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Descarado

  • Restaurantes
  • Alcântara
  • preço 3 de 4
  • 3/5 estrelas
  1. Restaurante, Descarado
    ©Mariana Valle LimaDescarado
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    Mariana Valle Lima
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A Time Out diz

3/5 estrelas

Dias antes, tinha ido almoçar com um amigo influencer/ foodie/ instagrammer. Às tantas, debatemos um tema antigo. Quão importante é a comida na avaliação que as pessoas “normais” fazem de um restaurante? Pouco importante, concordámos. E para nós? Muito importante. Demasiado importante.

Foodies, gastrónomos, jornalistas do métier – eu próprio e o meu amigo – tendem a olhar muito para o prato e pouco para o que se passa em redor.

Acontece que um restaurante é mais do que comida. Aqui na Time Out, sempre se procurou fazer um esforço para levar isto a sério. Desde a origem que esse é um traço distintivo da revista: valorizar também o ambiente, o espaço, o design – a boa onda – e não apenas a consistência do beurre blanc.

Daí que eu me esforce. Acredite, caro leitor. Eu esforço-me. Dou o melhor na apreciação do papel de parede. Estou atento ao abat jour. Escrutino o plástico das plantas. Faço sociologia de algibeira. A questão é: será que consigo?

Ora, este Descarado foi uma prova de fogo. Levei comigo a M. (de Magnífica), companheira de repastos, julgadora da minha pessoa há mais de duas décadas. M. ajuda-me muito. É razoável e sensata. No briefing, disse a M. que o sítio era nas docas (“Isso ainda existe?”) e estava na moda (“Ãh!”). Embora desconfiada, M. pôs uns saltos e demorou-se mais a secar o cabelo e a tudo.

Chegámos tarde. A primeira constatação foi que já ali tinha estado. O Descarado está no lugar do Doca Peixe, aqui glosado há uns tempos, entretanto transferido para as mãos dos donos do Sem Vergonha. O restaurante tem dois pisos. No de baixo, está um bar de onde saem cocktails e onde se pode assistir a jogos de bola (!). Mas é no de cima que a acção acontece.

A sala é ampla, com uma lareira junto aos janelões e a Ponte 25 de Abril em fundo. Cá dentro, bonitos candeeiros de luz amarela. E cadeiras confortáveis e sólidas.

Começamos pelo vinho. Pedimos a copo, só há duas opções: Sossego (branco) e Assobio (tinto). Venha o Assobio. Do bar, parte uma bandeja com os dois copos já cheios. “Pensava que isto era proibido por lei”, comento.

Nada que nos desanime. A lei, aliás, está subvalorizada por estes dias. M. diverte-se analisando o trio na mesa ao lado, um hispânico bombado com duas hispânicas efusivas. Ao fundo, no sofá corrido, há um grupo de amigos com golas de bico, elas de apontamentos tigresse, gente bonita e quarentona a carregar nas gambas salteadas. Na mesa atrás, quatro universitários a repartir a entrada de “ceviche de salmão tropical” (salmão tropical?!).

Passa então a chefe de sala e descarrega um couvert de seis euros que ninguém pediu. Boas tostas caseiras, boa tapenade, boa manteiga de pimentão, focaccia de tomate e alho (mal cozida e pouco azeitada). Segue-se o capuccino de camarão, esse sim, a pedido: óptimo, espumoso, com uma bisque puxada, natas e manteiga de amendoim. “Pena o camarão ser borrachoso, deve ser desse miolo congelado de supermercado”, comento. M. desconsidera e tem razão. Por seis euros, está muito bem.

O volume da música sobe. Às 21h30 começa um electro dançante que faz os vizinhos hispânicos abanarem a anca e põe a empregada ainda mais extrovertida. “Daqui a pouco isto transforma-se”, explica a empregada, enquanto descarrega os filetes de peixe galo (polme grosseiro a saber a fartura, peixe sem finesse), com arroz de lingueirão (escasso de lingueirão e sal), mais o prato icónico do Descarado, o polvo assado (seco) com tomate e batata confitada (mal confitada).

A terminar a refeição, duas sobremesas, ambas esforçadas (caseiras): uma panacota com gel de maracujá e lâminas de coco assado; e uma tarte de maçã (sem uma base digna), acompanhada de gelado de baunilha.

De resto, o melhor está sempre guardado para o fim, no Descarado. “Quando as pessoas acabarem de comer, arredamos as mesas para o lado, ligamos as luzes de discoteca e no meio fica uma pista de dança. Têm de voltar um dia no último turno. Só fechamos às 4h00... ou mais”, atira a empregada.

Em modo de síntese, recordo a conversa com o meu amigo foodie. Procuro uma conclusão que represente o espírito da rubrica e da Time Out.

O melhor que consigo é isto. Como discoteca-restaurante, o Descarado é válido. Como restaurante-restaurante, nem tanto. M. assina por baixo.

*Os críticos da Time Out visitam os restaurantes de forma anónima e pagam pelas refeições.

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda

Detalhes

Endereço
Doca de Santo Amaro, Armazém 14
(Alcântara)
Lisboa
1300-598
Preço
35-45€
Horário
Ter-Qua 12.00-01.00, Qui-Sáb 12.00-03.00, Dom 12.00-18.00
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