivaram-me a escrever o argumento. Era um sonho e foi uma experiência bastante positiva, mas confesso que estava nervoso, por estar a escrever para talentos que considero de renome”, confessa Hugo, que destaca a história O Que Os Olhos Revelam, com desenho do portuense Paulo J. Mendes, que em 2023 venceu o prémio Amadora BD de Melhor Obra de BD de Autor Português. “O Paulo tem um humor muito inusitado, às vezes até disparatado, mas nesta antologia ilustra a história que considero mais séria, de uma criança com paralisia cerebral, que não consegue falar.” Inspirada num caso real, reflecte a angústia sentida pelos pais da protagonista, que receiam não estarem a fazer o suficiente pela filha. Um medo que é, no fundo, partilhado por muitos cuidadores informais.

Epilepsy Dance
© Ricardo Santo, a partir de poemas de Nuno F. SilvaExcerto de 'Epilepsy Dance', em 'inVisíveis'

Não há só um tipo de paralisia cerebral, avisa Hugo. A doença refere-se a um grupo de perturbações do movimento e o grau dos sintomas – desde dificuldade de movimentação até problemas cognitivos – varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, ao poeta Nuno F. Silva, limita-lhe a mobilidade, mas não a criatividade, tendo já quatro livros publicados. A fechar a antologia, Epilepsy Dance, de Ricardo Santo, parte dos seus poemas, que falam de abandono, por um lado, e de desejo, por outro. “Foi o Ricardo que propôs adaptar a poesia do Nuno para banda desenhada e acho que fez um trabalho super interessante”, diz Hugo, que também está muito satisfeito com a heterogeneidade do projecto.

“Não queríamos só histórias para chorar. Queríamos ter diversidade e levar a coisa de uma forma séria, mas também com alguma leveza. Por exemplo, a história do Luís Louro [que escreve e desenha] é uma sátira à Luís Louro, sobre o preconceito com a Trissomia 21 [Síndrome de Down], e tem alguma piada. Depois, acho que importa dizer, projectos como este são bons também para os autores, que têm oportunidade de experimentar. O Luís Louro, que celebra este ano 40 anos de carreira, confidenciou-me que nunca tinha feito uma vinheta redonda como a que faz nesta história”, desvenda, convicto que o objectivo foi cumprido: lembrar como as pessoas com deficiência estão em todo o lado, mesmo quando não damos por elas, e que é preciso criar espaço para que todos, com as nossas diferenças, possamos viver melhor.

Luís Louro
© Luís LouroExcerto de 'Natureza Desumana', de Luís Louro, em 'inVisíveis'

Se pudesse, Hugo Pinto teria feito crescer as histórias, não só porque tomou o gosto à escrita, mas porque acredita que haveria muito mais a dizer, e que a banda desenhada é, de facto, uma excelente ferramenta de reflexão e inclusão social. “Eu não sabia, por ignorância e porque é um tema pouco falado, que não devemos agarrar as pessoas cegas [e com baixa visão] pela mão, nem aparecer de repente, porque as deixa nervosas. É importante saber isto, como é importante reflectir sobre o impacto, por exemplo, das trotinetes e até dos contentores de particulares mal estacionados no passeio”, partilha Hugo, que também espera que as pessoas com deficiência se vejam representadas. 

Depois do lançamento no festival Amadora BD, a obra será apresentada no dia 3 de Dezembro, às 17.00, na Livraria Galeria Municipal Verney, em Oeiras. À venda na CERCIOEIRAS e em livrarias especializadas em banda desenhada, como a Kingpin Books, a Cult e a Tinta nos Nervos, deverá chegar em breve à Fnac e à Bertrand. “Está a demorar, mas vai acontecer, e também vai haver uma apresentação na Fnac do Oeiras Parque, a 13 de Dezembro.”

'inVisíveis – Histórias de Banda Desenhada Que Desmistificam Preconceitos Sobre a Deficiência', de Daniel Maia, Hugo Pinto, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende. CERCIOEIRAS. 47 pp. 14,90€

As últimas para leitores na Time Out

Há livrarias a abrir em Lisboa que é uma maravilha. Aponte na agenda as visitas a fazer: Lumaca é para fãs de álbuns ilustrados e banda desenhada para todas as idades; a Gondwana dedica-se a promover “literaturas do Sul”; e a Saudade dá destaque a autores lusófonos. Estão também a nascer bibliotecas em hospitais pela mão do Grupo LeYa que quer ajudar a humanizar cuidados.

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