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Uma carta aberta ao cagalhão no passeio

Por O Provedor
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Nas ruas, travessas, becos e avenidas desta cidade podemos encontrar um pouco de tudo. E esse “tudo” inclui sempre dejectos caninos. E não são poucos.

A calçada portuguesa é uma tradição muito nossa, mas por cima dessa tradição parece haver outra – quase tão antiga, um pouco mais fedorenta.

É como se as pedras de calcário fatiadas aos cubos não fossem o suficiente para saber que estamos em Lisboa. É preciso colocar lá em cima uma coisa acastanhada de odor nefasto. Uma substância para a qual a nossa sola dos sapatos se sente estranhamente atraída.

Os cães podem ser os criadores de cada obra – são eles que estão, efectivamente, a obrar – mas a autoria tem de ser atribuída aos seus donos. Sem discussão. São eles que se esquecem dos sacos de plástico ou evitam a genuflexão necessária à remoção dos dejectos.

É divertido assistir a estes momentos: o cão faz o seu serviço e retoma os seus interesses – os rabos de outros cães, a perseguição da própria cauda, etc. Em seguida, o seu dono distrai-se, olha para o lado, segue viagem. Há os que adornam esta fuga, olhando para o telemóvel, fingindo uma chamada urgente ou deslocando o seu olhar para uma qualquer espécie de ave que acabou de aterrar nas árvores circundantes.

“Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, será que faz barulho?” Esta é uma questão filosófica. Mas agora vamos a uma questão prática: “Se o meu cão defecar no passeio e ninguém estiver a olhar, será que o devo apanhar?” A resposta é sim.

Aos lisboetas que acham que existe uma Fada do Cocó que limpa o chão; ou que as fezes caninas fazem bem ao calcário da calçada portuguesa, desejamos só uma coisa: que um dia reencarnem numa sola de sapato.

O Provedor do Lisboeta é um vigilante dos hábitos e manias dos alfacinhas e de todos aqueles que se comportam como nabos e repolhos nesta cidade. Se está arreliado com alguma coisa e quer ver esse assunto abordado com isenção e rigor, escreva ao provedorprovedor@timeout.com

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