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Esquina da Fé

  • Restaurantes
  • Avenida da Liberdade/Príncipe Real
  • preço 2 de 4
  • 4/5 estrelas
  • Recomendado
Restaurante, Cozinha Portuguesa, Esquina da Fé
©Joana FreitasEsquina da Fé
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A Time Out diz

4/5 estrelas

Há uma certa fanfarronice na malta que faz a apologia da tasca. Por alguma razão, o povo sente-se mais português quando bebe tinto a granel e descobre um conforto tribal em virar um bacalhau enquanto maldiz os restaurantes da moda, mais os palermas dos gourmets, que não percebem nada disto. É uma espécie de pedantismo de coentrada. Penso nisto no regresso à Esquina da Fé. Duas mesas adiante, uma cliente capturou o senhor Meireles, metade da sociedade gerente da casa, e fala para ele com voz de homilia. Diz ela que anda meio mundo ao engano, que “agora só querem é chefs” e que “depois é só barretes, barrigadas de fome e balúrdios”. A esta praga bíblica de bês, contrapõe: “valham-nos as nossas tasquinhas” – o uso de diminutivos, note-se, é outro tique comum nos fiéis da verdadeira gastronomia indígena, sobretudo quando confrontados com uma bacalhauzada e meio litro de tinto.

Ora, “tasca”, neste contexto, terá de ser entendida como categoria abrangente, que vai muito além dos balcões de inox e das toalhas de papel, abraçando qualquer estabelecimento que sirva comida tradicional portuguesa a preços de amigo. É o caso da Esquina da Fé, uma bênção que resiste nas traseiras da Liberdade. É um lugar de aprumo e pinta antiga, do mármore das paredes ao branco impecável da camisa do senhor Meireles, com um menu de inspiração minhota e transmontana, que o senhor Gomes (a outra metade da sociedade que dura há 37 anos) faz sair da copa em travessas mimosas de barro.

Começo pelo desencontro. Pergunto pelos croquetes, que os trago na lembrança, pequenos mas óptimos, bem forrados de carne e enxutos, e me preparava já para abocanhar dois. Não vieram hoje. Ougado, salto as entradas, pico as boas azeitonas e desconforto-me com o pão, que chega em forma de papo-seco, género de que eu sou um militante detractor – quaisquer duas fatias de pão industrial fariam melhor justiça ao que se segue do que isto.

E o que se segue é o reconforto do reencontro. Para lá da carta fixa, onde raramente me detive, a ementa anda sempre pelas dez opções, metade do campo, metade do mar. Mas há sempre um prato forte que ajuda a situar no calendário. Quarta-feira ainda é dia de um cozido que vale a romaria, sexta-feira dizem-me que regressa o bom cabrito assado à padeiro, e fiquei para saber o dia de matar saudades dos belíssimos filetes de polvo. Mas hoje é terça-feira, consagrado à feijoada à transmontana. Ámen a isso.

Atiro-me às couves, tenras mas viçosas, que se enrolam com o feijão vermelho. A primeira garfada chega impregnada de cominhos e eu benzo-me em agradecimento. É uma dose valente, cheia de pedacinhos de cenoura, farta de enchidos razoáveis, bons pedacinhos de entrecosto e uns preciosos nacos de chispe, cheios de colagénio do pezinho. Nem o sacana do papo-seco consegue perturbar o conjunto.

A minha companhia foi pelos filetes de pescada com o arroz de tomate que é instituição da casa e também se serve com os carapauzinhos fritos (invejei-os noutra mesa, pouco mais que jaquinzinhos) e com os benditos filetes de polvo que me farão regressar em breve. É um arroz solto que me convence sempre, eu que jogo mais na equipa dos malandrinhos. Os filetes são finíssimos, quase uma palmilha, mas amplos, certeiramente temperados de louro, cravinho e limão, com um polme leve e sequinho.

Fechamos a repartir um bolo de bolacha, caseiro como é costume nas sobremesas do lugar, e o meu companheiro de mesa, que é um dos grandes especialistas mundiais na matéria, louva o equilíbrio da montagem, a conta, peso e medida na manteiga e no açúcar, o perfume certo de café. Assino por baixo e peço a conta, que se fecha a menos de 12€ por cabeça, vinho da casa incluído.

Em resumo, sinto que tudo continua no exacto lugar onde me lembro antes de o mundo ser interrompido – da ordem semanal dos pratos do dia à substância nortenha das doses, da parcimónia da conta à bonomia do senhor Meireles, que a esta hora lá continua, a aturar o sermão da tasca. E isso, confesso, é a alegria que mais procuro por estes dias.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Escrito por
José Margarido

Detalhes

Endereço
Rua da Fé, 60
Avenida
Lisboa
1150-151
Horário
Seg-Qui 12.00-15.00/19.30-23.30, Sex-Sáb 12.00-15.30/19.30-00.00
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