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Estivemos com Mykki Blanco no Tremor

Por Clara Silva
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O rapper queer mudou-se em 2016 e encontrou a felicidade que se está a revelar tão difícil de traduzir no próximo disco. Encontrámo-lo no meio do Atlântico e ficámos a saber que o novo álbum conta com Anohni – entre outras surpresas.

Reza a lenda em Ponta Delgada que John Wayne bateu com a cabeça na porta da casa de banho do Solar da Graça quando assistia a uma actuação de um grupo de folclore. Mas muito mais se poderá dizer nas próximas décadas sobre a passagem de Mykki Blanco na semana passada pelo restaurante/mítica sala de espectáculos de São Miguel. Estamos no Tremor, o melhor festival do Atlântico e arredores, e a “antiga boîte chic” de Ponta Delgada, como era conhecida nos anos 50, serve de palco para o concerto do rapper, artista e activista norte-americano de 31 anos. Outros palcos se seguirão para outros concertos, das termas da Ferraria à cascata do Salto do Cabrito, mas é em terra que Mykki Blanco proporciona um dos melhores momentos do festival nos Açores.

A coisa não começa bem, o concerto é interrompido por choques eléctricos no microfone (foi preciso Mykki calçar-se outra vez), continua com uma escalada pela varanda do Solar e termina em apoteose, com uma espécie de teste de resistência à mobília de madeira da sala. Histórico, pelo menos na história do festival, que completou a sua quinta edição com um cartaz inclusivo que também contou com a artista trans Baby Dee.

Momentos antes, sem peruca, Mykki Blanco, alter ego de Michael Quattlebaum Jr, confessava-nos que está “muito feliz”. “O mais feliz que estive nos últimos tempos”, conta aquele que é considerado o pioneiro do queer rap, apesar de já ter rejeitado o rótulo – “para se distanciar de outros artistas”, diz.

O maior desafio do seu próximo álbum, que se tudo correr bem deverá estar pronto em Setembro para ser lançado em 2019, tem sido esse: “Traduzir a felicidade de uma maneira não-cliché.” Pouco mais se sabe sobre o sucessor de Mykki, de 2016, mas Mykki Blanco faz questão de adiantar três colaborações de deixar água na boca: “Anohni, Devendra Banhart e Saul Williams.”

“Não estou preocupado com que seja hip-hop”, avisa. “Estou focado na composição, quero que [o álbum] possa ser traduzido em instrumentos ao vivo e que não seja só música produzida. Pela primeira vez, vai haver um baixista, um teclista, eu e um DJ.”

Encontramos Mykki nos Açores, mas podíamos tê-lo encontrado num concerto na ZDB, no Bairro Alto. Vive em Lisboa desde Outubro de 2016, depois de ter deixado o seu apartamento em Los Angeles, apesar de estar quase sempre a viajar para concertos ou palestras. “As pessoas acham que sou de Nova Iorque, porque foi aí que comecei a fazer música, mas sou de um subúrbio de São Francisco, muito parecido com Lisboa”, conta. “O clima é muito parecido, a atitude das pessoas é parecida, até as colinas…” E a ponte. “E a ponte, claro, é muito engraçado.”

O seu namorado, Valter, de Rio Maior, acompanha-o nos concertos como DJ e é uma das razões da sua mudança de vida – e da tal nova onda de felicidade. “A única razão pela qual ainda não sei falar mais [português] é porque tenho de viajar muito. No Verão estou a pensar ter aulas, talvez três dias por semana.” Apesar de não se considerar “da cena”, já fez alguns amigos por estas bandas: “Conheço o produtor Branko, o rapper Mike El Nite é meu amigo, gosto do Conan Osiris, adoro a Rádio Quântica, adoro a [DJ e produtora] Violet e a Mina [que começou no Fontória e acontece esta semana no Titanic Sur Mer] é a minha festa preferida em Lisboa.”

Durante um período, Mykki, que começou como uma personagem nas redes sociais e começou a tornar-se um “reflexo” da sua personalidade, identificou-se como trans e usava o pronome “she”. Agora diz-se genderqueer (não-binário) e prefere ser tratado por “he”. “Quando dou palestras explico isso. É uma coisa autobiográfica sobre como Mykki Blanco começou e sobre o que se passava de político e social no mundo, a minha evolução pessoal nestes cinco anos e o que mudou politicamente”. Por exemplo, a legalização do casamento gay nos Estados Unidos.

Ainda assim, Lisboa, à qual agora chama “casa” e onde diz também querer “comprar uma casa”, tem sido também um refúgio político. Aliás, no joelho direito, numa das muitas tatuagens que tem espalhadas pelo corpo, a mensagem é clara: FUCK TRUMP. E viva o Tremor.

A Time Out viajou para os Açores a convite da Azores Airlines, Neat Hotel Avenida e Visitazores

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