Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Críticas de restaurantes

Críticas de restaurantes

O panorama gastronómico de Lisboa avaliado por quem sabe. Com a ajuda das nossas críticas de restaurantes, escolha onde jantar, marcar um almoço de negócios ou organizar aquele encontro de amigos que nunca mais sai do grupo de Whatsapp

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Loco 147
Fotografia: Manuel Manso Restaurante Loco

Antes de navegar pelo slideshow abaixo, fique a saber que as críticas de restaurantes da Time Out são uma experiência relatada por quem anda há anos a fazer disto vida. Em anonimato, os nossos especialistas em Comer & Beber sentam-se à mesa, provam de tudo um pouco, pedem a conta e depois escrevem sobre o que acharam dos pratos, dos copos, do serviço, do espaço e de tudo o que pode transformar uma refeição numa experiência 5 estrelas – ou num pesadelo.

Isto de ser fiscal da restauração lisboeta não é fácil, mas encaramos o sacrifício como um género de serviço público. Sirva-se à vontade das nossas críticas de restaurantes. E repita.

Críticas de restaurantes - 5 Estrelas

Duarte Drago
Restaurantes

Ceia

icon-location-pin São Vicente 

Já paguei algumas vezes
 150 euros por uma refeição. 
Na maioria das vezes saí do restaurante a pensar que talvez devesse ter comprado antes uma bicicleta. Ou livros.Com 150 euros consegue-se comprar uma dezena de livros.

Mas também já aconteceu gastar isso numa danada de uma degustação com 15 pratos e copos de cristal austríacos e ficar a levitar.

Ao longo dos anos, tenho
 tido várias conversas sobre este assunto com os meus amigos pobretanas (ricos dão-se com ricos, pobretanas dão-se com pobretanas, eis a arrumação social de sempre). Dinheiro para mim
 é uma coisa valiosa, 150 euros é muita massa, mas há entre nós, pobretanas, uma diferença de perspectiva. Os meus amigos pobretanas gastam facilmente 150 euros em festivais de Verão, com direito a verem 15 concertos e a fumar erva de má qualidade e depois esquecem-se como foi assistir aos Pixies a fingir que tocavam. Eu gasto 150 euros
 a comer 15 pratos numa noite e depois limito-me a fazer coisas grátis durante três meses, como respirar e ir ver os cruzeiros no cais de Santa Apolónia. Em pelo menos um terço das vezes, dou o dinheiro por bem empregue.

A Time Out diz
Ruvida
© Manuel Manso
Restaurantes, Italiano

Ruvida

icon-location-pin Estrela/Lapa/Santos

Apareceu no início do ano com estrondo e é mais uma dessas histórias migratórias de turista rico,
 vim a Lisboa de férias e fiquei. A mulher do rolo da massa, Valentina, aprendeu o ofício
da pasta em Bolonha, cidade onde conheceu o homem
 do tacho, Michel, seu sócio 
e companheiro, italiano de Veneza. Os dois montaram banca em Alcântara e decidiram fazer tudo no registo artesanal de cozinha aberta, tendência aqui e no mundo.
 As massas são estendidas e cortadas em frente aos clientes, quem não vê in loco pode espreitar nas redes sociais, muito activas e sofisticadas.
 De uma coisa não há dúvida: este Ruvida tem biografia e tem marketing. Mas terá boa comida?

Para dirimir a questão recorro a um peso pesado 
da crítica gastronómica. O amigo que me acompanha
 ao almoço já escreveu nesta revista, neste espaço. Assinava Manuel Ferreira Gavetão e
 uma das suas crónicas sobre restaurantes ficou célebre
 pelo arrazoado de palavrões.

A Time Out diz
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Attla
©Manuel Manso
Restaurantes

Attla

icon-location-pin Estrela/Lapa/Santos

O eucalipto é uma árvore danada. Incendeia o país e cheira a Vicks VapoRub. Por outro lado, lembra-me a minha avó. A minha avó punha-me a inalar vapor de botões de eucalipto, quando era miúdo e estava doente. Gostava de estar doente em casa da minha avó.

A primeira vez que comi o gelado de eucalipto do Attla também houve sensações opostas. Ao princípio desconfiança – mais uma infusão parva? Depois, cremosidade, equilíbrio, a frescura de folhas mentoladas em contraponto ao conforto do chocolate do Equador, da alfarroba em areia – nada fora de pé, pouco doce, sal no céu da boca, textura, competência técnica.


Ainda assim era o eucalipto que sobressaía. E o eucalipto ainda tinha qualquer coisa de remédio para os brônquios.

A Time Out diz
O Maravilhas
©DR
Restaurantes, Português

O Maravilhas

icon-location-pin Estrela/Lapa/Santos

“Hoje vou ao O Maravilhas.” A frase não soa bem aos falantes de português, mas a ideia soará sempre bem aos conhecedores da casa. O problema de baptizar um lugar com um artigo definido é esta indefinição tramada em que nos deixa perante a língua. Na maior parte das vezes, a coisa resolve-se comendo a vogal — “hoje almoço n’O Maravilhas”; noutras resolve-se decidindo comer a língua, que se serve à quinta-feira, anunciando simplesmente “vou ali ó Maravilhas”, sem perder mais tempo com conversa palerma. Ora eu, depois de aqui voltar umas largas dezenas de vezes, tenho a declarar o seguinte: o “O Maravilhas” é
 um dos melhores restaurantes desta cidade, sempre que o critério de avaliação for a relação honesta qualidade/preço. Nesse campeonato, o nome da casa não gagueja.

A Time Out diz
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Prado
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Português

Prado

icon-location-pin Castelo de São Jorge

António Galapito fez crescer um Prado ao pé da Sé, um restaurante onde trabalha o gado e vegetação orgânica. Usa os ingredientes que os produtores portugueses lhe dizem que estão bons e, por isso, não tem uma carta propriamente fixa. Todos os dias há qualquer coisa que muda, dos cortes aos peixes. Do outro lado do aparthotel The Lisboans, onde fica o restaurante, há a Mercearia do Prado, onde se vendem produtos a granel, compotas e fiambres de porco preto.

A Time Out diz
Wurst - Salsicharia Austriaca
©DR
Restaurantes

Wurst - Salsicharia Austríaca

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

Não estamos a falar de um restaurante, no sentido clássico.
 Este Wurst – Salsicharia Austríaca 
é um balcão fofo com uma dúzia de lugares sentados em redor, enfiado num cantinho do Mercado fofo de São Bento. Disto isto, a comida é enorme. Não só serve as melhores salsichas da cidade, como tem este dom de permitir-nos comer gordura animal sólida com a consciência tranquila. É que as salsichas são biológicas, produzidas pela Wurst na Herdade do Freixo do Meio, perto de Montemor-o-Novo. E salsichas biológicas é como um chuto de heroína feito de papoilas livres de pesticidas e de talibãs. A traficante de serviço é Maria Fuch, austríaca de Salzburgo encantada
 com Lisboa, sotaque luso-germânico encantador e indumentária tirolesa.

A Time Out diz
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Feitoria
©DR
Restaurantes, Pan-asiático

Feitoria

icon-location-pin Belém

Sabor, qualidade, criatividade, aparato. Bastariam estas palavras para descrever uma refeição no Feitoria. E, por consequência, a cozinha de João Rodrigues. Mas antes, um pequeno intróito. O chef sucedeu a José Cordeiro 
à frente do Altis Belém. Agarrou a estrela Michelin ganha em 2012 e,
 mais do que isso, escalou um caminho surpreendente e consistente, bem sustentado pela qualidade da matéria-prima escolhida – prova disso é o menu Terra, uma exímia degustação 100% vegetariana de três pratos, em boa parte assegurada pela Quinta do Poial. Se merecia a segunda estrela, como foi vaticinado e acabou por não acontecer? Merecia.

A Time Out diz
In Bocca al Lupa
Fotografia: Ana Luzia
Restaurantes

In Bocca al Lupo

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

As crianças nem sempre são o melhor que há no mundo, mas resultam muito úteis para a crítica de restaurantes. As crianças mesmo crianças não vão em tendências nem em tops. Não lhes interessa se o restaurante é do chef A ou do chef K. Se a carne é maturada durante 12 dias ou 12 meses. Se o peixe é de aquacultura ou vivia numa gruta das Berlengas. A gente pergunta às crianças: Gostas? E as crianças respondem: “É óptimo”. “É horrível”. Às crianças só interessa o sabor e o prazer.

A Time Out diz
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Restaurante Loco
Fotografia:Arlindo Camacho
Restaurantes

Loco

icon-location-pin Estrela/Lapa/Santos

De início houve alguma bazófia e era fácil embirrar com o sítio. Quando alguém sente necessidade de proclamar a sua “corrente criativa constante”, frequentemente acaba sozinho num onanismo preguiçoso gritando aleivosias contra os brutos lá fora. Ninguém gritou no Loco mas a reacção a um projecto que se apresentava com “um outro nível conceptual”, “uma experiência total”, foi vigorosa. Um respeitável crítico gastronómico espanhol foi quem primeiro disse “nem tanto”. Depois de uma visita a Lisboa, Carlos Maribona escreveu no blogue do jornal ABC um texto amargo.

A Time Out diz

Críticas de restaurantes - 4 Estrelas

Taberna Albricoque
©Duarte Drago
Restaurantes, Mediterrâneo

Taberna Albricoque

icon-location-pin Santa Maria Maior

Nunca esqueci uma perna de borrego que comi há mais de dez anos, no Vírgula. E não fui só eu a ficar impressionado na ocasião. Ao meu lado, estavam os chefs Luís Baena e Henrique Sá Pessoa e lembro-me de eles louvarem o repasto como Ronaldo não louva Ronaldo. A degustação trazia espumas e mais um ou outro truque molecular (então muito em voga), mas havia nela uma marca deliciosa e rara da cozinha do Portugal do Sul.

O chef responsável era Bertílio Gomes, então com 32 anos de idade. Tinha o futuro pela frente e o meio gastronómico tinha os olhos postos nele. Sucede que depois da fama veio o fim. O Vírgula faliu pouco depois de abrir, com rendas em atraso e um conflito com o Porto de Lisboa. E Bertílio saiu do radar. Mais tarde, ainda o segui no Chapitô
 à Mesa, restaurante com o qual continua a colaborar, mas já não reconheci a técnica e o cuidado de antigamente. O Chapitô pareceu-me mais o restaurante de Bertílio, O Consultor, do que o restaurante de Bertílio, O Chef.

A Time Out diz
Harmonia By SakeMico
©Manuel Manso
Restaurantes, Japonês

Lisbon Sake Club do Sakê Mico

icon-location-pin Campo de Ourique

Toda a gente sabe que o álcool dói. Depois dos trintas, então, o álcool massacra. Numa ressaca valente, é como um punhal a escarafunchar os lóbulos parietais, uma dor que nos transforma numa ameba esparramada num sofá a fazer zapping entre o Goucha e a Cristina.

E não, não há cá a cerveja é que me faz mal. Ou o vinho branco é que me faz mal. Ou a tequila é que me faz mal. Tudo faz mal.

Tudo, menos o saké. O saké não aleija. É uma bebida límpida, simples, elegante. Se for premium,
 leva praticamente só água de nascente, arroz e koji (a levedura que inocula o cereal). Talvez por o álcool ser obtido através de fermentação (e não por destilação), não nos agride. Mesmo se for do saké mais seco, com mais acidez, ou mesmo quando lhe é aduzido álcool, é um leitinho de arroz translúcido que nos limpa a boca e nos excita o espírito.

A Time Out diz
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Hífen
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Petiscos

Hífen

icon-location-pin Cascais

Toda a gente que vai à praia do Guincho recorre à aplicação Windguru. O Windguru é muito pesquisado por surfistas e pescadores de todo o país, mas em Cascais até a avozinha o usa antes de ir ao Guincho. O Windguru diz com uma precisão absurda que às 12.34 vai soprar uma rabanada de vento e às 12.34 uma rabanada de vento atira-nos areia para as pernas como um ataque de acupunctores.

Aconteceu que neste sábado de início de Setembro, os cascalenses acordaram, consultaram o Windguru e nem queriam acreditar. A
 app apontava para ventos de seis quilómetros por hora, uma brisa subtil e morna. De repente, toda a gente teve a mesma ideia: vestir os miúdos, pôr a sacola ao ombro, e ir para o Guincho.

Às 10.30, o parque de estacionamento já tinha uma fila de meter inveja ao IC19. O fenómeno só não foi trágico por causa da eficiência dos funcionários, do melhor que há no país em termos de parques de estacionamento.

A Time Out diz
Rossio Gastrobar
©Inês Felix
Restaurantes, Gastropubs

Rossio Gastrobar

icon-location-pin Grande Lisboa

Tem-se falado muito 
de restaurantes que são experiências. Este Rossio Gastrobar não é uma experiência. O sétimo piso do hotel Avenida ganhou novo fulgor com a convocação do chef João Rodrigues, do estrelado Feitoria, e até tem vista sobre a Praça D. Pedro IV, o Bairro Alto e o castelo; mas o ambiente continua frio, a música é nhónhó e a decoração usa cadeirões com padrões de bolas e colunas de latão — um restaurante que parece um lobby de hotel, tudo o que não deveria parecer.

A questão é que se come muito bem. E isso ainda é o mais importante. Podem contratar arquitectos e VJs, podem pôr bailarinas a servir garrafas de champanhe com foguetório
 e podem transaccionar metanfetaminas no WC, mas quando vou a um restaurante ainda quero sobretudo mastigar, fazer a comida deslocar-se da bochecha para a língua e da língua até à glote, cerrar os olhos e gemer de prazer.

Foi para isto, essencialmente, que os parisienses criaram restaurantes no século XVIII; e é para isto, essencialmente, que eu quero um restaurante no século XXI.

A Time Out diz
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Solar dos Pintor
©Manuel Manso
Restaurantes, Português

Solar dos Pintor

icon-location-pin Grande Lisboa

Esta semana vamos para 
a periferia, mas não para um subúrbio de betão. Vamos para o campo. Vamos à Manjoeira. A Manjoeira fica a 15 minutos de carro do Campo Grande, que é menos do que se leva do Campo Grande ao Rossio. Entramos na A8 e saímos para Loures antes das portagens, depois em direcção a Bucelas, é virarem onde vos diz o telemóvel.

A estrada tem aquela paisagem típica da região saloia, uma fealdade caótica de casinhas, fabriquetas, armazéns e stands de automóveis, mas também tem hortas e colinas verdejantes e silêncio de aldeia.

O silêncio prolonga-se, aliás, para dentro do Solar dos Pintor, que é uma moradia com café
 e três salas. Mesmo quando o restaurante está cheio, sente-se lá uma paz campestre. As pessoas falam baixo, sem urgência de protagonismo; os tectos de madeira maciça e as pipas de vinho ajudam a abafar o ruído;
 e pode ser que haja também reverência por se estar numa casa de família com mais de 100 anos, a casa dos Pintor.

A Time Out diz
Senhor Uva
©Duarte Drago
Restaurantes, Vegetariano

Senhor Uva

icon-location-pin Lisboa

A primeira vez que jantei
 no Senhor Uva soube logo que 
a refeição ia ser boa. Tinha acabado de fazer o pedido, estava ao balcão, sozinho, e uma jovem cozinheira começou a tratar de mim com a dedicação com que a mãe faz sopa para o bebé.

Joana, assim a chamavam, ar de leitora de Harry Potter, cheirava cada erva aromática, cada ingrediente, e sempre provava os molhos, os cremes, os purés antes de os empratar. Não era um teste automático, um tique, mas um momento de análise profunda. Provava
 e ficava com a comida na boca enquanto manejava frigideiras ou cortava legumes. Depois ia ao sal ou não ia ao sal.

Parece um exercício básico, obrigatório – provar sempre, provar tudo – e no entanto é raro ver-se. Muitos cozinheiros têm a autoconfiança de Ronaldo e a ignorância de Trump. Muitos cozinheiros não sabem que a comida é uma coisa viva: mexe-se, transforma-se, acidifica-se, adocica-se, salga-se. É preciso monitorizá-la, dar o palato ao manifesto.

A Time Out diz
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O Frade
©Manuel Manso
Restaurantes, Português

O Frade

icon-location-pin Belém

A melhor coisa de O Frade é que tem à frente um jovem
 chef que passou por restaurantes Michelin, mas mesmo assim serve comida regional portuguesa. Não é que não se notem nuances ao receituário tradicional, mas inventa-se só um bocadinho. Inventar só um bocadinho é diferente de cozinhar com
 um twist, expressão de má memória dos idos anos 2010 que transformou muito bacalhau à Brás em miscelâneas com alho francês. Aqui, há tino e bom senso. Uma muxama com ovos é uma muxama com ovos. Um arroz de pato é um arroz de pato.

A primeira vez que ouvi falar deste pequeno balcão em Belém, vizinho do presidente Marcelo (já lá foi tirar selfies), foi da boca de um chef de alta cozinha. O Frade foi cochichado como um novo recanto idílico, o sítio onde ele gostava de ir comer com os outros cozinheiros quando largavam as fermentações e as desidratações do seus fine dining. "Tens de provar a galinha cerejada. E os ovos com túbaras. E o arroz de pato".

A Time Out diz
Restaurante FOME
©Inês Félix
Restaurantes, Português

Fome

icon-location-pin Lisboa

E de repente apareceu um xarém de berbigão cheio de areia. Não com uma areiazita. Cheio de areia. O areal do Guincho dentro das papas de milho.

Ficámos em silêncio, só uns monossílabos. “Pena”. Mais uma garfada. “Acontece”.

Até ao xarém de areia, este Fome estava a ser interessante. Começou, aliás, muito bem. Meia hora antes era assim: eis-nos sentados na esplanada, gente de todas as proveniências a passar, Arroios a voltar a casa, um ou outro crackhead apressado na colecta, a Lisboa multicultural 
e sem turistas. Calor de fim de dia, no copo um branco Thyro, a servir um empregado simpático e motivado – “isto é tão bom que quando estou de folga venho aqui comer” –, no quadro manuscrito os pratos do dia só com comidas promissoras, uma dúzia delas.

Vieram logo azeitonas 
bem temperadas, bom pão, queijo fresco da Queijaria das Romãs para ser barrado com pimenta da terra dos Açores (dueto clássico e vencedor); e uma tijela de salada de tomate mimosa, extraordinária: os frutos vermelhos e amarelos, saborosíssimos, imersos num sumo de lima e limão com ervas aromáticas (salsa, orégãos), dava a ideia de já ter em algum tempo ali juntos, os sucos fundidos, acidez, doçura, grande prato. (Lima com limão é uma das descobertas deste Verão, um complementa o outro e faz nascer outra coisa, a doçura tropical da lima espevitada pelo acidez crocante do limão. É experimentarem em casa.)

A Time Out diz
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Mamasan
Fotografia: Duarte Drago
Restaurantes, Japonês

Mamasan

icon-location-pin Santos

Para perceber o encanto deste restaurante, é preciso afastar alguns preconceitos.
 As yakitori não têm de ser espetadas com molho teriyaki de supermercado; nem têm de ser feitos com peito de frango seco. Uma yakitori a sério, bem tostada por fora, tenra e húmida por dentro, é um dos grandes pratos da tradição japonesa do yakimono, a arte da grelha, uma coisa séria e deliciosa.

Andava com vontade de as comer desde que vi um episódio de Ugly Delicious, uma daquelas 500 séries de comida da Netflix. O chef David Chang aparecia de olhos aguados, abraçado a um humilde cozinheiro japonês. Emocionado, confessou que a espetada de frango que acabara de comer tinha sido das melhores coisas que já mordera – e David Chang já mordeu muita coisa.

A Time Out diz
Paco Bigotes
©Manuel Manso
Restaurantes, Mexicano

Paco Bigotes

icon-location-pin Cascais

Logo a seguir à inauguração, a notícia correu pela Linha à velocidade com que se traficam boatos picantes sobre famílias brasonadas. Já não era preciso ir a Lisboa para comer boa comida mexicana. Os melhores tacos estavam numa pequena loja das traseiras da Marginal, em cima de uma estação de comboios, entre Carcavelos e o Estoril.

Cinco meses depois, numa visita recente, comprovou-se isso mesmo. São Pedro do Estoril já tinha um restaurante de tacos. Dos bons. Dos cheios.

Quinta-feira ao jantar e o ambiente era de festa de Verão, uma vozearia alegre de pessoas que vão à praia durante o dia carregar endorfinas para a noite. No quintalinho da casa térrea amontoavam-se casais, amigos 
e famílias de Corona na mão,
 uns à espera de lugar, outros a piquenicar mesmo ali sobre o muro transformado em balcão. Gargalhadas, gente levemente ébria; em fundo, música electrónico-tropical boa para abanar o corpo; nas bandejas margaritas e micheladas, tacos 
e ceviches, nachos e totopos; na passarela, estilo informal sem chinelo, pouca maquiagem, eles de camisa florida e peitaça ao léu, uma ou outra corrente de prata, elas de alças e saia comprida, nada ostensivo, a moda beta já não é o que era.

A Time Out diz
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Arkhe
©Manuel Manso
Restaurantes, Vegetariano

Arkhe

icon-location-pin Grande Lisboa

Os vegetais são maravilhosos, todos. E comemo-los tão mal e tão poucos e sempre os mesmos.

Na culinária portuguesa, em particular, os vegetais têm funcionado como mero acompanhamento, um interlúdio entre três garfadas de costeleta, uma obrigação do médico. Ou é couve cozida ou folhas de alface amontoadas numa saladeira ou aquela parvoíce da cenoura ralada, tudo temperado ao acaso com mau vinagre e azeite em promoção (vinagrete é tique homossexual).

No topo da complexidade estão o esparregado e os peixinhos da horta, já ali a roçar a alta cozinha, coisa para restaurante de guardanapo de pano.

A Time Out diz
Restaurante ONA
©Manuel Manso
Restaurantes

Ona

icon-location-pin Grande Lisboa

Esta é a primeira vez que não esperamos três meses depois da inauguração de um restaurante para fazermos a crítica. Porquê? Porque o Ona não é bem um restaurante. O Ona é aquilo a que hoje se chama de pop-up, ou seja, um restaurante efémero. No caso, está agendado para durar apenas seis meses, abriu em Abril e prevê-se que feche em Outubro. Uma pena.

No comando encontra-se um ex-Noma. Luca Pronzato, francês, especialista em vinhos, trabalhou durante dois anos no famoso restaurante de Copenhaga, para muitos ainda considerado o mais influente do mundo ocidental. É ele quem dirige a sala e serve a maior parte da comida. O resto da equipa, todavia, é mais juvenil e inexperiente, característica anunciada como virtude orientadora.

A Time Out diz
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Ajitama Ramen Bistro
Fotografia: Inês Félix
Restaurantes, Asiático contemporâneo

Ajitama Ramen Bistro

icon-location-pin Grande Lisboa

Quem teve a sorte de 
ir comer a casa de António Carvalhão, quando ele alojou um supper club de ramen, sabe duas coisas. A primeira é que António Carvalhão é um bom contador de histórias. A segunda é que 
ele e João Ferreira, seu amigo 
e cozinheiro desta aventura,
 têm uma grande paixão pelo ramen. Os dois factores ditaram o sucesso da empreitada, mas a primeira coisa perdeu-se com
o aparecimento deste Bistro. O upgrade fez perder o encanto das coisas iniciais e caseirinhas.

De clube domiciliário o Ajitama passou a caso mediático, televisionado e tudo.

A Time Out diz
O Riscas
©Manuel Manso
Restaurantes, Português

O Riscas

icon-location-pin Grande Lisboa

Alfredo Lacerda, excelso crítico desta casa com quem todas as semanas aprendo alguma coisa, 
tem o distinto hábito de se sentar sempre à mesa na companhia de um amigo. É sábio. Permite provar mais coisas, partilhar experiências, ponderar sentenças, lembrar que
os gostos se discutem e moderar as nossas próprias manias. Para mais, evita aquela solidão mastigada das refeições desacompanhadas. Vai daí, desta vez levei o amigo do Lacerda comigo.

Fomos ao Riscas, pequena tasca familiar junto ao Museu Nacional de Arte Antiga. Gostei. O amigo do Lacerda também. A ementa tem duas páginas.
 À esquerda, em letra impressa, a carta fixa; à direita, escrita à mão,
 a carta variável com dias fixos.
 Se descontarmos a sequência de omeletes, temos um empate a seis entre pratos de sempre e pratos do dia. Era uma terça-feira e eu avancei pela direita atacando uns bifinhos de cebolada (6,5€), o amigo do Lacerda colocou-se na faixa da esquerda e
 foi num bitoque (8,5€). Dos bifinhos direi coisas boas. Cebolada húmida, bem apurada, ligeiramente ácida, a denunciar redução de vinagre. Do bitoque, disse o amigo do Lacerda: “dos melhores que comi em muito tempo.”

A Time Out diz
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Pasta Non Basta
ManuelManso
Restaurantes, Italiano

Pasta Non Basta - Alvalade

icon-location-pin Alvalade

Comece-se pelo serviço. Avaliar o serviço é tramado.

Ao almoço. Uma rapariga novata troca o pedido. Em vez dos gnocchi chega um spaghetti all’amatriciana. Vai um empregado a passar, também novato. “Desculpe, isto são os gnocchi?!”. Ele: “São, sim”. Outra empregada, mais experiente, dá conta da situação. “Não são, não. Pedimos desculpa”. Serviço ignorante. Bem resolvido.

Ao jantar. Sexta à noite. A família toda, o infante com fraldas incluído. Casa cheia, é preciso esperar. O infante desata a fazer asneiras. Berra, chora, corre, cai. “Está com a birra do sono.” Os pais ficam atrapalhados, envergonhados, o costume. Mas eis que as empregadas, mesmo com a casa à pinha, tomam o assunto em mãos. Uma pega na criança, outra traz lápis, outra papel, bidu-bidu, colinho daqui para ali, daling-dalão. A criança ri e silencia-se. Os pais ficam descansados, brindam ao amor e à família (com um vinho branco da casa muito decente) e a restaurantes com empregados-babysitters onde um nano-cliente estridente que não dá um euro a ganhar à gerência é bem-vindo. Serviço cinco estrelas.

A Time Out diz
O Tapas
©Duarte Drago
Restaurantes, Português

O Tapas

icon-location-pin Grande Lisboa

Dizer que um queijo sabe a batata sempre me pareceu maior ofensa ao tubérculo do que ao lacticínio. É daquelas expressões que se usam para referir queijos sem cura nem gosto, na melhor parte das vezes fatiados em rectângulos desenxabidos para entalar em sandes de cafetaria. O mesmo é dizer que a batata é uma coisa desengraçada que sabe a nada, nicles batatóides, coisa que a mim, aficionado do amido, me deixa sempre intrigado.

Penso nisto sempre que entro n’O Tapas, casa que senta uma dúzia numa transversal ao Rato, onde me refugio em jantares de conforto e as batatas me sabem sempre pela vida. Ali, sou um
 fiel do Bife à Portuguesa (8,5€).
 É farto, frito, tenro, levemente batido, temperado de alho e louro e guarnecido com umas batatas fritas perfeitas, no ponto de fritura e de sal, enxutas e firmes.

A Time Out diz
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Verde Minho
©Duarte Drago
Restaurantes, Português

Verde Minho

icon-location-pin Lisboa

Diz-se à minhota de qualquer coisa cozinhada ao preceito lá de cima. O bacalhau, por exemplo, em posta alta, de cebolada e aconchegado com batatas 
fritas às rodelas. Ou o arroz de entrecosto, infelizmente mais raro, malandrinho q.b., sempre com feijão, toucinho e chouriço de carne, envolvendo a chicha com travo de cominhos e colorau. São sabores com força telúrica, capazes de nos fazer sentir o lugar sem o pisarmos. Mas há apenas um ingrediente comum a toda a cozinha daquela terra, uma só característica apurada que define com exactidão o que é isso de servir à minhota. A saber: a gloriosa alarvidade das doses.

Eis portanto a primeira informação essencial sobre este Verde Minho, casa concorrida
 de clientela autóctone mas estrategicamente escondida da transumância turística numa curva da Calçada de Santana: meia dose é dose inteira por tuta e meia.

A grelha a carvão, plantada 
à janela direita de quem entra, 
é a oficina da melhor parte de uma ementa que vai rodando em dias mais ou menos fixos. Há um pito à quinta-feira que coloquei directamente no top de aves assadas em Lisboa, e uma entremeada de excelente porte à quarta. O bacalhau, já lá o encontrei precisamente como se espera, à minhota no preceito e na fartura, a cebolada rica, húmida, a saber a louro, e as batatas de boa qualidade (ocorrência cada vez mais digna de nota), no mesmo ponto perfeito de fritura e de sal que aqui as tenho encontrado sempre que servem de guarnição.

A Time Out diz
Acarajé da Carol
©Inês Félix
Restaurantes, Brasileiro

Acarajé da Carol

icon-location-pin Bairro Alto

O Acarajé é um pastel feito de pasta de feijão fradinho, frito em óleo de dendê, aberto ao meio e recheado de vatapá e camarão seco. A descrição soa ao que sabe: um petisco inventado por uma baiana de saia de roda num terreiro de candomblé em Salvador da Baía, entre rezas vudus e orixás.

Anda aliás uma baiana por aqui, entre a cozinha e a sala, Carolina Silva de seu nome, alma e cozinheira chefe deste extraordinário bloco de samba e comida, sem turistas nem portugueses, quase só imigrantes brasileiros do trabalho com saudades de casa e sequiosos de fim-de-semana e desopilanço.

É sábado e quando o restaurante abre para jantar, às 17.00, já há gente à porta. Só por isso sabemos que é um fenómeno. Pelas 19.15, começa o segundo turno e pelas 21.00 está montada a festa. Mesmo não havendo música ao vivo (como é costume), há um ruído festivo, a música das colunas ofuscada pela alegria dos convivas, gente sentada e
de pé, chopinho na mão, beijos e abraços, encontros e reencontros, novos e velhos, representantes de todas as siglas do LGBTQIAPK – muito axê, diria a Carol deste Acarajé, que agora acorre às mesas perguntando se está tudo bem.

A Time Out diz
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boubou's, principe real
©Manuel Manso
Restaurantes

BouBou's

icon-location-pin Princípe Real

O pátio do BouBou’s parece uma reunião de dondocas anónimas de Lisboa. Dondoca é a palavra que os brasileiros usam para designar mulheres com muito tempo livre à custa de maridos ricos. Há um grupo de brasileiras e portuguesas, logo ao meu lado, outro de inglesas, outro de angolanas. O mais ruidoso e animado é o grupo lusófono, uma dezena delas, todas na casa dos 30, 40 anos.

E de que falam? De como é difícil a vida de dondoca. De como o homem é um bicho insensível à vida difícil de dondoca; de como é duro fazer o lanchinho dos meninos, vesti-los, cuidar que eles não adoeçam e cresçam com o biótipo dos pais; e ainda ter de “ser gostosa”. Oiço isto e enfio-me nas minhas ostras com manteiga de alho e chalotas, muito quieto no meu canto, como a testemunha de um crime hediondo escondida no guarda-fatos.

A Time Out diz
Salmoura
Manuel Manso
Restaurantes, Petiscos

Salmoura

icon-location-pin Alfama

Os portugueses dividem-se entre os que gostam de comer um só prato grande e os que preferem vários pratos pequenos. São dois seres, dois mundos, muitas vezes conflituantes.

Em Lisboa, tem dado para todos. Mas o petisco para partilhar tornou-se num conceito batido como uma trouxa de alheira, frequentemente demasiado colado ao tapeo espanhol, cheio de clichés e twists e parvoíces. Há no entanto mudanças, uma pequena revolução silenciosa onde entra este Salmoura.

Já aqui escrevi sobre outras mesas em Lisboa que melhoraram o conceito de pratos para partilhar. Estão quase sempre mais perto da bistronomie francesa do que da tábua de enchidos ou do ceviche de salmão. Isso significa que há autoria, simplicidade, alta cozinha de tigela, comida saborosa, produto sazonal, serviço atento sem blazer, empratamentos sem risquinhos nem pintinhas.

A tendência começou há uns anos. O Cantinho do Avillez terá sido o primeiro representante notável, o Prado o mais recente e surpreendente. Mas agora popularizou-se. Tornou-se mais inventivo, sazonal, acessível. E não deverá ficar por aqui.

A Time Out diz
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Mercado Oriental Martim Moniz
©Inês Félix
Restaurantes, Asiático contemporâneo

Mercado Oriental

icon-location-pin Santa Maria Maior

O Martim Moniz tem desde há algum tempo um desses supermercados Amanhecer transnacionais, onde os cogumelos shitake e as pimentas de Sichuan convivem com a laranja do Algarve e o queijo flamengo. Ora, foi no topo desse supermercado, alojado numa espécie de galeria comercial, que há uns meses nasceu o Mercado Oriental. E o que é o Mercado Oriental? A resposta não é simples.

Na verdade, não é um restaurante mas vários restaurantes que partilham as mesmas mesas. O maior promotor e ideólogo do projecto, o chef André Magalhães (da Taberna da Rua das Flores e da Taberna Fina), chama-lhe hawker centre. “Hawker” quer dizer vendedor ambulante. No conceito original, os hawker centres nasceram na Ásia com a função de dar tecto e condições sanitárias às bancas de rua, mantendo o espírito e os preços da chamada street food. Em Singapura, Malásia, Hong Kong, mas também noutras comunidades asiáticas no estrangeiro, como as que existem na Austrália ou em Los Angeles, proliferam estas instalações, frequentemente espaços sem sofisticação mas com boa comida cozinhada por autóctones.

A Time Out diz
Sála
ManuelManso
Restaurantes, Europeu contemporâneo

SÁLA

icon-location-pin Santa Maria Maior

Já toda a gente entrou num restaurante quando
 os cozinheiros ainda estão debruçados sobre o balcão sem nada para fazer, e os empregados estão a um canto da sala com
 as mãos atrás das costas sem nada para fazer, aguardando
 os primeiros clientes com um sorriso na cara.

Pode parecer estranho, por vezes sentimo-nos oprimidos com tanta atenção, mas no
 final da refeição, normalmente, percebemos que foi bom termos ido cedo. Em qualquer restaurante do mundo, seja uma tasca ou um Michelin, o melhor horário é sempre o de abertura, nesse momento em que a sala está vazia e a energia da equipa está no máximo e os protocolos e as fichas técnicas podem ser cumpridos escrupulosamente. Ou seja, de acordo com a experiência de quem já fez todos os turnos e esmiúça estas coisas, se querem ser bem servidos é chegarem até trinta minutos depois de as portas abrirem: ao almoço pelas 12.30, ao jantar pelas 19.30.

A Time Out diz
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Panda Cantina
Duarte Drago
Restaurantes, Chinês

Panda Cantina

icon-location-pin Baixa Pombalina

Chegou à Rua da Prata em Outubro de 2018 e a popularidade tem aumentado num boca-a-boca que rapidamente se propagou. O Panda Cantina é um pedaço da região de Sichuan, na China, plantado no centro de Lisboa que quer fazer do tradicional a marca da casa. A decoração é suave e bem conseguida, os pormenores são interessantes e até a disposição dos lugares é pensada para acomodar a partilha em grupo ou a refeição a solo. A mão é de Yin, responsável pelo espaço, que aterrou em solo português depois de uma aventura no ramo do design, em Paris, e que acabou por ficar.

A falta de um espaço que representasse a cozinha chinesa da provincia natal foi a razão da estadia prolongada, e é precisamente esse o argumento maior do Panda Cantina. Aqui é tudo caseiro, os noodles são feitos na casa, os caldos e as carnes chegam a levar três horas de preparação e a sobremesa é, também ela, preparada na cozinha.

A Time Out diz
Za'atar
©Grupo José Avillez
Restaurantes, Libanês

Za'atar

Quem lê estas críticas sabe que já aqui citei o pó de za’atar, que dá nome a este restaurante. Do que eu nunca falei foi do sumagre – e devia. O sumagre domina o za’atar, mistura de especiarias onde também entram sésamo torrado e tomilho, mas fica sempre na sombra. Uma injustiça.

Aconteceu prová-lo agora,
 a solo. As bolachinhas finas da salada fattouch (com alface romana, agrião, pepino e pimento) estavam salpicadas deste pó avermelhado e foram uma revelação. Explodiram primeiro na língua e depois nas glândulas salivares cá atrás, com a sua acidez exótica e terrosa, como se o limão tivesse casado com a amora.

Isto foi no arranque da refeição, um jantar a dois onde se optou pelo menu de degustação (70€, para duas pessoas). O título – À Descoberta do Líbano com Joe Barza – pode ser enigmático para quem desconhece o contexto do restaurante. Quem é Joe Barza? Então isto não é do Avillez?

A Time Out diz
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Faz Frio
©Duarte Drago
Restaurantes, Português

Faz Frio

icon-location-pin Avenida da Liberdade/Príncipe Real

Num país que ama o bacalhau é difícil encontrar do bom, sobretudo em Lisboa. E há várias explicações para isso. Uma é que o bacalhau é caro. A outra é que o bacalhau deve ser comprado seco e demolhado e isso exige logística, planificação e ciência – tudo coisas complexas num negócio que, como todos os negócios, procura as maiores receitas com o menor investimento.

Ora, a Antiga Casa Faz Frio sempre foi conhecida por ter um prato de bacalhau todos os dias e a tradição manteve-se, apesar das mudanças recentes na cozinha e na decoração. No final do ano passado, o restaurante centenário mudou de gerência, mas foi remodelado com tino, procurando-se preservar o ambiente de casa de pasto – com os clássicos azulejos, as mesas em lioz, o quadro do marinheiro de Mário Cesariny e as cabines em madeira –, bem como uma carta de sabores portugueses, onde o gadídeo é rei.

Foi isso, em primeiro lugar, que lá me levou por duas vezes, uma ao almoço, outra ao jantar. Assinale-se, antes de nos sentarmos à mesa, que está bem feita a reabilitação. É certo que o restaurante é hoje outra coisa, mas a actualização não usou do posh nem cliché de Ikea. O que acabou mesmo foi a porta das traseiras aberta a fazer frio, supostamente usada durante o Antigo Regime para fugas de contestatários, que ali conspiravam contra Salazar.

A Time Out diz
Picamiolos
ManuelManso
Restaurantes, Português

Picamiolos

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

A minha amiga é uma eco-excitada-activista-de-Facebook e está a olhar o menu num estado de horror e espanto. Focinho 
de porco, miolos de borrego, tutano – tudo a deixa em agonia emocional, a civilização a regredir, a barbárie outra vez.

Está enganada a minha amiga no seu escândalo. Barbárie é agarrar num vitelo, tirar-lhe
 a vazia e deitar fora o resto. Sustentável é aproveitar o bicho todo. Foi a abundância, a cozinha instantânea e a voragem pelo lucro que nos venderam esta ideia de que o tenrinho é que é bom, como se um animal se pudesse reduzir a um único pedaço nobre – e mínimo – do seu corpo. Alguns cortes dão mais trabalho, requerem mais talento e mais conhecimento do que atirar um bife para cima de uma chapa; mas cozinhá-los é um acto de inteligência, bom gosto e altruísmo ambiental.

Sabe disto o Portugal rural e sabe-o José Júlio Vintém, espécie de Crocodilo Dundee do Alto Alentejo, conhecido por Tomba Lobos na região de Portalegre, 
o homem por trás da carta do Picamiolos – “um selvagem”,
 diz a minha amiga, sorrindo, indiferente à contextualização.

A Time Out diz
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Epur
©Manuel Manso
Restaurantes

Epur

icon-location-pin Chiado

Duas horas depois de me ter sentado, revejo os pratos e 
os apontamentos. Foram dez comidas – incluindo três amuse-bouches, pão e dois doces. 
Nem uma falha. Temperaturas correctas. Cozeduras de peixes
 e carnes afinadas. Coulis,
 glacés e veloutés consistentes. Proporções e construções bem desenhadas. Tudo perfeito. Cozinha francesa da boa.

Dito isto, não ajudou ter ido 
ao restaurante sozinho. Mesmo mais composto, o Epur não é
para comer sozinho ou com companhia pouco estimulante. A sala é bonita, mas o confinamento e a quietude aborrecem. Depois de analisado o mobiliário nórdico em madeira clara, a navalha Laguiole, os copos Schott Zwiesel e os painéis de azulejos, não resta mais nada para entreter.

É uma pena que a cozinha, embora esteja ali perto e seja bonita, permaneça inacessível. Como é uma pena que, do meu lugar – como dos da maioria, aliás – só consigamos ver uma pontinha do casario de Lisboa, que ondula Chiado abaixo até ao Tejo, uma vista magnífica que as janelas altas bloqueiam.

A Time Out diz
A Courense
©Manuel Manso
Restaurantes, Português

A Courense

icon-location-pin Sete Rios/Praça de Espanha

Encontrar uma boa batata é uma coisa tramada. Enfardamos batatas todos os dias e todos
os dias comemos más batatas. Senão, veja-se. Comemos sopa e a sopa está estranha: em metade das vezes é da batata. No que respeita a batatas fritas, o mesmo drama: moles, partidas, sensaboronas. Comemos e andamos, a fritura disfarça. A batata cozida é mais difícil de mascarar: ou estão aguadas ou farinhentas ou sobrecozidas ou tudo ao mesmo tempo.

Tornou-se tão banal comer más batatas que já nem protestamos. Já não reflectimos sobre essa catástrofe diária. A batata, hoje, é só um shot de hidratos. Está no prato para encher, para compor o estômago, para saciar. Não é suposto amá-la ou odiá-la. A batata, hoje, é como um vibrador: serve para preencher a pessoa durante uns minutos.

A Time Out diz
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crepe suzette do gambrinus
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Português

Gambrinus

icon-location-pin Santa Maria Maior

Hora de almoço, semana entalada entre o Natal e o fim 
de ano, o país em suspenso, a capital a meio gás. Devia ser um dia calminho na célebre casa das Portas de Santo Antão. Mas não. Assim que a porta de madeira se abre, eis o balcão completo
 e um burburinho que se eleva ao fundo. Na sala de baixo, marcada pela enorme tapeçaria de Sá Nogueira, os empregados andam num trânsito frenético de mesa em mesa. Há dois ou três almoços grandes de família, outros tantos de negócios, turistas brasileiros, chineses – e no canto, ao fundo, José Maria Ricciardi, banqueiro daquele banco que se afundou, com ar de quem passou pela cantina para trincar qualquer coisa entre um truque financeiro e outro.

O cerimonial do serviço é à antiga, património cada vez mais raro que o Gambrinus preserva. A mesa é arrastada para que nos possamos sentar facilmente;
 o casaco escorrega dos braços para as mãos de um empregado que parece que sempre viveu
 nas nossas costas; a água cai
no copo mal nos acomodamos nas cadeiras pesadas e escuras, ainda do tempo da remodelação de Maurício de Vasconcelos, em 1964; e rapidamente soa o pregão com os pratos do dia, no caso empadão de lagosta e eisbein (joelho de porco) com choucroute.

A Time Out diz
Cacué
©Manuel Manso
Restaurantes, Português

Cacué

icon-location-pin São Sebastião

Antigamente, quando o restaurante se chamava O Tomás, a nossa mesa costumava ser de oito, tudo colegas. Depois esse número baixou. Alguns foram despedidos da empresa, outros mudaram de empresa. Às tantas, também eu deixei de trabalhar ali perto, mas ia lá de propósito. Aquele almoço
era o descanso do guerreiro,
um intervalo para disparate e exaltação hormonal masculina, livre abardinação incendiada com tinto da casa e uísque novo.

A ideia do regresso, muito tempo depois, deixa-me por isso sentimental – um transtorno nostálgico e receoso, como o desses retornados que voltaram a África, vinte anos depois.

Não estou, contudo, sozinho na viagem. Comigo vem um companheiro de então. Apesar de reformado, continua dado à reportagem e à observação de costumes. Mal nos sentamos, começa a exercer. “A freguesia não mudou assim tanto, está interessante”, atira, fixando-se numa rapariga com ar de executiva que acaba de chegar. Ah, os tailleurs do Saldanha!

A Time Out diz
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Ararate
Fotografia: Duarte Drago
Restaurantes

Ararate

icon-location-pin Avenidas Novas

Estou convencido disto: todas as cozinhas são boas,
 nós é que não as conhecemos. Por exemplo, eu gosto muito das nossas iscas, mas agora descobri o tjvjik — um guisado de fígados aveludado e ácido — e gosto muito de tjvjik, as iscas arménias. Mas se me tivessem dito há uns meses que a cozinha arménia era interessante, que as iscas arménias eram boas como as nossas, eu porventura teria duvidado. E quem diz iscas diz borrego. Diz cozido de grão. Diz salada de beterraba. Só para citar alguns dos petiscos deste Ararate.

É uma sorte haver um restaurante assim, em Lisboa. Abriu há pouco mais de três meses, mas já está no ponto. Parte do prazer tem a ver com a descoberta. Antes de lá ir, entre as poucas coisas que conhecia da Arménia estavam Henrikh Mkhitaryan, jogador do Arsenal, o mecenas Calouste Sarkis Gulbenkian e um livro de cozinha.

Foi este livro que me abriu o interesse pelo Ararate. O livro chama-se Kaukasis, foi editado em 2017 e é uma obra extraordinária. Apesar de Olia Hercules, a autora, ter ascendência arménia, trata da gastronomia de toda a região do Cáucaso, e isso inclui também o Azerbaijão e, sobretudo, a Geórgia – também já com casa de comidas estabelecida em Lisboa.

A Time Out diz
Afuri
Duarte Drago
Restaurantes, Japonês

Afuri

icon-location-pin Chiado

A obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust,
 o protagonista come uma madalena que lhe muda o ânimo. “Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção 
da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres”, conta o autor. Ora, a minha madalena mais potente é o ramen, estrela deste Afuri. E o Afuri é a única casa
em Lisboa a fazer, hoje em dia, a famosa sopa japonesa como deve ser – todos os dias, ao almoço e ao jantar. Digo “hoje em dia” porque
 já houve outro restaurante
 de ramen a sério na cidade. Chamava-se Assuka e tem uma história triste. Já a citei aqui várias vezes, tantas quantas falei de ramen. E hei-de continuar
a fazê-lo por honra à história e a Francisco Lopes, a primeira pessoa apaixonada por noodles que conheci. Francisco Lopes aprendeu
 a arte em Paris, no restaurante japonês Higuma, e veio uns anos depois para Lisboa espalhar umami em tigelas fumegantes, primeiro nas Janelas Verdes, depois em São Sebastião da Pedreira.

A Time Out diz
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Pabe
Duarte Drago
Restaurantes, Português

Pabe

icon-location-pin Avenida da Liberdade/Príncipe Real

A restauração de luxo floresce e até uma velha glória, que marcou o jornalismo político das décadas de 80 e 90, parece ter renascido. Alfredo Lacerda foi reler a história e comer a comida do templo da Duque de Palmela. Almoço com Mário Soares no Pabe. O momento mais hilariante aconteceu quando ele mordeu a língua [a comer cerejas] e disse: “Diabo! Ia dizer mal do Guterres e mordi a língua.” José António Saraiva, in Eu e os Políticos. A pergunta saltou numa janela do Messenger como um raio fulminante. “E ao novo Pabe, já foste?” Estranhei o interesse do meu amigo: costumava gostar de sítios com bifanas e salada de cenoura ralada; não de restauração de luxo. A justificação surgiu logo a seguir. “Como pessoa que leu os livros de Arquitecto Saraiva tenho alguma curiosidade.” Arquitecto Saraiva é José António Saraiva. O ex-director do Expresso foi um dos clientes assíduos do Pabe na década de 1990, acabando por dar conta dos almoços que aí teve, num dos livros mais trágico-cómicos do Portugal contemporâneo.

A Time Out diz
Barra Cascabel
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Mexicano

Barra Cascabel

icon-location-pin São Sebastião

Vamos, por uma vez, começar com a bebida. E não é vinho. Nem cocktail. Nem kombucha. É sumo. Sumo de tomate. Com vinagre. E soja. E pimenta. E azeite. E é do caraças. Foi isto que eu disse à minha filha adolescente, que me acompanhou num almoço recente ao balcão do Barra Cascabel. “É do caraças.” Ela não acreditou. “Pai, é tomate. Tomate é para cortar às rodelas e pôr na salada”, disse-me. Insisti: “Prova”. Ela provou. “Não é tão mau como parece”, admitiu, voltando à sua limonada, que também não era uma limonada qualquer.
 Tomate é para cortar às rodelas, sumo de tomate é bebida de avião, aquela latinha que
 os norte-americanos pedem 
a 10.000 metros de altitude porque acham que conseguem duas borlas de uma vez: sumo e sopa. Estes são os dogmas. Mas o Cascabel acrescenta uma nova circunstância. A bebida vai muito bem no 7º piso de um centro comercial com comida mexicana. Óptima comida mexicana. Vamos à história do restaurante. O Barra Cascabel é um exemplo das novas estruturas empresariais de restauração.

A Time Out diz
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Okah
Arlindo Camacho
Restaurantes, Asiático contemporâneo

Okah

icon-location-pin Estrela/Lapa/Santos

Cá fora, a empena do edifício está forrada com
 a imagem gigante de um homem a esticar a boca com os próprios dedos, Jorge Molder pelo fotógrafo Jorge Molder. Lá dentro, a alta cultura é substituída pelo mundano: na recepção do LACS, o espaço de cowork onde está este Okha, um cartaz anuncia o horário para tratar das “nails” e diversas raparigas excitadas com a modernidade perguntam por um evento qualquer para “creators”. Aparentemente, podíamos estar na entrada (lobby) de um hostel de capital europeia. Vê-se gente frenética de um lado para o outro, elevadores que sobem
e descem. Mas não se enganem. O sítio pretende ser um local 
de trabalho. Muito trabalho. 
As redes sociais do LACS incentivam os seus coworkers com máximas que podiam ter saído de um manual de auto-ajuda dos anos 90: “Ambition is the path to sucess. Persistence is the vehicle you arrive in”. Uou! Saiam da frente dos miúdos! Parte desta ironia ruim é inveja. A ideia de intervalar a crítica gastronómica com uma “massage” ou uma “ashtanga yoga session in the rooftop” saberia muito bem, desde que não tivesse de aturar paleio de criativo (“empreendedor” é muito 2013). Subamos então ao terraço, três pisos acima.

A Time Out diz
Valdo Gatti
©DR
Restaurantes, Italiano

Valdo Gatti

icon-location-pin Grande Lisboa

No cada vez mais competitivo campeonato das rodelas de pão assado com cenas por cima, Valdo Gatti foi o restaurante mais emocionante dos últimos tempos. A diferença não está na massa mas também está na massa. E sobre isso importa fazer três apreciações: que não se carrega em fermentos artificiais para fazer inflar as pizzas (em vez disso, poderá até haver fermentações naturais longas); que a farinha tem sabore que se mistura nela uma gordura de qualidade; que será essa gordura – azeite? – que produz o aspecto de quase fritura da massa, uma caramelização 
fina e crocante da parte exterior, que comemos já não como uma pizza napolitana, mas como uma coisa eventualmente melhor, indubitavelmente boa. Sobre a massa estamos conversados e agora podemos ir
ao resto, que é muito, com menos advérbios, de preferência, mas igual convicção. A primeira coisa fixe no Valdo Gatti é ser no Bairro Alto. Aos que ditaram a sua morte dir-se-ia que estão enganados

A Time Out diz
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Soão
©Manuel Manso
Restaurantes, Asiático contemporâneo

Soão

icon-location-pin Alvalade

Acontece muitas vezes. Apetece carne e o editor sugere para ser avaliado um restaurante vegetariano; apetece ceviche e
o destino é uma churrasqueira; apetece hambúrguer e calha uma degustação de coisinhas. O crítico também sofre, meus amigos. Mas há semanas em que as vontades se alinham. Esta foi uma delas. Estava um desses dias de calor parvo e apetecia-me almoçar barriga de atum e outros peixes crus, wasabi e gengibre, arroz glutinoso a acompanhar, mais um chazinho frio de sencha, e isto de preferência numa taberna asiática, devidamente fechada e escura, como devem ser as tabernas asiáticas, e sem ter de entrar no eixo Saldanha-Chiado. Não era pouco. Mas aconteceu. Como num sonho.

A Time Out diz
pesca
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Haute cuisine

Pesca

icon-location-pin Princípe Real

Quando abriu, há um ano, fez-se um grande alarido. O chef Diogo Noronha tinha tido uma passagem fulgurante pela Casa de Pasto 
e havia sido contratado pela Multifood, grupo com arcabouço para marketing e capaz de chegar ao patamar Michelin, para abrir o Pesca. O conceito do restaurante estava de acordo com os tempos: peixe, legumes e frutas de pequenos produtores, preocupações ambientais. Dias depois da abertura, começaram os habituais convites para provar o menu feitos a jornalistas, bloggers e influenciadores. Surgiram desde logo textos laudatórios, mas quase sempre mais tímidos do que é costume. Fora das páginas e dos ecrãs, longe das agências de comunicação e relações públicas, a conversa era outra, mais dura: o Pesca não sobrevivia às expectativas. Que eram muitas. Comi lá também nesta altura e fiquei com essa sensação.

A Time Out diz
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O Mariscador
Fotografia: Duarte Drago
Restaurantes, Frutos do mar

O Mariscador

icon-location-pin São Sebastião

Há muito que evito adjectivos quando alguém pede conselho sobre restaurantes. Se uma pessoa diz que um restaurante é incrível – muitas pessoas o dizem – o mais certo é que a outra pessoa, depois de lá ir, ache só ok. Isto é assim porque somos seres com papilas e gostos e educações diferentes, mas também porque pesa na avaliação outra coisa: a expectativa; e se a expectativa é alta há mais hipóteses de desilusão; há mais hipóteses de distorcermos a verdade. O crítico de restaurantes deve por isso ser um combatente profissional da expectativa. O que implica, muitas vezes, defender-se do marketing e da notícia na revista, da entrevista sentimental ao chef e da inauguração com famosos, da dica do colega de profissão e do convite do assessor de imprensa.

A Time Out diz
Windsurf Café
Fotografia: Duarte Drago
Restaurantes, Português

Windsurf Café

icon-location-pin Cascais

Há uma tendência na 
vida para nivelar por baixo. Afrouxamos se o pelotão não pedala, distraímo-nos se a concorrência é fraca. Acontece assim em tudo na vida – e 
na restauração é igual. Um restaurante mau arrasta outros restaurantes maus. Em Lisboa, existem algumas zonas gastronómicas niveladas por baixo. Vem logo à cabeça
 as Portas de Santo Antão, uma rua com mais armadilhas gastronómicas do que pedras na calçada – e logo a seguir o Bairro Alto, a Rua Augusta, a Rua dos Correeiros, as Docas. Sucede que em todas estas lixeiras encontramos faróis cercados por náufragos, gente limpa no lamaçal, erva verde entre cinzas – casos extraordinários de superação, verdadeiras excepções ao nivelamento por baixo. É sobre uma dessas excepções que vos quero falar.

A Time Out diz
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Ramiro
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Frutos do mar

Cervejaria Ramiro

icon-location-pin Intendente

Ei-lo à nossa frente. O lobo mau da Almirante Reis, o monstro de cauda serpenteante, o grande papão da restauração lisboeta. São 19.05, quinta-feira de Julho, quando enfrentamos a fila de espera do Ramiro. Cá fora mais de 70 pessoas, umas espalhadas pelo passeio, outras dentro da sala de espera exterior, um rectângulo fechado com decoração de merchandising de cervejeira. Aproximamo-nos da máquina das senhas, à porta, tiramos uma e ficamos a observar, fechados nesse galinheiro internacional. A tal máquina chama os números ao mesmo tempo que eles aparecem num ecrã, qual repartição de Finanças. Mas não é fácil perceber a lógica da fila.

A Time Out diz
Everest Montanha - Sala
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Nepalês

Everest Montanha

icon-location-pin Alvalade

Não há uma vez que passe aquela porta sem que haja um pequeno desentendimento. Os empregados, vestidos com um rigoroso uniforme nepalês, querem sempre instalar-me num sítio onde eu não quero ser instalado — mesmo se vou ao meio-dia e a sala está vazia. Não é embirração, é só um protocolo sobre ocupação de lugares seguido sem concessões há mais de uma década. São muito coerentes nisto e no resto. Há poucos restaurantes com comida tão sólida e consistente, em Lisboa. Dezenas de visitas e a cozinha é sempre entre o satisfaz mais e o muito bom.

A Time Out diz
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skora
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Dinamarquês

Skøra

icon-location-pin Lisboa

É reciso lembrar que 
a cozinha dinamarquesa protagoniza um dos grandes paradoxos gastronómicos do nosso tempo. Tem o restaurante de alta cozinha mais importante do mundo – o Noma, com residência em Copenhaga –, mas a popularidade do receituário tradicional está ao nível da do Níger. Uma das razões para isto acontecer tem a ver com a falta
 de produto. Comparando com os nossos peixes, vegetais ou carnes a Dinamarca é um país pobre. E nada é condimentado com muitas especiarias ou muito tempero. A salvação está nos molhos e nas curas. Confirmou-o a própria Ana Bassie, proprietária e chef do Skøra. Numa das incursões que fez à sala, adiantou que quer manter-se fiel a esse princípio, compensando a insipidez da matéria-prima com caldos de muitas horas. “Fazemos todos os dias o gravy, um caldo à base da cozedura de carne e vegetais”, disse.

A Time Out diz
Quitanda
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Frutos do mar

Quitanda

icon-location-pin Oeiras

Sentados na esplanada à beira-rio, a primeira sensação 
é de Tarrafal. À nossa volta está um gradeamento com arame farpado, alto como numa cadeia de alta segurança. Em 20 passos estaríamos com os pés de molho no Tejo, mas a cerca da esplanada do Quitanda transforma o rio numa miragem e o restaurante numa cadeia de alta segurança sem projecto de arquitectura. Olhando para terra, as coisas não melhoram. O Centro Náutico de Paço d’Arcos, onde o restaurante está instalado, parece uma piscina municipal do tempo em que as piscinas municipais eram construídas sem fundos europeus. Há uma sala no primeiro andar, relativamente arrumada, e há mesas no rés-do-chão lado a lado com os balneários, a secção de canoagem, placards com quadros competitivos e vitrinas onde se exibem os troféus do clube. No meio desta parafernália, eis então o tesouro do Quitanda: a banca do peixe.

A Time Out diz
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Jamie's Italian Lisboa
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Italiano

Jamie's Italian

icon-location-pin Princípe Real

A versão portuguesa do restaurante italiano de Jamie Oliver tem três pisos com 174 lugares sentados, com direito a sala privada no -1, e dois terraços com vistas incríveis para o castelo, seguindo, em termos de decoração, a mesma linha dos restaurantes Jamie’s Italian – presuntos e alhos pendurados no bar, à entrada, e decoração em madeira, azul e cobre. A carta é grande, tem o nome dos pratos em inglês para “preservar o espírito britânico" e faz referência aos “mais famosos” ou aos favoritos de Jool, a mulher de Jamie Oliver.

A Time Out diz
O Poke
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Havaiano

O Poke

icon-location-pin São Sebastião

O filme de promoção ao Gourmet Experience, do El Corte Inglés – onde está este Poke, bem como os restaurantes de Avillez, Sá Pessoa, Roberto Ruiz, Pepe Solla e Aitor Ansorena – foi bem esgalhado mas deu azo a uma piada. “Adivinha. Quantas vezes subiram os chefs do Gourmet Experience ao sétimo andar do El Corte Inglés? Resposta certa. Uma. Durante a gravação do vídeo que fizeram para as redes sociais.” Enfim, não é uma piada hilariante, nem sequer verdadeira, mas, como todas as piadas tem um referente – que é este: as celebridades da cozinha portuguesa andam a vender restaurantes como o Ronaldo vende camisolas.

A Time Out diz
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Taberna Fina, André Magalhães
Arlindo Camacho
Restaurantes, Cozinha contemporânea

Taberna Fina

icon-location-pin Chiado

A Taberna Fina fica num primeiro andar de um hotel de luxo e é uma sala pequena, quadrangular, com janelas para a Praça Luís de Camões. Lá em baixo, em redor da estátua do poeta, pela hora do jantar começa a juntar-se uma multidão em algazarra festiva, antecâmara do Bairro Alto. Cá em cima canta Norah Jones e as pessoas sussurram em ambiente sofisticado, entre paredes escuras. Está metade da lotação, uma dezena de pessoas – mas os três empregados de sala andam num frenesim. Uma das razões tem a ver com o próprio conceito do restaurante. Como só está disponível uma opção de degustação, com uma dezena de momentos, há sempre qualquer coisa a acontecer.

A Time Out diz
soi
Fotografia: Francisco Santos
Restaurantes, Asiático contemporâneo

Soi

icon-location-pin Cais do Sodré

Esta rubrica segue a regra de só fazer a crítica de um restaurante três meses depois de ele inaugurar. A ideia é preservar o soft opening, dar tempo à casa para afinar as coisas – uma regra discutível que, em todo o caso, beneficiou este Soi. Calhou lá ir na primeira semana em que o restaurante abriu, almoço rápido e frugal,
 e fiquei com a ideia de que estávamos perante a receita habitual para o asiático pós-moderno: soja daqui, erva-príncipe dali, molhos
 de supermercado chinês, pitada de molho vietnamita industrial, pad thais, agridoces, caldos apressados, decoração modernaça, néons, bambus e woks flamejantes.
 Voltei uns meses depois, novamente ao almoço, desta vez com tempo e estômago – e 
a comida pareceu-me mais consistente e original. A carta mantinha tiques de cozinha 
de fusão, com abundância de chilis e pastéis açucarados, mas aconteceu que tudo o que veio para a mesa estava uns furos acima da concorrência.

A Time Out diz
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Merendinha do Arco Bandeira
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Português

Merendinha do Arco Bandeira

icon-location-pin Baixa Pombalina

Na parede há três quadros que me chamam a atenção. O primeiro, de frente para quem entra, anuncia o lema da casa, “higiene, honestidade e rapidez”. O segundo, à esquerda da porta, é a “Rapariga com brinco de pérola”, de Vermeer. O terceiro, mais à esquerda ainda, mostra o pequeno Jaime quando tinha uns 7 anos, a cuidar das vacas no lugar de Lamamã, numa imagem que anuncia as Festas da Vila de Paredes de Coura de 2007. Acredito que todos eles, literalmente ou não, dizem alguma coisa sobre a Merendinha. Explico. O primeiro declara três princípios que não se devem dar por garantidos em mesas de almoço e que, tanto quanto a minha experiência permite afiançar, são escrupulosamente cumpridos na casa.

A Time Out diz
restaurante rua
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Português

Restaurante RUA

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

O Miso é uma das grandes maravilhas da cozinha japonesa e brincar com ele pode ser perigoso. Feito de caldo de dashi, extraído de algas kombu
 e de bonito seco (peixe parecido com o atum), é das sopas mais retemperadoras que os humanos inventaram. Ora, neste Rua, o miso apareceu com notas a cabeças de camarão grelhado, qual híbrido luso-japonês, meio miso, meio creme de marisco. Para tornar tudo ainda mais luxuriante, no topo vinha um camarão grande descascado, tenro e elástico, a acrescentar textura numa tigela cheia delas: tofu, cebolo, algas wakamé e folhas de capuchinha. Grande abertura, como um teaser do MasterChef mas em bom, sem as repetições insuportáveis do programa televisivo.

A Time Out diz
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Aya Bistrôt
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Japonês

Aya Bistrôt

icon-location-pin Grande Lisboa

Estava uma destas noites tempestuosas de Março, ruas desertas, acessos à ponte congestionados. Mesmo assim reservei mesa. Ia de Lisboa para a Cova da Piedade, na Margem Sul, o Google Maps dava-me 50 minutos de caminho. Não queria correr riscos. À chegada, ficou claro que 
as cautelas eram exageradas. O restaurante estava vazio, só uma pessoa para take away e o homem que procurava: Cícero. Não Cícero, o extraordinário político e pensador romano que Marco António mandou decapitar, mas Cícero, o sushiman brasileiro,
 o mais discreto e simpático dos discípulos de mestre Takashi Yoshitake. Se lê esta revista com regularidade, sabe que Takashi Yoshitake foi – e é – uma figura tutelar da gastronomia tradicional japonesa, em Portugal. Fundador do Aya, fechado em 2009, ensinou boa parte dos sushiman que hoje cortam peixe nas melhores casas da especialidade.

A Time Out diz
Tendinha do Rossio
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Português

Tendinha do Rossio

icon-location-pin Baixa Pombalina

Cresci fora de Lisboa e o meu mapa mental da cidade testemunha isso. Para um gaiato da margem sul, o Terreiro do Paço será sempre a porta da frente
 do resto do mundo e se tiver de indicar o centro da capital aponto para a Baixa. Resumindo, sou um pombalino. Isso está também marcado na minha geografia afectiva dos apetites, uma espécie de carta onde se inscrevem as coordenadas de tudo aquilo que, consoante o lugar, me dá na gana comer se acaso estou esganado. Pois bem, se a fome aperta no centro, é provável que acabe na Tendinha. Serve este longo intróito para justificar a forma pouco crítica como salivo cada vez que me especo diante deste balcão de inox.

A Time Out diz
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Zazah
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Petiscos

Zazah

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

Estava prestes a descartar os croquetes de alheira, quando ao meu lado ouvi um “crssssshhhh” notável, um camião TIR contra um Boeing 747. O som saiu directamente da boca fina de uma mulher fina que os mastigava finamente, sentada 
na mesa ao lado, uma artista 
de vestido preto admiradora de Chico Buarque – “É Deus no céu e Chico na terra”. Sendo um freak do crocante, resolvi experimentar. A minha boca não é fina e o que aconteceu 
à primeira mordidela foi um abalo de grau 8, uma coisa suficiente para acordar os patos do Príncipe Real. Com isto, engoli o dito e engoli um preconceito.

A Time Out diz
A Provinciana
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Português

A Provinciana

icon-location-pin Santa Maria Maior

À segunda é certo que haverá sangue. No primeiro dia da semana a Dona Judite
faz sempre galinha de cabidela. À terça faz chanfana (de vitela, mas a preceito), à quarta pernil assado no forno (serve com feijão e couve cozida), quinta é dia de polvo à lagareiro (pequenino, inteiro, firme, com batatas assadas) e na sexta bacalhau com grão. Ao sábado não sei, confesso, nunca cá pus os pés, e ao domingo a casa fecha. É claro que também se pode dizer que segunda há bacalhau à minhota, terça lagartos, quarta dobrada com feijão, quinta cozido e sexta bacalhau à lagareiro. Mas isso é outro itinerário.

A Time Out diz
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Vela Latina
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Mediterrâneo

Vela Latina

icon-location-pin Belém

Uma das coisas que mais me fez salivar desde que a Rita me beijou de língua, já lá vão 30 anos, foi o arroz de alcachofras que comi num jantar recente no Vela Latina. À primeira garfada soltei um impropério (mental) seguido 
de uma hipérbole (vocal): “Isto 
é das melhores coisas que comi na vida”. A acidez da alcachofra laminada — muita — e o caldo suave e protéico deixaram-me extasiado e meditativo. O arroz, que acompanhava um magnífico filete de pescada, não tinha o fim lácteo e gordo do risoto; 
mas também não era o típico malandrinho. Havia ali truque. E eu havia de o descobrir. Dias depois, domingo de manhã, liguei para o restaurante e pedi para falar com o chef. Benjamim Vilaça, desde os
 anos 80 à frente do restaurante junto à Torre de Belém (resistiu à renovação recente do espaço), contou tudo.

A Time Out diz
Cave 23
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Cozinha contemporânea

Cave 23

icon-location-pin Lisboa

A abrir, sugeriram-nos um Porto Vieira de Sousa, meio-seco, 10 anos de idade, ligeiramente refrescado, para acompanhar os amuse-bouches. Embora se trate de um vinho especial, torci o nariz. Pareceu-me uma versão sofisticada do cocktail impingido à entrada, tão comum na restauração lisboeta, e pareceu-me potência a mais no arranque da refeição. Mas o chefe de sala insistiu, educadamente, e quando um chefe de sala insiste, educadamente, devemos segui-lo. Como se haveria de constatar, “potência a mais” é um conceito que não existe no Cave 23. O restaurante – pequeno mas bonito, luzes baixas, garrafas de vinho, madeiras – não tem carta e só nos foi dada a opção de uma degustação às cegas, sem se saber de quantos momentos, quantos pratos, quantos euros. Apresentou-se então o chef em pessoa.

A Time Out diz
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mezze, restaurante sírio, arroios
©Francisco Santos
Restaurantes, Sírio

Mezze

icon-location-pin Lisboa

É justificado o bruaá em torno do Mezze, o restaurante onde quem recebe e cozinha são refugiados do Médio Oriente. O projecto, muitíssimo falado na imprensa quando abriu, em Setembro 
do ano passado, tem a mão da Pão a Pão – Associação para a Integração de Refugiados do Médio Oriente, responsável por uma série de eventos 
e workshops, não apenas ligados à gastronomia. Tem também, lê-se no final da ementa, o contributo de uma série de nomes, mais ou menos conhecidos, da cozinha ao design, da música à televisão. Tanta atenção mediática (merecida, sublinhe-se) tornou o Mezze num daqueles restaurantes cujos primeiros passos foram acompanhados por enchentes de pessoas, com textos e fotografias partilhados e repartilhados nas redes sociais – acresce também o factor popularidade da cozinha do Médio Oriente no país.

A Time Out diz
Sud Lisboa
©António Nascimento
Restaurantes, Italiano

SUD Lisboa Terrazza

icon-location-pin Belém

O sururu em torno do SUD tem sido grande. Primeiro, foram as obras a juntar dois ícones da beira-rio, o Piazza di Mare e o BBC, num projecto do grupo SANA que envolveu uns milhões. Depois, foram as fotografias da esplanada e da piscina, que começaram a ser partilhadas em catadupa nas redes sociais assim que as portas abriram no Verão – uma espécie de “eu já lá fui, embrulhem”. E daí veio, nos restantes meses, a grande questão: então, o SUD é bom? Prontifico-me a respondê-la, à luz de um jantar feito à base dos pratos mais italianos da já de si mui mediterrânica ementa, nos próximos parágrafos.

A Time Out diz
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Pomar de Alvalade
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Português

Pomar de Alvalade

icon-location-pin Alvalade

Nunca me tinha acontecido. Acabar a de fazer um elogio à comida quando o empregado, travessa vazia na mão, atirou. “Você gosta disso?! Eu não acho graça nenhuma ao prato”. Não foi um sussurro ao ouvido, não foi conspiração contra o cozinheiro. Foi um sincero e sorridente desabafo, vociferado para toda a sala ouvir, sendo que a sala, como de costume, estava numa algazarra festiva e indiferente. O episódio demonstra uma coisa que toda a população do bairro de Alvalade sabe. O Pomar, tasca com mais de 30 anos,
s erve com a confiança de quem nada teme. O sítio está lotado diariamente e assenta o sucesso em três coisas: bom produto, sobretudo peixe e marisco; boa cozinha; e um serviço expedito, espirituoso e franco, como se todos os empregados fossem vizinhos a quem podemos confiar o histórico do Google.

A Time Out diz
Focacceria Pugliese
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Italiano

La Focacceria Pugliese

icon-location-pin Campo de Ourique

A La Focacceria Pugliese é um restaurante de comida rápida em Campo de Ourique – tão rápida que há um desconto de 10% para quem faz take-away. Abriu há coisa de dois anos num espaço mais pequeno e mudou-se depois para a esquina da Tomás da Anunciação com a Coelho da Rocha, ganhando espaço e diversidade de oferta. Para o efeito, que é servir comida rápida a preços em conta, está ajustado. Nada do que se come é fora de série (incrível ou de perder a cabeça), algumas vezes vezes é requentado antes de chegar
 à mesa, mas nem isso difere de outros negócios do género em Itália (ou das pizzarias al taglio de Lisboa).

A Time Out diz
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café Tehran
Fotografia: Manuel Manso
Restaurantes, Iraniano

Cafeh Tehran

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

Uma Iraniana a viver em Portugal desde os dois anos, abriu na praça mais cutchi-cutchi de Lisboa (essa, a das Flores) um restaurante com cozinha do Irão. E a pergunta que se impõe é: o que é cozinha do Irão? Influências do Médio Oriente, traços mediterrânicos, alguns estufados, muitos vegetais, frutos secos, ervas aromáticas e especiarias em barda. É, pois, uma cozinha perfumada, saborosa e diferente. E o trabalho de Pooneh Niakian, que recebe, recomenda e cozinha neste seu Café Tehran, é bem feito. Da mistura de frutos secos torrados com especiarias que abriu a refeição, mais viciante que uma taça de pipocas, à tarte de amêndoa e noz moscada sem farinha, acompanhada de um chantilly 
de cardamomo (que delícia, que leveza) com que fechou, gostei
 de tudo o que comi num almoço recente no restaurante.

A Time Out diz
Cantina Peruana
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Peruano

Cantina Peruana

icon-location-pin Chiado

Sentada à mesa da Cantina Peruana, no varandim do primeiro andar do Bairro do Avillez, numa noite de semana com casa cheia, apercebi-me de que José Avillez, além de chef, agora também é senhorio. Desconheço, e de nada me interessam, os detalhes contratuais, mas sei que de certa forma o que fez ao abrir as portas de uma das suas casas mais populares (não são todas?) ao chef e amigo Diego Muñoz, e ao afirmar à imprensa que a ementa é toda do peruano e só o ajudou nos acertos de cortes de peixe, na ponte com produtos portugueses e alguns sabores, está, de certa forma, a ser um daqueles senhorios que até dá o nome de um faz-tudo impecável quando arrenda a casa. Mais: todo o site da Cantina Peruana fala em Diego Muñoz, no chef que está aos comandos, Yuri Herrera, também natural do Peru, e isso só confirma a minha ideia.

A Time Out diz
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O Watt
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Português

O Watt

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

É bem possível que o carré de borrego com pistáchio d’O Watt, o mais recente restaurante de Kiko Martins, se torne num prato icónico desta cidade. O carré é um corte da costela do bicho, aqui desossado num lombo limpo e tenro, pincelado com extracto de romã. No topo, leva uma areia de pistáchio com flor de sal, que contrasta maravilhosamente com a acidez da romã e dos montículos de creme de iogurte com za’atar (mistura árabe de ervas, sésamo e sumagre). O prato é ainda adornado com pasta de hummus e espinafres e com grãos e espargos, menos emocionantes mas bem no enquadramento, compondo um dos pratos mais bonitos que me foi dado ver em 2017.

A Time Out diz
Local
©Francisco Santos
Restaurantes, Português

Local

icon-location-pin Chiado/Cais do Sodré

E eis que este Verão o nome André Lança Cordeiro começou a ser falado com frequência pela comunidade de foodies (ou gastrónomos, você decide) de Lisboa. Tudo graças ao Local, o restaurante em open space só com 10 lugares e 18 metros quadrados que abriu no Príncipe Real. Os verdadeiros entendidos da área dirão que já conheciam o nome do chef
 do Palácio do Governador, sítio que marcou o seu regresso a Lisboa depois de vários anos a trabalhar em França e na Suíça. Os que tomam Memofante há vários anos lembrar-se-ão da
sua passagem pela icónica 2780 Taberna, em Oeiras. Eu tenho
 de admitir que apenas comecei
 a ouvir falar do chef cujo nome encaixa que nem uma luva com a área de especialidade quando este se instalou no Ânfora, o
 tal restaurante do Palácio do Governador, espaço que deixou para abrir o Local.

A Time Out diz
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S Restaurante
©DR
Restaurantes, Português

S Restaurante

icon-location-pin Avenida da Liberdade/Príncipe Real

Cresci a ler o David Lopes Ramos, saudoso amigo e crítico gastronómico do Público, e sempre me ficou na cabeça, como referência incontornável da cozinha alentejana, o restaurante A Bolota, de que ele tanto gostava e sobre o qual tanto escreveu, há quase 20 anos. Na altura, demasiado pobre para lá comer, lembro-me de sonhar com o dia em que pudesse ir à Terrugem, aldeia perto de Elvas, experimentar esse templo, um dos poucos da região a ser contemplado com estrela Michelin. Dramaticamente, todavia, Júlia Vinagre, cozinheira 
e mentora do sítio, sofreria 
um grave acidente de viação, acabando por deixar o restaurante demasiado cedo — e eu acabaria por não conhecer A Bolota, mesmo já quando poderia dar-me a um luxo ocasional.

A Time Out diz