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No Guincho, José Avillez está em casa com um restaurante tão contemporâneo quanto tradicional

Depois de anos ao abandono, o Raio Verde é hoje o Maré de José Avillez, restaurante que não vai ser apenas uma moda no Verão.

Cláudia Lima Carvalho
Maré de José Avillez
Francisco Romão Pereira
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Foram anos e anos ao abandono, um mono à beira-mar, em plena estrada do Guincho. Foi palco de treinos ao ar livre, piqueniques e sessões fotográficas, mas também alvo de pichagens e vandalismo. O Raio Verde é hoje o Maré, restaurante de José Avillez, finalmente em funcionamento. A carta aposta na contemporaneidade, homenageando ainda assim a tradição.

“Eu também nunca tinha estado tanto tempo com um restaurante por abrir, principalmente num sítio em que milhares de pessoas o vêem. Tinha-se criado uma grande expectativa para a abertura”, começa por dizer José Avillez, confessando que o atraso, nos últimos tempos devido principalmente a burocracia, acabou por ser a melhor publicidade. “As pessoas foram acompanhando as obras, depois já espreitavam pelos vidros… Foram três anos disto. De repente, começaram a ver luzes à noite e pessoas a movimentarem-se lá dentro e começaram, nesta recta final, a ganhar mais interesse”, conta o chef.

Maré de José Avillez
Francisco Romão Pereira

Pronto ainda antes da pandemia, foi preciso esperar por Maio para que o Maré pudesse finalmente abrir portas. Em Dezembro, com o restaurante ainda vazio, José Avillez dizia-nos que nunca tanta gente lhe tinha perguntado por um projecto como por este restaurante à beira-mar. “Inclusive já tive mais de dez propostas de compra, investidores que querem comprar o restaurante. Não está à venda”, revelava. Agora, com as mesas cheias e o Maré repleto de vida, respira de alívio mais do que cede à pressão e à expectativa de quem chega. “Eu tenho sempre muita expectativa em relação ao meu nome, estou sempre preparado para isso. Obviamente que este tempo todo à espera cria expectativa, mas não seria diferente se eu abrisse em um mês”, acredita, destacando o facto de estar a abrir um restaurante perto de onde cresceu. “Há muitas pessoas que me conhecem desde pequeno e por isso para mim também é um projecto especial que me causa um nervoso especial.”

José Avillez
Mariana Valle Lima

Já em Dezembro, quando nos sentávamos para uma grande entrevista, o chef que tem duas estrelas Michelin no Belcanto recordava a infância no Guincho. “Era a praia aonde ia de bicicleta ou a pé. Depois, um bocadinho mais tarde, já numa motinha que só dava 30 a hora. Tínhamos colocado aqui dentro destas propriedades do Cabo Raso uma bandeira que eu via de minha casa, lá de um sítio mais alto, e espreitávamos de binóculos para ver se o vento estava favorável para virmos fazer surf. Sou daqui, nasci aqui, cresci com este cheiro do mar e com as plantas das dunas e por isso vir para aqui é esse sonho antigo.”

Não por acaso, há quem chegue e pergunte por Avillez. Há quem não resista a contar alguma história ou apenas a reconhecer como o chef merece o sucesso imediato do Maré. “Tem sido um feedback muito bom e temos estado já a dar 200, 300, 350 refeições por dia e as pessoas estão contentes”, aponta o chef, sublinhando a presença, lá está, de “muitas pessoas de Cascais, mas também de muitos estrangeiros que vivem ali e turistas que vão passando na estrada do Guincho e vão parando”. 

Maré de José Avillez
Francisco Romão Pereira

Se a ideia é ter o restaurante aberto sete dias por semana, por agora tal ainda não acontece. Fecha às segundas e às terças-feiras e só aos fins-de-semana é que se mantém a funcionar num horário ininterrupto. Um passo de cada vez. “As pessoas vão ficando e gostam, ficam até às cinco se for preciso”, garante o chef, explicando que o Maré é um restaurante, obviamente, mas também pode ser uma boa opção para se ir beber um copo a meio da tarde. Dividido em dois espaços, o Maré tem a particularidade de (quase) criar dois ambientes distintos. Na sala depois da cozinha, nas mesas há toalhas de pano, enquanto na sala pela qual se entra para o restaurante é tudo mais descontraído – com a graça de a carta ser igual em todo o lado.

Maré de José Avillez
Francisco Romão Pereira

Para beber, há cocktails de autor que já se conhecem de outras casas como o que faz sucesso no Bairro do Avillez, o Primo Basílico (11€), feito com gin, limão e manjericão, que ganhou também uma versão em jarro (23€) à qual se adiciona ainda vinho branco, e uma carta de vinhos composta.

Maré de José Avillez
Francisco Romão PereiraCone de atum com soja picante

Na comida, são várias as novidades e as apostas. “No outro dia um cliente habitual, chamou-me à mesa e disse: vou sempre aos seus restaurantes e vimos sempre às aberturas. Aqui, eu vou mais para o lado tradicional, já a minha mulher gosta das partes todas mais modernas, eu não gosto assim de grandes invenções.” José Avillez não dá este exemplo por casualidade, mas para demonstrar o exercício de equilíbrio que aqui quis fazer. 

Maré de José Avillez
Francisco Romão PereiraCorvina marinada com cebola roxa e abacate

Quer isto dizer que tanto se pode começar a refeição com um cone de atum com soja picante (13,50€/unidade) ou uma corvina marinada com cebola roxa e abacate (16€), como por umas tradicionais ameijoas à Bulhão Pato (26€) e umas bruxinhas de Cascais (30€). Há petiscos e saladas e pratos de grelha, mas com um twist, ou nas palavras do chef com “um pequeno toque”. “Hoje servimos o peixe como se fosse grelhado, mas acaba por ser directamente nas brasas, à japonesa. Estivemos em equipa numa viagem ao Japão e por isso quisemos trazer também técnicas de lá. A carta tem essa particularidade e essa graça”, acredita. O robalo (35€), por exemplo, é servido fatiado com azeite, cebolinho e limão, tal como a corvina (33€). Para acompanhar, há muito por onde escolher, entre umas batatinhas a murro com azeite de alho e emulsão de kimchi (3,5€) ou uma fresca salada de tomate de temporada e orégãos (4€). 

Maré de José Avillez
Francisco Romão PereiraRobalo fatiado com azeite, cebolinho e limão

“Eu acho que as pessoas também têm dado valor ao facto de ser algo diferente do que apanham ali. E eu digo na brincadeira, mas a sério, que não vou estar a fazer os filetes do Monte Mar se eles os fazem há 40 ou 50 anos e as pessoas gostam tanto e eu também. São vizinhos e amigos. Não vou estar a tentar fazer melhor ou a mesma coisa”, assegura. 

Maré de José Avillez
Francisco Romão PereiraArroz de carabineiros, caranguejo e amêijoas

Mesmo assim, há espaço na carta para as tachadas como o arroz de carabineiros, caranguejo e amêijoas (70€) ou a cataplana à Maré com hortelã da Ribeira (47,5€), feita com robalo, corvina, carabineiro e amêijoas. 

Maré de José Avillez
Francisco Romão PereiraBife do lombo, molho à café e batata frita

E até os pratos de carne têm tido muita saída, com especial destaque para o bife do lombo, molho à café e batata frita (35€). “Acaba por chegar para crianças, para as pessoas que gostam de comer primeiro marisco e carne a seguir, que acontece muito, num registo de cervejaria. Há esse equilíbrio e tem tido muita aceitação”, conclui.

Av. Nossa Senhora do Cabo 9000 (Cascais). 916001527. Qua-Qui 12.30-15.00, 19.00-22.30. Sex-Sáb 12.30-23.00. Dom 12.30-22.30

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