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The Editory Riverside Santa Apolónia
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Os comboios chegam e partem. No novo hotel de Santa Apolónia, nada nos tira o sono

Parte do edifício da estação é agora um hotel de cinco estrelas onde qualquer pode entrar para jantar. Fomos conhecer o novo The Editory Riverside Santa Apolónia.

Escrito por
Mauro Gonçalves
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Tal como um cais ferroviário, a recepção de um hotel é palco de partidas e chegadas. O sortido de destinos e procedências faz com que todos os que aqui se cruzam tenham, no limite, um único ponto em comum: a particularidade de estarem em trânsito. No lobby do recém-inaugurado The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel, paredes meias com a linha do comboio, todos se encontram. O cenário alude à era dourada dos caminhos-de-ferro portugueses, num edifício erigido em meados do século XIX e agora reabilitado na forma de um cinco estrelas, com 126 quartos e um restaurante aberto à cidade.

The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel
© DRA recepção

"A idade está no edifício. O que quisemos fazer foi limpá-lo para que os traços originais ressaltem", introduz Sónia Fragoso, directora-geral do hotel que ocupa a maior parte do edifício da estação, instalações sub-concessionadas pela Infraestruturas de Portugal Património (IPP) à Sonae Capital. Com a forma de um L — toda a fachada virada para o rio e para a frente da estação — e distribuído por dois andares (apenas a recepção fica no piso térreo), o hotel representa um investimento de 12 milhões de euros.

Mas há outros números que impressionam, nomeadamente os 130 metros de corredor que albergam a maioria dos quartos. Portas, vãos e azulejos permanecem fiéis aos interiores dos velhos escritórios, agora tingidos de uma paleta branca e azul, com assinatura da Saraiva + Associados. Candeeiros e placas com o número de cada quarto fazem parte do mesmo imaginário. Nas paredes, há imagens a preto e branco de velhas estações e apeadeiros portugueses, uma pesquisa levada a cabo pelo fotógrafo catalão Jordi Llorella.

The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel
© DRUm dos quartos

Se a suite master é considerada a jóia da coroa do hotel — espaçosa, com uma lareira decorativa, varandas e um painel Viúva Lamego na casa de banho —, é na suite rosácea que o charme de The Editory se afirma em todas as suas cores. A janela redonda, virada para dentro da estação a marcar o centro da linha, corresponde à estrutura original, restaurada para iluminar o interior de um dos quartos.

Sem piscina ou spa, o valor patrimonial do edifício ditou os limites da intervenção. Houve espaço, contudo, para instalar um ginásio e ainda um restaurante no primeiro andar, aberto também a não hóspedes. Nos átrios e corredores, os interiores foram completados com peças das antigas instalações da Infraestruturas de Portugal, mas também com tesouros de antiquário. Entre Abril e Maio, a cadeia portuguesa volta a crescer com a abertura de The Editory Boulevard Aliados, no Porto.

Contar comboínhos

À partida, uma estação de comboios não será o lugar mais aconselhável para pernoitar, pelo menos sem comprometer a qualidade do sono. As garantias de insonorização são dadas nos primeiros minutos após a chegada. "Sente-se alguma trepidação, mas não ruído. É uma estação terminal, só de chegadas e partidas, por isso os comboios chegam aqui já a andar muito devagar", garante Sónia Fragoso, mesmo quando os quartos são viradas para o interior do edifício.

The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel
© DRUm dos longos corredores do hotel

Curiosamente, o quarto atribuído tinha vista para o lado oposto — em vez de locomotivas, vislumbra-se um imponente cruzeiro, capaz de fazer sombra ao próprio edifício oitocentista. O isolamento sonoro é a primeira peça de um conforto conseguido sem interiores faustosos. Em vez disso, a aposta foi feita na simplicidade dos elementos e cores, criando ambientes acolhedores. No total, são 11 as tipologias de quartos, a maioria de áreas amplas e espaçosas. A mesma sobriedade (e a predilecção pelo azul) estende-se às casas-de-banho, onde os produtos escolhidos são de uma marca portuguesa — a linha Portus Cale, da Castelbel.

À conversa com o chef

De manhã, o pequeno-almoço é servido no restaurante do hotel. Um buffet clássico e uma sala ampla, com um longo dia pela frente. Ainda sem nome, este espaço aberto também a não hóspedes está preparado para servir refeições a qualquer hora do dia. Afinal, continuamos a estar numa estação de comboios e convém que a conveniência prevaleça, a par com o prazer gastronómico. O restaurante pode ainda não ter nome, mas a cozinha tem um rosto, o de André Silva.

The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel
© Francisco Romão PereiraO restaurante do hotel

"As casas onde estive foram sempre de base portuguesa", começa por explicar o chef, também responsável pelo Auge do Porto Palácio Hotel e em tempos peça fundamental da Casa da Calçada, em Amarante, distinguido com uma estrela Michelin. Para o novo restaurante, ainda sem nome, voltou a honrar as raízes e a trazer a culinária e os ingredientes portugueses para cima da mesa.

"Temos sempre a tendência de ir para o caviar, para as vieiras, para o foie gras. Isso aqui não ia resultar. Quisemos potencializar os nossos produtos, afinal a própria estação foi durante muito tempo um entreposto de onde muitos deles seguiam para o Sul e para o Norte do país. Acho que com o fine dining se perdeu esta ideia de que é possível surpreender com ingredientes mais normais", continua.

The Editory Riverside Santa Apolónia Hotel
© Francisco Romão PereiraO bar

Uma viagem patente no prato, mas também no painel que exibe as linhas regionais que serpenteiam pelo território continental. A cozinha, aberta para uma sala com quase 500 metros quadrados e 122 lugares sentados, serve entre as 07.00 e a 01.00 — durante o dia com menu executivo, à noite com uma carta onde as especialidades nacionais continuam a ser as estrelas.

Ficam as sugestões do chef: choco frito com tinta, acompanhado com maionese de caril e salada de ficóide glacial da Ria Formosa (17€), lombo de bacalhau com arroz de línguas e coentros (21€) e um pudim de queijo da serra com creme de medronho e gelado de marmelada e licor beirão com pinhões tostados (6,50€).

The Editory Riverside Santo Apolónia Hotel
© DR

"Durante muitos anos, os hotéis fecharam-se. A maioria não tinha restaurantes abertos para a rua, os outros acabavam por não ter um papel importante", reflecte ainda André Silva, ao reconhecer que os restaurantes de hotel estão a ganhar um novo vigor. Almoçar ou jantar são só dois dos programas possíveis. No centro, existe um bar bem apetrechado. Na dúvida, experimente o negroni num copo fumado, com laranja desidratada.

Avenida Infante D. Henrique, 1. 219 023 000. Restaurante: Seg-Dom 07.00-01.00. Preços: a partir de 139€ por noite.

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