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Ceia

Restaurantes São Vicente 
5 /5 estrelas
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Duarte Drago
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Duarte Drago

A Time Out diz

5 /5 estrelas

Pedro Pena Bastos regressou a Lisboa para abrir o Ceia, um restaurante de 14 lugares que fica dentro do Santa Clara 1728, um palacete do século XVIII transformado em pequeno hotel de charme com desenho do arquitecto Aires Mateus. A mesa é o centro da sala e um enorme quadro a óleo com uma moldura dourada, o centro da parede. Do tecto, caem focos que vão iluminar os jantares de degustação, com 13 a 15 momentos – como camarão rosa com yuzu, ostra grelhada com espargos brancos, lírio dos Açores com tomate e poejo ou uma sobremesa de figo, cardamomo e erva-príncipe –, servidos entre quarta-feira e sábado, às oito horas em ponto. Reserva obrigatória em www.silentliving.pt/ceia. Cada pessoa pode reservar entre 1 a 4 lugares (ou a mesa completa).

Crítica

Já paguei algumas vezes
 150 euros por uma refeição. 
Na maioria das vezes saí do restaurante a pensar que talvez devesse ter comprado antes uma bicicleta. Ou livros. Com 150 euros consegue-se comprar uma dezena de livros.

Mas também já aconteceu gastar isso numa danada de uma degustação com 15 pratos e copos de cristal austríacos e ficar a levitar.

Ao longo dos anos, tenho
 tido várias conversas sobre este assunto com os meus amigos pobretanas (ricos dão-se com ricos, pobretanas dão-se com pobretanas, eis a arrumação social de sempre). Dinheiro para mim
 é uma coisa valiosa, 150 euros é muita massa, mas há entre nós, pobretanas, uma diferença de perspectiva. Os meus amigos pobretanas gastam facilmente 150 euros em festivais de música de Verão, com direito a verem 15 concertos e a fumar erva de má qualidade e depois esquecem-se como foi assistir aos Pixies a fingir que tocavam. Eu gasto 150 euros
 a comer 15 pratos numa noite e depois limito-me a fazer coisas grátis durante três meses, como respirar e ir ver os cruzeiros no cais de Santa Apolónia. Em pelo menos um terço das vezes, dou o dinheiro por bem empregue.

É preciso dizer que ultimamente tenho sido menos feliz. No Ceia, foram quase quatro horas de prazer, mas
 há muito tempo que isto não acontecia. Os restaurantes de fine dining de laboratório têm-me desencantado. A alta cozinha transformou-se num exercício para agradar à Michelin e por isso toda a gente segue o mesmo protocolo: mise en place com 30 itens cozinhados várias horas antes; os mesmos vinhos caros de catálogo; lagostim e jus de carne; talheres Cutipol e copos Riedel.

Uma pessoa sai dali razoavelmente contente, “foi agradável”, mas com a factura muito presente. 150 euros dá para comprar uma bicicleta.

Tem acontecido assim com a alta cozinha de perfil Michelin, mas no fine dining progressivo
as coisas também não têm sido famosas. Há por esse mundo fora e por esse Portugal dentro muita brincadeira tonta, muito desleixo mascarado de estilo, mau serviço a fingir-se informalidade, preços ridículos à conta do hype.

No caso do Ceia, aberto há um ano, estamos perante um híbrido bom. Há ressonâncias de Copenhaga e Paris, mecas
 da cozinha indie, como são exemplos a mesa comunitária para 14 pessoas (única opção); as fermentações e os fumados caseiros; produtos sazonais; produtos da horta; banda sonora erudita e cool (excelente, essencialmente tuga); serviço com notas de humor; a cozinha como um espaço aberto ao cliente. Mas há também cuidado no serviço, nas temperaturas, na louça, detalhes que são fine dining clássico, cerimonial, disciplinado, e que tornam uma refeição deste género num momento de atenção ao prato, ao sabor, ao que se passa na boca, ao que sobe ao cérebro, aos timings. E isto também é bom.

A mesa comunitária – enorme, de madeira – força um ambiente convivial e isso pode desagradar. Mas não se pense que estamos perante um Tinder da haute cuisine. No jantar que lá tive, os turistas estrangeiros e os casais jovens adultos estavam em maioria. Havia asiáticas soltas, um decote norte-americano (rapariga), um decote italiano (rapaz); e em menos de quinze minutos já sabia que a pessoa à minha direita viera a Portugal para um casamento e que a pessoa à minha frente andava num gap year pela Europa, depois de um esgotamento como directora de recursos humanos (quem não). Mas a conversa teve, sobretudo, um tema: comida.

A maioria das pessoas estava concentrada nos pratos e em partilhar as suas sensações.
 Foi assim que eu soube que os micro-sonhos de cebola assada, servidos ainda no pátio do hotel de luxo Santa Clara 1728, antes de as pessoas se sentarem à mesa, não agradaram particularmente ao sector asiático. “Too strong”, disse-me um chinês. Eu contrapus que os tinha achado perfeitos e originais, berlindes leves mas húmidos e crocantes, e que os minidiscos de mousse de ovas de bacalhau fumadas que os acompanhavam ligavam de forma magnífica na sua amargura suave e cremosa. Ele olhou para mim como se olha para um mecânico a falar do radiador do automóvel e atirou: “Are you a blogger or an influencer or something?”. I am something. (Estou a reler a descrição dos sonhos, a pensar neles, e fico aguado como uma leitora de 50 Sombras de Grey.)

Daí para a frente, os diálogos foram sobretudo frases trissilábicas. A sopinha de
 pepino com caviar, tangerina e manjericão estava “very fresh”, diria mais, do catano; “genius” foi pouco para descrever o xerém de milhos, com algas e capuchinhas, alta cozinha de sabores portugueses no seu melhor; o salmonete com espargos suscitou um “so nice”; “wonderful” o porco ibérico com couve-flor; “amazing” a segunda sobremesa, uma goma de feno e aveia com alperce.

Faltou ainda falar do pão, ah, o pão! Feito na casa, de fermentação longa, fumado, “fucking good”, dos melhores que tenho comido em Lisboa em restaurantes gastronómicos e fora deles. E igualmente excelente o azeite que o acompanhava, segundo o empregado, sumo das azeitonas de um olival do chef Pedro Pena Bastos.

Quanto aos vinhos, escolhi o pairing e fiz bem. Não sou fã de degustações com pairings. Por norma, acaba por ser vinho a mais e há muitas vezes a tendência para os sommeliers quererem brilhar à custa de perfis exuberantes, que tornam a experiência confusa e alcoólica. Não foi o caso. Excelente selecção de seis vinhos elegantes, com predominância de produção em modo pouco interventivo, bem adaptados à comida e bem explicados/contados pelo escanção Mário Marques.

Metade das pessoas optou pelo pairing com sumos e parecia também muito contente. O meu amigo chinês deu-me a provar o seu sumo verde com espargos e estava extraordinário.

Em síntese. O Ceia é uma
 sala elegante e sofisticada (projecto de arquitectura de Manuel Aires Mateus) onde Pedro Pena Bastos trabalha todos os pratos ao pormenor, com destaque para o produto e o receituário portugueses. Técnica irrepreensível, ritmo da refeição perfeito, louça e tudo bonito à volta. Serviço presente quanto baste, conhecedor, simpático, alegre, personalizado.

Sobre a experiência na mesa comunitária. Se é um bicho do mato, não tem problema, vão deixá-lo ser um bicho do mato; se é um animal social vai fazer amigos ainda durante os amuse bouche e vai trocar emails à sobremesa. A única situação em que o Ceia não é a melhor opção é para aquele jantar de engate premeditado, a dois. De resto, se querem ir a um fine dining de topo mundial em Lisboa, se querem amor e alegria e comida fora de série, é aqui. Não tem ainda estrela Michelin
 e pode nunca vir a ter, por causa das vanguardices, carta de vinhos e formato da mesa no topo. Mas se houvesse justiça não seria 
uma estrela que levaria em 2020. Seriam duas.

Vão por mim. 150 euros não é muito. É reservar já.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Detalhes

Endereço Campo de Santa Clara, 128
Graça
Lisboa
1100-473
Preço 100€ menu, 50€ pairing de vinhos, 30€ pairing de sumos
Contato
Horário Qua-Sáb 20.00-23.00
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