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Maria Teresa Horta
Ricardo Lopes

Maria Teresa Horta: “Quando eu deixar de escrever é porque morri”

Aos 85 anos, Maria Teresa Horta continua a questionar o mundo como há meio século, quando escrevia ‘Novas Cartas Portuguesas’. “Nunca deixei de fazer nada por medo. Mesmo que tivesse medo, ia além dele.”

Escrito por
Joana Moreira
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Minha Senhora de Mim (1971) escandalizou uma nação puritana, enfureceu os bons costumes do regime fascista e valeu-lhe uma tareia na rua. “Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”, disseram-lhe depois. Mas escreveu, escreveu sempre. Em pequena assinava poemas e guardava-os à cintura e lia em francês O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, às escondidas, com a lanterna que pediu no aniversário. Em adulta desafiou a ordem patriarcal, conheceu o peso da ditadura e de ser uma mulher livre, sobretudo quando ao feminismo que já lhe corria nas veias se juntou a sororidade. Com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escreveu Novas Cartas Portuguesas, obra revolucionária que reivindicou o direito da mulher a ter corpo e pensamento. 

Activista, feminista, insubmissa, Maria Teresa Horta é o que faz, o que escreve, o que diz, o que sente. A Time Out esteve com a escritora em casa, espécie de mundo encantado que alberga todos os de Maria Teresa Horta, numa conversa sobre muitos dos temas que pintam a vida da escritora: o pai que lhe queimou os livros; a angústia da perda; a luta pela igualdade; a poesia como urgência; o refúgio – e a salvação – na escrita. 

Sentada num dos sofás de veludo da sala, com os pés descalços sobre a alcatifa, Maria Teresa Horta (MTH) repete o que tantas vezes ouviu: “Como é que esta mulher é capaz de fazer uma coisa destas?”

Há 50 anos, precisamente, publicava com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa Novas Cartas Portuguesas. O que é que mais lhe fica da escrita desse livro?
Nem mais nem menos. A sensação que tenho é que eu sou as Novas Cartas Portuguesas. A minha escrita faz parte do meu corpo e aquele livro exactamente igual. Mas no fim já estava a escrever sozinha e elas diziam “Ó Teresa, pára, que já acabou” [risos]. De vez em quando vou buscar as Cartas e leio, mas é tão estranho... É um livro meu, mas não só. Acaba por ser uma coisa de conivência de três mulheres, amigas, que foi muito bonito. Discutia-se tudo, podia discutir-se tudo. As emendas que se faziam eram por uma questão de literatura, nunca nada foi recusado. Qualquer uma de nós podia recusar os textos das outras, mas nunca, nunca. Foi um livro de eleição e uma relação espantosa de nós três e com um desfecho literário. 

Foi com o mesmo espírito que escreveu, antes, Minha Senhora de Mim?
Eu sou a primeira mulher dirigente de um cineclube em Portugal, era muito novinha, casei-me muito cedo, com 18 anos, a minha mãe adorava ir ao cinema, então levava-me desde pequenina. Ainda me lembro de as mulheres darem de mamar no cinema. A censura proibiu-nos os quatro filmes [do cineclube], era um por semana, e proibiram. O Manuel Neves, que era o director [do ABC – Cineclube de Lisboa] disse: temos de ir falar com o [César] Moreira Baptista, isto não é assim, a gente reclama. O Moreira Baptista estava a trabalhar no SNI [Secretariado Nacional de Informação]. Nós fomos lá ao SNI, subimos a escada, aquilo é lindo por dentro, ao pé do Éden. Mandaram-nos entrar para uma espécie de uma sala e eu estava fascinada a olhar, quando ele entra. Ele disse: “O que é que vêm cá fazer? E o que é que está a fazer aquela menina ali?”. E o Manuel Neves disse: “Aquela menina, não; aquela senhora, porque ela é casada e é directora do cineclube ABC.” E ele olha para mim com uma cara de pena, coitadinho, e disse: “Pobre país este que já tem mulheres que são directoras de cineclubes.” Desatei-me a rir. Onde é que hoje alguém diz isto? Se pudesse proibir as mulheres, ele tinha proibido. Ele detestava as mulheres e odiava-me. A Maria de Lourdes Pintasilgo dizia-me: “Ó Maria Teresa, o que é que você fez ao Moreira Baptista?”. E eu dizia: sou directora do cineclube. Nunca mais me largou. 

E ajudou à proibição das Novas Cartas?
Sim. Ele nunca mais me largou. De tal maneira que uma vez estava na embaixada americana, tinham feito lá um cocktail qualquer e tinham convidado uma data de mulheres. Houve um senhor que se chegou ao pé de mim e perguntou: “Eu trabalho com o Moreira Baptista, você pode dizer-me o que é que lhe fez a ele? É que nós não podemos dizer o seu nome, está proibido.” Isto é inconcebível. Elas ficaram parvas a olhar para ele [risos]. Depois foi o 25 de Abril e ele foi para o Brasil e depois regressou. Quando ele morreu, vi no jornal... Foi uma sensação estranha que é: morreu o meu pior inimigo. É uma coisa estranha. Eu era dirigente do cineclube ABC e isto foi aquilo que eu apanhei. Isto é a mentalidade que eu, a Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa apanhámos. 

O episódio no Arco do Cego marcou-a.
Tinha acabado de publicar o Minha Senhora de Mim. Saio do Bairro Social do Arco do Cego para ir ter com o Luís, que estava a sair do jornal e me tinha dito para ir beber um chá e ele um copo. Eu sou abstémia. Eu disse que ia lá ter. Fui apanhar um táxi ali à [Av.] António José de Almeida e quando dei a volta tive a sensação que tinha visto uns faróis a abrirem. Mas não liguei nenhuma, fui andando. Vieram dois, um ficou no carro, empurraram-me para o chão, eu caí, e eles começaram-me a bater. Eu com a cabeça no chão e eles a dizer “Isto é para tu aprenderes a não escreveres como escreves”. Só disseram isso. Pensei que era o último dia da minha vida. Que me iam matar ali e se iam embora. Estávamos no fascismo. Por sorte, um senhor que morava nessa rua atrás de nós vinha a andar a pé para casa e julgou que me estavam a roubar, e gritou. Ala, que se faz tarde, meteram-se no carro e desapareceram. Ele levou-me para casa onde estava a mulher e disse-me que tinha de ir ao hospital, para levar pontos. Pedi-lhe que falasse com o Luís. A mulher dele ainda me lavou a cara e tudo isso e fomos para o hospital. Quando lá cheguei já lá estava o Luís. Deram-me pontos por todo o lado. Passados dois dias voltei à Capital. Naquela figura, mas voltei.

E as outras Marias?
Nós falávamos todos os dias ao telefone, mas resolvemos que nos encontrávamos uma vez por semana, para almoçar. Elas estavam as duas a trabalhar juntas, saíam e passavam pela Capital e eu descia a escada. Íamos comer num restaurante que só tinha jornalistas quase, chamado O Treze. Que não se chamava assim! Não lhe sei dizer como se chamava, ninguém se lembra [risos]. Quando a Fátima [Maria Velho da Costa] me vê, diz: “O que é que te aconteceu?” E eu disse-lhe. Porque não podíamos estar a telefonar, os telefones estavam todos sob escuta. Ela disse: “Já viste bem a tua figura? Isto é incrível, isto não faziam a um homem. Que coisa horrível, temos de fazer qualquer coisa. E se fizéssemos um livro? Um livro as três? Que tivesse a ver com tudo isto, com as coisas que fazem às mulheres?” E eu disse: “Boa ideia, porque não?” Aqui a parva que tinha acabado de apanhar tareia por causa de um livro disse logo que sim [risos]. Chegámos lá e a Isabel estava distraída a fazer um papel. Contamos-lhe e ela disse “Ai, vocês são tão chatas, agora que eu ia escrever A Morte da Mãe”, que é um livro dela lindíssimo. Eu fiquei danada: “Vamos comer, já não quero saber disso para nada.” 

Mas a ideia não esmoreceu.
Na semana seguinte chegámos ao Treze e ela diz: “Está aqui o começo do livro. Querem escolher o nome?” Eu fiquei tão danada. Disse-lhe: “Isabel, não tornas a fazer uma coisa destas, qual é a tua ideia? É a minha ideia e a da Fátima, escrevermos um livro as três?” E ela: “É” Parou de escrever o livro que estava a começar e começámos a fazer o livro. 

E a encontrar-se todas as semanas.
Todas as semanas. Nunca falhámos. Houve alturas em que tivemos febres ou estávamos maldispostas e nunca [falhámos]. A Fátima tinha um filho, o Adérito, que já era grandinho, a Isabel tinha já dois miúdos, o meu filho tinha um ano e tal. Eu não tinha empregada, não tinha dinheiro para pôr uma pessoa a tomar conta dele, então resolveu-se que fazíamos os encontros todos na minha casa. Foi ali que se fizeram as Novas Cartas. Depois passávamos à máquina. Tínhamos um encontro por semana para discutir os textos, cada uma levava aquilo que tinha escrito durante a semana. Não fizemos uma única emenda por causa de outra. Foi assim durante nove meses sem a gente dar por isso. Chegámos ao fim, estava só eu a escrever e elas diziam: pára, Teresa [risos]. Acabou-se o livro, já está feito. Foi uma coisa mágica.

Daí à publicação…
Eu conhecia todos os editores porque estava a fazer o suplemento literário. Portanto disse logo: “Eu falo com eles a ver se estão interessados em ver o livro, se quiserem.” Houve um dia em que tivemos de fazer cópias do livro, que é grande, cada uma de nós, à máquina. O Lyon de Castro, da Europa-América, o Pedro Tamen [da editora Moraes], e a Natália Correia [da Estúdios Cor] estavam à espera. O livro ainda não estava pronto, eles estavam na sala lá em baixo, e nós no meu quarto a arranjar as três cópias, foi muito engraçado. Quando chegámos ao fim é que contámos a data: demorámos nove meses. Não foi nada combinado, nada. Acho isto tão bonito. Ficámos a olhar umas para as outras. Fomos lá levar abaixo e foi aceite pela Natália. Tinha que ser. Eram três mulheres e [o livro] foi editado por uma quarta. A Natália levou logo o livro, o Pedro Tamen disse: “Eu não posso, eu disse que sim, mas a editora diz que não, e a editora é que é, estou só empregado da editora.” O Lyon de Castro tinha a Europa-América, que era dele, mas disse logo que não podia. Porque o livro era proibido e imediatamente podiam fechar a editora. Era uma quantidade de trabalhadores desempregados e ele não tinha como pagar aos trabalhadores. Mas a Natália disse: “Eu publico.” Ela tinha ido há muito pouco tempo para lá e aceitou. Depois houve tipógrafos, dois, que foram fazer queixa ao editor do livro. É verdade. E o senhor disse à Natália que o livro não podia sair. E ela disse: “Não, a gente corta” [risos]. “Ah, está bem, então se corta…” Tinha combinado com um tipógrafo do Partido [Comunista] e ficavam os dois para mais tarde, e ela ia lá levar outra vez aquilo [que tinha sido cortado] e ele compunha. Portanto o livro quando ficou pronto, tal como nós o fizemos, a pessoa que o editou não sabia. Sabíamos nós e a Natália. A Natália era uma mulher muito corajosa. Espantosa. De uma coragem extrema. Ela também teve processo. Os editores tiveram processo e ela não deixou. Ela disse: “Não, eu é que respondo por isto.” E respondeu. O livro já vinha com esta marca, de que não foi fácil fazer o livro e que houve outra mulher. Sem querer.

Era já a sororidade a manifestar-se.
É tão engraçado. Nós não fizemos de propósito. Esta é a história das Novas Cartas Portuguesas. Aqueles nove meses que passamos juntas é uma coisa mágica, que até hoje tenho essa sensação.

A PIDE já tinha apreendido antes o Minha Senhora de Mim. O que a motivou a escrever as NCP? Foi uma questão de coragem?
Não sei se é coragem. Quando me dizem “tu não fazes”, eu enlouqueço. É matemático e a minha família sabe. Não me proíbam. Não façam isso porque eu não sou capaz. Deixem-me fazer as coisas como eu quero. Fico insana e faço as coisas mais inconcebíveis. E faço, e publico. Praticamente os meus livros todos foram proibidos. Fomos chamadas pela Polícia Judiciária e quando chegámos lá mandaram-nos para uma sala. Não foi uma apreensão simples, era uma coisa política, era a polícia dos costumes. Estávamos sentadas na sala com os advogados e estavam umas senhoras, mulheres, lá sentadas. De repente há uma que se levanta, se aproxima e diz: “As meninas estão aqui a fazer o quê?” Ah, foi por causa de ter escrito um livro. E disse: “As meninas não podem estar nesta sala, esta sala é das prostitutas, só nós é que podemos estar aqui, somos prostitutas.” [Risos] Eles julgaram que nos estavam a humilhar por nos porem ali. Nós nem sabíamos que elas eram prostitutas. Vejam bem a mentalidade. E dissemos: “Ah, não, agora é que não saímos daqui! Porque é que havíamos de sair?” O que isto diz da mentalidade destas criaturas. Hoje em dia isto parece mentira. Eu dizia muitas vezes: se calhar eu sonhei isto. E elas diziam-me: “Não sonhaste não, que então sonhámos as três. Estranho.” [Risos]

Nunca teve receio?
Não. Eu sabia que ia ser presa, todas nós sabíamos que íamos ser presas. Não fomos por causa do 25 de Abril. Só queria saber se íamos para as Mónicas [antigo Convento das Mónicas, na Graça, em Lisboa, que serviu como prisão feminina] ou se íamos para outro sítio, para depois dizer. Porque naquela altura podíamos simplesmente desaparecer e eles dizerem “não, elas estão presas...". Foi a única coisa em que tivemos algum receio. Acho que nenhuma de nós teve muito medo. No dia em que íamos ser presas chegámos lá e só havia mulheres estrangeiras, que tinham inundado a praça toda. E estavam três carrinhas da PIDE. A Isabel era assim mesmo: “Eu quero lá saber, rala-me cá que eles estejam ali ou não.” Eu e a Fátima fomos lá: “Olhe, faz favor, porque é que estão aqui tantas mulheres?" E eles: “Por causa das Marias, vieram de fora.” Aí é que começou “as Marias”. “E as senhoras estão aqui porquê? Vão presas hoje”, disse ele. E eu disse: “Ai, muito obrigada” [risos]. Ainda não tínhamos sequer ido ao tribunal e eles já sabiam. Depois apareceu uma senhora de lá de dentro para dizer que afinal o senhor doutor juiz adiou a sessão porque está doente. Adiou a sessão para o dia 25 de Abril [risos]. Quando falávamos umas com as outras – elas agora já não estão cá – chegávamos sempre aqui: e aquele dia em que íamos ser presas e nos marcaram a nossa prisão para o dia 25 de Abril? [Risos]

Maria Teresa Horta
Ricardo Lopes

O livro tem um grande impacto internacionalmente.
Teve. Vieram cá realizadores de cinema e tudo. Foram as feministas. A coisa tinha sido muito diferente. Quando saímos do país éramos revistados de tudo. Mas há um amigo da Isabel, corajoso, que disse: “Vocês querem que eu leve cartas, a quem? E o livro? A quem? Eu levo três livros na boa.” Foi uma coragem! E nós demos o nome da Simone e dissemos: “Ela que fale com o grupo latino-americano.” Foi isto. Ele chegou lá, foi procurá-la e fez exactamente o que nós dissemos. A Simone [de Beauvoir] agarrou e espalhou aquilo no mundo. A Simone fez duas vezes a travessia do Sena, da Rive Gauche, onde ela morava, à Rive Droite, onde era a embaixada portuguesa. Fez duas vezes aquilo como se fosse a procissão de Fátima, com velas acesas e com os escritores todos maiores daquela altura com ela: o Camus, e Sartre. E isso incendiou. E tivemos outra sorte, que foi que o primeiro encontro internacional feminista foi nessa altura. Qual foi, por votação unânime, o caso que tem que se tomar em mãos por todo o mundo por qualquer evento que se estivesse a fazer às mulheres? O nosso. É daquelas coisas... Realmente elas espalharam isso pelo mundo todo. 

Foi com a Simone que se confrontou pela primeira vez com o feminismo?
Sim. Eu tinha uma paixão pela Simone. Eu li Simone com 16 anos, o Le deuxième sexe. Voltava atrás cem vezes, não percebia. Sem a minha mãe saber. Pedi à minha mãe nos anos uma coisa com luz.

Uma lanterna?
Sim, li o Le deuxième sexe todo debaixo da minha cama. A minha mãe tinha no quarto daquelas portas de vidro fosco, mas que se via a luz. E dizia-me sempre: “Teresinha, fecha a luz.” Mas eu lia. Não percebia metade, mas voltava atrás. A Simone veio cá no 25 de Abril e eu disse-lhe. Ela ficou muito comovida. Foi ela que conseguiu que não fôssemos presas, e tudo isso. Porque depois eles ficaram muito aflitos. Não se esqueçam que havia uma coisa chamada Conversas em Família, do Marcello Caetano. Estava a comer em casa da minha sogra e de repente ele acaba a conversa e ele diz: “Tenho de comunicar uma coisa aos portugueses. É que há três mulheres em Portugal neste momento que não são dignas de ser portuguesas. Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.” Eu não podia acreditar.

O que é que sentiu ao ouvir isso?
Fiquei estarrecida. O Luís disse-me: eles vão proibir o livro. É preciso ter cuidado porque isto vai ser muito duro. O livro foi proibido logo. É incrível... um homem que se considerava culto. Mas era fascista.

Foi aí que a sua luta política se materializou pela primeira vez?
Quando dissemos que sim umas às outras e fomos fazer as Novas Cartas foi uma coisa lindíssima. Queríamos lá saber que nos prendessem, já estava habituada, a PIDE aparecia-me porta adentro às seis da manhã. Eu abria a porta e esganavam-me contra a parede, davam cabo da casa, viravam a casa do avesso. Para mim era mais uma vez. Vou presa, quero lá saber. Agora, houve muita gente que não. A Natália [Correia], por exemplo, perdeu o emprego. Foi a tribunal connosco. A coisa foi muito dura. O livro não chegou a estar nem duas horas nas livrarias, foi logo proibido. A coisa foi muito dura, mas foi muito empolgante.

Passar por isso deixou-a uma mulher mais livre?
Deixou. Deixou-nos a todas as três mais livres. Falámos nisso. Vamos embora para a luta? Então não? Ficarmos caladinhas? Não, não, não, Deus me livre. Nós sabíamos lá que ia haver o 25 de Abril, era improvável. Isto foram anos. A partir de uma certa altura começou-se a ouvir dizer que os jovens militares estavam a fazer alguma coisa. Fomos sempre ouvindo... Quando de repente a Isabel Barreno me telefona, já íamos para a cama, e me diz: “Tu estás a ouvir a rádio? Teresa, está uma revolução. Aquela revolução que a gente estava à espera.” Foi uma loucura quando a gente soube. O Luís, que estava a ir para a cama, arranjou-se para ir para o Expresso. É incrível: jornalista um, jornalista outro, e o Luís levanta-se e vai para o Expresso. Nem pergunta “queres ir tu ou eu?”. E eu nem me lembrei de perguntar: “Porque é que vais tu e não vou eu?” É impressionante como as coisas estão dentro de nós. Mesmo aqueles e aquelas que lutam [pela igualdade] de vez em quando aceitam coisas. Depois também lhe disse de manhã: já viste?

Li algures que ouvia o seu pai dizer “esta rapariga é estranha”, e a sua mãe emendava “não é estranha, é diferente”.
Fez sempre parte da minha vida essa história.

Acha-se estranha ou diferente?
Hoje em dia já é difícil dizer isso porque há muitas mulheres como eu, naquela altura era estranha e era diferente [risos]. As coisas que eu dizia... Mas tinha uma avó... A mãe do meu pai era sufragista, eu não sabia, ela não me tinha dito nada. Mas aquela avó que vivia connosco era assim a coisa mais maravilhosa da minha vida. Todos os dias me vou despedir dela, da fotografia dela. A minha avó era espantosa. O meu pai tinha uma mania de ler o jornal à mesa, e dizia ‘estas mulheres são doidas’. E a minha avó um dia disse: “Estás a falar de quem? das sufragistas? Eu não te admito que tu digas isso assim.” Ele disse outra vez e ela levantou-se e foi embora. E eu levantei-me e fui com a minha avó. Acho que esse é o meu primeiro movimento feminista. Seguir uma mulher que se levanta, que tem essa dignidade, que vira as costas ao filho.

A sua avó foi a sua paixão?
Sim. Ela morreu de mão dada comigo. Foi assim um horror. Eu fiquei muda durante 24 horas. Houve uma altura em que eu e ela conversávamos muito com uma braseira à frente. Acho que não seria aquela que sou hoje. As crianças naquela altura só iam para a escola aos sete anos, mas eu era uma loucura, ninguém me aguentava. Passava a vida a dizer: “E o que diz aqui?” Os remédios, tudo… A minha avó é que disse para porem uma professora em casa para me ensinar a ler. O meu pai saía, a minha mãe saía, e íamos imediatamente  para o escritório do meu pai e ela dizia: escolhe o livro que queres que eu leia. E ela lia-me. Eu sou essa mulher que ela fez.

Há um verso no [livro] Mulheres de Abril que diz “não cales mais a recusa do que quiseram que fosses”. A avó empurrava-a para aquilo que viria a ser?
Acho que sim. A minha avó nunca me disse nada que me empurrasse, mas respondia-me. Nunca me disse que eu não tinha idade para essa pergunta, nunca, nunca. Sempre me respondeu. O meu pai dizia “a menina não é adulta” e ela dizia-lhe “a menina entende”. Quando a minha mãe saiu de casa, a minha avó entrou no escritório do meu pai e disse: “As perguntas que a Teresinha fizer sobre a mãe têm de ser respondidas”. Esta era a minha avó. Sei lá o que era hoje sem aquela avó. Eu era muito insuportável, achava sempre que havia qualquer coisa que estava mal, e era sempre em relação às mulheres, sempre, sempre.

Quando falamos de feminismo em Portugal, o seu nome surge sempre.
Porque fui a única maluca delas todas que resolveu dizer as coisas alto e bom som, ainda por cima fui aquela que ficou conhecida porque era escritora. Tenho amigas telefonistas dessa altura, e para elas foi tão difícil como foi para mim. Agora, o que elas dizem é que se eu não tivesse tanta coragem, se eu não existisse, ‘será que elas iam pensar numa coisa dessas?’. E eu penso assim: mas eu tive uma avó sufragista que elas não tiveram.

Ver agora a palavra disseminada nas prateleiras, na televisão, é sinal de missão cumprida?
Não. Estamos aqui por nosso direito e pelo que fizemos. As mulheres têm de ter cada vez mais consciência que não podem ceder a esse tipo de chantagens, “eu é que mando em casa”, “ele é que está sentado a ler o jornal”... Ainda há casas assim. E não se pode, é uma humilhação, é uma questão humana. Nós não podemos ceder.

Ainda há pudor em dizer que se é feminista?
Sim, acho que há outra vez. Houve uma altura em que ninguém podia dizer, mesmo as feministas não o diziam. Iam para reuniões connosco, mas não diziam à família. Fui casada duas vezes, com o Raul e depois apareceu o Luís [de Barros], apaixonei-me pelo Luís e ele por mim, eu saí de casa e nasceu o Luís Jorge, o meu filho. Aquilo que mais me marcou foi fazer o cartão de identidade, de divorciada, e, quando o fui buscar, o senhor que me deu o cartão dizer-me: “E agora juizinho”. Mas o que é isto? 

Hoje reconhece novas versões desse “juizinho”?
Acho que hoje já é tão comum que uma pessoa se divorcie e se case que não [vai ouvir isso]. Não quer dizer que eles não pensem, mas já não o dizem porque sabem que vai ser mal visto. As coisas mudaram, mas estão muito longe de terem mudado definitivamente. Isto não é aquilo que nós queríamos. Ainda não é. Continua a haver homens que têm muito mais direitos do que nós. Como é que é possível, só por uma diferença de sexo. Porque até somos todos brancos. Porque a gente diz assim: “É uma questão racista". Mas não, não é, porque estamos a falar de pessoas da mesma cor. Agora, não há ser mais oprimido do que uma mulher negra. Não tenho dúvidas. Isso era uma frase das feministas nessa altura nos Estados Unidos. O ser mais oprimido deste mundo é uma mulher negra operária. 

É a discussão que se impõe?
É, sem dúvida nenhuma. E há mulheres que têm uma grande dificuldade de se imporem. Continuam a ser [vistas como] uns seres de segunda.

Falemos do tempo em que a MTH se impôs. Em 2011 recusou receber o prémio D. Dinis das mãos do então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. Em 2017 renunciou ao prémio Oceanos e disse por que o fazia: “sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra”.
Claro. 

Todos os actos são políticos?
Sempre. Depende daquilo a que chama política, mas eu acho que a política está sempre presente. Pode ter outro nome para isso. Mas, para mim, a política tem a ver com aquilo que somos no quotidiano e aquilo que permitimos que nos façam porque somos mulheres. Porque aos homens isso está fora de questão. Quando me recuso a receber o prémio do Passos Coelho, o grande burburinho era da maioria dos homens. Eu recebia coisas inomináveis dos homens, nunca das mulheres. “Como é que esta mulher é capaz de fazer uma coisa destas? Recusar”. A mim só me dá vontade de rir. Nunca deixei de fazer nada por medo. Mesmo que tivesse medo, ia além dele. Porque aí deixava de ter respeito por mim, e as mulheres não podiam deixar de ter respeito por elas. Quem é que determinou que os homens tinham mais direitos, que eram melhores, mais inteligentes, que tinham direito a tudo e mais alguma coisa, a bater em nós, tudo? Tinham a vida facilitadíssima, sempre tiveram e continuam a ter. Há muitas mulheres que chegam exaustas de trabalhar, eles também chegam exaustos de trabalhar, e são elas que vão para a cozinha e dar banho às crianças. Ainda hoje isso existe. As pessoas não veem, não percebem, são ignorantes?

O que pode a literatura fazer?
A literatura sempre ajudou a acabar com isso, a tirar essa parte ilusória de que o que nós, mulheres, queremos é amor e que desde que o nosso homem nos ame muito... Por isso é que elas deixavam tudo e mais alguma coisa. E ainda hoje são espancadas. Não vê os números que há? É uma coisa horrível. As tareias em que elas foram directas para o hospital. Temos de lutar. Nada está ganho ainda. Se – lagarto, lagarto, lagarto – viesse para aqui o fascismo [suspiro…] uma das primeiras coisas que eles fariam, com certeza, era diminuir os nossos direitos. Não tenho dúvidas. Nada está ganho, quanto a mim. Acredita-se em coisas porque se tem de acreditar, porque senão não se consegue, eu compreendo isso. Há quem não consiga viver de outra maneira senão com a esperança de poder mudar. Muitas mulheres me disseram isso. Que apanhavam tareias enormes dos maridos. Uma coisa que aconteceu durante séculos pode voltar a acontecer outra vez, neste país machista realmente. Conheci muita gente culta que o aceitava de mão beijada. Ainda hoje, se há um casal em que ela engana o marido, ela é uma puta; há um casal em que ele engana a mulher e é um homem muito viril. 

A lealdade sempre foi importante para si?
Sempre fui uma mulher leal com todas as dificuldades que isso acarreta. Porque uma mulher sabe perfeitamente que o melhor para ela é ser habilidosa, como elas diziam. Eu conheci uma mulher do Artur Portela, não digo nomes, que escrevia na retrete, e guardava. Porque o Artur Portela não admitia que uma mulher dele escrevesse. Na mesma casa, homem e mulher, a escrever? Então e quem era o melhor? Não, não. Ela escrevia na retrete. 

O quarto de que Virginia Woolf falava...
Um quarto que seja seu, uma retrete que seja sua, no fundo é isto. Conheci coisas de mulheres muito conhecidas. De esperarem que eles adormecessem e irem escrever para a divisão que eles menos frequentavam. Qual é a divisão que os homens menos frequentavam? 

A cozinha.
Ora vê? Grandes livros. Escritoras portuguesas que conhece e que são actuais, ainda, que são mais velhas, como eu, mas que continuam aqui, muitas delas escreviam na cozinha. 

Alguma vez escreveu na cozinha?
Não, nunca. Isso nunca fiz. Sempre escrevi, escrevi, mas nunca iludi coisa nenhuma. Um dia o meu pai, que era um homem tão culto, chamou-me: “Teresinha, estes livros de quem são?”. “Estes livros são emprestados de uma amiga minha”, disse-lhe. Pegou-me na mão, levou-me à cozinha e queimou-os. Um deles era do Camus. Como é que é possível? Esse gesto do meu pai foi das coisas mais importantes da minha vida. Horrível, mas que me fez pensar: “Eu hei-de lutar contra isto toda a minha vida.” 

Esse fogo criou um outro?
Criou. Sou muito desobediente. Agora é completamente diferente, tenho netos que são criados já dentro deste espírito, o meu filho foi criado por mim. Só não considero que ele é feminista porque não acredito em homens feministas. Acredito que há homens que aceitam as feministas, assim como eu aceito outras coisas nos homens também.

Não é possível um homem ser feminista?
Não, não há homens feministas. Não acredito, sou sincera. Podia-lhe estar a mentir e ficava muito bem vista, se calhar. Diziam “olha como ela está mudada, que bom, a idade faz muito bem às pessoas”. Mas não acredito. Acredito que há homens que não são machistas. O meu filho não é. Não porque eu lhe disse que era feminista, mas porque foi educado de outra maneira. 

Em Paixão [2021] questiona: “Como sossegar um pouco o coração com esta faca enterrada no meu peito?” Foi para sossegar o coração que escreveu este último livro?
Foi. Esse livro é do Luís. O Luís morreu e foi a paixão da minha vida. O Luís morreu em Novembro [de 2019] de repente.

Este livro ajudou?
Ajudou. Continuei a escrever poesia e pensei: “Tenho que fazer qualquer coisa antes que seja eu. Será que eu me quero matar? Será que eu quero morrer?” Nunca tive nenhum mal do coração, tive cancro da mama, tive tudo, e continuo aqui. Porque sempre lutei. 

A escrita cura?
A poesia para mim é tudo. A escrita de uma maneira geral… Não tinha sobrevivido se não houvesse escrita, escritores, a Simone de Beauvoir, esses poetas e poetisas espantosas. Não tinha sobrevivido. Estou aqui por causa da literatura, por causa da escrita das mulheres, sobretudo das mulheres.

No poema “Um dia”, escreve: “Talvez um dia ainda/ me arrependa/ de não ter tudo dito e tudo escrito/ Não ter tudo extremado/ Ao infinito/ nem ter amado tanto nas palavras”. O que é que lhe falta escrever?
Enquanto um escritor está vivo nunca vai escrever tudo. O tudo na escrita não existe. O tudo para um escritor somos nós próprios. Quando eu deixar de escrever é porque morri. 

Por isso a antologia Eu sou a minha poesia [2019]?
Eu sou a minha poesia, exactamente. Sou uma pessoa muito pouco contraditória nesse campo. Sei perfeitamente o que sou, do que sou capaz, aquilo que tenho consciência. Tenho a consciência perfeita que podia ter morrido com o Luís. Se me pergunta: “Isso era morrer de amor?” Quando escrevi o livro é essa pergunta que faço. Como é que eu consigo estar aqui sem o Luís? Porque eu sou ele, e porque eu sou a Maria Teresa Horta e tenho a minha escrita. Neste momento, eu vivo porque escrevo. E vivo porque acho que a vida é uma coisa espantosa. E porque existe um Luís Jorge. Estou aqui porque esse livro me mostrou que sou capaz de sobreviver às coisas piores, porque escrevo. Eu sou a minha escrita, é isso.

Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Time Out Lisboa, edição 656 — Primavera 2022.

+ Vítor Sobral: “Digo o que penso. Se isso é mau feitio, então tenho mau feitio”

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