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Crítica
De cada vez que pensamos num restaurante italiano ocorre-nos um lugar sofisticado ou então uma trattoria de atoalhado vermelho e branco. Ora, o CaJa não é nada disso. O CaJa está apenas um nível acima do snack-bar. E, no entanto, é bom.
À chegada, torci o nariz aos temperos self-service dispostos junto ao balcão. Tudo marca Lidl, dos orégãos secos à pimenta preta, passando pelo azeite biológico. Como qualquer pessoa com tino, sou fã do Lidl, mas não exageremos. Orégãos de frasco podem estragar uma caprese (tomate e burrata), e na verdade estragaram.
Sucede que, à saída, o meu sorriso abriu-se, esplendoroso. Onze euros por cabeça por um almoço de óptimos capeletti é uma raridade. Deixe-se os orégãos em paz. Não se peça o céu quando a terra é tão bondosa. Saibamos dar graças a quem molda pedaços de massa fresca como peças de cerâmica — e os vende ao preço da farinha, nos Anjos.
É nesse território elegante e decadente, artista e tradicional, popular e cosmopolita, que estamos. Uns metros acima, o Mercado do Forno do Tijolo, uns metros abaixo o Intendente e a Avenida Almirante Reis. Em cada rua do bairro há qualquer coisa que interessa. E é tudo em regime económico: não há outra zona como o eixo Martim Moniz-Anjos para comer bem e barato.
O espaço deste Caja – com uma chilena, ex-residente em Bolonha, na cozinha, suspeito que a solo – é herdado de uma antiga drogaria, as prateleiras em madeira pintadas a branco e garrafas de Chianti (não particularmente boas) onde antes (muito antes) terão estado esfregões de palha de aço e molas de madeira para a roupa.
Lá dentro, não cabem mais de dez pessoas. Cá fora, numa esplanada fechada, há outras tantas cadeiras.
O serviço conta com apenas um elemento, que se reveza entre exterior e interior. Não se vêem ementas à lista, mas está tudo escrito a giz em mini-ardósias. As pastas são seis: cappelletti de carne, ravioloni de dourada, lasanha (vegetariana e de carne), gnocchi, tagliateli e ravióli de carne. Os preços vão dos 4€ aos 6€.
E há depois oito molhos, escolhidos à parte: de trufa, tomate seco, noz, natas, manteiga e salva, salsicha, natas e ervilhas, tomate e carne. O mais barato vale 1€, o mais caro 3€.
De resto, pode-se escolher de entre meia dúzia de vinhos, todos disponíveis a copo por 3€, nenhum capaz de fazer suspirar o cliente mais exigente.
O que faz suspirar é mesmo a pasta, razão porque lá vamos. E essa é bem boa. Não terão sido os cappelletti mais perfeitos da minha vida, a típica forma em chapéu (cappello) um pouco espalmada, mas o sabor e a consistência al dente estavam lá, mais o recheio saboroso.
Numa das mesas ao lado, ouvi um cliente queixar-se da pouca carne da lasanha, mas os portugueses acham sempre que pasta é proteína acompanhada com massa, quando pasta é massa com molho. Pode ou não ter carne ou peixe, mas nunca são eles os reis da festa.
Para fechar, duas sobremesas: um tiramisù (bom, mas gelado e com pouco mascarpone) e um brownie de chocolate que podia ter sido feito por aquela prima com talento para a pastelaria que todos temos.
Perguntam-me. E então? Vais voltar? Espero que sim.
O CaJa não é um restaurante gastronómico, com orégãos colhidos num ribeiro algarvio pelas sete da manhã. Não é aquele sítio aonde levamos o gourmet a jantar à sexta-feira. É, antes, um restaurante de bairro, de pastas italianas, para alternar com a tasca de iscas à portuguesa. E isso é raro.
*Os críticos da Time Out visitam os restaurantes de forma anónima e pagam pelas refeições.
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