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Soulmates
Jorge Alvarino/AMCSarah Snook e Kingsley Ben-Adir no primeiro episódio de 'Soulmates'

O que vai ser de nós quando a ciência resolver a incerteza do amor?

‘Soulmates’ explora um futuro próximo, quase palpável, em que um simples teste identifica uma alma gémea para cada indivíduo. Estreia-se esta quarta-feira no AMC.

Por
Hugo Torres
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Em 1842, Nikolai Gógol publicou a sua versão de um patranheiro: Pável Ivánovitch Tchítchicov. Uma insólita personagem que vagueava pela Rússia Imperial em busca de “almas mortas”; propunha-se a adquiri-las aos senhores feudais, aliviando-os dos impostos que estavam obrigados a pagar por servos já mortos até que um novo e muito esporádico censo viesse a reconhecer os óbitos e a repor a legalidade dos números. Tchítchicov levava água no bico, claro, e Gógol não deixa terminar o seminal Almas Mortas sem denunciar o esquema do protagonista, de forma reconhecidamente espirituosa. Na série Soulmates há um protagonista omnipresente mas encoberto, a Soul Connex, uma empresa que também negoceia em almas – embora literalmente, assumindo que tal coisa seja possível, e não para fazer uso de uma metáfora burocrática – que nunca é denunciada. Almas vivas, almas gémeas. O par perfeito. A felicidade acabada. Um mar de rosas. Uma patranha.

Com estreia marcada para a próxima quarta-feira, dia 11, no AMC, Soulmates é uma série antológica que apresenta seis histórias independentes noutros tantos episódios. Passa-se num futuro próximo e reconhecível, dentro de uns meros 15 anos, altura em que os ecrãs serão transparentes, os computadores tácteis e holográficos e os carros (ainda não nos teremos livrado da ineficiência dos carros…) silenciosos. Avanços tecnológicos nada extravagantes. A premissa futurista fica por isso entregue ao essencial, ao grande salto em frente: a ciência descobriu uma forma de identificar, através de um indolor teste genético, o parceiro certo de cada pessoa. Uma correspondência de inequívoca legitimidade, que permite que cada um viva a sua “melhor vida” amorosa. E toda a gente parece ter direito à sua. Se a respectiva alma gémea ainda não está identificada é porque essa pessoa ainda não fez o teste – ou seja, ainda não consta da base de dados desta empresa privada, uma conjugação de palavras que, aparentemente, inquietará menos no futuro do que hoje em dia. Basta esperar. É uma questão de tempo.

Will Bridges é um dos co-criadores da série e dir-se-ia que tenta dar continuidade ao seu trabalho em Black Mirror (foi ele quem escreveu o episódio “USS Callister”, com o qual venceu um Emmy). As personagens não questionam “o teste”, aceitam-no, é um dado adquirido; debatem-se apenas consigo próprias, e com quem as rodeia, sobre se devem ou não submeter-se a ele. Temem as mudanças que os resultados possam implicar. Quando julgam não ter nada a perder, avançam quase sem pruridos. O impulso e a curiosidade são incontroláveis. Querem juntar-se aos casais radiantes que vêem desfilar pelas ruas. Mesmo quem está em relações felizes e duradouras, construídas à moda antiga, não deixa de se questionar se poderia ter mais do que isso. A insatisfação só desaparece quando nos dizem que não há mais a que aspirar. E Bridges e Brett Goldstein, o outro co-criador, tornaram esta ficção ainda mais perniciosa, dando aos indivíduos liberdade para decidir sobre as suas vidas – os testes são voluntários, um serviço –, torcendo assim o braço à distopia.

O primeiro episódio é protagonizado por Sarah Snook (Succession) e Kingsley Ben-Adir (The OA), que corporizam um casal com uma invejável história de amor – college sweethearts, família, filhos, sucesso – que sucumbe à tentação. Conhecidas as almas gémeas, ele irá perguntar: “Isto é melhor?” É uma pergunta inevitável, apesar de haver pouco interesse em dar-lhe resposta. Soulmates detém-se mais nas tribulações das personagens, indicando que se tratam de histórias desalinhadas de um empreendimento genericamente bem sucedido; outliers. Como no segundo episódio, em que o respeitável académico de David Costabile (Breaking Bad) vê os seus dados devassados por alguém que se apresenta como a sua alma gémea. Ao terceiro, a série aborda a monogamia, ao quarto o acaso e a espontaneidade, ao quinto o luto de quem perdeu a alma gémea, e ao sexto a confiança, o salto no escuro que é entregarmos-nos de repente a um desconhecido. Fica a faltar um sétimo, para nos lembrar que o amor é como a ciência – não é para sempre – e que a Soul Connex é mais uma empresa a lucrar com os nossos dados e o nosso deslumbramento manso de almas mortas; e que, como diria Jorge Palma, não sabe quanto vale um beijo. Talvez na segunda temporada, visto que a série já tem continuação garantida.

AMC. 11 de Novembro (Qua) 22h10. Estreia T1

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