A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
Quartos de Enda Walsh
Jorge GonçalvesQuartos de Enda Walsh

Estas quatro paredes são refúgio ou prisão? Para Enda Walsh, é o mesmo

No pós-confinamento, os Artistas Unidos levam à Politécnica ‘Quartos’, de Enda Walsh, sobre personagens enclausuradas que não sabem muito bem como usar “a porta de saída”. Conversámos com o encenador Jorge Silva Melo.

Por Mariana Duarte
Publicidade

“E era como se sentisse a vertigem do andar de baixo – como se o pequeno mundo que construí no meu quarto fosse sucumbir não tardaria muito ao bege terrível que envolvia o resto da casa. Com esta ansiedade, vomitei muito naquele pequeno tapete. Nesse mesmo estado – o meu cérebro vestiu-me devidamente para a escuridão lá fora.”

Depois de passarmos por essa experiência semi-apocalíptica que foram os três meses de confinamento forçado pela crise pandémica, estas palavras de Enda Walsh, escritas em 2015, arrepiam de tão certeiras. Na verdade, boa parte da obra do dramaturgo irlandês reverbera agora de uma forma tremendamente reconhecível: são peças sobre pessoas enclausuradas entre quatro paredes (paredes que parecem mesmo ter ouvidos), a tentar digerir a solidão e o desalento, o desespero e os dramas domésticos. “O meu país é este quarto, a cidade, este colchão, o lar, a minha cabeça” – como olhar para isto e não pensar em 2020?

“Enda sempre tratou disto: personagens fechadas em casa, que não se autorizam à liberdade, confinadas, ‘acamarradas’”, diz Jorge Silva Melo, que volta a encenar o autor e cúmplice de longa data na nova criação dos Artistas Unidos, Quartos, para ver no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a partir desta quarta-feira e até 7 de Novembro. “A piada nos meios teatrais irlandeses, quando surgiu a pandemia, era mesmo esta: ‘não me digam que o Enda Walsh vai ser obrigado agora a escrever sobre pessoas fechadas em casa!?’”

A partir de Quarto 303 (2012), Enda Walsh tem vindo a escrever várias peças apresentadas como instalações teatrais. Até ao momento, são seis Quartos, seis monólogos (todos eles publicados e traduzidos na colecção Livrinhos de Teatro), sem intérpretes em cena. Vozes gravadas contam-nos o que se passa dentro daquelas divisórias, assombradas por uma aura beckettiana. Durante o confinamento, Jorge Silva Melo decidiu que levaria a palco duas peças desta série: Quarto 303, a única que tinha lido pré-Covid, e Quarto da Rapariga. “Amigos meus, o Camané e a Mariana [Maurício], que tinham visto a produção em Nova Iorque, insistiam que nós devíamos fazer os Quartos”, recorda o encenador. “Lemos os seis que existiam e achámos possível fazer dois. Só dois, como quando Enda arrancou com esta série. Soube que em Setembro ele terminou uma sétima, Vestuário. Vai mandar-ma daqui a dias, está a marinar.”

Ao contrário do que possa parecer, não foi um processo indolor conceber uma peça sem intérpretes em cena. “Não é simples. Ensaios separados entre técnica e actores, ensaios com actores em minha casa, ensaios técnicos no teatro sem actores... E há aqui uma personagem essencial, o sonoplasta André Pires, que gravou, espacializou, trabalhou o som das duas peças de forma admirável”, assinala Jorge Silva Melo. Outro contributo central foi o da cenógrafa Rita Lopes Alves, nestas peças-instalação que “retêm uma marca do que aconteceu no seu interior”, como escreveu a jornalista Sarah Hemming no Financial Times. “A Rita sempre se encontrou bem com o mundo de Enda. Aqui foi desenvolver o belíssimo cenário que tinha feito para Acamarrados [estreado em 2008]. Uma cama, coisas de pobres.”

Essa precariedade – material, emocional, física – está profundamente incrustada na obra de Enda Walsh, que tão bem captura a lassidão, a desesperança e a alienação da classe trabalhadora. Para Jorge Silva Melo, isso é cada vez mais raro no teatro. “Ele é mesmo único e, nesse aspecto, encontra bem gente que muito amei nos anos 60, como Shelagh Delaney ou Joan Littlewood, a maior das criadoras teatrais que jamais vi. Só que ele consegue juntar a ressaca das noites de cerveja e suor a uma visão do mundo grotesca, vulgar. Realmente a sombra de um subproletariado confinado em casa, quando muito indo até à casa de apostas ali da rua.” 

Também por isso, estes quartos acabam por ser, simultaneamente, refúgios e prisões. “Em Enda Walsh, as duas palavras equivalem-se. Para ele, vivemos emparedados, acamarrados, com uma porta de saída que não usamos; não sabemos e não queremos libertar-nos”, observa Jorge Silva Melo. “Há aquela famosa pergunta: ‘o que se passou quando Nora –  de A Casa das Bonecas, de Ibsen – saiu de casa?’ Em Quartos é: o que ficou quando as pessoas se foram embora?’ Roupa por lavar, bonecos no chão, sombras, vozes. É dessa ‘desaparição’ que ele sempre falou.”

Teatro da Politécnica, Rua da Escola Politécnica 54 (Lisboa). 30 de Setembro a 7 de Novembro. Ter-Sáb 19.00, 20.00 e 21.00, Sáb 16.00, 17.00, 18.00, 19.00, 20.00 e 21.00. Reservas: 96 196 0281 

Últimas notícias

    Publicidade