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Vanya ficou para tio – e isso vai deixar-nos desolados

Por Miguel Branco
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O novo espectáculo dos Primeiros Sintomas é um daqueles clássicos obrigatórios do teatro: Tio Vanya, de Tchékhov. Teatro, finalmente, ficamos agradecidos.

A mesa é daquelas onde cabem os que forem precisos, longa, antiga, onde se come tanto como se discutem e arrumam as questões familiares. Também se bebe chá, aliás, aqui parece que não se faz mais nada do que beber chá. Atrás um cadeirão que sugere um escritório, e uma secretária que é a imagem da papelada e do trabalho.

Embora a indicação não seja muito óbvia estamos numa quinta, importunada agora – fim ao sossego – pelo regresso de Aleksandr, um professor, académico, um intelectual famoso que escreve sobre arte, que volta a um local que pertencia à sua primeira mulher, agora gerida pela filha de ambos (Sonya) e por Tio Vanya, ex-cunhado de Aleksandr. Com ele traz a sua mulher Yelena, muito mais nova. E por esta morada já estavam: Marina, a ama de sempre; Ilya ou o Crepe (devido ao formato da sua cara), um ajudante da quinta e amigo com gosto por acordeão; a Mãe, uma intelectual que mais não faz que ler revistas e livros; e, por fim, o médio Astrov, um médico de província que aqui foi chamado porque o professor tem gota, reumático, está doente. Sim, é isso, Tio Vanya, de Tchékhov, é a nova criação dos Primeiros Sintomas – a primeira desde que se mudaram para o CAL, em Dezembro de 2017 – e tem encenação de Bruno Bravo.

Ele que tinha já uma vontade antiga de levar este clássico a cena: “Os últimos espectáculos dos Primeiros Sintomas têm sido a partir de textos literários, ou mais literários, e agora queríamos regressar ao teatro. É um projecto que foi sendo adiado porque não tivemos apoio e não sabíamos como seria o futuro do grupo. O Tio Vanya pareceu-nos o espectáculo ideal, pela sua complexidade, para a primeira produção dos Primeiros Sintomas no CAL”.

Caso para dizer: metamos complexidade nisso. O professor, que sempre viveu na cidade às custas da exploração desta quinta, vê-se obrigado, por falta de dinheiro, a deslocar-se para o campo, estilo de vida que ele repudia, sobretudo estando tão longe dos seus colegas letrados e ilustres. Mais a mais está velho, naquela fase em que se deseja que tenham pena de nós, que façam tudo como queremos, “podes-me trazer aquela chávena…”. E isso desatina Tio Vanya, bom, não só, desatina toda a gente, mas Vanya em particular, que parece não saber gerir a depressão, o sentimento de ter sido enganado pelo professor a vida toda. Além do rodopio de micro-tensões, choques de personalidade, a lentidão, a passagem do tempo, o tédio, os contrastes constantes entre comédia e drama, intelectualidade e pragmatismo, há um personagem, em particular, que agita a coisa com bastante piada: Astrov. Médico com preocupações ecológicas, um fraquinho por vodka e por Yelena, e que sempre, através do seu sarcástico humor e propensão para a realidade, nos relembra de como não há esperança neste tempo nem nesta terra.

Essa projecção pessimista que se relaciona com os Primeiros Sintomas e com o facto de terem sido excluídos do apoio da DGArtes: “Tenho a sensação que esta é uma peça de meia-idade, o texto propõe, em grande parte dos personagens, uma reflexão sobre o passado e pôr em causa tudo o que construíram até aí e um olhar para o futuro muito desolado. De certa forma bate um bocadinho com o espírito que passámos este ano, pessoalmente meti em causa muitas coisas, é difícil não reveres o que tens feito, o sentido disto, há um eco qualquer”, conclui Bruno Bravo.

CAL – Primeiros Sintomas. Qua-Sáb 21.30. Dom 17.00. 10€.

cena técnica

de Anton Tchékhov
encenação Bruno Bravo
com Amélia Videira, António Mortágua, Carolina Salles, Ivo Alexandre, Joana Campos, Luis Miguel Cintra, Nídia Roque, Paulo Pinto

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