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Fechado, degradado ou com projecto para hotel, muito do património lisboeta está sem destino

Alguns edifícios são privados, outros do Estado e outros ainda da autarquia. Em muitos casos há anos que ninguém lhes pega, vetando-os ao abandono. Fórum Cidadania Lx acusa Câmara de Lisboa de negligência.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Espaço que seria a Casa do Teatro e da Dança, no Bairro do Grilo
HGS | Espaço que seria a Casa do Teatro e da Dança, no Bairro do Grilo
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Era preciso pegar naquilo e fazer qualquer coisa. Estávamos em 1990, em Marselha, quando deixaram de se produzir cigarros no bairro Belle de Mai. A fábrica, propriedade do Estado, tornou-se um vazio na cidade e, ao mesmo tempo, uma potência. Não tardaram a chegar os agentes culturais, e depois os políticos, construindo-se ali, durante anos, um dos principais pólos de atracção da cidade. Hoje, o centro cultural Friche la Belle de Mai recebe 450 mil visitantes por ano.

Se é preciso ir a França para conhecer exemplos de espaços devolutos aos quais se conseguiu dar a volta? Não. No Porto, o antigo matadouro industrial (edifício municipal em que a Mota Engil está a investir cerca de 40 milhões de euros) vai abrir este ano como centro de trabalho, cultura e serviços. Em 2008, a Lx Factory foi uma revolução em Lisboa e a empresa que a gere, a Mainside, prepara-se para fazer algo semelhante na desactivada estação ferroviária do Barreiro. Seis anos depois, numa escala menor, as antigas carpintarias de São Lázaro, junto ao Martim Moniz, foram compradas pela autarquia depois do incêndio que as encerrou e, pelo menos até 2044, o espaço, concessionado, será cultural. Entre outros casos, há ainda a Casa Capitão, que entrou pela porta da antiga casa do comandante da Manutenção Militar, sob um acordo com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), remexendo o Beato.

“Sempre se imaginou fazer também alguma coisa na ala Norte [da Manutenção Militar], mas a ideia foi para a gaveta”, lamenta à Time Out José Sá Fernandes. O ex-autarca liderou a comissão coordenadora das Jornadas Mundiais da Juventude, cuja sede era no complexo de sete hectares do Beato e para o qual a equipa ficou de idealizar uma nova vida (sob a ordem do ainda primeiro-ministro António Costa). Juntaram-se profissionais de várias áreas, imaginaram, e o Bairro das Artes ia contar com uma Casa da Fotografia, outra do Som, do Teatro e da Dança, da Ilustração.

Ala Norte da Manutenção Militar
DR — Ala Norte da Manutenção Militar

“Se não foi para a frente não foi pelo investimento. Aquilo tem condições espectaculares para muita coisa, de espaços culturais a habitação. Há edifícios que estão fechados e precisam só de uma pequena intervenção. Depois, anda-se com a história do Teatro em Cada Bairro, que não são teatros nenhuns, quando há ali um teatro de 400 a 500 lugares, com boas condições, fechado. Como é que se explica isto?”, questiona o advogado e antigo vereador da CML, para quem o património da cidade tem sido um dos principais objectos de luta.

Se havia dúvidas sobre o fim do Bairro das Artes, em Setembro o Governo anunciou que o complexo seria um dos 14 imóveis públicos disponíveis para ser concessionado a privados.

Câmara "não tem noção do que é Lisboa"

Há o Beato, o Panorâmico de Monsanto, a Tapada das Necessidades, palácios e palacetes, casos sobre os quais “a Câmara devia tomar as rédeas”, na opinião de Sá Fernandes, mas “não tem noção do que é Lisboa”. “Faltam competências, conhecimento e amor à cidade. Preferem pôr flores em vasos do que fazer um jardim”, compara, nomeando outros dois casos “flagrantes” de abandono: os antigos conventos da Graça e de Chelas. “Poderia referir muitos mais, mas estes dois, em particular, são uma vergonha”, considera o ex-autarca, que conseguiu que, há mais de dez anos, pelo menos o jardim do Convento da Graça (hoje o Jardim da Cerca da Graça) passasse a ser espaço público, “uma grande vitória”.

Panorâmico de Monsanto
Francisco Santos — Panorâmico de Monsanto

Já o edifício continua a degradar-se, mesmo depois de, em 2019, o Estado o ter concessionado ao grupo Sana, através do programa Revive, que ali entendeu fazer um hotel de cinco estrelas, com data de abertura marcada para 2022. Quatro anos depois, e após mais de 2800 pessoas terem assinado uma petição em defesa da conversão do convento num lugar a ser usado pelos cidadãos, nenhuma picareta se ouviu no espaço. O contrato com o grupo hoteleiro não foi cumprido, como deu conta o jornal Público, e não se sabe se o Governo vai optar por multá-lo, recuperar o imóvel para o Estado ou nenhuma das duas hipóteses (na sexta-feira, 20 de Fevereiro, a Câmara chumbou as moções do Bloco de Esquerda e do Livre para que a autarquia instasse o Governo a recuperar a posse do património).

Antigo convento e quartel da Graça
OHLAntigo convento e quartel da Graça

Também na zona oriental, o Convento de Chelas, onde está o arquivo militar do país, é lugar fechado. Ali chegou a ponderar-se instalar também o arquivo municipal, mas Diogo Moura, vereador da Cultura em 2022, alegou que o edifício não tinha condições, e o convento deixou de ser assunto. A assistir ao tempo estão um precioso portal manuelino, a galilé de acesso ao templo e conjuntos de azulejos dos séculos XVIII ao XX.

Reabilitar, abandonar

Em Lisboa, nos últimos anos, edifícios religiosos foram adaptados para habitação, como aconteceu no Convento das Bernardas ou no Mosteiro de Santos-o-Novo. A história também é feita de palácios transformados em espaços culturais, como o dos Condes de Tomar, que foi Hemeroteca de Lisboa durante 40 anos, até passar para as mãos da Santa Casa da Misericórdia, que ali abriu a Brotéria, em 2020, depois de reabilitar o edifício.

Durante nove anos, de 2009 a 2018, também o Palácio Pombal, noutra ponta do Bairro Alto (Rua de O Século), teve uma vida feliz e aberta aos lisboetas, sob o nome de Carpe Diem – Centro de Arte e Pesquisa. “Tínhamos exposições, residências, ateliers, concertos, conferências, além da cafetaria e da biblioteca. Recebemos cerca de 100 artistas e organizámos perto de 100 eventos”, resume à Time Out Lourenço Egreja, que fez parte da empreitada de tornar um edifício “muito complexo” num espaço de uso público.

Palácio Pombal
DR — Palácio Pombal

Hoje, o curador pensa assim quando vê novamente a porta cerrada: “É uma pena que um edifício tão importante para a cidade, tão bonito e tão carregado de memória, esteja fechado.” E continua: “A EGEAC fez um esforço grande para tornar o edifício estável, uns oito anos antes de irmos para lá, quando as fachadas estavam a cair. Depois disso, nunca choveu lá dentro, nunca houve questões de insegurança, nada. Agora, por que é que o palácio está fechado? Falta de vontade política. Foi por isso que nos mandaram embora”, afirma o curador.

A antiga residência do Marquês de Pombal já esteve duas vezes à venda, mas ninguém quis comprar o espaço com grandes escadarias e paredes que não fazem ângulos rectos. Em 2023, a CML autorizou o projecto para hotel na parte do palácio cuja propriedade é privada (outra é do Estado e outra ainda da CML).

Associação pede explicações

Com frequência com o dedo na ferida dos devolutos, em Fevereiro a associação Fórum Cidadania Lx voltou à carga para denunciar o “preocupante estado de abandono e negligência” do património lisboeta e acusar a CML de uma acção “praticamente nula”. Numa carta endereçada ao presidente, Carlos Moedas, e ao vereador do Urbanismo, Vasco Moreira Rato, a associação pede explicações sobre os planos da autarquia relativamente a locais como o complexo da Igreja dos Paulistas (Santa Catarina), os conventos da Graça, da Encarnação, do Desterro, das Flamengas ou da Madredeus, mas também os palácios Marim-Olhão e Pombal e ainda a Tapada das Necessidades, que tem um plano de salvaguarda aprovado mas sem sair do papel, estátuas sem membros e uma estufa em declínio.

Estufa da Tapada das Necessidades
Rita Chantre — Estufa da Tapada das Necessidades

Em 2019, o Patriarcado de Lisboa deu conta de que quase metade dos conventos e mosteiros da cidade estavam desocupados ou em risco de degradação por “falta de uso ou de ausência de obras de conservação e restauro” (a Time Out pediu uma actualização do número mas não obteve resposta). Entre os edifícios que mais preocupam o Fórum estão monumentos nacionais com infiltrações de água, estuque e pinturas desfazendo-se, azulejos degradados e rachas em paredes internas e fachadas. A lista vai muito além de conventos e palácios, abarcando antigos restaurantes, cinemas, ateneus, ícones velhos à espera de melhores dias.

Edifícios abandonados em Lisboa

A lista poderia ser muito mais extensa, mas aqui estão alguns dos edifícios mais marcantes da cidade, em degradação:

  • Palácio Povolide – Ateneu Comercial de Lisboa: o processo de insolvência decorreu de 2012 a 2016. Em 2019, a Vogue Homes propôs um projecto de hotel, que foi chumbado;
  • Cervejaria Solmar: junto ao ateneu, a Solmar viveu tempos áureos e há movimentações no espaço, como a conservação dos painéis de azulejos. Está fechada desde 2016;
  • Quarteirão da Portugália: estão previstos hotel e habitação desde 2019, mas obras ainda não começaram;
  • Convento de Arroios: projectos de reconversão têm sido apresentados desde 2004;
  • Palácio Pombal: fechado desde 2019;
  • Palácio de Almada Carvalhais (antigo B'Leza): vai tornar-se um hotel Vila Galé;
  • Quartel da Graça: concessionado ao grupo Sana em 2019, mas com incumprimento contratual;
  • Convento das Mónicas: projecto para hotel aprovado em 2021;
  • Tavares Rico: fechado desde 2019, mas reabertura poderá acontecer em breve;
  • Palácio da Baronesa: projecto para aparthotel de luxo aprovado em 2025;
  • Escola Industrial Afonso Domingues: será demolida para a terceira ponte sobre o Tejo;
  • Palácio Burnay: requalificação aprovada em 2024, mas obras não começaram;
  • Torreão Poente do Terreiro do Paço: em “estado de degradação deplorável”, de acordo com o Fórum Cidadania Lx;
  • Palácio das Águias: citado pelo El País em 2019 como um dos casos mais tristes;
  • Hospital Miguel Bombarda: incluído na lista de património público a concessionar;
  • Hospital do Desterro: projecto hoteleiro aprovado em 2024;
  • Ateneu da Madredeus: fechado há mais de cinco anos;
  • Tribunal da Boa Hora: mantém-se fechado no Chiado;
  • Antigo Teatro Laura Alves: proposta de reabilitação aprovada em 2025;
  • Cinema Pathé: antigo cinema de Arroios, cujo projecto de demolição caiu;
  • Panorâmico de Monsanto: fechado desde Julho de 2023;
  • Ala Norte da Manutenção Militar: na lista de imóveis públicos a concessionar;
  • Antigo Recolhimento das Merceeiras: abandonado.

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