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Atlas Almirante Reis
Fotografia: Gabriell VieiraAtlas Almirante Reis

Investigação inédita sobre a Almirante Reis resulta no primeiro atlas da avenida

Era um território pouco explorado, mas agora há um Atlas Almirante Reis. Fomos conhecer melhor a avenida sem sair à rua

Por Renata Lima Lobo
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Nunca um investigador tinha dedicado tanto tempo ao estudo da Almirante Reis. É uma das grandes avenidas de Lisboa, mas até agora não tinha sido alvo de estudo, seja no campo da arquitectura e urbanismo, seja nas disciplinas de sociologia e antropologia. O Atlas Almirante Reis colmata todas essas falhas num livro que juntou uma extensa equipa coordenada pela antropóloga Filipa Ramalhete, pela historiadora Margarida Tavares da Conceição e pela arquitecta Inês Lobo. Chegou às livrarias no final de Setembro, através da editora Tinta da China, e é um mundo por descobrir. Um atlas que fala sobre as memórias e heranças, o espaço público, a actividade comercial, os colectivos de criação artística e o pulsar de novos movimentos sociais.

Este trabalho inédito que se debruça sobre uma artéria rasgada em várias etapas ao longo de quatro séculos divide-se por quatro capítulos, apoiados por plantas desdobráveis. Os autores também se dividem entre investigadores “de obra feita”, como explica Raquel Henriques da Silva na Introdução, e jovens que aqui conseguiram integrar projectos que seguiam a mesma linha de pesquisa. 

O Atlas começou a ser pensado no âmbito de um projecto no Centro de Estudos de Arquitectura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/ UAL), dirigido por Filipa Ramalhete. “A Almirante Reis era muito pouco estudada. Aparece sempre mencionada, mas não havia muita coisa sobre isso. Não é como as grandes Avenidas Novas, não esteve naqueles grandes planos. Era uma parte da história que faltava contar e analisar. De uma Lisboa um bocadinho invisível, do cidadão comum, do pequeno comerciante, da transição da zona nobre com a zona oriental, pelo eixo da Morais Soares”, explica a antropóloga. Depois lançaram um desafio a alunos de 5.º ano do curso de Arquitectura da UAL, com coordenação de Inês Lobo e Júlia Varela, que fizeram os quatro mapas que balizam as secções do livro. O grupo ficou completo com a associação do Departamento de Património da Câmara Municipal de Lisboa.

Atlas Almirante Reis
Fotografia: Gabriell Vieira

Uma linha em muitos tempos
Ao longo da avenida, numa única linha, são observadas as várias épocas de crescimento urbano e social. Mas este Atlas, apesar de carregar o nome da Almirante Reis, expande-se para além do vale, território da antiga ribeira de Arroios, um curso de água que ainda é lembrado em topónimos como o Regueirão dos Anjos. Sobre esta “recta rasgada por cima de velhas quintas, azinhagas e ribeirões”, como a descreve o livro, foi feita uma reflexão sobre possibilidades de intervenção no espaço público que permitam a ligação à sua envolvente, nomeadamente à Graça, Penha de França ou Campo Santana. Como hipótese, é sugerida “a implementação de uma sequência de praças e equipamentos que a transformem num espaço público ampliado, uma sequência que sirva os bairros nas encostas” e é dado como um exemplo o projecto Praça-Mouraria, assinado pela arquitecta Inês Lobo, que ligará a Rua da Palma à Rua do Benformoso e onde será construída uma mesquita. “A Almirante Reis é muito densa e é isso que a faz tão interessante. A verdade é que o espaço público é escasso nessa colina da cidade. O planeamento foi, do ponto de vista municipal, quase inexistente, sobram espaços residuais, como o Jardim do Caracol da Penha. Como tinha um declive onde não era possível construir, sobrou ali um espaço”, explica Filipa Ramalhete, enquanto defende que estas são propostas que vão ao encontro das preocupações de viver na cidade com conforto, mobilidade e espaços de proximidade.

Atlas Almirante Reis
Fotografia: Gabriell Vieira

Embora o Atlas Almirante Reis não aborde a questão da recente ciclovia, fala-nos de mobilidade e a antropóloga conta que já é um assunto antigo nesta avenida que remonta a um plano de expansão municipal da cidade para norte, no final do século XIX e o início do século XX, pela mão do engenheiro Frederico Ressano Garcia: “A circulação na Almirante Reis é um tema desde há 100 anos para cá, com carroças e automóveis. O facto de se estar a falar da ciclovia é só mais um nível de discussão. Ao longo do século XX a questão do comércio e cargas e descargas também foi sempre um tema muito presente. Uma altura um técnico defendeu que nem devia haver habitação, porque tinha muito barulho e poluição, e que devia só existir serviços”. O que é novo, explica Filipa Ramalhete, é o interesse da Academia pela história do cidadão anónimo, das pequenas acções, em oposição a grandes planos, grandes figuras e grandes monumentos. “Não é uma avenida monumental, estamos sempre na cidade anónima. Foi interessante descobrir que a Almirante Reis já lá estava antes de lá estar, havia caminhos e ligações à cidade antiga. Há partes que colam ao que lá estava, outros troços que são novos, outros iguais”. Este “coser da cidade antiga à cidade moderna”, numa espécie de linha cronológica que parte da Lisboa medieval é para a antropóloga “uma desarmonia que é harmoniosa”, com vários edifícios de diferentes épocas, às vezes no mesmo quarteirão. “Mas a Almirante Reis resiste a tudo, mesmo a alguns atentados bastante bárbaros de construção. É um eixo que tem uma força que resiste ao de melhor e ao de pior”.

Um território em imagens
Além dos mapas, o calhamaço tem dois capítulos dedicados à imagem. Ágata Dourado Sequeira e Pedro Frade fizeram um ensaio visual sobre os colectivos de criação e de partilha artística, entre o atelier de gravura Contraprova, os espaços de residências artística A Ilha, Roundabout Lx e Latoaria e a associação cultural Oficina do Cego. “Nenhum deles é especificamente na Avenida e é muito interessante olhar para estas novas formas de organização do trabalho e de lazer que a sociedade está a albergar. É o poder que a cidade tem de se reinventar e criar novas formas de estar no espaço urbano, utilizando o que já existia, mas criando novos usos. O ensaio do Paulo Catrica acaba por nos dar uma espécie de zoom de formas de estar muito diferentes, que são o espelho do mundo cosmopolita de hoje”, diz Filipa Ramalhete referindo-se ao último capítulo. É aí que o fotógrafo Paulo Catrica expõe três séries fotográficas realizadas em projectos de colaboração com o Atelier Inês Lobo: Re Use e Questa é Una Finestra, que integraram a exposição An-Arquitectura, na BESart (2014), e Palma & Benformoso, exposta na Bienal de Arquitectura de Veneza (2016).

Atlas Almirante Reis
Fotografia: Gabriell VieiraImagens de Paulo Catrica

Atlas Almirante Reis (Tinta da China). 28,80€.

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