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Marcos Valle: “Tenho mais prazer hoje do que no início da carreira”

Marcos Valle
©DR Marcos Valle

Na música de Marcos Valle o tempo nunca foi um conceito rígido: passado e futuro convergem na infinitude de um presente que continua a motivá-lo na criação. Sempre, o novo disco que esta sexta-feira chega em concerto ao Estúdio Time Out, é um trabalho em que o ritmo e a consciência são doseados de igual forma, e a prova de que aos 75 anos ainda há muito pela frente.

A vida por entre os acordes nunca conheceu menos do que uma intensidade palpável. O soul, o funk, o jazz, o rock, mesmo a bossa nova, tudo o que coube na sonoridade de Marcos Valle ao longo das décadas foi feito para respirar ofegante, como se o mundo dependesse da urgência desse movimento. Não que as canções sejam recados constantes, não são, mas o groove, esse palavrão de uso desmedido, faz-nos acreditar que está tudo bem, que tudo ficará bem, ainda que o tema possa tabelar por assuntos como a política, o desamor, a saudade.

É por isso que ouvir Marcos Valle foi, é e continuará a ser uma ousadia tremenda. Porque a soul perdeu força mas ele trá-la aos ouvidos, porque o funk perdeu força mas ele deixa-nos o pé a bater, porque o jazz foi condensado em salas mas ele toca-o além do limite das colunas, porque o activismo coube sempre nas entrelinhas. Mas tantos anos depois do começo – 56 para sermos precisos –, algo, alguém ou alguma coisa tem de continuar a fazê-lo correr ao piano e ao violão. 

Marcos Valle justifica: “Não gosto de ficar parado e a música tem para mim uma importância de 80% na minha vida. Logicamente tenho os meus filhos, a minha mulher, mas a música é uma coisa que me traz um prazer muito grande. E eu sou muito grato por, ao fim de tantos anos de carreira, estar com tantos projectos novos. Isso move-me. Acho que nunca gostei tanto de me apresentar como agora. Tenho muito mais prazer hoje do que no início da carreira. É isso que me traz o estímulo”.

O estímulo é parte da equação, mas não significa necessariamente que a criatividade lhe tenha dependência. Essa pode chegar de várias maneiras. “Quando tenho um projecto à minha frente, um disco, ou tenho de fazer música encomendada, a minha cabeça funciona muito, muito. Como se tivesse um monte de ideias e tudo o que tenho de dizer é ‘venha’.” Mas há outras fórmulas. “Muitas vezes estou caminhando na beira da praia e chegam-me melodias, ideias. Tento guardar para quando chegar a casa, correr para o piano, para o violão e realizar a música. Às vezes a encomenda provoca-me, outras vezes ela vem sem querer e outras vou para o piano por prazer e, de repente, vem uma melodia ou uma letra”.

Sempre, o vigésimo oitavo trabalho com o seu nome, fez-se assim, entre a obsessão e o prazer desse “venha”. Uma escala que traz um Marcos Valle dos novos públicos, uma aventura que rejuvenesce os ouvidos já atentos. Sempre é, talvez, o regresso do Marcos de sempre. “O que foi feito é como se tivesse sido feito hoje, e se o fizer hoje é provável que também o faça amanhã. Eu penso muito no presente, o sempre ser presente é não ficar muito preso ao que já fez nem muito preocupado com o que vai fazer. É deixar sempre a vida e a música seguirem. Acho que é dessa maneira que as coisas acontecem de forma mais interessante”. 

É essa a razão do prazer nestas novas faixas. “Trouxe esse lado que não usava há uns anos. Porque, para viver sempre, tem de ser um cara aberto às coisas que estão a acontecer pelo mundo. Se for uma pessoa muito preconceituosa ou saudosista, fecha-se. Se tiver que fazer mas tiver de refazer, óptimo. Se disse uma coisa e hoje tem outra opinião, tudo bem, diga outra vez. Não tenha vergonha de mudar para estar sempre a fazer coisas e a participar da vida, da arte.”

"Espero que este governo acerte, não torço contra"

A abordagem valeu-lhe uma vaga de novos ouvintes que não se cingiram ao Brasil, algo que lhe traz “uma alegria imensa”. “Se a tua música não atinge as outras gerações, ela começa a morrer. É muito interessante ver que a música que eu faço – e que é a que sempre fiz, essa mistura, sem tentar fazer outro tipo de música para chegar à juventude – chega a novas pessoas. É um estímulo muito grande. Eu ganho com isso. É essa mistura que mantém a minha música viva”.

Isto numa altura em que, por contraste, o país atravessa “tempos confusos”. “Houve uma mudança radical para a direita, é uma coisa inesperada, que nunca pensei que fosse acontecer. É um momento muito instável porque as atitudes desse governo são inesperadas: um dia uma coisa, outro dia outra e as crises são quase que diárias. E isso perturba a economia, o optimismo, é muito confuso o que estamos a viver. Espero que este governo acerte, não torço contra. Tenho filhos, quero mais que o Brasil seja bom para eles, mas confesso que estou receoso deste caminho.”

Mas um “eterno optimista” como ele, que bateu de frente com as décadas de ditadura militar brasileira e fez da música um megafone, não podia tomar o lugar de espectador. “Fiz uma música nesse novo disco, a 'Olha Quem Está Chegando', que é exactamente sobre isso – olha a corrupção, é mais um que está a chegar, mais um que vai roubar o teu dinheiro para ficar rico. Não acho que tenhamos de ter uma patrulha ideológica para só fazer coisas sobre política mas inevitavelmente o artista, por ser sensível, acaba por ser afectado por isto.”

Esta sexta-feira é no palco do Estúdio Time Out que Sempre vai respirar ao vivo pela primeira vez em Portugal. “Quando vais para o palco há um momento de ansiedade, há o momento de prazer imenso quando tocas e quando o público aplaude. Quando termina, há aquele cansaço. Quase como fazer amor, é isso. A excitação, a realização e o cansaço. Vejo muito assim, o prazer é maior ao vivo".

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