Clube de Jornalistas

Restaurantes Estrela/Lapa/Santos
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Nada do que veio para a mesa estava abaixo de razoável, mas houve um prato que entrou directamente para a lista das melhores coisas que provei este ano. A beringela com caramelo de miso e pistáchio foi uma revelação extraordinária, diferente de tudo, uma aliança entre Japão e Médio Oriente, entre doce e salgado – um desses raros momentos em que a cozinha de fusão funciona e nos faz feliz.

O chef Ivan Fernandes antecipou aliás o êxtase, afastando qualquer dúvida sobre o efeito do prato. Vindo da cozinha, atirou-o para a mesa antes mesmo de a comida chegar. “Podem agradecer a quem pediu a beringela”. E agradecemos, sendo certo que o empregado nos dirigiu para ali e muito bem.

Dito isto, convém assinalar que a carta tem algumas viagens atribuladas. São os casos de um salmão que vai cozinhar o acompanhamento de legumes à Tailândia e ainda leva um molho teriyaki do Japão (17€); e da “costelinha” de borrego, nascida nos Pirenéus (19€), depois transportada para o Brasil onde carrega farofa, aterrando por fim entre a Síria e o Egipto para um baba ganoush (mousse à base de beringela e tahini, a pasta de sésamo torrada).

Bem mais segura a deslocação do Brasil para Itália (ou será o contrário?), no risoto de moqueca de camarão (16,5€), que ganhou com o molho picante da casa, também ele um globetrotter, com sabor forte a gengibre.

As sobremesas foram o menos bom de tudo, coisas sem alma, básicas, algumas pouco frescas, clara influência do Brasil.

Ajuda a perceber tudo isto a biografia do chef, um brasileiro formado em História, trompetista, iniciado na profissão já depois dos 30. No Clube de Jornalistas sucedeu a um nome de peso, o chef e gastrónomo André Magalhães, agora na maravilhosa Taberna da Rua das Flores.

Até agora, Ivan tem-se revelado à altura do embate, pelo menos em matéria de popularidade. O restaurante está quase sempre cheio ao jantar e é altamente recomendável a reserva no final da semana.

Parte da adesão das pessoas resultará do próprio lugar. Situado na Lapa, longe da movida e da Baixa, é um sítio original com um jardim de sonho nas traseiras.

O bairro está longe de ser animado, é certo, e a Rua das Trinas, em particular, não passa de um dormitório de luxo sem estacionamento onde pouca gente se lembraria de abrir o que quer que fosse. À noite, as únicas movimentações que se vêem na rua são as dos moradores em loopings ao quarteirão, em busca de lugar para o carro. Mas, no caso, o cenário lúgubre e quieto funciona a favor da casa.

Parte da experiência está na surpresa à chegada ao Clube de Jornalistas. A porta está fechada e parece uma porta igual à das outras casas em banda que descem até Santos. Toca-se à campainha e à entrada nenhum sinal de comida, só uma recepção como se fosse uma pensão antiga e, ao lado, uma pequena salinha de espera onde as pessoas bebericam espumante enquanto aguardam mesa. Depois, lá dentro, há outras divisões com diferentes ambientes, como se estivéssemos numa casa particular apalaçada ou num clube privado sujeito a cartão de sócio e quotas anuais.

Uma nota para o Clube de Jornalistas, anfitrião deste restaurante. A instituição é responsável pela publicação da revista Jornalismo e Jornalistas e atribui, anualmente, os prestigiados prémios Gazeta. Hoje em dia, no entanto, nada movimenta tanto esforço e gente como o restaurante. Lamentavelmente, hoje em dia, poucos jornalistas lá conseguem comer e cobrir uma conta que facilmente chega aos 35 euros. O clube é mais de turistas do que de jornalistas.

Publicado:

Nome do local Clube de Jornalistas
Contato
Endereço Rua das Trinas 129
Lisboa
1200-857
Horário Seg-Sáb 12.30-15.00 e 19.00-23.00-
Transporte BUS 713, 773, 774. Eléctrico 25
Preço 30€ a 40€
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