Chutnify

Restaurantes, Indiano Chiado/Cais do Sodré
4 /5 estrelas
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É um princípio de sempre. Desconfiar de tudo o que se auto designe por moderno. A verdadeira modernidade não se apresenta, acontece. Daí que o slogan usado por este Chutnify, ainda por cima em inglês – “Modern Indian Cuisine”– , no toldo do restaurante, tenha significado ao mesmo tempo uma novidade e um alerta.

A novidade. A ideia de se passar alguma coisa de diferente – qualquer coisa – na restauração indiana em Lisboa é, em si, uma boa notícia. Com uma ou duas excepções assinaláveis, 
há décadas que as mesas são 
as mesmas, os donos são os mesmos, os menus não mudam uma vírgula ou um prato, sempre o nível de picante ajustado ao povo autóctone–baixo, demasiado baixo –, sempre uma lista de caris infinda em que
 só muda a proteína. Têm-nos valido os restaurantes goeses, quase sempre mais íntegros e interessantes, a maioria dos quais não faz concessões em matéria de malagueta e de modas – e bem.

O alerta. É verdade que soou um alarme quando vi o tal 
slogan no toldo da Travessa da Palmeira, ali onde o Príncipe Real se aproxima da Praça das Flores. A modernidade gastronómica é muitas vezes apenas fruto 
de migrantes estrangeirados, renegação das origens ou parvoíce. Durante a minha primeira refeição, um almoço a meio da semana, cheguei a temer que fosse esse o caso, que estivéssemos perante um indiano com curso de chef no Cordon Bleu, deslumbrado com o Ocidente. Lá dentro, várias coisas modernas, a começar na cozinha aberta para a sala, passando pela música electrónica (modo chill out) e a acabar na decoração: estética de Bollywood e sofisticação do Príncipe Real (ou será de Berlim? ou será tudo a mesma coisa?).

Menos moderno o tabuleiro 
de aço, onde se serviu o menu de almoço e onde cabia tudo, dos pratos principais à sobremesa, passando por um pão paratha que desiludiu, versão mini, 
com poucas camadas e sem a obrigatória manteiga ghee (chuif ). À parte, só os pani puris, bolinhas de trigo finas e ocas recheadas com batata, grão e romã, inseminadas na mesa com um líquido de especiarias; e as chamuças de cherovia, batata e ervilhas.

Noutra divisão do tabuleiro vinha um daal, estufado de lentilhas, no caso insonso e monótono. Para principais, escolheu-se o caril de peixe de Allepey (com robalo, presume-se que de aquacultura) e a masala dosa, os típicos crepes de farinha de lentilhas e arroz da região do Sul da Índia, aqui recheados de uma pasta de batata e mostarda, com chutney de coco.

Felizmente, havia mais qualquer coisa e este Chutnify mostrou não ser apenas postiço ou mero restaurante de cadeia étnica.

Regresso ao jantar. Desta feita, ao contrário do que acontecera ao almoço, casa cheia. Outros empregados, mais informados e solícitos. Outra cozinha. Excelentes os seekh kabab de borrego, acompanhados de um creme de coentros. O mesmo creme serviu para refrescar o chicken tikka, pedaços de frango picantes, marinados e grelhados no tandoori.

A estrela da noite acabou contudo por ser o caril de 
borrego ou, antes, o borrego de Telangana, povoação de Andhra Pradesh, região conhecida por ser a mais picante do país. O borrego em pedaços pequenos, tenros, o molho denso, escuro, aromático e pujante. Grande estufado. Também muito interessante estava a beringela com amendoim, tamarindo e coco (Bagare Baigan).

Nas sobremesas, provaram-
se as duas protagonistas da carta: o kulfi de pistáchios, um gelado saboroso mas comedido em pistáchios; e a mousse de manga, a cumprir o propósito de refrescar o final da refeição.

Carta de vinhos curta mas com escolhas interessantes e apropriadas à comida.

Em síntese. Duas experiências diferentes. Parece haver um restaurante ao almoço e outro
 ao jantar. De resto, o Chutnify representa de facto um indiano diferente do que há em Lisboa, com outras opções e outro ambiente. A cozinha ainda não terá assentado, mas irá no bom caminho e merece desde já uma visita.

PS: Lamenta-se que a dona, uma indiana de Deli radicada em Berlim, onde este Chutnify está sediado, tenha mostrado vontade de ajustar o nível de picante da comida ao palato português. Eu diria que deve ser o contrário, que é mais estimulante o contrário. Mas isso sou eu, que não sou moderno.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Nome do local Chutnify
Contato
Endereço Travessa da Palmeira, 46
Lisboa
1200-311
Horário Ter-Dom 12.00-15.30/ 19.00-00.00
Preço Até 30€
É o proprietário deste estabelecimento?
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Que surpresa boa!

 É um restaurante indiano sem ser o indiano que estamos (estou) habituada.  Cheio de pratos e combinações que nunca tinha sequer ouvido falar, numa decoração também diferente do habitual.  

A simpatia no atendimento, a decoração, a sua localização, a música e os subtis aromas no ar, fizeram prever que estávamos num espaço pensado ao pormenor.  

Têm cocktails, margaritas, lassy de manga (cremoso e saboroso) e limonada agridoce. Provei as bebidas das amigas, mas destacou-se o cocktail de gin, pepino, gasosa, coentros e jalapenhos, muito fresco e interessante.    

Relembro, alguns exemplos: 

Entradas, Pani Puri (aconselho vivamente), são umas bolinhas crocantes de batata e grão, com romã ao centro com um ritual para serem comidas, pegamos no jarro com água de especiarias e regamos ao centro.  Vá, é picante q.b., na boca é uma explosão de sabores.    

Shakarkandi chaat, grão com batata doce, romã, tamarindo, iogurte, muito saudável, muito equilibrado,    

Os molhos dos pães também são diferentes dos habituais.    
Alguns pratos surpreendem pela sua apresentação, como um chapéu de crepe crocante para um prato de pato, ou um rolo enorme.    

O caril de robalo, atenção, que tem pele e espinhas, assim é mesmo para saborear com seriedade.  

 Foi um jantar de amigos, foi possível partilhar. A casa esteve sempre composta o que será sempre um bom sinal?
 Fiquei surpreendida positivamente, com tudo.