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Filmes, Cinema, Realizador, Gus Vant Sant
©Bruno SimãoGus Vant Sant

Gus Van Sant reconstrói o passado de um Warhol em início de carreira

A BoCA comissiona a primeira criação de palco do cineasta, um musical inspirado em Andy Warhol e no seu universo criativo.

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Escrito por
Raquel Dias da Silva
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Era para ter sido um biopic nos anos 90, mas Gus Van Sant não conseguiu levar o projecto a bom porto – e o protagonista, River Phoenix, morreu pouco depois do guião ter sido rejeitado. Guardado na gaveta há mais de duas décadas, Andy será, afinal, a sua primeira criação para palco, um espectáculo de teatro musical inspirado em Warhol e no universo criativo da Factory. Com uma equipa artística inteiramente portuguesa, conta com direcção musical de The Legendary Tigerman e cruza factos, memórias e imaginação. A estreia mundial está prevista para 23 de Setembro, no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito da 3.ª edição da BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas.

Autor de uma extensa filmografia e realizador de sucessos de público e crítica como O Bom Rebelde (1997) e Milk (2008), Gus Van Sant é um dos nomes fundamentais do cinema independente americano e uma das mais proeminentes figuras do “novo cinema queer”. Mas não só. É também pintor, fotógrafo, músico e – não cansa de se reinventar – está prestes a apresentar-se como encenador. “É, talvez, um pouco inusitado”, diz, na sua voz serena e sussurrada. Conta, sem entrar em detalhes, que o argumento original era para um filme da Universal, para o qual trabalhou por uns tempos com Paul Bartel. Não chegou a acontecer, mas o fascínio e a admiração por um dos mais marcantes artistas do século XX manteve-se intacto.

“Na altura, conhecemos algumas pessoas, como a [fotógrafa] Paige Powell, com quem continuei a falar durante os 40, quase 50 anos seguintes”, partilha. Nunca teve o prazer de privar com Warhol – cruzou-se com ele uma vez, na Madison Avenue, em Nova Iorque; lembra-se de o ver usar uma parka impermeável. Foi através de Powell, outros amigos e diferentes fontes de documentação que reconstruiu o passado de um dos maiores ícones da pop art. Depois pensou que, talvez, pudesse fazer uma peça. “Acho que, nos últimos anos, percebi que gostava de experimentar, não sabia bem sobre o quê, e pensei, bem, se calhar sobre o Andy.”

Inspirado por musicais “que são, ao mesmo tempo, sérios, divertidos e engraçados, como The Book of Mormon”, Gus Van Sant escreveu o texto e compôs todas as canções (até gravou uns acordes numa guitarra, que depois passou a Paulo Furtado, conhecido por The Legendary Tigerman) que, agora, se propõe a levar a palco. De forma cronológica, ainda que fragmentada, retrata o início de carreira de Warhol, de 1959 a 1967. “Foi uma época emocionante”, justifica. “Tentei capturar os pontos altos da sua vida, os seus maiores sucessos.” Desde os seus planos para vingar no mundo da arte até à produção de retratos de celebridades e à Factory, o atelier por onde passou toda a fauna boémia e artística da Nova Iorque dos anos 60 e 70.

Polémico, excêntrico, Andy Warhol continua a ser uma personagem difícil de agarrar, mesmo fazendo parte da nossa memória colectiva. Consciente da tarefa inglória que seria tentar assimilar o eterno dandy, Gus Van Sant preferiu, com uma sensibilidade invulgar, distanciar-se da realidade – apostar num elenco composto apenas por adolescentes e jovens actores foi uma das formas que encontrou para o fazer, confessa. “Uma vez, Andy disse que seria esse o futuro, do cinema, do teatro, da televisão, que os jovens actores interpretariam todos os papéis”, recorda, deslumbrado pelas sucessivas profecias do artista. “Ele também disse, em 1971, que os filmes iam acabar e que os veríamos em casa. As pessoas duvidaram, mas ele estava certo. Ele sabia.”

Com o nascimento da pop art como pano de fundo, a actriz Edie Sedgwick, que morreu precocemente, o escritor norte-americano Truman Capote ou o crítico de arte Clement Greenberg são algumas das personagens retratadas, lado a lado com Andy Warhol, por nomes como Carolina Amaral, Diogo Fernandes, Francisco Monteiro, Helena Caldeira, João Gouveia, Lucas Dutra, Martim Martins, Miguel Amorim e Valdemar Brito. “Estamos perto do que imaginei que queria fazer. A música [que ouviram há pouco] está quase pronta. Não tem muito a ver com o estilo de Velvet Underground [grupo rock que Warhol impulsionou nos anos 60]. É mais rock, Broadway pop.”

Comissionado pela BoCA, o espectáculo – falado e cantado em inglês, com legendas em português – estreia em Lisboa, no D. Maria II, onde tem marcadas nove apresentações, seguidas de uma outra no Teatro das Figuras, em Faro. Depois a equipa vai toda em digressão europeia, com paragens em países como Roma, Amesterdão, Antuérpia, Hamburgo, Grécia e França. Antes, ainda na capital portuguesa, Gus Van Sant organiza também, em colaboração com o festival Queer Lisboa, uma retrospectiva da sua obra cinematográfica, que inclui uma “carta branca” sobre o Warhol, para ver na Cinemateca.

Teatro Nacional D. Maria II, Praça Dom Pedro IV. De 23 de Setembro a 3 de Outubro. Qua-Sáb 19.00 e Dom 16.00. 9€-16€.

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