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Cacué

Restaurantes, Português São Sebastião
4 /5 estrelas
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©Manuel Manso
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A Time Out diz

4 /5 estrelas

Antigamente, quando o restaurante se chamava O Tomás, a nossa mesa costumava ser de oito, tudo colegas. Depois esse número baixou. Alguns foram despedidos da empresa, outros mudaram de empresa. Às tantas, também eu deixei de trabalhar ali perto, mas ia lá de propósito. Aquele almoço
era o descanso do guerreiro,
um intervalo para disparate e exaltação hormonal masculina, livre abardinação incendiada com tinto da casa e uísque novo.

A ideia do regresso, muito tempo depois, deixa-me por isso sentimental – um transtorno nostálgico e receoso, como o desses retornados que voltaram a África, vinte anos depois.

Não estou, contudo, sozinho na viagem. Comigo vem um companheiro de então. Apesar de reformado, continua dado à reportagem e à observação de costumes. Mal nos sentamos, começa a exercer. “A freguesia não mudou assim tanto, está interessante”, atira, fixando-se numa rapariga com ar de executiva que acaba de chegar. Ah, os tailleurs do Saldanha!

Quanto ao espaço, encontramo-lo completamente remodelado. Desapareceu a WC dentro da sala (mínima) de refeições, disposição que fazia com que a pessoa no lugar do canto se sentasse lado a lado com a pessoa no lugar da sanita (quando a algazarra amainava, podia-se ouvir o momento
 da expulsão). E também desapareceram o Fernando (“não escolhas os carapaus, vais comer antes as iscas”), e o Zé (“já comi pior e não me queixei”), duas mobílias carismáticas que despachavam meia centena de comensais em duas horas, tudo a querer pagar pouco e a reclamar muito e eles dando troco na mesma moeda.

As coisas mudaram de há
 dez anos para cá, mas não tanto como se poderia pensar. O Tomás era uma boa tasca de almoço, com comida apuradinha e um pernil extraordinário, um desses restaurantes onde nos fazem sentir em casa – e o Cacué quer continuar a ser isso e mais. Não houve nenhuma revolução, não se pense em grandes produções, só as suficientes para ser um sítio mais bonito e mais funcional e poder servir cozinha portuguesa com os mictórios afastados das mesas.

À frente dos fogões – e de
 uma ou outra máquina nova – está agora um jovem a quem os empregados tratam por chef, não sem um toque de ironia. A única pessoa que se mantém é Dona Rosa, cozinheira de bastidores. Os empregados são urbanos e levemente hipsters, brincos nas orelhas e barba comprida, mas não parecem ter a pretensão de servir fermentados de alface a pessoas com brincos nas orelhas e barba comprida. “Hoje, tem a cachupa do nosso chef ”, sorriso, “Está muito boa”, sorriso, explica um deles ao casal de velhinhos ao lado, que muito pouco diplomaticamente recusa a sugestão, optando pelo bacalhau à Braga.

José Saudade e Silva, o “chef ”
– passou pelos restaurantes Sea Me, Pap’Açorda e Bota Sal – há-de informar que o bacalhau à Braga é só um dos pratos que já existiam n’O Tomás. “Quisemos que os clientes antigos não ficassem sem o que mais gostavam. Também temos o pernil à sexta, por exemplo”. E os carapauzinhos com açorda, à quarta. E as ervilhas com ovos escalfados,
à segunda. E o caril de peixe quando calha. E a moqueca idem. Todos os dias, fora dos menus da semana, há uma ementa
fixa. Mas sempre numa linha
de clássicos do restaurante de almoço, sem grandes invenções nem twists, com os preços dos pratos a começar nos 8,50€ para as bochechas de porco ou para o bacalhau à Brás, por exemplo, e a acabarem no bife à Marrare (19€) ou no camarão tigre com arroz de alho e coentros (24€).

Vamos às notas das provas, que se prolongaram por outra refeição: um caldo verde simples, o chouriço acima do corrente do costume; acompanhei com um rissol de camarão (sem pão ralado), fritura impecável, sequinho; no couvert, azeitona galega simples, tempero de bom azeite, alho picado fresco e orégãos, manteiga com coentros; pão fraquinho, inflado de fermento; pastel de massa tenra pouco atmosférico.

Nos pratos principais: muito
boa a lagarada de bacalhau, a aproveitar zonas mais finas do peixe (“Passo os meus dias a dar banho ao bacalhau”, confessa o cozinheiro. Bom sinal, não há bacalhau congelado), lascado em piscina
 de bom azeite, com alho e salsa, e umas batatas em cubos, primeiro cozidas depois fritas, que só pecam por serem poucas; as bochechas de porco excelentes: mesmo tendo-se tornado num cliché da restauração portuguesa, pairam acima de outros campeonatos, molho aveludado e tinto; acompanha uma esmagada de batata só com manteiga, um pouco de açafrão e noz moscada – já boa mas que será tanto melhor quanto
a batata melhorar; o bacalhau à Braga perdeu em gordura para o
 d’O Tomás, mas ganhou em tudo o resto: posta do lombo (antigamente, até guelras valia) em polme de ovo, cobertura de cebolada com alho, salsa e pimento (menos puxadas), batatas fritas às rodelas, como antes, mas agora mais finas e secas.

Nas sobremesas, grande mousse de chocolate, herdeira do estilo Pap’Açorda, servida à colher no prato. Bom arroz doce sem cenas. Boa maçã assada sem cenas: reineta, só com um pouco de canela e açúcar amarelo.

Em síntese: este Cacué pode parecer um restaurante banal,
 mas não é. A cidade deixou de 
fazer restaurantes como este,
 de comidinha de sempre e foco 
no sabor, no produto e no preço, restaurantes em que o cozinheiro está na cozinha e na sala e conhece toda a gente pelo nome. O Cacué é uma tasca portuguesa do século XXI onde não ficamos ofuscados com a instalação no tecto, nem adição na conta.

Quanto vale um restaurante assim? Quatro estrelas quatro, amigos. E o meu regresso. Está bem entregue, Fernando e Zé.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Publicado:

Detalhes

Endereço Rua Tomás Ribeiro, 93 B
(Picoas)
Lisboa
1050-227
Preço 12-16€
Contato
Horário Seg-Sex 12.00-22.00
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