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Gravações inéditas de José Afonso saltam de colecções privadas para disco

dr josé afonso
©DR

A Tradisom revela as gravações de dois concertos, feitas em 1968 e 1980. A edição, com dois CD e um vinil, é acompanhada por um livro de Adelino Gomes.

Há nova música de José Afonso para ouvir, agora que começam a celebrar-se os 90 anos do seu nascimento. Nova, salvo seja. José Afonso Ao Vivo não dá a ouvir nenhuma canção que nunca tivesse sido gravada, mas reúne dois concertos que nunca tinham sido oficialmente editados e documentam diferentes momentos da carreira do mais importante cantor português.

A primeira actuação foi gravada no Maio de 1968 em Coimbra, com José Afonso a trovar e Rui Pato na viola, sob o olhar atento da PIDE. A segunda foi registada em 23 de Fevereiro de 1980, em Carreço, anos depois do PREC e com a Aliança Democrática já no governo. Chegam-nos numa edição de coleccionador limitada a 4000 cópias, numeradas, que inclui um livro, escrito pelo jornalista Adelino Gomes, dois CD cada um com o seu concerto, e um disco de vinil, com a sessão de Coimbra. O preço ronda os 60€.

Por enquanto, nada disto se encontra nas plataformas de streaming, mas vai estar lá, “para as pessoas que não têm possibilidades de comprar desfrutarem da coisa”, de acordo com José Moças, da Tradisom, que editou e descobriu estas gravações. “Se eu só fizesse esta edição, o Zeca saía da tumba e ia-nos bater. Dizia: ‘Vocês estão só a fazer merdas para ricos ou quê? Como é que que é?’.”

Os concertos faziam parte das colecções privadas de dois melómanos. As gravações de Carreço estavam nas mãos de Manuel Mina e o editor ouviu-as meio por acaso, no carro de um amigo. Já as de Coimbra foram encontradas, depois de alguma pesquisa, quando Moças descobriu que Jorge Rino, um professor universitário já jubilado e coleccionador de discos, as tinha gravado cerca de 50 anos antes. Tanto Manuel Mina como Jorge Rino aceitaram ceder os originais, para que o público os pudesse ouvir. Depois de pedir autorização à família de José Afonso, foi só uma questão de os masterizar e restaurar, um processo que demorou algum tempo porque as fitas estavam “um pouco degradadas”.

E ainda há o livro, escrito por Adelino Gomes, a pedido da família do cantor, para contextualizar os dois concertos. O que é relativamente fácil no caso de Carreço, mas se revela sinuoso na secção dedicada a Coimbra, pela forma como a censura moldava o país naqueles anos. E, indirectamente, continua a moldá-lo. Isto porque, segundo o autor, “a censura não afectou apenas [quem viveu durante a ditadura]. Actuou para o futuro.”

Mas então e a música? A gravação de Coimbra é fiel ao que se passou. Não foram cortados os silêncios, as trocas de palavras entre Zeca e Rui Pato, nem os aplausos do público – “no final do concerto bateram palmas durante 15 minutos. Não temos as palmas até ao fim, porque a bobine acabou, mas ainda temos três minutos”, ressalva o editor. O som é claro e limpo, com a voz de José Afonso a sobrepor-se à guitarra, e o repertório tem em Baladas e Canções (1964) e Cantares de Andarilho (1968) os seus pontos cardeais. É magnífico.

Carreço é diferente. As canções cobrem toda a carreira de José Afonso até àquela altura, dos tempos de Coimbra até Fura Fura, e a qualidade de captação é mais pobre. Contudo, os breves discursos que precedem cada canção merecem ser ouvidos e aprendidos. O maior problema? “Eles tinham medo que as cassetes não chegassem para tudo, então faziam pausas entre as músicas, para verem se conseguiam gravar tudo. E às vezes quando começavam já o Zeca tinha dito duas ou três palavras”, explica Moças. “Mas eles tinham razão em ter andado o poupar”, uma vez que só se ouvem 47 segundos de “Grândola, Vila Morena”, que encerra o disco e o concerto, e podia nem se ouvir isso. Porquê? “Acabou a fita.”

+ Ricardo Ribeiro: “José Afonso reúne a curiosidade do povo português”

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