Cervejaria Ramiro

Restaurantes, Frutos do mar Intendente
4 /5 estrelas
4 /5 estrelas
(5comentários)
Mesa de Marisco no Ramiro
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Mesa de Marisco no Ramiro
Restaurante Ramiro - Sala
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Restaurante Ramiro - Ameijoas
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Ramiro
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Ei-lo à nossa frente. O lobo mau da Almirante Reis, o monstro de cauda serpenteante, o grande papão da restauração lisboeta. São 19.05, quinta-feira de Julho, quando enfrentamos a fila de espera do Ramiro.

Cá fora mais de 70 pessoas, umas espalhadas pelo passeio, outras dentro da sala de espera exterior, um rectângulo fechado com decoração de merchandising de cervejeira. Aproximamo-nos da máquina das senhas, à porta, tiramos uma e ficamos a observar, fechados nesse galinheiro internacional.

A tal máquina chama os números ao mesmo tempo que eles aparecem num ecrã, qual repartição de Finanças. Mas não é fácil perceber a lógica da fila. Um grupo de japoneses acabados de chegar entra directamente sem passar pela máquina de partida. 
O funcionário à entrada confere uma lista de nomes manuscrita, fala por um walkie talkie, abre-lhes caminho.

Mas afinal pode-se reservar no Ramiro?, pergunta-lhe o meu amigo. “Pode-se, sim”, responde o recepcionista. “Mas só por email”, concretiza. (Cheira-me a spam, mas em todo o caso aqui fica o endereço: geral@cervejariaramiro. pt.).

Logo a seguir entra um tuga 
de camisa florida, justa e aberta, abraça o homem, sorrisos e palmadões nos costados. Acto contínuo e está lá dentro, para escândalo silencioso de camones e conterrâneos.

É melhor bebermos qualquer coisa. Ao balcão dão-nos duas fichas, uma espécie de moedas,
e mandam-nos regressar ao galinheiro. É aí que está a torneira onde nós próprios introduzimos as fichas e nós próprios tiramos a cerveja que nós próprios pagamos (2€). Pelas 19.45 a máquina chama-nos: quarenta minutos depois, é a nossa vez.

No interior, um bruá enche o piso térreo como no refeitório
da universidade. Indicam-nos que subamos ao primeiro andar. Nas salas em cima, longe da cozinha principal, a turba está ainda mais solta e ruidosa. Há jovens americanos aos urros, 
uma mesa de mulheres etilizadas entremeando-se com uma mesa de homens etilizados, imperiais voando entre mesas, som de panelas, pratos, copos, um empregado esbracejando uma lagosta histérica no ar como um número de circo, gargalhadas, a haste do bicho espetando o braço do meu amigo, siga a marinha, siga o marisco.

Um casal de namorados ao nosso lado, transforma-se no centro das atenções. Ele parece vocalista de uma banda indie, barba comprida, ela parece namorada de um vocalista de uma banda indie, magra, saia abaixo do joelho e t-shirt. Pedem tudo do bom e do caro e muito. Lagostins, camarões tigre, por fim uma lagosta gigante. Quando a travessa da lagosta poisa, fumegante, o bicho aberto em dois, ouve-se uma exclamação de espanto, o som no estádio quando Roger Federer falha um smash fácil. Um grupo de brasileiras levanta-se de máquinas fotográficas em punho, cerca o casal e dispara sem dó sobre o crustáceo esventrado. No momento da factura, são
 240 euros, preço que podiam ter pago num jantar romântico num Michelin, mas que pagam ali alegremente, deixando mais uma nota de 20 e moedas de gorjeta.

Mesa pronta, tablet para vermos o menu. Calha-nos um empregado tristonho, uma excepção. A maior parte são alegres e extrovertidos, alguns com muitos anos de sala e de Ramiro, grandes especialistas na matéria. Começamos com percebes, grandes, carnudos, pena estarem ainda muito quentes (55,17€/kg. Nota: todos os preços acabam em décimas pouco redondas. O Ramiro tem
os preços mais esdrúxulos da restauração nacional). Seguem-se as ostras (11,97€/kg), uma para cada, frescas e gordas, de calibre ligeiramente maior do que o tamanho premium.

No entretanto, já chega uma nova dose de torradas de papo-seco empapadas em manteiga, e ainda bem — passam 30 minutos até chegar o próximo prato, para muitos o rei do Gambrinus, os incontornáveis carabineiros. Os bichos são finalizados na chapa, mas devem primeiro ter sido cozinhados rapidamente em água com bastante sal e malagueta. Vêm inteiros numa poça de margarina evitável, com gomos de limão para servir a gosto. Deve-se primeiro separar a enorme cabeça do corpo, com o máximo de cuidado para 
os sucos não fugirem: a ideia é chupá-la, mastigar bem a casca, fazê-la em pedacinhos. Não é bonito de se ver, mas sabe bem. Como em quase todas as coisas de comer, é na casca que está o sabor. Confecção impecável, a carne suculenta, saborosíssima, um petisco extraordinário, 15 euros que devemos gastar (81,35€/kg).

Para finalizar com os mariscos, a santola (23,17€/kg). O empregado mostra-a na mesa antes de ir para 
a panela. Já não está activa, mas é pesada e ovada. O recheio serve-se na carapaça, sem artimanhas mas prejudicado por resquícios da água da cozedura, excessivamente salgada e, tal como acontecera com os percebes, ainda muito quente.

Por fim, o prego do lombo (4,17€) sempre num nível extraordinário, com o alho no ponto certo, o sal no ponto certo, bife tenro, fino, mal passado. Aconteceu, contudo, uma mudança de marca de mostarda — e não foi para melhor.

Balanço. Jantar de bom nível. Houve erros, houve a espera, mas no final comeu-se bem e pagou-se pouco. Eu e o meu amigo tentámos adivinhar a conta – e pecámos ambos por excesso: pusemos mais 50 euros do que acabou por ser
a factura, justíssimos 40 euros a cada um.

Há outras marisqueiras com bom marisco em Lisboa, não há nenhuma com esta relação qualidade/preço. Depois, o Ramiro tornou-se num fenómeno. É impressionante como o restaurante é hoje uma fábrica sofisticada de comida
– e é interessante observar esse espectáculo de logística e cozinha. Basta pensar que ao longo da refeição mudaram-nos de prato quatro vezes, e que isso significará mais de 2000 pratos numa noite – e podemos especular sobre outras contabilidades e admirar o resultado.

O problema maior é, claro, 
a espera. Desde que Anthony Bourdain pôs a casa no seu programa No Reservations (e depois dele muitos outros, noutros programas), que conseguir mesa é um calvário. Mas não há alternativa. A maior fila da Almirante Reis continua incontornável.


*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Nome do local Cervejaria Ramiro
Contato
Endereço Avenida Almirante Reis, 1 H
Lisboa
1150-007
Horário Ter-Dom 12.00-00.30
Transporte Metro Intendente. Eléctrico 28
Preço 35€ a 45€
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Se esquecermos as filas, tudo é perfeito! A sua fama precede-o, e é merecida. O preço é justo face à qualidade do marisco, o atendimento é muito simpático e super célere. A partir do momento que estamos sentados, tudo flui ao ritmo certo, pois nem a substituição dos pratos cheios de cascas de marisco por outros limpos ou a chegada do petisco seguida falha, tudo num compasso ritmado de bons sabores e profissionalismo.

A sapateira é boa, as amêijoas, o camarão, e claro o último dos mariscos, aquele preguinho a finalizar o repasto.

Um restaurante/ marisqueira à antiga portuguesa, que não se perde mesmo com tanto turista. Que assim se mantenha, para nosso deleite.

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Pequeno preâmbulo: sou uma fã acérrima e devota de marisco. 

O Ramiro é, sem qualquer sombra de dúvida, o melhor restaurante para se comer marisco. A vontade de vir cá é constante mas a verdade é que as filas e o preço apresentam sempre bons argumentos. No entanto, ultrapassando estas barreiras, esta casa assenta num único princípio: a qualidade e frescura da sua matéria-prima. Já diz o ditado que é impossível esconder atrás da simplicidade. Apesar do constante movimento e confusão, o atendimento é muito eficiente e rápido. Em poucos minutos, estamos com o primeiro prato na mesa e, dos melhores aspectos desta casa, ainda não terminámos a nossa imperial, já está outra na mesa à nossa espera. É impossível destacar alguma coisa por que é tudo extraordinário e tudo sabe a mar. Desde as amêijoas, às gambas, ao camarão tigre e acabando nos carabineiros. Seja qual for o bichinho, sabemos que vamos gostar. E, porque as tradições são para cumprir, o prego de novilho no final da refeição não pode faltar. Carne tenra que se derrete na boca. O complemento ideal para fechar esta viagem. A meca do marisco que todos querem e devem experimentar.


É uma boa marisqueira? Sim sem dúvida, marisco fresco e saboroso. O típico prego em pão no final é obrigatório! Serviço profissional e de qualidade? Muito! É daqueles sítios aonde estamos a acabar uma cerveja e já nos estão a pôr outra à frente, empregados simpáticos e atenciosos. Agora esperar uma a duas horas para ter mesa? Isso é que já acho exagerado, ainda por cima tendo uma marisqueira igualmente boa ali ao lado. Portanto quando o tempo de espera se torna ridículo opto sempre por outro sítio. Acho que deviam repensar o seu sistema de reservas.

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O Ramiro, aquele sítio onde o almoço de domingo vira lanche ajantarado. É tudo fresco, tudo típico, tudo saboroso: as amêijoas à bolhão pato, o camarão do Algarve, a santola cozida. Tudo acompanhado da carcaça torrada e cheia de manteiga e regado com o melhor vinho verde seco Alvarinho Serrade. Os empregados são fantásticos, o espaço cheio e animado. O tempo passa, a tarde chega e para terminar o repasto o melhor dos pedidos um prego, uma bába de camelo e um sorriso. Ramiro é um sítio único, icónico e para vida! Obrigada Ramiro!


Obrigatório, imperdivel, e de preferência sem pressas e sem formalismos. Dica: não vale a pena levantar o dedo para pedir uma nova imperial que assim que damos ultimo golo já temos um novo copo à nossa frente.