À Justa

Restaurantes, Português Ajuda
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À Justa
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Depois de um dos piores bacalhaus à Brás que me passaram pelo esófago, o empregado encolhe os ombros e faz
uma expressão de lamento,
 falsa como uma telenovela portuguesa. Ao perguntarmos pela composição das manteigas “aromáticas” ele volta a ter um comportamento estranho e especula coisas. “Devem levar coentros, ah... talvez orégãos, ah... leva de certeza ervas aromáticas... e, diria, um pouco de pimenta.”

Diria. Eu também diria o nome que se dá a um almoço onde se cobram mais de 40 euros por pessoa e nos servem assim. Chama-se escândalo. Diria.

Lembrar que o À Justa fica 
na Ajuda, bairro de tradições populares. É um sítio sem grande gastronomia, muito menos na divisão em que a chef quer jogar, mas foi onde Justa Nobre e o marido brilharam, nos anos 90. Do que se leu no noticiário, a ideia do casal seria voltar às origens, sendo que de então para cá o mundo girou muito e Justa ainda mais: andou pela televisão, fez publicidade 
e deu a cara por uma cadeia de bitoques em centros comerciais.

A carta está construída com o espírito das velhas glórias. A começar, provei umas favinhas borrachosas, com uma linguiça borrachosa e coentros falecidos. Bom o escabeche com carapauzinhos mínimos. Azeitonas razoáveis, o pão industrial, manteigas boas de “ervas aromáticas”. Acompanhavam tostinhas de azeite e “ervas aromáticas”.

Seguiu-se um grande momento. A sopa de castanhas é belíssima. Podia nevar e nós de cuecas que aquele creme denso e manteigoso haveria de nos aquecer. Há poucas coisas tão reconfortantes como sopa de castanhas.

Nisto, deu tempo para contar cabeças. Estamos a falar de
 um restaurante que senta confortavelmente 30 pessoas. Estavam seis. O interior tem dedo de designer, não se está mal, com uma estrutura de madeira modernaça a forrar as paredes e a dar graça à sala. Tempo também para olhar para a carta de vinhos com mais atenção. Extensa e completa, preços a condizer com os da comida, ou seja, puxados.

Chega então o desastre. 
Um monte de bacalhau à 
Brás, prato do dia, capaz de alimentar duas pessoas. No topo uma espécie de batatas fritas decorativas, resfriadas, moles. Por dentro, parecia tudo cozido e reaquecido. Nenhuma crocância, o ovo desligado, o bacalhau pouco e esmigalhado, as batatas sem expressão, sem sal, sem pimenta, sem nada. Pedir 14,90 euros por um aglomerado destes é um assalto. Diria.

O cabritinho, também prato 
do dia, vinha anunciado como frito e acompanhado de migas de espargos. Esquecendo a parte dos espargos, invisíveis, e de o cabritinho parecer assado, o prato estava bom, sobretudo o cabrito, infantil e lácteo, tenro por dentro e crocante por fora, com vários pedaços da costela, acompanhado de um molho apurado.

Nas sobremesas, impecáveis as farófias, frescas, leves. Mais trapalhão, ainda que gostoso, o brownie de chocolate com areia de manjericão e gelado de eucalipto.

Dito isto, temos de falar outra vez de preços. Analisemos as farófias, doce do dia. São 5,95€, diz a minha factura. Eu não sou especialista em farófias. Sei que leva ovos, açúcar, canela, talvez Maizena, talvez casca de limão. Mas não andará longe disto. Quem é especialista em farófias, e em tudo, é o site de receitas da Vaqueiro. E o que diz o site da Vaqueiro? Que a receita é “fácil”, o tempo de preparação é “curto” e o custo é “barato”.

Contas por alto, diria que umas farófias para uma pessoa custam menos de 50 cêntimos. Estamos, portanto, a falar de um preço no menu 12 vezes superior ao custo da comida. Lembrar que os manuais de contabilidade
da especialidade estabelecem que o preço dos pratos deve ser três vezes superiores ao custo. Mesmo admitindo variações, mesmo admitindo o valor da arte, as farófias da Justa são 
um dos melhores negócios da restauração lisboeta, para o proprietário, claro – e uma piada de mau gosto, para o cliente. Como foi, aliás, este almoço. Diria.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Nome do local À Justa
Contato
Endereço Calçada da Ajuda, 107
Lisboa
1300-011
Horário Seg-Sex 12.15-15.00/19.15-23.00, Sáb 19.15-23.00.
Transporte BUS 727, 729
Preço Até 60€
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Costumo comer também num restaurante O Mamute em frente à escola paula vicente restelo .Comida muito boa e caseira .aconselho a vezitar .