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"O Velho e o Mar", um clássico de Hemingway em formato gráfico

Escrito por
João Morales
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Thierry Murat assina O Velho e o Mar, uma novela gráfica a partir do romance homónimo de Ernest Hemingway. Fizemo-nos a este mar de metáforas e a pescaria mostrou-se de feição.

A primeira página, com uma imagem única, coloca-nos sabiamente no espaço e no tempo. A decrepitude do edifício e a inscrição “Viva Fidel” remetem para a Cuba de meados do século XX em que tudo se passa. Santiago é um velho pescador, idolatrado pelo jovem Manolin, que apenas quer ir com ele no barco, o que fez pela primeira vez aos cinco anos. O veterano já não tem o êxito de outrora, mas a sua perseverança permanece intacta: “é bom ter sorte. Isso é verdade. Mas, quanto a mim, ainda gosto mais de fazer o que tem de ser feito”. Um dia, sozinho, arrisca sair com o seu barco o mais longe que for possível, na senda de um peixe, um espécime que lhe mereça respeito e lhe devolva a auto-estima e o lugar na comunidade: “mas sabes, peixe, mesmo que sejas meu irmão, és de tal forma extraordinário que tenho de te matar”.

Com desenhos e texto a cargo de Thierry Murat, este livro é uma adaptação livre do clássico de Ernest Hemingway (escrito justamente em Cuba, em 1951, e publicado no ano seguinte), um trabalho que acolhe diversas metáforas e permite uma leitura ampla e multifacetada. A dada altura, o livro transforma-se no relato da aventura do leão do mar (“o velho passava todas a noites na costa africana. E o rugido das ondas invadia tranquilamente os seus sonhos”) ao próprio Hemingway, que termina o livro começando a escrevê-la, fechando assim o ciclo em registo de metaliteratura: um personagem narra ao autor inicial a história que ele escreverá e que nós já estamos a ler.

Santiago fala sozinho. Mas também com o espadarte que persegue, distinguido entre o cardume, à semelhança da ideia que dá origem a um romance, identificada por um escritor no manancial de pistas que a vida e a imaginação proporcionam. A solidão marca pontos, com a foto da mulher falecida na gaveta, debaixo da camisa de domingo, “aquela que nunca vestiu”. As referências bíblicas podem ser discretas: “Como te sentes, mão esquerda? Talvez ainda seja cedo de mais para saber… a ti, mão direita, nem te pergunto… vejo bem que não estás curada” (“não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”; Mateus).

Graficamente, o livro vive uma atmosfera pesada, com uma paginação constituída em duas ou três vinhetas por página, o que acentua o ritmo, lento, mas intenso, tal como a jornada do pescador. A paleta cromática é reduzida, optando pelas tonalidades ocres e escuras, coincidindo com a tez de alguém que tantas horas passa no mar alto, sujeito ao sal e às intempéries. O rosto de Santiago raramente está visível.

Peixe e pescador vivem em interdependência, num ecossistema que não se resume à alimentação ou ao meio ambiente, porque, no fundo, lançado o isco e iniciado o confronto “não se sabe qual de nós puxa o outro”.

O Velho e o Mar ***** (cinco estrelas)

Thierry Murat

Porto Editora

120 pp

18,80€

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