Críticas de restaurantes

O panorama gastronómico de Lisboa avaliado por quem sabe. Com a ajuda das nossas críticas de restaurantes, escolha onde jantar, marcar um almoço de negócios ou organizar aquele encontro de amigos que nunca mais sai do grupo de Whatsapp

Fotografia: Manuel MansoRestaurante Loco

Antes de navegar pelo slideshow abaixo, fique a saber que as críticas de restaurantes da Time Out são uma experiência relatada por quem anda há anos a fazer disto vida. Em anonimato, os nossos especialistas em Comer & Beber sentam-se à mesa, provam de tudo um pouco, pedem a conta e depois escrevem sobre o que acharam dos pratos, dos copos, do serviço, do espaço e de tudo o que pode transformar uma refeição numa experiência 5 estrelas – ou num pesadelo.

Isto de ser fiscal da restauração lisboeta não é fácil, mas encaramos o sacrifício como um género de serviço público. Sirva-se à vontade das nossas críticas de restaurantes. E repita.

Críticas de restaurantes

Prado
Fotografia: Arlindo Camacho
1/5

Prado

5 /5 estrelas

António Galapito fez crescer um Prado ao pé da Sé, um restaurante onde trabalha o gado e vegetação orgânica. Usa os ingredientes que os produtores portugueses lhe dizem que estão bons e, por isso, não tem uma carta propriamente fixa. Todos os dias há qualquer coisa que muda, dos cortes aos peixes. Do outro lado do aparthotel The Lisboans, onde fica o restaurante, há a Mercearia do Prado, onde se vendem produtos a granel, compotas e fiambres de porco preto.

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Castelo de São Jorge
Wurst - Salsicharia Austríaca
©DR
2/5

Wurst - Salsicharia Austríaca

5 /5 estrelas

Não estamos a falar de um restaurante, no sentido clássico.
 Este Wurst – Salsicharia Austríaca 
é um balcão fofo com uma dúzia de lugares sentados em redor, enfiado num cantinho do Mercado fofo de São Bento. Disto isto, a comida é enorme. Não só serve as melhores salsichas da cidade, como tem este dom de permitir-nos comer gordura animal sólida com a consciência tranquila. É que as salsichas são biológicas, produzidas pela Wurst na Herdade do Freixo do Meio, perto de Montemor-o-Novo. E salsichas biológicas é como um chuto de heroína feito de papoilas livres de pesticidas e de talibãs. A traficante de serviço é Maria Fuch, austríaca de Salzburgo encantada
 com Lisboa, sotaque luso-germânico encantador e indumentária tirolesa.

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Chiado/Cais do Sodré
Feitoria
©DR
3/5

Feitoria

5 /5 estrelas

Sabor, qualidade, criatividade, aparato. Bastariam estas palavras para descrever uma refeição no Feitoria. E, por consequência, a cozinha de João Rodrigues. Mas antes, um pequeno intróito. O chef sucedeu a José Cordeiro 
à frente do Altis Belém. Agarrou a estrela Michelin ganha em 2012 e,
 mais do que isso, escalou um caminho surpreendente e consistente, bem sustentado pela qualidade da matéria-prima escolhida – prova disso é o menu Terra, uma exímia degustação 100% vegetariana de três pratos, em boa parte assegurada pela Quinta do Poial. Se merecia a segunda estrela, como foi vaticinado e acabou por não acontecer? Merecia.

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Belém
In Bocca al Lupo
Fotografia: Ana Luzia
4/5

In Bocca al Lupo

5 /5 estrelas

As crianças nem sempre são o melhor que há no mundo, mas resultam muito úteis para a crítica de restaurantes. As crianças mesmo crianças não vão em tendências nem em tops. Não lhes interessa se o restaurante é do chef A ou do chef K. Se a carne é maturada durante 12 dias ou 12 meses. Se o peixe é de aquacultura ou vivia numa gruta das Berlengas. A gente pergunta às crianças: Gostas? E as crianças respondem: “É óptimo”. “É horrível”. Às crianças só interessa o sabor e o prazer.

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Chiado/Cais do Sodré
Loco
Fotografia:Arlindo Camacho
5/5

Loco

5 /5 estrelas
Escolha dos críticos

De início houve alguma bazófia e era fácil embirrar com o sítio. Quando alguém sente necessidade de proclamar a sua “corrente criativa constante”, frequentemente acaba sozinho num onanismo preguiçoso gritando aleivosias contra os brutos lá fora. Ninguém gritou no Loco mas a reacção a um projecto que se apresentava com “um outro nível conceptual”, “uma experiência total”, foi vigorosa. Um respeitável crítico gastronómico espanhol foi quem primeiro disse “nem tanto”. Depois de uma visita a Lisboa, Carlos Maribona escreveu no blogue do jornal ABC um texto amargo.

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Estrela/Lapa/Santos

Críticas de restaurantes

Taberna Fina
Arlindo Camacho
1/95

Taberna Fina

4 /5 estrelas

A Taberna Fina fica num primeiro andar de um hotel de luxo e é uma sala pequena, quadrangular, com janelas para a Praça Luís de Camões. Lá em baixo, em redor da estátua do poeta, pela hora do jantar começa a juntar-se uma multidão em algazarra festiva, antecâmara do Bairro Alto. Cá em cima canta Norah Jones e as pessoas sussurram em ambiente sofisticado, entre paredes escuras. Está metade da lotação, uma dezena de pessoas – mas os três empregados de sala andam num frenesim. Uma das razões tem a ver com o próprio conceito do restaurante. Como só está disponível uma opção de degustação, com uma dezena de momentos, há sempre qualquer coisa a acontecer.

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Chiado
Soi
Fotografia: Francisco Santos
2/95

Soi

4 /5 estrelas

Esta rubrica segue a regra de só fazer a crítica de um restaurante três meses depois de ele inaugurar. A ideia é preservar o soft opening, dar tempo à casa para afinar as coisas – uma regra discutível que, em todo o caso, beneficiou este Soi. Calhou lá ir na primeira semana em que o restaurante abriu, almoço rápido e frugal,
 e fiquei com a ideia de que estávamos perante a receita habitual para o asiático pós-moderno: soja daqui, erva-príncipe dali, molhos
 de supermercado chinês, pitada de molho vietnamita industrial, pad thais, agridoces, caldos apressados, decoração modernaça, néons, bambus e woks flamejantes.
 Voltei uns meses depois, novamente ao almoço, desta vez com tempo e estômago – e 
a comida pareceu-me mais consistente e original. A carta mantinha tiques de cozinha 
de fusão, com abundância de chilis e pastéis açucarados, mas aconteceu que tudo o que veio para a mesa estava uns furos acima da concorrência.

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Cais do Sodré
Merendinha do Arco Bandeira
Fotografia: Manuel Manso
3/95

Merendinha do Arco Bandeira

4 /5 estrelas

Na parede há três quadros que me chamam a atenção. O primeiro, de frente para quem entra, anuncia o lema da casa, “higiene, honestidade e rapidez”. O segundo, à esquerda da porta, é a “Rapariga com brinco de pérola”, de Vermeer. O terceiro, mais à esquerda ainda, mostra o pequeno Jaime quando tinha uns 7 anos, a cuidar das vacas no lugar de Lamamã, numa imagem que anuncia as Festas da Vila de Paredes de Coura de 2007. Acredito que todos eles, literalmente ou não, dizem alguma coisa sobre a Merendinha. Explico. O primeiro declara três princípios que não se devem dar por garantidos em mesas de almoço e que, tanto quanto a minha experiência permite afiançar, são escrupulosamente cumpridos na casa.

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Baixa Pombalina
Restaurante RUA
Fotografia: Manuel Manso
4/95

Restaurante RUA

4 /5 estrelas

O Miso é uma das grandes maravilhas da cozinha japonesa e brincar com ele pode ser perigoso. Feito de caldo de dashi, extraído de algas kombu
 e de bonito seco (peixe parecido com o atum), é das sopas mais retemperadoras que os humanos inventaram. Ora, neste Rua, o miso apareceu com notas a cabeças de camarão grelhado, qual híbrido luso-japonês, meio miso, meio creme de marisco. Para tornar tudo ainda mais luxuriante, no topo vinha um camarão grande descascado, tenro e elástico, a acrescentar textura numa tigela cheia delas: tofu, cebolo, algas wakamé e folhas de capuchinha. Grande abertura, como um teaser do MasterChef mas em bom, sem as repetições insuportáveis do programa televisivo.

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Chiado/Cais do Sodré
Aya Bistrôt
Fotografia: Manuel Manso
5/95

Aya Bistrôt

4 /5 estrelas

Estava uma destas noites tempestuosas de Março, ruas desertas, acessos à ponte congestionados. Mesmo assim reservei mesa. Ia de Lisboa para a Cova da Piedade, na Margem Sul, o Google Maps dava-me 50 minutos de caminho. Não queria correr riscos. À chegada, ficou claro que 
as cautelas eram exageradas. O restaurante estava vazio, só uma pessoa para take away e o homem que procurava: Cícero. Não Cícero, o extraordinário político e pensador romano que Marco António mandou decapitar, mas Cícero, o sushiman brasileiro,
 o mais discreto e simpático dos discípulos de mestre Takashi Yoshitake. Se lê esta revista com regularidade, sabe que Takashi Yoshitake foi – e é – uma figura tutelar da gastronomia tradicional japonesa, em Portugal. Fundador do Aya, fechado em 2009, ensinou boa parte dos sushiman que hoje cortam peixe nas melhores casas da especialidade.

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Grande Lisboa
Tendinha do Rossio
Fotografia: Manuel Manso
6/95

Tendinha do Rossio

4 /5 estrelas

Cresci fora de Lisboa e o meu mapa mental da cidade testemunha isso. Para um gaiato da margem sul, o Terreiro do Paço será sempre a porta da frente
 do resto do mundo e se tiver de indicar o centro da capital aponto para a Baixa. Resumindo, sou um pombalino. Isso está também marcado na minha geografia afectiva dos apetites, uma espécie de carta onde se inscrevem as coordenadas de tudo aquilo que, consoante o lugar, me dá na gana comer se acaso estou esganado. Pois bem, se a fome aperta no centro, é provável que acabe na Tendinha. Serve este longo intróito para justificar a forma pouco crítica como salivo cada vez que me especo diante deste balcão de inox.

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Baixa Pombalina
Zazah
Fotografia: Arlindo Camacho
7/95

Zazah

4 /5 estrelas

Estava prestes a descartar os croquetes de alheira, quando ao meu lado ouvi um “crssssshhhh” notável, um camião TIR contra um Boeing 747. O som saiu directamente da boca fina de uma mulher fina que os mastigava finamente, sentada 
na mesa ao lado, uma artista 
de vestido preto admiradora de Chico Buarque – “É Deus no céu e Chico na terra”. Sendo um freak do crocante, resolvi experimentar. A minha boca não é fina e o que aconteceu 
à primeira mordidela foi um abalo de grau 8, uma coisa suficiente para acordar os patos do Príncipe Real. Com isto, engoli o dito e engoli um preconceito.

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Chiado/Cais do Sodré
A Provinciana
Fotografia: Arlindo Camacho
8/95

A Provinciana

4 /5 estrelas

À segunda é certo que haverá sangue. No primeiro dia da semana a Dona Judite
faz sempre galinha de cabidela. À terça faz chanfana (de vitela, mas a preceito), à quarta pernil assado no forno (serve com feijão e couve cozida), quinta é dia de polvo à lagareiro (pequenino, inteiro, firme, com batatas assadas) e na sexta bacalhau com grão. Ao sábado não sei, confesso, nunca cá pus os pés, e ao domingo a casa fecha. É claro que também se pode dizer que segunda há bacalhau à minhota, terça lagartos, quarta dobrada com feijão, quinta cozido e sexta bacalhau à lagareiro. Mas isso é outro itinerário.

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Santa Maria Maior
Vela Latina
Fotografia: Arlindo Camacho
9/95

Vela Latina

4 /5 estrelas

Uma das coisas que mais me fez salivar desde que a Rita me beijou de língua, já lá vão 30 anos, foi o arroz de alcachofras que comi num jantar recente no Vela Latina. À primeira garfada soltei um impropério (mental) seguido 
de uma hipérbole (vocal): “Isto 
é das melhores coisas que comi na vida”. A acidez da alcachofra laminada — muita — e o caldo suave e protéico deixaram-me extasiado e meditativo. O arroz, que acompanhava um magnífico filete de pescada, não tinha o fim lácteo e gordo do risoto; 
mas também não era o típico malandrinho. Havia ali truque. E eu havia de o descobrir. Dias depois, domingo de manhã, liguei para o restaurante e pedi para falar com o chef. Benjamim Vilaça, desde os
 anos 80 à frente do restaurante junto à Torre de Belém (resistiu à renovação recente do espaço), contou tudo.

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Belém
Cave 23
Fotografia: Arlindo Camacho
10/95

Cave 23

4 /5 estrelas

A abrir, sugeriram-nos um Porto Vieira de Sousa, meio-seco, 10 anos de idade, ligeiramente refrescado, para acompanhar os amuse-bouches. Embora se trate de um vinho especial, torci o nariz. Pareceu-me uma versão sofisticada do cocktail impingido à entrada, tão comum na restauração lisboeta, e pareceu-me potência a mais no arranque da refeição. Mas o chefe de sala insistiu, educadamente, e quando um chefe de sala insiste, educadamente, devemos segui-lo. Como se haveria de constatar, “potência a mais” é um conceito que não existe no Cave 23. O restaurante – pequeno mas bonito, luzes baixas, garrafas de vinho, madeiras – não tem carta e só nos foi dada a opção de uma degustação às cegas, sem se saber de quantos momentos, quantos pratos, quantos euros. Apresentou-se então o chef em pessoa.

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Lisboa
Mezze
©Francisco Santos
11/95

Mezze

4 /5 estrelas

É justificado o bruaá em torno do Mezze, o restaurante onde quem recebe e cozinha são refugiados do Médio Oriente. O projecto, muitíssimo falado na imprensa quando abriu, em Setembro 
do ano passado, tem a mão da Pão a Pão – Associação para a Integração de Refugiados do Médio Oriente, responsável por uma série de eventos 
e workshops, não apenas ligados à gastronomia. Tem também, lê-se no final da ementa, o contributo de uma série de nomes, mais ou menos conhecidos, da cozinha ao design, da música à televisão. Tanta atenção mediática (merecida, sublinhe-se) tornou o Mezze num daqueles restaurantes cujos primeiros passos foram acompanhados por enchentes de pessoas, com textos e fotografias partilhados e repartilhados nas redes sociais – acresce também o factor popularidade da cozinha do Médio Oriente no país.

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Lisboa
SUD Lisboa Terrazza
©António Nascimento
12/95

SUD Lisboa Terrazza

4 /5 estrelas

O sururu em torno do SUD tem sido grande. Primeiro, foram as obras a juntar dois ícones da beira-rio, o Piazza di Mare e o BBC, num projecto do grupo SANA que envolveu uns milhões. Depois, foram as fotografias da esplanada e da piscina, que começaram a ser partilhadas em catadupa nas redes sociais assim que as portas abriram no Verão – uma espécie de “eu já lá fui, embrulhem”. E daí veio, nos restantes meses, a grande questão: então, o SUD é bom? Prontifico-me a respondê-la, à luz de um jantar feito à base dos pratos mais italianos da já de si mui mediterrânica ementa, nos próximos parágrafos.

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Belém
Pomar de Alvalade
Fotografia: Manuel Manso
13/95

Pomar de Alvalade

4 /5 estrelas

Nunca me tinha acontecido. Acabar a de fazer um elogio à comida quando o empregado, travessa vazia na mão, atirou. “Você gosta disso?! Eu não acho graça nenhuma ao prato”. Não foi um sussurro ao ouvido, não foi conspiração contra o cozinheiro. Foi um sincero e sorridente desabafo, vociferado para toda a sala ouvir, sendo que a sala, como de costume, estava numa algazarra festiva e indiferente. O episódio demonstra uma coisa que toda a população do bairro de Alvalade sabe. O Pomar, tasca com mais de 30 anos,
s erve com a confiança de quem nada teme. O sítio está lotado diariamente e assenta o sucesso em três coisas: bom produto, sobretudo peixe e marisco; boa cozinha; e um serviço expedito, espirituoso e franco, como se todos os empregados fossem vizinhos a quem podemos confiar o histórico do Google.

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Alvalade
La Focacceria Pugliese
Fotografia: Manuel Manso
14/95

La Focacceria Pugliese

4 /5 estrelas

A La Focacceria Pugliese é um restaurante de comida rápida em Campo de Ourique – tão rápida que há um desconto de 10% para quem faz take-away. Abriu há coisa de dois anos num espaço mais pequeno e mudou-se depois para a esquina da Tomás da Anunciação com a Coelho da Rocha, ganhando espaço e diversidade de oferta. Para o efeito, que é servir comida rápida a preços em conta, está ajustado. Nada do que se come é fora de série (incrível ou de perder a cabeça), algumas vezes vezes é requentado antes de chegar
 à mesa, mas nem isso difere de outros negócios do género em Itália (ou das pizzarias al taglio de Lisboa).

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Campo de Ourique
Cafeh Tehran
Fotografia: Manuel Manso
15/95

Cafeh Tehran

4 /5 estrelas

Uma Iraniana a viver em Portugal desde os dois anos, abriu na praça mais cutchi-cutchi de Lisboa (essa, a das Flores) um restaurante com cozinha do Irão. E a pergunta que se impõe é: o que é cozinha do Irão? Influências do Médio Oriente, traços mediterrânicos, alguns estufados, muitos vegetais, frutos secos, ervas aromáticas e especiarias em barda. É, pois, uma cozinha perfumada, saborosa e diferente. E o trabalho de Pooneh Niakian, que recebe, recomenda e cozinha neste seu Café Tehran, é bem feito. Da mistura de frutos secos torrados com especiarias que abriu a refeição, mais viciante que uma taça de pipocas, à tarte de amêndoa e noz moscada sem farinha, acompanhada de um chantilly 
de cardamomo (que delícia, que leveza) com que fechou, gostei
 de tudo o que comi num almoço recente no restaurante.

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Chiado/Cais do Sodré
Cantina Peruana
Fotografia: Arlindo Camacho
16/95

Cantina Peruana

4 /5 estrelas

Sentada à mesa da Cantina Peruana, no varandim do primeiro andar do Bairro do Avillez, numa noite de semana com casa cheia, apercebi-me de que José Avillez, além de chef, agora também é senhorio. Desconheço, e de nada me interessam, os detalhes contratuais, mas sei que de certa forma o que fez ao abrir as portas de uma das suas casas mais populares (não são todas?) ao chef e amigo Diego Muñoz, e ao afirmar à imprensa que a ementa é toda do peruano e só o ajudou nos acertos de cortes de peixe, na ponte com produtos portugueses e alguns sabores, está, de certa forma, a ser um daqueles senhorios que até dá o nome de um faz-tudo impecável quando arrenda a casa. Mais: todo o site da Cantina Peruana fala em Diego Muñoz, no chef que está aos comandos, Yuri Herrera, também natural do Peru, e isso só confirma a minha ideia.

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Chiado
O Watt
Fotografia: Arlindo Camacho
17/95

O Watt

4 /5 estrelas

É bem possível que o carré de borrego com pistáchio d’O Watt, o mais recente restaurante de Kiko Martins, se torne num prato icónico desta cidade. O carré é um corte da costela do bicho, aqui desossado num lombo limpo e tenro, pincelado com extracto de romã. No topo, leva uma areia de pistáchio com flor de sal, que contrasta maravilhosamente com a acidez da romã e dos montículos de creme de iogurte com za’atar (mistura árabe de ervas, sésamo e sumagre). O prato é ainda adornado com pasta de hummus e espinafres e com grãos e espargos, menos emocionantes mas bem no enquadramento, compondo um dos pratos mais bonitos que me foi dado ver em 2017.

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Chiado/Cais do Sodré
Local
©Francisco Santos
18/95

Local

4 /5 estrelas

E eis que este Verão o nome André Lança Cordeiro começou a ser falado com frequência pela comunidade de foodies (ou gastrónomos, você decide) de Lisboa. Tudo graças ao Local, o restaurante em open space só com 10 lugares e 18 metros quadrados que abriu no Príncipe Real. Os verdadeiros entendidos da área dirão que já conheciam o nome do chef
 do Palácio do Governador, sítio que marcou o seu regresso a Lisboa depois de vários anos a trabalhar em França e na Suíça. Os que tomam Memofante há vários anos lembrar-se-ão da
sua passagem pela icónica 2780 Taberna, em Oeiras. Eu tenho
 de admitir que apenas comecei
 a ouvir falar do chef cujo nome encaixa que nem uma luva com a área de especialidade quando este se instalou no Ânfora, o
 tal restaurante do Palácio do Governador, espaço que deixou para abrir o Local.

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Chiado/Cais do Sodré
S Restaurante
©DR
19/95

S Restaurante

4 /5 estrelas

Cresci a ler o David Lopes Ramos, saudoso amigo e crítico gastronómico do Público, e sempre me ficou na cabeça, como referência incontornável da cozinha alentejana, o restaurante A Bolota, de que ele tanto gostava e sobre o qual tanto escreveu, há quase 20 anos. Na altura, demasiado pobre para lá comer, lembro-me de sonhar com o dia em que pudesse ir à Terrugem, aldeia perto de Elvas, experimentar esse templo, um dos poucos da região a ser contemplado com estrela Michelin. Dramaticamente, todavia, Júlia Vinagre, cozinheira 
e mentora do sítio, sofreria 
um grave acidente de viação, acabando por deixar o restaurante demasiado cedo — e eu acabaria por não conhecer A Bolota, mesmo já quando poderia dar-me a um luxo ocasional.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Chutnify
Fotografia: Francisco Santos
20/95

Chutnify

4 /5 estrelas

É um princípio de sempre. Desconfiar de tudo o que se auto designe por moderno. A verdadeira modernidade não se apresenta, acontece. Daí que o slogan usado por este Chutnify, ainda por cima em inglês – “Modern Indian Cuisine”– , no toldo do restaurante, tenha significado ao mesmo tempo uma novidade e um alerta. A novidade. A ideia de se passar alguma coisa de diferente – qualquer coisa – na restauração indiana em Lisboa é, em si, uma boa notícia. Com uma ou duas excepções assinaláveis, 
há décadas que as mesas são 
as mesmas, os donos são os mesmos, os menus não mudam uma vírgula ou um prato, sempre o nível de picante ajustado ao povo autóctone–baixo, demasiado baixo –, sempre uma lista de caris infinda em que
 só muda a proteína.

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Chiado/Cais do Sodré
Estórias na Casa da Comida
©DR
21/95

Estórias na Casa da Comida

4 /5 estrelas

Um jantar recente no Estórias na Casa da Comida
 (para mim será sempre só e apenas a Casa da Comida) fez-
me relembrar a velha lição que aprende um crítico quando entra no ofício: há restaurantes para todo o tipo de gostos e a avaliação deve ter isso em conta. No caso, este ícone da restauração lisboeta está aqui para quem procura aquela cozinha portuguesa com alguns luxos, o serviço à moda antiga e um sítio hipersilencioso e sossegado – ouve-se um jazz moderninho vindo das colunas. E se a remodelação sofrida há alguns anos lhe retirou o corpo 
de aspecto mais pesado, a alma continua a ser da velha guarda. Assim como os preços. Quase 100€ por uma refeição de duas pessoas, com vinho a copo. Há mercado para isto? Há, pois.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Casa de Pasto
©DR
22/95

Casa de Pasto

4 /5 estrelas

Lembro-me bem da primeira vez que fui jantar à Casa de Pasto. Lembro-me de ficar extasiada com a decoração, de ter passado a noite a descobrir pormenores nas prateleiras, tecto e paredes, daquela meia luz da sala muito bem conseguida e lembro-me até de ter achado piada ao design do menu – confissão: levei-o para casa e tudo. Já não sei ao detalhe o que comi, mas recordo o rissol de berbigão, uns legumes na brasa (agora desconfio que  já fosse o Josper, mas na altura ainda ninguém o tratava por tu) e, o mais curioso de tudo, é que me lembro do preço como se fosse hoje: 28€ por pessoa, por um jantar com umas amigas, alguma comida e vinhos.

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Cais do Sodré
Ela Canela
©DR
23/95

Ela Canela

4 /5 estrelas

Se hoje em dia é impossível andar a par da quantidade de restaurantes de alimentação saudável que abrem em Lisboa (por mais lato que seja o conceito), por outro lado é fácil sinalizar os que são bons, autênticos e têm qualidade. Melhor dizendo: que não se limitam a atirar abacate sensaborão esmagado para cima de um pão de forma duvidoso, que por essas e outras receitas similares cobram fortunas e deixam a sensação que no site de uma qualquer guru da moda internacional se encontram melhores ideias para fazer em casa. O Ela Canela, em Campo de Ourique, é um desses casos em que a promessa de produtos biológicos e sazonais, a ausência de alimentos processados e o método de cozinha
 saudável resultam em pratos verdadeiramente gulosos.

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Campo de Ourique
Midori
©DR
24/95

Midori

4 /5 estrelas

Um dos grandes horrores de um fine dining são os bebés. Um bebé pode rebentar, não apenas com uma mesa, mas com uma sala inteira. Ora, no Midori havia um bebé. Era daqueles bebés pequenos, ainda a cheirar a leite; um ser que passou o tempo a babar a mesa, a apontar aos copos Zwiesel e a projectar colheres Cutipol contra o chão como se estivesse a jogar ao prego. Foram para aí umas dez colheres. Ainda elas iam no ar e já um empregado se lançava ao chão para as apanhar. Em segundos, outro empregado repunha o talher nas mãos do rapaz; importante era manter a micro-goela de macro-agudos fechada; importava, sobretudo, deixar o pequeno ser feliz e com ele o resto das pessoas; evitar que a bomba-relógio detonasse. Milagrosamente, conseguiram.

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Sintra
Natraj
©DR
25/95

Natraj

4 /5 estrelas

A dica foi-me dada por um amigo odivelense. “Tens de ir ao irmão do Natraj do Rato. Fica em Odivelas e é dos melhores indianos da Grande Lisboa”. Fui lá. A chamuça de frango (1,25€) era das secas por dentro, praticamente só carne e especiarias, mas saborosa e com a massa estaladiça e sem óleo. O paratha (2€), um pão fino e redondo, surgiu em camadas, uma espécie de crepes finíssimos sobrepostos e besuntados com manteiga ghee, excelente para dar boleia ao achar indiano da casa. Acabasse tudo assim e já saía contente. Mas não. Havia ainda camarões em molho verde com hortelã, folhas frescas de caril, gengibre e cajus (11€): os bichos rijinhos, no ponto, imersos num creme fragrante e fresco. Grande prato.

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Grande Lisboa
Tascardoso
©Joana Freitas
26/95

Tascardoso

4 /5 estrelas

Muita tinta se tem escrito sobre o fim das tascas e restaurantes à moda antiga, como resultado directo (ou derivado) da modernização dos bairros. Não pretendo aqui entrar em detalhe sobre o assunto, mas apenas referir que num Príncipe Real cada vez mais desenvolvido e pululante, às vezes apetece comer por 10-12 euros uma refeição tradicional portuguesa com talheres de cabo já envelhecido (ou de um inox mais gasto) e é preciso puxar muito pela cabeça. É de louvar, por isso, que o Tascardoso, há mais de 30 anos se mantenha fiel à tradição dos preços baixos e comidas simples [Nota: este texto refere-se ao Tascardoso original, na esquina da Dom Pedro V com a Rua d’O Século e não ao que serve pratos do dia]. Clientela, aparentemente não lhe falta.

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Princípe Real
Tantura
Fotografia: Arlindo Camacho
27/95

Tantura

4 /5 estrelas

Não punha os pés no bairro alto há quatro anos, depois de um barrete num restaurante típico e posterior passeio pela Rua da Atalaia que me deixou o calçado salpicado de esparguete à bolonhesa vomitado por uma miúda de 15 anos como se fosse água a jorrar de um leão de fontanário. Desta vez fui ao almoço, feriado, altura em que a maltosa costuma estar a ressacar, e mesmo assim não consegui evitar os habituais despojos da boémia adolescente. No ar ainda cheirava a fermentado de álcool e urina e íamos numa gincana pela calçada a contornar latas e copos de plástico de meio litro. Felizmente, o Tantura não é ao ar livre e lá dentro só havia aromas bons e coisas bonitas.

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Bairro Alto
Bica do Sapato
© Arlindo Camacho
28/95

Bica do Sapato

4 /5 estrelas

Ainda é uma porta difícil de abrir. Uns quatro metros de altura de vidro. Não é preciso força, não
 é preciso habilidade, mas tem de
se ter confiança. Confiança para falar com a recepcionista que simpaticamente nos agride com o seu estilo. E confiança para entrar na sala de pé direito altíssimo, com uma chefe de sala altíssima que nos agride com a sua beleza. Pesa muito aquela porta. A pressão é enorme e nem todos passam o teste incólumes. Ainda antes de ter um pé lá dentro, fico sempre com a ideia de que toda a gente sabe que uso boxers H&M, que a peúga do pé direito tem um buraquito e que nunca vi uma peça do Teatro Praga. São pessoas com detector de simplório e simplório nunca aqui foi bem-vindo.

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São Vicente 
Sancho
Fotografia: Manuel Manso
29/95

Sancho

4 /5 estrelas

Não estava viva para o poder dizer com toda a propriedade, mas pelos relatos que me chegam e pelas fotografias que vi, acredito que entrar no Sancho, numa transversal à Avenida da Liberdade, em 2017, é igual e entrar num restaurante tradicional de Lisboa nos anos 60. Madeiras escuras, grandes cadeirões de pele, mesas com toalha e saiote, um bar completo à entrada, duas salas (uma delas para fumadores, claro), empregados fardados com colete, sempre muitos, muito rápidos no serviço e simpáticos e engraçados no trato. O sítio tresanda a influências galegas, que são confirmadas por um dos empregados, e de certa forma ir lá é ter aquela experiência
de comer pratos à antiga
 (nem todos, mas muitos), do bom serviço

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Avenida da Liberdade
Taberna da Esperança
Fotografia: Arlindo Camacho
30/95

Taberna da Esperança

4 /5 estrelas

Sempre achei ingrato herdar um restaurante. E não falo necessariamente daquela taberna que era do avô, passou pelos 
pais, e acabou nas mãos do filho mais ligado à causa, que agora a quer modernizar. Não. Falo de herdar um espaço no pleno da 
sua actividade, como a Taberna Ideal, e de uma marca que tinha peso na cidade (com tanta gente 
a tratá-la pelo nome original, parece-me que ainda tem). Afinal, é impossível esquecermo-nos,
 nós lisboetas, que foi a primeira taberna de onda moderna/cool/vintage (riscar consoante aquilo com que menos se identifica) da cidade, um projecto disruptivo e talvez – pela mesma altura da Tasca da Esquina de Vítor Sobral –, das primeiras a sugerir os populares pratos para partilhar.

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Estrela/Lapa/Santos
Café com Calma
© Arlindo Camacho
31/95

Café com Calma

4 /5 estrelas

Na primeira visita, as coisas foram muito pouco calmas. Às 13.00 já havia fila e as empregadas geriam os lugares como se estivessem a jogar o nível 18 do Tetris de olhos vendados. Acabei sentado num canto de uma mesa, num canto da sala, virado para a parede, entretido a ler um cartaz que promovia cursos de permacultura. Atrás de mim, uma fauna de gente jovem e barulhenta, pessoas que plantam mais ideias do que batatas, a nova comunidade de Marvila em peso, não estivéssemos no centro do bairro, mesmo do outro lado dos antigos armazéns Abel Pereira da Fonseca. Não interessa agora se o hype com a zona foi precoce ou não, a verdade é que o sítio estava cheio de figuras que há anos víamos pelo Bairro Alto.

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Marvila
Il Covo
Fotografia: Francisco Santos
32/95

Il Covo

4 /5 estrelas

É preciso boa vontade para falar em restaurantes secretos 
nos dias que correm. É certo que continuam a existir alguns sítios clandestinos, alguns restaurantes menos falados (ou que querem
 ser menos falados), outros mal divulgados, mas secretos-secretos, na era da internet, admita-se, há poucos. Este Il Covo, restaurante para cima de informal na Madragoa, entra na categoria dos “não secretos, mas pouco divulgados”. Deve-se isso ao facto de estar na Rua do Cura (já ouviu falar? Pois...), perpendicular à Rua do Guarda-Mor (já ouviu falar? Pois...), numa zona onde há mais jovens a beber copos na rua, do que à procura de uma verdadeira refeição italiana – eles é que perdem. Mas mesmo sendo o nome Il Covo uma tradução directa para “covil”, este esconderijo parece querer ser descoberto.

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Estrela/Lapa/Santos
Bar do Peixe
Fotografia: Ana Luzia
33/95

Bar do Peixe

4 /5 estrelas

O Meco é uma aldeia sem jeito e sem passeios. As pessoas são obrigadas a andar na estrada, sendo que não se percebe para onde vão porque não há sítio para onde ir. No afã de construir moradias abarracadas, ninguém cuidou do espaço público e o que existe é um Barreiro térreo e campestre, uma Coina à beira-mar. A única atracção da zona é
 a praia do Moinho de Baixo. Mais conhecida por praia do Meco, fica a cinco minutos da povoação, é bonita mas também não é perfeita: maus acessos, estacionamento pago (não se sabe quem lucra, não há um recibozito que seja), os carros enterrados num descampado com toldos de serapilheira, o mar um violento quebra-coco com fundão, bom para derrubar velhinhas e afogar incautos.

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Grande Lisboa
Boa Bao
Fotografia: Manuel Manso
34/95

Boa Bao

4 /5 estrelas

A ideia foi juntar num restaurante a comida 
do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático. Caris, pãezinhos chineses gua bao, dumplings, spring rolls vietnamitas, a
tom yum tailandesa, mochis
— os recordistas de vendas da gastronomia oriental debaixo do mesmo tecto, ao vivo e a cores. O conceito tem um lado confortável e pedagógico, mas havia sempre o risco de resultar numa imposturice culinária, cheia de atalhos e concessões. Ora, não foi bem assim, nem foi bem assado. Ao contrário do que se poderia pensar, não há neste Boa Bao, no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, comida pré-cozinhada para enganar tugas e turistas à procura de exótico.

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Chiado
Gazpaxo
35/95

Gazpaxo

4 /5 estrelas

O Gazpaxo não se apresenta como restaurante, mas sim como um comedor – mesmo quando comedor significa,
 em vários dicionários espanhóis que encontrei “espaço que se destina ao
 acto de ingerir alimentos”. Um comedor ibérico, dizem, com influências sul-americanas, e uma carta que varia consoante a disponibilidade do que o mercado oferece. Ora este comedor é um espaço minúsculo no Saldanha, com disponibilidade para dez pessoas, mesas redondas, bancos a saltar de umas para outras, e que só serve almoços (por enquanto, avisam). Uma boa opção para fugir ao trio de food courts da zona. Na cozinha e na sala estão só e apenas Maria e Sérgio Garcês, ele sempre de volta das comidas, ela a dividir-se entre os empratamentos e o serviço – sempre bem simpático, por sinal.

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Lisboa
Pesqueiro 25
Fotografia: Manuel Manso
36/95

Pesqueiro 25

4 /5 estrelas

Não sou frequentadora assídua do site TripAdvisor em Lisboa. Muito menos comento ou vou lá procurar recomendações. Já o fiz noutras localidades, já correu bem, já correu mal. Mas para ser franca, não conheço a rapidez com que os restaurantes sobem ou descem de posição. Aqui há dias li uma notícia do Dinheiro Vivo que dava conta de o Pesqueiro 25, nova marisqueira de São Martinho do Porto, ter chegado ao primeiro lugar do ranking de 3700 restaurantes do TripAdvisor. E este tipo de distinções (como as dos melhores restaurantes do mundo, dos prémios disto e daquilo), já se sabe, dão sempre um falatório que acredito que traga muita gente ao restaurante.

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Cais do Sodré
JNcQUOI
Fotografia: Arlindo Camacho
37/95

JNcQUOI

4 /5 estrelas

É uma das mesas mais procuradas de Lisboa e fomos lá perceber porquê. No fim, sai-mos bem impressionados e escreve-mos um decálogo para restaurantes da moda.

1. Faz turnos para as reservas. Faz-te difícil.Quando uma pessoa telefona a reservar mesa e a chefe de sala diz que, esta semana, “já só há vaga para o turno das 19.00, com saída às 21.15”, ou se está perante um fenómeno ou se está perante uma idiota. Na noite em que jantei no JNcQUOI a casa encheu duas vezes. Fenómeno.

2. Põe a música altinha.Não alta nem baixa – altinha. De preferência, funk ou soul sem refrões orelhudos, uma coisa que não ofenda o pessoal do Lux e faça a tia menear-se por instinto. Tal e qual como no JNcQUOI.

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Avenida da Liberdade
Zaafran by Chef Khan
©DR
38/95

Zaafran by Chef Khan

4 /5 estrelas

É muito raro encontrar humor na cozinha. Na verdade, é muito raro encontrar humor neste país, mesmo – sobretudo – quando falamos de entretenimento. Veja-se o futebol. O que se vê na TV é gente sisuda
 a dirimir tácticas como se estivesse a falar da guerra da Síria. Na cozinha é o mesmo. Tanto do lado de quem comenta, como do lado de quem pratica. Leva-se tudo muito
 a sério. Honra seja feita, por isso, ao chef Khan. Designer industrial, músico, iconoclasta, é mais conhecido por ser dono do restaurante Zafraan. A casa tornou-se popular como “aquele indiano diferente ali na rotunda da Estefânia”, não tanto por causa da comida, mas por nele se perceber uma estética ocidentalizada.

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Lisboa
Bota Sal
Fotografia: Arlindo Camacho
39/95

Bota Sal

4 /5 estrelas

Aberto desde Março de 2017, o Bota Sal é uma extensão do restaurante Sal, na Praia
 do Pego, ali na Domingos Sequeira, onde durante anos a fio viveu a mítica Bota Velha, que muitos bitoques virou e muitas imperiais viu serem viradas. E assim que se passa os olhos pela ementa, percebe-se que tem uma receita em tudo semelhante à do restaurante da Comporta: petiscos e pratos de mar, algumas opções de carne, e tudo com preços elevados. Sim, elevados. Pagar 1,80€
por um (um!) croquete de bola, pequenino, acompanhado de mostarda, por melhor que ele seja – e é excelente, num polme firme – é excessivo; e 2,20€ 
por um pastel de massa tenra, igualmente nota máxima, a
 valer uma entrada nos melhores da cidade, sem quaisquer resquícios de gordura, é, de novo, um excesso.

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Estrela/Lapa/Santos
Aloha Café
Fotografia: Manuel Manso
40/95

Aloha Café

4 /5 estrelas

É provável que a esta altura do campeonato o público em geral, e os gulosos em particular, estejam cansados de ler, semana após semana, coisas como “novo espaço de comida saudável”, “pratos vegetarianos”, “opções sem glúten”, “batidos sem lactose”. Mas é um facto que a cidade está cheia de espaços virados para esse mundo e que há gente interessada na área (basta ver o exagero de livros de alimentação saudável que têm inundado os escaparates). E contra factos não há argumentos. O Aloha Café vem traçando esse caminho da comida saudável desde que abriu, no Príncipe Real, no início do ano, com uma cozinha também com bases macrobióticas, produtos biológicos e 100% vegetariana.

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Princípe Real
Tapisco
Fotografia: Manuel Manso
41/95

Tapisco

4 /5 estrelas

No fim de Fevereiro, o chef Henrique Sá Pessoa, sustentado pelo Grupo Multifood, abriu as portas a mais um restaurante em Lisboa, com uma oferta a 100% oposta à que tem no Alma, tanto em termos de comida, como de preços. Não há degustações nem pratos dignos de emoldurar, mas sim tapas e petiscos, numa mistura entre Portugal e Espanha, com preços acessíveis. E esta é que é a grande surpresa do Tapisco. E por acessíveis não me refiro, claro, às bagatelas pagas nas tascas ou nas petiscarias de Lisboa, mas
a refeições a rondar os 30€ por pessoa, com quatro/cinco pratos para dividir, um ou dois copos de vinho por pessoa e sem espaço para mais uma migalha de pão.

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Chiado/Cais do Sodré
Miosótis Cafetaria
Fotografia: Manuel Manso
42/95

Miosótis Cafetaria

4 /5 estrelas

Para além de ser o super mercado com melhor selecção de produtos biológicos da cidade, o Miosótis é também o sítio de Lisboa que mais se parece com a universidade de Verão do Bloco de Esquerda. Em frente ao mostrador de legumes, três sexagenários de rabo de cavalo, pinta de tântricos, hesitam entre dez variedades de couves; atrás, é um corrupio de sandálias Birkenstock, saquinhos de pano ao ombro e mulheres sem soutien cirandando da ilha das batatas para a ilha dos tomates. Isto deve desde logo alegrar-nos, não apenas pelo divertido que é ver pessoas sem roupa interior a ensacar hortícolas, nem apenas por causa dos alimentos livres de pesticidas, mas porque à nossa volta há uma imensidão de frutas e legumes, de época e diferentes dos que se compram nas grandes lojas.

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São Sebastião
Sr. Lisboa
Fotografia: Arlindo Camacho
43/95

Sr. Lisboa

4 /5 estrelas

O Sr. Lisboa é uma petisqueira moderna, nas traseiras da Avenida da Liberdade, Rua de São José, a esforçar-se por fazer diferente. Digo isto porque quem está à frente é gente nova, quem serve é gente nova e quem está na cozinha, do que se avista lá para dentro, é gente nova – mas bem-disposta, note-se. O esforço começa logo com a decoração, que traz a cozinha para a sala, com frigideiras penduradas no tecto, mesas feitas com tampos de vidro em cima de grelhas de fogão, e segue pela ementa de petiscos. Logo no couvert vem um molho de Bulhão Pato só para molhar
o pão, com dentes de alho, azeite de qualidade média, coentros e até limão para espremer. Bem bom.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Cervejaria Boa Esperança
©DR
44/95

Cervejaria Boa Esperança

4 /5 estrelas

À pergunta habitual – O que é que aconselha? – o empregado da marisqueira mais invisível de Lisboa responde da forma habitual: “É tudo bom”, acrescentando logo de seguida: “Menos o empregado”. Sucede que nem a primeira nem a última parte da resposta são frases feitas ou piada. A comida do pequeno tasco da Avenida Gomes Pereira é mesmo boa. E o seu empregado é conhecido, em toda a Benfica e arredores, por ser de uma natureza rude, um indivíduo silenciosamente zangado. Dito isto, o homem revelou-se competente e honesto. Ainda na primeira visita, perante nova questão – Qual a diferença entre o prego especial (5,30€)
e o prego Sonhé (3,80€)? – muitas almas festivas teriam festivamente inventado 
que o primeiro era do lombo e o segundo de uma peça menos nobre. Mas não o nosso empregado fininho, austero e sério: “São
 os dois do pojadouro, só que o especial é
 de uma parte do pojadouro mais tenra”.

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Benfica/Monsanto
Heim Café
Fotografia: Arlindo Camacho
45/95

Heim Café

4 /5 estrelas

O Heim Café, pequena cafetaria de decoração minimalista em Santos, parece-me ser um grandioso segredo dos turistas. Isso, dos turistas e não para turistas. Um fenómeno cada vez mais comum entre nós, os lisboetas, directamente proporcional às hordas de estrangeiros que cá chegam e que, habituemo-nos, se vai tornar ainda mais frequente. Face it: eles às vezes conhecem melhores sítios do que nós. O simpático Heim, que significa “casa” na Ucrânia, de onde vêm os donos, está sempre cheio de seres
 cabelos loiros e peles claras (escaldadas pelo sol), tudo malta nova nos seus 20s-30s, que não traz guias na mão (deve trazê-los no telemóvel).

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Santos
Aron Sushi Saldanha
©DR
46/95

Aron Sushi Saldanha

4 /5 estrelas

Lula com ovas de bacalhau. Só assim. “Parece estranho, ainda por cima cru”, diz a minha companhia, lendo a carta. Parece, sim. Proteína animal com proteína animal. Nem uma batatinha, nem um feijãozinho verde. Estranho. E, no entanto, o ika mentaiko (8€) do novo Aron, no Mercado 31 de Janeiro, foi a melhor coisa que comi esta semana. Quando a lula entra na boca, cortada em juliana, é um veludo fresco pincelado por água de mar e citrinos; assim que 
a trincamos, a sensação muda: o amargo do cefalópode cru, o tecido esponjoso a secar-nos a boca, a pasta de ovas de bacalhau a olear as papilas outra vez, a ligar tudo, a intensificar a experiência – a levar-nos para uma praia no Japão, para Fukuoka, cidade que primeiro descobriu o encanto do mentaiko e onde os habitantes gostam de lhe acrescentar picante e sake.

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Lisboa
Maria Azeitona
Fotografia: Manuel Manso
47/95

Maria Azeitona

4 /5 estrelas

Terça-feira de manhã. “Já estamos cheios”. Dois dias depois. “Para hoje, não temos mesa”. Ó diacho. E para amanhã? “Nem pensar. Para jantar sexta o melhor é marcar uma semana antes”. Quando é que volta a haver mesa, então? “Só segunda ao almoço”. Sem olhar para a ficha, tentem lá adivinhar onde fica este restaurante. Chiado ou Príncipe Real? Errado. Alfama? Longe. Mouraria? Buuu. Venteira? Bingo! Pois bem, um dos grandes fenómenos gastronómicos 
da Grande Lisboa acontece, precisamente, na Venteira, freguesia urbana da Amadora.

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Grande Lisboa
Pizzeria Romana Al Taglio
©DR
48/95

Pizzeria Romana Al Taglio

4 /5 estrelas

Há uma Cadeia de Pizzerias mainstream cujo slogan me parece adequado à Pizzeria Romana Al 
Taglio: “O segredo está na massa.” É claro que os ingredientes postos em cima da massa contam, é claro que a combinação de sabores e o equilíbrio dos produtos em cada fatia também entram na matemática, mas depois de se provar umas quantas pizzas, chega-se à conclusão que a base tem um peso importantíssimo nesta pequena casa de pizzas à fatia que abriu na Baixa no final do ano passado. É feita com uma farinha biológica Molino Agostini, tem uma fermentação que pode chegar às 72 horas e,
 como deve ser em restaurantes da especialidade, é alta. Ora alta não quer dizer massuda.

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Baixa Pombalina
Cervejaria Liberdade
Fotografia: Arlindo Camacho
49/95

Cervejaria Liberdade

4 /5 estrelas

“Há vidas mais baratas,mas não são tão boas.” Devia ter uns 11, 
12 anos quando ouvi a frase pela primeira vez, dita em espanhol por um amigo do meu pai também espanhol, depois de uma grande almoçarada de praia algures
 no Sul de Espanha. Na altura pouca noção tinha sobre gastos em refeições e não me seduzia a comida como hoje – tenho pena porque com certeza deve ter sido um bom almoço. Voltei a ouvi-la ao longo dos anos, sempre em português, 
com algumas variações de linguagem, em relação a outras coisas, mas quase sempre com um denominador comum: a mesa. Ou durante um grande jantar, ou na abertura de uma boa garrafa de vinho, ou num fim de tarde de copos e petiscos.

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Avenida da Liberdade
Delidelux (Avenida)
Fotografia: MMP
50/95

Delidelux (Avenida)

4 /5 estrelas

Quanto vale um bom empregado de mesa? A questão ocorre no fim da refeição, depois de ter pago quase 70 euros (calma, calma, o crítico tem de provar muita coisa), já a crème brulée no fim e eu basculando uma colherada de uma bochecha para a outra, nada de dentes, só aquilo a desgastar-se lentamente nas papilas até se transformar em saliva doce. O rapaz nem é um prodígio
 de correcção ou conhecimento, mas conseguiu convencer-me a comer um pouco de tudo. Porquê? Porque transmitiu a ideia de que já experimentou os pratos todos; e que os adora a todos. Ajuda, naturalmente, que a comida seja boa e ele não tenha que encenar nada.

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Avenida da Liberdade
Eatfish
Fotografia: Manuel Manso
51/95

Eatfish

4 /5 estrelas

O advento dos restaurantes de peixe deu-se há coisa de dois anos. Veio a reboque da moda dos ceviches e tártaros, da preocupação com a cozinha dita mais saudável e também, acredito, como resultado de vários anos a afirmar que temos uma costa riquíssima em peixe. Veio ainda em oposição aos restaurantes virados para carnívoros, com boom ocorrido pela mesma altura, sendo que aqui o restaurante de peixe ganha pontos (e baixa em preços – ou pelo menos devia), por usar quase sempre matéria-prima nacional. Não considero, porém, que o Eatfish, restaurante 100% piscívoro no Cais Sodré, aberto desde o início do ano, tenha vindo tarde e a más horas ou já na curva descendente da moda.

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Cais do Sodré
RIB Beef & Wine
Fotografia: Manuel Manso
52/95

RIB Beef & Wine

4 /5 estrelas

Bati dois recordes da minha vida, em simultâneo, quando jantei no RIB Beef & Wine. Ser a única portuguesa num espaço onde cabem, à vontade, 80 pessoas, e outras 80 se se contar com a zona de bar e a esplanada; ser a pessoa mais nova do restaurante. E sublinho: o RIB Beef & Wine
 é o restaurante da Pousada de Lisboa, no Terreiro do Paço, Lisboa, Portugal, e não o salão de chá de uma estância termal da Suíça. É verdade que não é de estranhar tendo em conta que estava 1) na Baixa de Lisboa,
2) em meses já considerados quentes, 3) em 2017. Mas com um restaurante virado para a carne, que tanto furor causa por aí, podia ser que encontrasse outros falantes da língua (de Portugal, note-se).

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Santa Maria Maior
Rastilho
©DR
53/95

Rastilho

4 /5 estrelas

Barcarena era um vale bucólico com uma ribeira, mas hoje quem olha da porta deste Rastilho vê uma igreja
 de um lado mas também um edifício mastodôntico de fachada oblíqua, como um desses aparthotéis futurísticos de Albufeira construídos nos anos 80. Aí vive uma multidão e vive, no piso térreo, o restaurante Muchacho, que anuncia no frontispício “sabores transmontanos”. Mundo estranho. Por agora interessa-nos uma casinha rústica que sobreviveu à esquizofrenia reinante e é um segredo mal guardado por uma pequena comunidade de jornalistas e de moradores.

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Oeiras
Imperial de Campo de Ourique
©DR
54/95

Imperial de Campo de Ourique

4 /5 estrelas

A cozinha minhota tem uma longa tradição em Lisboa, é certo. Assim como este Imperial de Campo de Ourique, tasca na Correia Teles, tem uma longa história de vida em Lisboa
– trinta e muitos anos, não sei a data exacta. Mas nunca é tarde para o trazer às páginas da Time Out. Do serviço
aos grelhados, dos pratos de tacho ao vinho, do presunto às sobremesas, tudo merece ser falado e experimentado no restaurante do Sr. João. Falo do dono com tanta familiaridade não porque seja cliente habitual da casa, mas porque ao fim de cinco minutos lá dentro é-se íntimo.

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Campo de Ourique
Dim Sum
Fotografia: Arlindo Camacho
55/95

Dim Sum

4 /5 estrelas

Durante muito temoi um dos melhores restaurantes chineses da Grande Lisboa ficava no Cacém. Os donos tinham ligações a Macau, pelo que o forte eram os petiscos de Cantão (ali ao lado), internacionalmente conhecidos como dim sum. O sítio, pequeno e humilde, cheirava a fritos como uma rulote de churros mas a comida era autêntica e caseira, coisa rara num passado em que reinou o chop suey e o porco agridoce. Em 2014, a cozinha transferiu-se para Oeiras, junto ao Parque dos Poetas, e cresceu em tamanho e clientela.

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Oeiras
The B Temple
Fotografia: Manuel Manso
56/95

The B Temple

4 /5 estrelas

É preciso coragem para abrir uma hamburgueria na curva descendente da moda em Lisboa. Os anos gloriosos dos hambúrgueres já lá vão, quem tinha de vingar vingou, quem tinha de tentar a sua sorte e bater com a cabeça na parede, tentou e bateu. Dúvidas haja, basta desafiar alguém para ir comer um hambúrguer e ver a reacção. “Porque não vamos antes comer uma tosta de abacate ao Poço dos Negros?” Foi assim, com alguma descrença, que entrei no The B Temple, restaurante de hambúrgueres no Chiado. Sítio na onda norte-americana – e como eu gosto de uma mesa com parte da gama da Heinz e outros bons molhos – e decoração na linha industrial a conseguir transformar uma cave num sítio apetecível e fresco.

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Chiado
Il Mercato
Fotografia: Manuel Manso
57/95

Il Mercato

4 /5 estrelas

Desde que o il Mercato abriu, em Fevereiro, que a imprensa citava como grande atractivo
 do sítio a mozzarella Barlotti, de Salerno, que chega de avião duas vezes por semana. Nas duas primeiras visitas não tive sorte nenhuma (“está esgotado”), mas à terceira foi de vez. Ei-la, por fim, uma bola de bilhar branquíssima sem mais nada. Assim que a trinco, um líquido aguado liberta-se do miolo esponjoso, e nota-se logo a acidez e o leve adocicado do leite de búfala. É, de facto, outra coisa, mas quem está habituado aos exemplares de supermercado, para além de acusar o preço (11,95€) vai estranhar a consistência rija e fibrosa. Por sua vez, a burrata di Andria, da afamada região de Puglia, viaja menos que a sua prima, mas é igualmente extraordinária.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Sé da Guarda
Fotografia: Arlindo Camacho
58/95

Sé da Guarda

4 /5 estrelas

O Sé da Guarda é um desses restaurantes que eram 
tascas e passaram a snack bar às mãos dos agentes comerciais das marcas de bebidas. Parece uma arrecadação para onde atiraram todo o merchandising da Super Bock dos últimos 20 anos, de posters a relógios luminosos. Acresce que, nas paredes, o que não foi poluído com brindes já estava poluído com azulejaria diversa, ora de temática religiosa e campestre ora de cariz contemporâneo (painéis que parecem sobras do WC do recuado de uma moradia). Uma desgraça. Sem nenhuma importância. Só um profissional da contemplação e da escrita é que se lembra de registar isto. Perante o melhor peixe frito da Grande Lisboa, acompanhado pelo melhor arroz de grelos da Grande Lisboa, ninguém olha para a decoração.

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Oeiras
La Pasta Fresca
Fotografia: Arlindo Camacho
59/95

La Pasta Fresca

4 /5 estrelas

Quando o assunto é comida italiana, e mesmo sabendo a riqueza do receituário de Itália, gosto dos pratos simples. Uma pasta al pomodoro, feita com três/ quatro ingredientes, um risotto ai funghi, uma burrata de qualidade temperada com bom azeite, tudo isso me enche mais as medidas do que pratos muito condimentados, nascidos de misturas complexas, que juntam vários sabores. O La Pasta Fresca, restaurante que faz a própria massa e a
vende para fora, é um dos bons italianos da nova vaga. A pasta tem qualidade, mas cai, em alguns pratos, nesse excesso de produtos. Vejam-se os ravióli de gorgonzola e pêra.

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São Sebastião
Água pela Barba
Fotografia: Manuel Manso
60/95

Água pela Barba

4 /5 estrelas

Discordo a 100% da sabedoria popular no que 
à frase “nunca voltes ao sítio onde já foste feliz”, diz respeito. Sobretudo quando se trata de restaurantes. Voltar a um sítio, ou ter vontade de voltar, é, por si, um bom barómetro para decidir que um restaurante merece, à escala Time Out, as quatro ou as cinco estrelas. Porém, contudo, todavia, estava com algum medo de voltar ao número 29 da Rua 
do Almada, bairro da Bica. No sítio onde abriu em meados 
de Dezembro o Água pela Barba, tinha funcionado até inícios de Dezembro o Isco da Bica – consta que a mudança 
se fez numa semana.

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Chiado/Cais do Sodré
Solar dos Duques
Fotografia: Manuel Manso
61/95

Solar dos Duques

4 /5 estrelas

Há duas formas de falar de Campo de Ourique. Uma, por quem lá vive e acha que é “óptimo”, “tem tudo à mão”, é perfeito para andar a pé “porque é todo plano” não fosse o caos “para estacionar o carro ao fim do dia”, seria o bairro-modelo para qualquer cidade do país. Outra, por quem lá vai ocasionalmente e dá voltas intermináveis até encontrar um buraco para arrumar o carro, sempre com turbas de mães com carrinhos de bebés a atravessar a estrada, e sai de lá já a formular a frase que mais se convencionou associar à zona, “Campo de Ourique é só pastelarias e lojas de crianças.”

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Campo de Ourique
Orelhas
Fotografia: Arlindo Camacho
62/95

Orelhas

4 /5 estrelas

A ideia de que Lisboa está cheia de óptimos restaurantes de comida tradicional é uma treta. Há alguns bons, muitos razoáveis, mas sítios de excelência nem tanto. É preciso pensar sempre muito para nos lembrarmos de um e o mais certo é acabarmos a largar mais de 40€ no sítio novo-rico do costume, com fotos de clientes notáveis nas paredes. Este Orelhas, um clássico com décadas, embora alojado num dormitório de classe média em Queijas, continua a ser um bastião de comezaina tuga de qualidade e é mais sóbrio e mais barato (come-
se por 20€) do que a concorrência.

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Oeiras
Red - We Like it Raw
Fotografia: Manuel Manso
63/95

Red - We Like it Raw

4 /5 estrelas

O primeiro resultado que o google devolve assim que se pesquisa “red we like it raw” é o próprio site da marca com um subtexto onde se lê “... só servimos carne de qualidade. Carne que não precisa de ser embelezada com invenções do Chef.” Concordo com o primeiro período. E concordo com o segundo, apesar de não ter visto a máxima ser posta em prática nas sandes que comi. O rosbife, apesar de muito bom, foi sempre apagado pelos outros ingredientes. Matará isso uma sandes? Nem por isso. Apesar do desequilíbrio, o conjunto continua a ser bom e guloso. Explicação prévia: para quem ainda não deu com os dois contentores cinzentos instalados no Largo Vitorino Damásio e em frente ao Cemitério dos Prazeres, trata-se desta marca de sanduíches de rosbife (também há saladas e fatias em bruto).

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Campo de Ourique
Lambrettazzurra Pizzeria
Fotografia: Arlindo Camacho
64/95

Lambrettazzurra Pizzeria

4 /5 estrelas

Até há pouco tempo, os lisboetas não perdiam tempo 
a discutir a naturalidade de uma pizza. De nada interessava se
era romana ou napolitana (ou até paulista – não esquecer essa estirpe que também existiu 
na cidade). A coisa dividia-se entre pizzas de massa fina, artesanais, cozidas em forno
 de lenha, típicas das boas pizzarias; e pizzas de massa grossa, massificadas, aquecidas em forno eléctrico, típicas 
das cadeias de restauração
 ou das arcas frigoríficas dos hipermercados. O que não quer dizer, note-se, que não houvesse, da parte dos pizzaiolos e donos dos restaurantes, essa distinção na génese. Acontece que ninguém queria saber. Agora, com a quantidade
de boas pizzarias que foram abrindo, houve uma necessidade de marcar pela diferença.

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Cascais
Chuan Yue
Fotografia: Arlindo Camacho
65/95

Chuan Yue

4 /5 estrelas

Quando se fala em cozinha emocional não penso em Adrià a fazer espumas ou o duplo encarpado. O que eu acho mesmo emocionante é entrar num restaurante sem saber ao que vou e o ar cheirar a uma rua de Chengdu e na ementa haver coisas como cabeça de peixe em óleo de malagueta ou fígado de porco salteado com aipo e algas. É assim este Chuan Yue, que nasceu no sítio do mítico Dragão d’Ouro, ao lado do Teatro Maria Matos. Entrei lá pela primeira vez há umas semanas, quando estava de passagem. Os janelões deixavam ver praticamente só asiáticos, muitos deles jovens chineses excitados por poderem voltar a praticar um dos seus desportos favoritos: queimar
 a boca com ma la, nome dado à sensação de picante e dormência provocada pela combinação de malagueta e pimenta de Sichuan.

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Campo Grande/Entrecampos/Alvalade
Forneria
Fotografia: Manuel Manso
66/95

Forneria

4 /5 estrelas

De há três anos para cá decorre em Lisboa uma competição muito particular entre as pizzarias. Não tem tanto a ver com a pasta, mas com a infra-estrutura. Todas proclamam ter o forno mais incrível da cidade. A Mercantina foi a primeira a lançar a tendência, marketing que a imprensa papou como se fosse trufa de Alba. O seu Stefano Ferrara, importado directamente de Nápoles, foi vendido como o Ferrari dos fornos, um colosso capaz de transformar farinha em pizzas em segundos. Pouco depois abriu a Forno d’Oro e a fasquia subiu ainda mais: era forrado a ouro e pesava sete toneladas. A ZeroZero, por sua vez, apostaria na tecnologia: o mais importante, afinal, era fazer a pizza girar – aparecia assim o forno rotativo.

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Parque das Nações
Gioia Food Lab
Fotografia: Manuel Manso
67/95

Gioia Food Lab

4 /5 estrelas

Acho que me vou arrepender de deixar registado em papel aquilo que me veio à cabeça quando me sentei à mesa do Gioia Food Lab, mas [Marta Brown inspira] cá vai: assim que passei os olhos pela ementa e vi os preços do que me ofereciam, tive saudades da tão irritante pergunta: “já conhece o nosso conceito?”. Pizzas a 17,50€? Cremes de agrião e espinafres a 7€? Um risoto de cevada com cenouras e queijo fresco a 18€? Uma mousse de chocolate em texturas a 8€? Bem sei que os restaurantes em Lisboa estão cada vez mais caros, que este fica no rés-do-chão de um prédio de apartamentos para turistas, que é giro e cuidado, bem decorado, tudo isso.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Adega da Bairrada
Fotografia: Manuel Manso
68/95

Adega da Bairrada

4 /5 estrelas

A geografia da gastronomia está cheia de casos destes, sítios onde só vamos para comer. A Adega da Bairrada fica na rua mais suja
 e feia do Pote d’Água, espécie de recuado manhoso do bairro de Alvalade. A entrada do restaurante é uma pequena porta em alumínio semifechada, as pessoas passam e julgam que dá para as traseiras de uma arrecadação. Sucede o seguinte. Lá dentro é como se estivéssemos numa casa grande de gente feliz e ruidosa. Uma clientela fiel acorre ali há mais de 
30 anos, de vários pontos da cidade, alguns de São Bento (Jerónimo de Sousa é cliente), muitos do Aeroporto (é poiso do pessoal da TAP) e da burguesa Avenida de Roma.

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Alvalade
Nómada
Fotografia: Ana Luzia
69/95

Nómada

4 /5 estrelas

Alguns gastrónomos diabolizam o sushi de fusão, não por faltarem razões para criticá-lo, mas por serem snobs preconceituosos. Em teoria, o risco do sushi de fusão é o mesmo do da cozinha moderna que eles veneram sem critério: na ânsia de se criar um prato exótico, muitas vezes inventa-se um disparate. Dito isto, há exemplos de sucesso. Será o caso deste Nómada? O espaço é pequeno, bonito, o papel de parede a dar-nos conforto. Na origem do restaurante estão ex-funcionários de um bastião
 do género, o Sushic de Almada, pelo que não é de estranhar que a linha da cozinha seja a mesma, com virtudes e defeitos semelhantes: peixe de qualidade (sem grandes extravagâncias), boa técnica, algumas combinações interessantes, maionese e 
outros molhos aos molhos, fritos abundantes, demasiadas coisas adocicadas.

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Avenidas Novas
Café Colonial
Fotografia: Arlindo Camacho
70/95

Café Colonial

4 /5 estrelas

Por estes tempos, ir jantar a um restaurante da moda, num bairro da moda, é coisa para apanhar uma de três coisas: uma carta
 de cocktails, uma carta com um toquezinho asiático e uma carta com um lado sul-americano. No Colonial, encontrei-as a
 todas. Quanto às duas últimas,
é verdade que o conceito, diz o site, é inspirado “nas influências portuguesas deixadas pelo mundo, em especial no Brasil, África e Ásia.” E também é verdade que esse tipo de cozinha está em voga em várias capitais europeias.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Bao
Fotografia: Ana Luzia
71/95

Bao

4 /5 estrelas

Na Rua João das Regras, junto à Praça da Figueira, continua
 a haver prostituição sénior. 
Mas isso não importa quando Monica Bellucci, a comunidade loira brasileira, os pensionistas franceses e os grupos hoteleiros acham que Lisboa é a cidade do momento. Este Bao assentou aí arraiais há quatro meses e fê-lo de peito feito. Vamos ao nome. Os gua bao
são uns pãezinhos tradicionais,
de origem taiwanesa e
 chinesa, cozinhados a vapor, frequentemente recheados
 com porco e mel.

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Santa Maria Maior
Muito Bey
Fotografia: Manuel Manso
72/95

Muito Bey

4 /5 estrelas

Desde que o Muito Bey inaugurou, em Outubro do 
ano passado, 32 indivíduos e 
um dromedário fizeram-me a pergunta: “Já foste àquele libanês novo ali no Cais do Sodré?” Já, respondi-lhes. Eu; uma turba excitada de hipsters com MINI Cooper; a base de dados da agência Nomad; foodies que querem ser sempre os primeiros; e os outros que andam sempre atrás destes. Basta ver a clientela de barba crescida e cabelo rapado, ou abrir o Instagram, para se perceber
o fenómeno. A restauração lisboeta está a ter a sua Primavera Árabe. Depois da aragem latino-americana, da corrente de ar
do Extremo Oriente, os ventos parecem soprar do Levante.

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Cais do Sodré
Raffi's Bagels
Fotografia: Ana Luzia
73/95

Raffi's Bagels

4 /5 estrelas

Sou frequentadora do Raffi’s Bagels, melhor sítio de bagels
em Lisboa (único a fazê-lo em exclusivo, até), e tenho de assumir que, além de gostar bastante das várias combinações e do próprio pão, que já várias vezes fui buscar para comer em casa, gosto da aura do sítio. Não da decoração em si, algo despida, mas da simpatia da dona, francesa, do resto da comunidade francesa que vai lá passando (sempre com um ar jovial), do cheiro a bagels acabados de fazer e daquele balcão virado para a rua – não que haja beleza numa rotunda com carros estacionados em segunda fila, mas estar ali a apanhar sol de manhã é, de certa forma, descansativo.

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Lisboa
Casanostra
Fotografia: Manuel Manso
74/95

Casanostra

4 /5 estrelas

Os últimos anos foram os melhores de sempre para a cozinha italiana em Lisboa. Pumba. Está dito. O facto sustenta-se tanto
 com uma lista de restaurantes autênticos que foram aparecendo (Osteria, Il Matriciano, Bella Ciao, In Bocca Al Lupo...), como com um certo apuramento do palato dos lisboetas em relação ao que se intitula de vera cucina italiana – que é o mesmo que dizer: já ninguém os engana com natas na massa e ananás na pizza. A grande questão é onde fica o Casanostra neste cenário? 

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Bairro Alto
Varanda do Vale Formoso
Fotografia: Manuel Manso
75/95

Varanda do Vale Formoso

4 /5 estrelas

Apesar do nome, não se
 vê qualquer varanda, vale ou formosura. O sítio fica escondido entre uma azinhaga, uma via rápida e uma linha de comboios, num enclave de prédios feios,
 em Marvila, incólume ao hype hipster e à decadência charmosa da arquitectura industrial da zona. O que há são caracóis, muitos caracóis. A Rua do Vale Formoso de Cima é a meca dos gastrópodes, com destaque para o sobrevalorizado e finório Julinho e para o excelente e humilde Germano. Talvez por causa dessa concorrência, este Varanda sentiu necessidade de ganhar notoriedade de outra forma, mas não da melhor forma.

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Marvila
Tomo
Fotografia: Ana Luzia
76/95

Tomo

4 /5 estrelas

Imagine-se um restaurante chamado Bernardo. O Bernardo é o dono, um cozinheiro prestigiado e reconhecido. Um dia o Bernardo vai-se embora mas o restaurante Bernardo mantém-se aberto.
 À frente do negócio, fica um empregado antigo que não se chama Bernardo. Ora, Tomo vem de Tomoaki Kanazawa, nome do mais extraordinário chef japonês a cozinhar em Portugal. Era ele a alma e a faca do restaurante de Algés que durante anos foi a melhor mesa de sushi do país. Ele fazia as compras, escolhia o peixe, amanhava-o, cortava-o, empratava-o, por vezes sozinho, para a sala cheia, algumas 40 pessoas. No ano passado, Tomo decidiu sair. À frente do negócio ficou Saif, experiente e discreto empregado de mesa que o acompanhava desde os tempos do Aya.

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Oeiras
A Fabulosa
Fotografia: Ana Luzia
77/95

A Fabulosa

4 /5 estrelas

Uma boa cafetaria, com oferta variada e boas ideias, escondida na fronteira Santos-Cais do Sodré. Do melhor para o menos bom. Os croquetes (1,20€) são fabulosos. Bolinhas numa fritura perfeita e no interior um leve creme de carne cheio de sabor. O chá frio da casa (1,50€) é fabuloso – e é difícil beber um bom chá frio em Lisboa. Leva limão, canela e outros truques que não deslindei, é doce q.b. e vem com canela em pó nas bordas, à la margarita. Num degrau abaixo o queijo fresco (2€) é muito bom. Tem sabor, traz um bom azeite por cima e pedaços de cebolinho.

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Santos
Segundo Muelle
Fotografia: Ana Luzia
78/95

Segundo Muelle

4 /5 estrelas

Apicius escreveu longamente sobre a conservação de peixe com ácidos (não desses). A técnica haveria de refinar-se no escabeche andaluz, que depois viajou para as Américas. Segundo alguns historiadores, terão sido os colonos espanhóis a espalhar a receita, e
as laranjas amargas de Sevilha e as limas dariam origem às marinadas do Peru, país que hoje é mais conhecido pelo ceviche do que pelo Machu Picchu. Tudo isto pode ser só eurocentrismo primário, mas a verdade é que os tugas aderiram ao ceviche nos últimos anos como se o comessem desde antes de Cristo. 

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Cais do Sodré
Il Matriciano al Mare
Fotografia: Manuel Manso
79/95

Il Matriciano al Mare

4 /5 estrelas

Há muitos anos, numas férias em Florença, provei uma sobremesa que nunca me saiu da cabeça: um prato de gelados de fruta servidos dentro da casca dos próprios frutos. Ainda não ligava à comida como hoje, não me lembro do nome do restaurante, nem sequer o sabor dos gelados (em Itália é difícil serem maus), mas recordo-me de ter sido uma recomendação do empregado de mesa e de ver chegar à mesa uma travessa enorme com morangos, nozes, laranjas, limões, todos cortados pela metade, recheados com gelados e sorvetes. Esta semana, em mais um dia de trabalho em Lisboa, reencontrei essa sobremesa. Céus! Que maravilha!

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Chiado/Cais do Sodré
Salsa & Coentros
© Arlindo Camacho
80/95

Salsa & Coentros

4 /5 estrelas
Escolha dos críticos

Uma pessoa do staff dos Rolling Stones queria fazer uma marcação para Mick Jagger. E tinha de ser na cave. De início, pensou que se tratava de uma brincadeira. Apesar de tudo, Lisboa tinha uma dúzia de restaurantes mais opulentos e exclusivos. E a sua cave era o sítio maldito do restaurante, o sítio onde ninguém gostava de jantar. Nada, no entanto, tinha sido por acaso. Duas portuguesas haviam gerido cuidadosamente as refeições da estrela rock durante a sua estadia para o Rock in Rio. A primeira foi a cantora Ana Moura, amiga de Jagger. A segunda foi a radialista Inês Maria Meneses, foodie e amiga de Ana Moura.

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Alvalade
O Caldo Verde
Fotografia: Manuel Manso
81/95

O Caldo Verde

4 /5 estrelas

O Caldo Verde é um daqueles restaurantes que caiu no esquecimento. No meu, certamente e, a julgar pelas mesas vazias num dia de semana ao jantar, no de mais gente. Passei vários anos sem lá ir, mas este Verão, no rescaldo dos Santos Populares, acabei a comer umas sardinhas na esplanada. Não foram as melhores do ano – essas comi-as na Costa Vicentina, a sair da grelha a pingar –, mas estavam óptimas. Vi-as serem assadas na grelha da rua, provei-as com a salada mista da casa e com os pimentos em tiras e, por uma hora, matei algumas saudades do restaurante.

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Santos
12, 1º Andar
Fotografia: RDF
82/95

12, 1º Andar

4 /5 estrelas

Sopinha de massa é uma coisa péssima. Lembra esparguete sobrecozido e lembra o Diogo, um colega de carteira que me enchia a sebenta da Primária de perdigotos. Talvez por isso, desta vez uso o estrangeirismo: falemos de noodles, de sopa de noodles chineses. No espaço de metros quadrados, ali entre o Martim Moniz e a Rua da Palma, há pelo menos três salas clandestinas, com mesas forradas a toalha de plástico (ligeiramente pegajosa), que se dedicam a servir sopas de noodles, que não são sobrecozidos, à comunidade sino-moura das imediações. A melhor é a do número da Rua Fernandes da Fonseca, mesmo ao lado do supermercado Hua Ta Li, num primeiro andar. 

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Martim Moniz
Bagos
Fotografia: Arlindo Camacho
83/95

Bagos

4 /5 estrelas

O arroz de grelos com feijão e filetes de polvo fritos deste Bagos não me sai da boca nem da cabeça. Tenho ideia que sonhei com ele e, neste preciso momento em que escrevo, sinto segregações salivares só de pensar no assunto. Um assunto sério. Os grelos não se vêem, estão incorporados no arroz, mas nota-se o amargo do vegetal, que bate certo com o doce do arroz, aqui al dente mas ligado, que bate certo com uns feijõezinhos pequenos e divinais. Por cima, ainda melhor: tentáculos de polvo fritos, crocantes por fora e tenros por dentro – tudo perfeito, um extraordinário prato português feito por um extraordinário chef português. 

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Chiado
Focca
Fotografia: Manuel Manso
84/95

Focca

4 /5 estrelas

E esse cuidado sente-se à primeira trinca. O pão é muito leve, estaladiço, tem alecrim e uma gordura ligeira, típica da tradicional focaccia. Surpreendeu-me logo à partida, quando chegou em cubos pequenos para acompanhar a tábua de queijos e enchidos – um picante chouriço calabrese, salpicão, speck em fatias finas, tudo excelente, e um parmesão, já mais rijo –, mas ganhou todo o meu respeito depois de o ver a entalar os ingredientes das sanduíches.

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São Sebastião
Peixaria da Esquina
©Grupo Vítor Sobral
85/95

Peixaria da Esquina

4 /5 estrelas

Quando me encomendam uma crítica, faço questão de ir sem grandes expectativas. Porque quando entrei nesta dura profissão de avaliar restaurantes, não o fazia e, ou os trambolhões eram grandes, ou a surpresa compensava o esforço (esforço?, qual esforço?, ó, Francisco). Desta vez, contudo, quebrei a regra. Andam os meus amigos desde o Verão a dizer-me que o restaurante é óptimo, que os marinados são excelentes, que o Vítor Sobral deu uma boa volta à coisa... E eu, que até gosto desta nova onda de peixarias reinventadas, convenci-me que andava a perder um grande tesouro. 

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Campo de Ourique
Zero Zero
Fotografia:Ana Luzia
86/95

Zero Zero

4 /5 estrelas

A entrada é logo magnífica, do lado esquerdo a cozinha aberta e uma vitrina com queijos e enchidos italianos para venda ao público. Estão lá os excelentes Taleggio, um Parmigiano com 16 meses de cura; há também speck (presunto levemente fumado da região do Tirol), bresaola (presunto de vaca); e vendem-se vinhos e massas da marca De Cecco. À direita o bar de Prosecco e cocktails, para evitar que se lhe seque a garganta com os preços, tudo para o carote. Estamos ainda na antecâmara, sítio onde se pode e se costuma esperar mesa. 

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Princípe Real
Bella Ciao
Fotografia: Manuel Manso
87/95

Bella Ciao

4 /5 estrelas

Houve um tempo em que os restaurantes mais sofisticados de Lisboa eram italianos. A tendência foi uma espécie de reacção à cozinha francesa pesada e bafienta que proliferou nos fine dinings da cidade até aos anos 90. Por essa altura, muita gente percebeu que existia mais massa para além do estufado de esparguete sobrecozido com carne e cenouras que se fazia em casa e que a pizza não tinha de ser um bocado de pão manhoso. Durão Barroso frequentava o Mezzaluna, Sócrates vivia no Gemelli e uma turba de jornalistas e artistas do Bairro Alto (só topo da tabela salarial, naturalmente) enchia o Casanostra todas as noites. 

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Chiado
Hansi
Fotografia: Ana Luzia
88/95

Hansi

4 /5 estrelas

No outro dia estava num churrasco de rodízio: vaca, porco, peças certificadas (arouquesa, mirandesa...), vários condimentos, gente de muito e bom alimento. A meio da refeição aparecem na mesa umas quantas dessas salsichas de supermercado pré-embaladas. A marabunta entrou em delírio. As pessoas adoram salsichas manhosas. Eu gosto de salsichas manhosas. E isso pode ser dramático para as salsichas de qualidade. Ou seja, isso pode ser dramático para este Hansi. Acontece o seguinte. Se uma salsicha com 80 por cento de gordura e 15 por cento de sal é boa, uma salsicha vienense é ainda melhor. 

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Cais do Sodré
Alma
Fotografia:Arlindo Camacho
89/95

Alma

4 /5 estrelas

O pintor francês Paul Cézanne escreveu: “O dia virá em que uma simples cenoura, alvo de um olhar fresco, dará origem a uma revolução”. O dia não veio ainda. Mas esteve quase. Uma hora à mesa no Alma e chegavam as célebres cenouras assadas de Henrique Sá Pessoa. A acompanhar, bulgur (trigo durum), amendoins, azeite de cominhos e uma rodela de queijo de cabra (belíssimo). De repente, silêncio. Depois, o primeiro “hmmmmm” da noite. E o segundo. E o terceiro. 

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Chiado
Nova Ásia
©DR
90/95

Nova Ásia

4 /5 estrelas

É o chinês mais português da cidade. A dona, filha do fundador, Dihuan Lin, fez cá a escola e responde sem sotaque às questões mais técnicas. Acresce que, em vez do mobiliário de plástico, há madeiras escuras, prateleiras com boas garrafas de vinho e atoalhados de pano – um ambiente confortável e sofisticado mais próximo do bistrô do que da sala-fonte-luminosa-brilhante-fluorescente. De notar, contudo, que a mesa grande redonda, com placa giratória ao centro – uma das grandes invenções gastronómicas que os chineses nos deram – não foi descartada e proporciona bons momentos a famílias alargadas. 

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Alvalade
Less by Miguel Castro e Silva
Fotografia: Arlindo Camacho
91/95

Less by Miguel Castro e Silva

4 /5 estrelas

Foi a segunda vez que almocei na Embaixada e voltei a sentir-me deslocado. O Palacete Ribeiro da Cunha parece um riade de Marraquexe em pleno Príncipe Real, projectado por um arquitecto sob o efeito de ácidos. O estilo é neo-árabe, o senhor que desenhou o edifício do século XIX era um português relativamente desconhecido, e nem a inspiração veio do Magrebe, veio da casa de um capitalista português residente em Manaus, Brasil. Tudo para o senhor Ribeiro da Cunha, também ele abastado e amante de abóbadas e clarabóias. 

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Princípe Real
Volver de Carne Y Alma
© ARLINDO CAMACHO
92/95

Volver de Carne Y Alma

4 /5 estrelas

O bife Wellington é um prato de escola, um teste de técnica e conhecimento, uma armadilha de Masterchef. O ponto de cozedura da carne é difícil de afinar, depois há o forro de massa folhada, camadas e mais camadas de ingredientes. O resultado, nas raras vezes em que a receita sai bem, é maravilhoso, uma grande empada de luxo, densa, suculenta, complexa. Em Lisboa, o Volver (vamos deixar assim, só Volver...) honra o prato com uma versão onde se usa queijo da Serra, mel e patê de aves, evocando a memória dos feitos do general britânico Arthur Wellesley, duque de Wellington, o homem que nos salvou de Napoleão e nos deixou as Linhas de Torres que dão nome à avenida ao lado deste restaurante exemplar. 

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Lumiar
Sala Thai
Fotografia: Ana Luzia
93/95

Sala Thai

4 /5 estrelas

Uma das frases preferidas das pessoas viajadas é “adoro cozinha tailandesa”, declaração que frequentemente vem com a adenda “Infelizmente, não há um grande restaurante tailandês em Lisboa”. Estão certos os nossos gonçalos-cadilhes, mas pode ser que lhes tenha escapado uma novidade. Encafuado nas traseiras do Centro Comercial Roma, abriu há um ano este Sala Thai. Foi lá que tive a melhor experiência de comida do velho Sião sem antes ter feito check in no aeroporto da Portela. 

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Campo Grande/Entrecampos/Alvalade
L'Artusi
Fotografia: Arlindo Camacho
94/95

L'Artusi

4 /5 estrelas

Assim que pergunto pelo osso buco, sugerido numa ardósia com os pratos do dia, a empregada dá meia volta e vai à cozinha. Regressa uns segundos depois com um “menu” de 800 páginas e um sorriso sarcástico. Na capa, já carcomida, vê-se uma mulher antiga numa cozinha, por baixo o título La scienza in cucina e l’arte di mangiar bene. “Pode pesquisar. Todos os pratos que fazemos estão aqui”, diz num italiano aportuguesado. A carta é afinal um livro publicado em 1891, a obra culinária de referência em Itália, da autoria de Pellegrino Artusi. 

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Chiado/Cais do Sodré
Clube de Jornalistas
Fotografia: Ana Luzia
95/95

Clube de Jornalistas

4 /5 estrelas

Nada do que veio para a mesa estava abaixo de razoável, mas houve um prato que entrou directamente para a lista das melhores coisas que provei este ano. A beringela com caramelo de miso e pistáchio foi uma revelação extraordinária, diferente de tudo, uma aliança entre Japão e Médio Oriente, entre doce e salgado – um desses raros momentos em que a cozinha de fusão funciona e nos faz feliz. O chef Ivan Fernandes antecipou aliás o êxtase, afastando qualquer dúvida sobre o efeito do prato. Vindo da cozinha, atirou-o para a mesa antes mesmo de a comida chegar. “Podem agradecer a quem pediu a beringela”. E agradecemos, sendo certo que o empregado nos dirigiu para ali e muito bem. 

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Estrela/Lapa/Santos

Críticas de restaurantes

Beco - Cabaret Gourmet
©Bruno Calado
1/42

Beco - Cabaret Gourmet

3 /5 estrelas

Quando a porta se fecha, parece que entramos numa capela escura. Ninguém diria que estamos no Bairro do Avillez, ao lado da praça central onde, àquela hora, janta uma turba barulhenta. Dentro das paredes grossas do Beco, no outro extremo, sente-se um misto de profano e religioso, tectos abobadados, paredes sem reboco e uma penumbra misteriosa, pontilhada por pequenos candeeiros de mesa.  No lugar do altar, está um palco do tamanho de um cockpit de avião; o pároco é um bailarino de gestos afectados; e num mural que ocupa a parede do fundo, a pin up moderna Dita Von Teese vigia a sala. É o único busto desnudo que vamos espreitar nessa noite, mas aparentemente isso é suficiente para constranger os casais da sala, todos num silêncio tenso, como numa sessão de terapia sexual.

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Chiado
Peixe na Avenida
Fotografia: Manuel Manso
2/42

Peixe na Avenida

3 /5 estrelas

Luísa Fernandes, conhecida
 no meio como Luisinha, tem tido uma vida cheia. Quando ainda não havia o culto do chef, ela quis ser cozinheira. Diz a biografia oficial que, a dada altura, dividia o tempo entre o hospital Amadora/Sintra, como assistente de cirurgia ortopédica, e o restaurante Tachos de São Bento. Pelo meio, ainda serviu como enfermeira paraquedista e viajou pelo mundo, incluindo sítios pouco gourmet, como o Sudão e o Ruanda. Não satisfeita, em 2003,
 correu atrás do sonho americano. Chegou ao JFK sem nada, 
partiu do JFK com um currículo notável. Começou no Alfama, o histórico restaurante português de Nova Iorque, passou por outras cozinhas e aventuras, e já depois de ter vencido um concurso do canal televisivo Food Network, acabou no Robert, do Museu de Arte e Design. O currículo permitiu-lhe regressar a uma Lisboa bem diferente da que deixou para trás.

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Avenida da Liberdade
Naked
Fotografia: Arlindo Camacho
3/42

Naked

3 /5 estrelas

Olhando para a fachada, o nome “Naked” está impecavelmente grafado, como uma dessas lojas antigas com o seu charme elegante de bairro. Podíamos estar em Notting Hill. Lá dentro, o ambiente é branco e luminoso, quente e seco, aquecimento de Europa rica. Abrimos a carta, bonitos desenhos de frutas tropicais e sugestões em língua luso-britânica: “bowl de açaí”, “smoothie bowl do dia” ou então um dos menus, “power”, “naked” ou “green””. Tudo com muitas vitaminas e poucos hidratos
 – seguindo-se a tendência de comida saudável gourmet. Quanto a preços, as sopas andam nos 4€, os principais vão dos 8,50€ (omelete de claras), até aos 14,50 (escondidinho de camarão).

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Princípe Real
Topo Oriental
©DR
4/42

Topo Oriental

3 /5 estrelas

A nova sala de cozinha asiática 
do bar-restaurante Topo Martim Moniz sofre de um problema que os familiares não têm: a falta de vista. Não há Lisboa iluminada, néons e o castelo a compor o cenário, mas sim o Hospital de São José e respectivas luzes de ambulâncias. No dia em que lá jantei, sofreu também de falta de gente. Não a servir e cozinhar, que aqui até estava equilibrado – quatro clientes para quatro pessoas da casa –, mas à mesa. O resultado foi um jantar numa sala fria e vazia, que nem a música brasileira das colunas ajudou a aquecer. A cozinha faz sentido na zona
 e na Lisboa de 2018, com todos
 os hits da Ásia, da sopa tom yum
 ao pad thai, das gyosas aos spring rolls.

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Martim Moniz
Mar
Fotografia: Arlindo Camacho
5/42

Mar

3 /5 estrelas

A ideia de uma marisqueira moderna é uma boa ideia. Outra boa ideia é a de uma marisqueira moderna não tão moderna que prescinda de um aquário com crustáceos a copular e de um mostruário de peixe fresco sobre gelo, ambos aqui presentes e em bonito. A primeira coisa que vemos mal entramos é, precisamente, o mostruário de peixes. Na primeira visita, umas lulas de meio metro dos Açores, com
 a pele intacta (sinal de pouco gelo) e aspecto vivo, contrastavam com uns salmonetes e outros peixes de mar já
 de olhos cavados; ao lado, marisco, pouco. “Já não temos nem amêijoas, nem lingueirão”, haveria de informar o empregado, indiferente à ideia de uma marisqueira sem amêijoas ser como um McDonald’s sem hambúrgueres.

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Parque das Nações
Optimista
Fotografia: Manuel Manso
6/42

Optimista

3 /5 estrelas

Para apresentação à sociedade, o Optimista tem um site onde se dá a conhecer em jeito de manifesto. Lêem-
se coisas como “no Optimista queremos que se sinta feliz. Quando aqui vier, que seja porque o coração aqui se sente bem”; “nestas mesas haverá espaço para comer e beber, para rir, para chorar, para cantar, para oferecer, para propor e para pedir”; “(...) o objetivo da nossa comida é impressionar palatos e corações”. E por aí fora, até se ter a certeza que a mensagem fica gravada: um sítio de optimistas para optimistas. Óptimo. E em duas visitas percebi que não era conversa fiada. Serviço atenciosíssimo, conhecedor e descontraído.

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Chiado/Cais do Sodré
Stop do Bairro
Fotografia: Arlindo Camacho
7/42

Stop do Bairro

3 /5 estrelas

Há vários casos de restaurantes que mudam de lugar e deixam de funcionar. Não aconteceu com o Stop, casa mítica do ultracobiçado Campo de Ourique, há uns meses transferido para Campolide. O novo lar tem mais luz, mais asseio, paredes pintadas, mas recupera os cachecóis e camisolas de futebol que ornamentavam o espaço original, sendo essa iconografia essencial para nos remeter ao espírito fundador do restaurante, criado por João Sabino, ex-jogador do Belenenses, em 1974. Fiz lá duas refeições, recentemente, uma melhor do 
que a outra, as duas satisfatórias.

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Campolide
Sun Tan
Fotografia: Arlindo Camacho
8/42

Sun Tan

3 /5 estrelas

As sopas de noodles asiáticas conquistaram finalmente Lisboa. Falamos quase sempre de massa 
(de farinha de arroz ou de trigo) imersa num caldo aromático. Esta simplicidade aparente esconde receitas extensas e complexas, com mais de 20 ingredientes, muitas horas ao lume e filtrações e contra-filtrações. O resultado vem em forma de tigelas fumegantes (é essencial que estejam muito quentes) que nos enchem a alma e nos aconchegam o corpo. As sopas asiáticas mais célebres 
são as pho vietnamitas, as ramen japonesas, mas também as tom
yum tailandesas. E são elas também
 as estrelas do Sun Tan, aberto recentemente por dois jovens viajados.

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Chiado/Cais do Sodré
Quanjude
DR
9/42

Quanjude

3 /5 estrelas

O principal critério para avaliar um restaurante de pato à Pequim chama-se nível-de-crocância-da-pele. Ou seja, 
a avaliação faz-se em função 
do crunch que ecoa quando 
os molares apertam a capa estaladiça da ave. Ora, o nível-de-crocância deste Quanjude variou muito de refeição para refeição – e foram três. Um pouco de contexto. Há poucas comidas chinesas tão consensuais como o pato à Pequim, e por bons motivos.
 O principal é a pele, claro, que nalguns restaurantes se serve à parte, em grandes lascas. Aqui não. Pedindo-se um pato inteiro (49€, serve três pessoas) ou apenas meio (26€, duas pessoas) a carne é laminada com a pele agarrada. O corte acontece à vista do cliente, junto ao forno em tijolo instalado num canto da sala ampla. Só por isto já o Quanjude valeria a visita, apresentando-se como o restaurante chinês em Lisboa que mais fichas põe na confecção do prato icónico.

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Parque das Nações
Italian Republic
©DR
10/42

Italian Republic

3 /5 estrelas

A Avenida da Igreja reage 
a restaurantes novos com 
a excitação de um grande acontecimento. Quando há uma inauguração, os alvaladenses põem a camisa dos quadrados, o pullover nos ombros e são capazes de esperar uma hora na fila para comer um bocado de comida mediana. Isto sucede porque durante anos e anos quase nada se passou ali. Lisboa ficou do avesso 
com o turismo, mas a segunda avenida mais importante de Alvalade, no essencial, manteve-se impávida e serena, com as mesmas boutiques e pastelarias e os residentes do Júlio de
 Matos a cravarem cigarros aos transeuntes. As coisas só parecem terem começado a mexer há uns meses.

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Alvalade
Lumni
©DR
11/42

Lumni

3 /5 estrelas

Caro Miguel, tenho-o em grande conta. Acho que é um bom chef e uma boa pessoa. Mas as palavras que se seguem estão ainda untadas com umas manteigas aromatizadas (manteigas?) barradas em pão de supermercado e outras banalidades que comi no seu novo Lumni. Uma desilusão.Desde que fui ao seu Bull & Bear, no Porto, há mais de 15 anos, que sou seu fã. A primeira refeição que lá tive produziu em mim um efeito tremendo: poucos em Portugal, até então, tinham conseguido aquela simplicidade sofisticada e um compromisso tão elegante entre comida portuguesa e internacional. Anos depois, pude voltar a provar da sua comida em Lisboa, no De Castro Elias, e voltei a ser feliz – embora não tão feliz.

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Bairro Alto
Terraço Rui Paula
Fotografia: Arlindo Camacho
12/42

Terraço Rui Paula

3 /5 estrelas

Para que não restem dúvidas 
de que é Rui Paula quem assina 
a carta do renovado Terraço,
no renovado Tivoli Avenida da Liberdade, ele está por todo o lado. Num placard à entrada do elevador no piso 0, com a mesma citação que tem no seu site pessoal – “A memória é a minha principal fonte de inspiração” –, no nome do restaurante quando se pesquisa por ele no site do hotel e quando se liga a marcar mesa (“Terraço Rui Paula, bom dia”), em todas as explicações de todos os pratos/amuse-bouches/limpa-palatos/petit fours que vêm para a mesa (“o chef fez”; “o chef inspirou-se”; “o chef criou”, tudo dentro da normalidade, note-se) e depois quando vem a conta final: 70€/pessoa, refeição completa e um copo de vinho. Sim, estamos a pagar comida de autor.

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Avenida da Liberdade
Hora H
©DR
13/42

Hora H

3 /5 estrelas

Almoçar na Avenida da Liberdade, sobretudo para quem ali trabalha, configura, regra geral, uma de três situações: um restaurante
 caro, com bom serviço, mas quase sempre demorado;
 um prato do dia numa das inúmeras tasquinhas das ruas adjacentes – nem todas perto
 da excelência, mas algumas 
com qualidade; um fast food barato, sem segredos, e que deixa sempre a aguar por mais (e melhor). A Hora H, é curioso, não entra em nenhuma dessas três categorias. É uma hamburgueria barata, serviço sem grandes requintes, espaço arejado, cheio de luz, uma esplanada virada para o infernal trânsito da Alexandre Herculano, a servir hambúrgueres com toque de comida caseira e outros pratos simples.

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Lisboa Rio
Fotografia: Manuel Manso
14/42

Lisboa Rio

3 /5 estrelas

Ultimamente tenho
 sido levada, em situações diferentes e em horários diferentes, para lá da linha de comboio na zona do Cais do Sodré. Um passeio de bicicleta de manhã, em dificuldades extremas para não derrubar estrangeiros a fotografar o rio, uma noite de copos nos bares da zona, que acaba sempre 
em conversas em frente ao rio (obrigada Outono-Verão), um almoço de peixe por aqueles restaurantes e, recentemente, um jantar no Lisboa Rio, numa noite de fim-de-semana. O espaço é conhecido de outras épocas – foi, durante anos, o Bar do Rio e foi, durante meses, o Station, restaurante-disco pan-asiático – e é agora de novo um restaurante/clube, com uma bonita esplanada virada para a água e a doca onde atracam os cacilheiros.

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Cais do Sodré
Noobai
Fotografia: Manuel Manso
15/42

Noobai

3 /5 estrelas

26 de Setembro de 
2007. Chegava às bancas o primeiríssimo exemplar da Time Out Lisboa com uma capa onde se anunciavam “101 razões 
para abrir os olhos e adorar
 esta cidade”. O Noobai era uma delas, com a ressalva de lá ir “sem pressas”. Dez anos depois, incumbiram-me de lá voltar para perceber como param as modas naquela que era na altura, e passo a citar esta mesma publicação, “a esplanada do momento”. A composição da esplanada continua a ser um sinal da sua popularidade; o serviço melhorou, mas ainda sofre as demoras do costume, sobretudo quando se escolhe a esplanada de cima, “porque vem tudo de elevador da cozinha lá de baixo”, justificam; e a vista, felizmente, não há grua ou edifício pós-moderno que a manche.

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Chiado/Cais do Sodré
Polpetta
Fotografia: Arlindo Camacho
16/42

Polpetta

3 /5 estrelas

Não sei bem o que é comida de conforto, mas almôndegas
 é o tipo de coisa em que penso depois de andar uma semana em restaurantes da moda (Deus me poupe). Penso e só penso. É que encontrar das boas é difícil. Um prato popular até aos anos 80, acabaram liquidadas pela modernidade saudável
 e apressada e pelas cantinas
 de uma loja de mobiliário nórdico. Mas almôndegas é 
fixe. Bolinhas de carne com gordura e alho e ervas e muito molho por cima é fixe. Foi
 por isso com entusiasmo que um destes dias almocei numa casa da especialidade, aberta recentemente, ali no Regueirão dos Anjos. E quando digo da especialidade estou a falar de um menu monotemático. Só há almôndegas.

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Lisboa
Atari Baby
Fotografia: Arlindo Camacho
17/42

Atari Baby

3 /5 estrelas

Houve um tempo em que os restaurantes chineses se transformaram em japoneses. O fenómeno aconteceu um pouco por todo o mundo à mesma velocidade a que o Ocidente descobriu o sushi. Essa mudança só se deu porque os chineses, pais da gastronomia asiática, eram mesmo capazes de fazer rolinhos de olhos fechados e mãos atadas. Em todo o caso, para os gourmets tugas foi uma chacota pegada. Sucede que o mesmo oportunismo comercial acontece agora com a nova vaga de asiáticos trendy que surgiram em Lisboa como cogumelos shitake.

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Cais do Sodré
Pão à Mesa
Fotografia: Arlindo Camacho
18/42

Pão à Mesa

3 /5 estrelas

Sempre que passo na D. Pedro V, vejo este Pão à Mesa cheio. Ora portugueses, ora turistas, ora gente sentada na esplanada, ora pessoas lá dentro. Uma fauna com ar descontraído, de garrafas de vinho à frente, pelo que me parece que o sítio tem aquela boa onda das imagens de Lisboa que andam a circular nas revistas estrangeiras. Mas a verdade é que nunca lá tinha ido até me ter sido incumbida a (dura) tarefa de avaliar o restaurante. Decidi cumpri-la num dia
 de semana quente em Lisboa.
 A esplanada tinha as sombras ocupadas e sentei-me no interior. 

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Avenida da Liberdade/Príncipe Real
Aquele lugar que não existe
©Francisco Santos
19/42

Aquele lugar que não existe

3 /5 estrelas

“Peço desculpa mas não pode tirar fotografias. Nós somos Aquele Lugar que Não Existe.” A abordagem da empregada, assim que o meu amigo empunhou o telemóvel em direcção a uma masala de entrecosto com grão, pode servir de apresentação ao restaurante mais inclassificável de Marvila. Já estava preparado para algo do género. Quando inaugurou, no ano passado, não houve apresentações à imprensa, nem qualquer comunicação nas redes sociais, página aberta no Facebook ou conta no Instagram. Tudo o que se sabia fora passado de boca em boca ou por fugas de informação na blogosfera. Como é fácil de se perceber, o anti-marketing é marketing.

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Marvila
Leopold
Fotografia: Arlindo Camacho
20/42

Leopold

3 /5 estrelas

Ao início, a gerência decidiu não comunicar a abertura do restaurante. Pode 
ter sido só para tirar pressão, mas a verdade é que passaram-se meses e o bloqueio à imprensa continuou. Ligava-se para lá e ouvia-se invariavelmente: “ainda não é a hora de falarmos” –, sendo certo que, no estrangeiro, iam-se repetindo elogios ao restaurante, “exemplo maior do fine dining desta cidade” (Bloomberg). A gestão de timings só fez aumentar a expectativa. Dito isto, não estamos a falar de algo criado do zero. O Leopold do Palácio de Belmonte é uma evolução a partir do primeiro Leopold, na Mouraria, onde o chef e a responsável pela sala, Ana Cachaço, se iniciaram nas lides.


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Castelo de São Jorge
Downunder by Justin Jennings
©DR
21/42

Downunder by Justin Jennings

3 /5 estrelas

A Austrália não tem uma gastronomia bem definida e ainda bem. É bom lembrar que os britânicos foram os seus colonos mais representativos e que isso, culinariamente, não é bom. Outra das características desta cozinha, no entanto, resulta da impressionante diversidade animal que o país aloja, sendo o canguru e o crocodilo os mais populares embaixadores do receituário nacional. Fora isso, os locais souberam pelo menos assumir as suas fragilidades
e dedicaram-se nas últimas décadas
 a aprender com o resto do mundo, importando técnicas e ingredientes, sobretudo do Sudeste asiático.

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Estrela/Lapa/Santos
Papa Migas
Fotografia: Ana Luzia
22/42

Papa Migas

3 /5 estrelas

Passei a infância numa casa da qual saí quando tinha sete anos. E, desde então, nunca voltei a lá entrar. Mas sempre que passo na rua fico com uma curiosidade tremenda para
 ver como é que quem lá vive a ocupou, a decoração escolhida e, claro, as verdadeiras dimensões de cada divisão – aos olhos de uma criança a casa era enorme, hoje sei que era um cochicho. Lembrei-me dela na semana passada, enquanto descia do Príncipe Real para o Bairro
 Alto, a caminho de jantar no Papa Migas, que nasceu há um ano e picos, no lugar do antigo Pap’Açorda. E só porque, tal como na casa, estava com uma curiosidade tremenda em ver no que se tinha transformado este ícone de Lisboa.

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Bairro Alto
Gomo - Simples & Saudável
Fotografia: Arlindo Camacho
23/42

Gomo - Simples & Saudável

3 /5 estrelas

O Gomo abriu em Lisboa numa altura em que pouco se falava sobre granolas, açaís, bolos sem glúten e comida saudável. Corria o Outono de 2014, estávamos longe desta obsessão de blogues, restaurantes e livros o mais verde/cru/natural possível, e o sítio era bom para almoços leves, ao ar livre e tinha mercearia de frescos e oferta grab & go. A palavra foi-se espalhando, o sítio foi-se enchendo e hoje é chegar pela 13.10 e ter dificuldade em arranjar mesa. Acredito que isso explique o serviço trapalhão. “Tem mesa lá dentro?”, “não sei, pode ir ver”; um “já escolheu?”, 10 segundos depois de ter o menu na minha mesa, entre outras saídas menos felizes.

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Avenidas Novas
People
Fotografia: Manuel Manso
24/42

People

3 /5 estrelas

Coisas que cheiravam a desastre. O nome“People” podia ser uma loja de roupa de má qualidade. A carta
Os cogumelos portobelo, as trouxas de maçã e chèvre, o atum braseado, as gambas à la guilho, tudo banalidades que Lisboa ainda não derrotou. A decoraçãoAmbição moderna no estilo Querido mudei..., papel de parede com caras de pessoas, estofos, espelhos – não me admirava se tivesse tudo vindo da cabeça da dona de uma boutique chamada People. A ardósia-pratoA ardósia serve para escrever a giz, não serve de prato. Acabem com isto, por favor. Coisas que cheiravam a sucesso.

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Areeiro/Alameda
Tago’s
Fotografia: Arlindo Camacho
25/42

Tago’s

3 /5 estrelas

A expectativa era grande. Luís Barradas, autor da nova carta
do Tago’s, é dos portugueses
que mais sabem sobre cozinha japonesa. Andou pelo saudoso Assuka, trabalhou numa empresa de importação de produtos japoneses de topo, foi director de investigação e desenvolvimento dos restaurantes do grupo Sea Me. À parte o currículo, é reconhecido por valorizar o produto e por ser uma pessoa que leva a sua profissão a sério. Depois há o sítio. Passando
a Faculdade de Ciências e Tecnologias, no Monte da Caparica, seguimos a tabuleta que diz Costas de Cão e metemos por um caminho campestre. Quando a estrada termina estamos rodeados de bosque, o Tejo lá em baixo, a urbe em frente, do lado direito a Ponte 25 de Abril, à esquerda Belém, ao fundo a Serra de Sintra.


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Grande Lisboa
Infame
Fotografia: Arlindo Camacho
26/42

Infame

3 /5 estrelas

Muitos têm sido os esforços de revitalização do Intendente. E a verdade é que houve gente sonante a contribuir para
a causa. António Costa, na mudança de gabinete, Joana Vasconcelos, com a instalação do Kit Garden no renovado largo, e Catarina Portas, com a abertura de uma A Vida Portuguesa em tamanho XXL. Porém, se em nomes, cafés, bares e espaços culturais o cenário estava composto, até 2017 não havia um restaurante dito mais cool, naquela linha do bom-ambiente-boa-música-gente-gira. O Infame, dentro do 1908 Lisboa Hotel, cujo nome se refere ao grito da rainha D. Amélia aos assassinos do marido e filho – a Almirante Reis chamava-se Avenida Rainha D. Amélia –, é o novo menino bonito da zona.

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Intendente
Himchuli
©DR
27/42

Himchuli

3 /5 estrelas

Os restaurantes Nepaleses apareceram como um exotismo étnico, face à proliferação de indianos. Acontece que os nepaleses são quase todos 
iguais aos indianos — o que 
não é forçosamente intrujice 
ou oportunismo comercial. Historicamente, Nepal e Índia partilham território e cultura e há por isso muita culinária que se repete. A diferença está sobretudo em pratos de influência tibetana, como os momos (pequenos raviólis recheados), ou em técnicas de influência chinesa, como os legumes salteados em pedaços pequenos (e não triturados em pasta, como é habitual na Índia). Neste Himchuli, em Alcântara, vê-se um bocadinho de tudo, e é tudo saboroso e a cheirar a especiarias.

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Estrela/Lapa/Santos
L'Anisette
Fotografia: Manuel Manso
28/42

L'Anisette

3 /5 estrelas

O L’Anisette é um pequeno restaurante francês que aterrou na parte de baixo da Rua de São
Bento no Verão passado. À frente
 tem um sorridente casal de Nice, ele na cozinha, ela na sala, a apresentar algumas das especialidades do sul de França, tudo de fabrico caseiro, dizem. Primeira sugestão: a socca, “uma espécie de crepe feito com farinha de grão”, explicam. Para a mesa veio uma massa entre o crepe e a panqueca, muito forte, temperada com sal e pimenta, sem formato (deu-me a sensação 
que se esfarelou na frigideira e assim ficou), que precisaria de um queijo 
ou um enchido para ser realmente comestível. Segunda sugestão: o carpaccio de novilho.

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Chiado/Cais do Sodré
Doc Cod
Fotografia: Manuel Manso
29/42

Doc Cod

3 /5 estrelas

Em 2017 frequentam as Docas turistas, jogadores de paddle, pessoas que correm, gente que gosta de dançar ritmos latinos e, segundo um amigo meu, casais de amantes – as Docas aqui a desempenharem um papel de porto seguro, já que ninguém
em Lisboa se lembra de lá ir. Por isso mesmo, ir jantar às Docas em 2017, é, para dar sentido a uma crítica como esta, encarnar um destes personagens. Tenho uma má esquerda no paddle, não gosto de correr ao ar livre, sou um pé de chumbo na pista de dança e fiel à minha relação. Posto isto, quando jantei no DOC COD, restou-me encarnar o turista para provar the famous bacalao.

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Alcântara
Expressões da Nossa Terra
©Just Frame It
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Expressões da Nossa Terra

3 /5 estrelas

Há boas intenções, entre elas trazer receituário regional, e há boas comidas, entre elas um polvo com batata doce e uma óptima salada de beterraba com tangerina e queijo. Pão acima da média, serviço acima da mediocridade reinante, azeitonas oxidadas, um pudim de pão fantástico. Ou seja, altos e baixos, no geral fica-se bem, melhor ao almoço do que ao jantar, mas temos sempre a oportunidade de comer qualquer coisa especial. A preocupação com o produto nota-se, aliás, assim que passamos 
a porta. O restaurante é um híbrido com mercearia portuguesa à entrada e sala de refeições ao fundo.

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São Sebastião