Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Faz Frio

Faz Frio

Restaurantes, Português Avenida da Liberdade/Príncipe Real
4 /5 estrelas
Faz Frio
1/4
Duarte Drago
Faz Frio
2/4
Duarte Drago
Bacalhau à Zé do Pipo do Faz Frio
3/4
©Duarte DragoBacalhau à Zé do Pipo do Faz Frio
Bitoque do lombo do Faz Frio
4/4
©Duarte DragoBitoque do lombo do Faz Frio

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Num país que ama o bacalhau é difícil encontrar do bom, sobretudo em Lisboa. E há várias explicações para isso. Uma é que o bacalhau é caro. A outra é que o bacalhau deve ser comprado seco e demolhado e isso exige logística, planificação e ciência – tudo coisas complexas num negócio que, como todos os negócios, procura as maiores receitas com o menor investimento.

Ora, a Antiga Casa Faz Frio sempre foi conhecida por ter um prato de bacalhau todos os dias e a tradição manteve-se, apesar das mudanças recentes na cozinha e na decoração. No final do ano passado, o restaurante centenário mudou de gerência, mas foi remodelado com tino, procurando-se preservar o ambiente de casa de pasto – com os clássicos azulejos, as mesas em lioz, o quadro do marinheiro de Mário Cesariny e as cabines em madeira –, bem como uma carta de sabores portugueses, onde o gadídeo é rei.

Foi isso, em primeiro lugar, que lá me levou por duas vezes, uma ao almoço, outra ao jantar. Assinale-se, antes de nos sentarmos à mesa, que está bem feita a reabilitação. É certo que o restaurante é hoje outra coisa, mas a actualização não usou do posh nem cliché de Ikea. O que acabou mesmo foi a porta das traseiras aberta a fazer frio, supostamente usada durante o Antigo Regime para fugas de contestatários, que ali conspiravam contra Salazar.

Como sabemos, o mundo mudou. Os contestatários de ontem são os governantes de hoje.

Num almoço recente, estavam três deputados presentes, um dos quais António Filipe, que apesar de comunista já não precisa de se escapulir de ninguém. À noite, aumentou a percentagem de turistas com ar de quem nunca contestou nada e aumentaram também os preços, com os pratos do dia a desaparecerem da carta. Mas comecemos pelo almoço. O couvert revelou-se agradável, com pão decente e fresco, manteiga boa e azeitonas verdes industriais reavivadas em tempero e descaroçadas. Para entrada vieram os peixinhos da horta num formato moderno e já visto, os feijões em pé dentro de um copo, o polme grosso e saboroso, a maionese de pimentão a assessorar. Um conjunto guloso em que o feijão verde foi ofuscado.

Eis-nos então nos principais. Havia duas opções de pratos do dia e experimentei ambas. Primeiro, o bacalhau à Assis. Não é comum encontrarmos esta receita, inscrita na Beira Baixa. Diz-nos Maria de Lourdes Modesto, no livro canónico Cozinha Tradicional Portuguesa, que se trata de criação do dono de uma pensão que, “surpreendido na serra por um nevão, lançou mão dos últimos alimentos que lhe restavam, para saciar os hóspedes”. E o que é que o hoteleiro habilidoso tinha na dispensa? Batatas, cenouras, cebolas, presunto, bacalhau, ovo, salsa e pimento – tudo usado à maneira do bacalhau à Braz, com as batatas e as cenouras em palha, fritas, e o bacalhau desfiado humedecido pelo ovo e espevitado por presunto e salsa. No Faz Frio surgiu cremoso, escasso de bacalhau e de presunto, todavia bom.

O outro prato eram uns pastéis de massa tenra, não tão tenra assim, mas com um recheio de carne saborosíssimo e um arroz de feijão com a leguminosa cozida na casa, a aproveitar o suco para o malandrinho, algo raro na era da lata. A sessão fechou com um óptimo arroz doce, que me pareceu ter a canela incorporada no leite, sob uma bola de gelado igualmente com o sabor suave da especiaria.

Na segunda visita, ao jantar, saltou-se o couvert e optou-se pelos croquetes de alheira. Não se pode dizer que estivéssemos perante algo original. O croquete de alheira e a trouxa de alheira e trinta-por-uma-linha-de- alheira foram pragas trazidas pela cozinha portuguesa com twist de brincadeira, estilo que invadiu Lisboa há uma década e ainda resiste, embora sem a mesma pujança, graças a deus. No caso, a execução competente ofuscou a banalidade conceptual, duas bolinhas sequinhas e crocantes no seu panado, com recheio de categoria e por baixo uma mostarda à antiga.

Voltámos ao jantar e insistimos no bacalhau, desta feita para um clássico raro: o Zé do Pipo. A receita volta a usar praticamente todos os ingredientes da receita tradicional, mas com outros procedimentos e resultados. Puré cremoso, picles caseiros de cenoura, couve-flor e cebolinha (pouco avinagrados); cebolada suave debaixo do bacalhau. No topo, maionese gratinada de coentros, a erva sem grande expressão. Quanto ao bacalhau pareceu ter sido cozinhado em vácuo a baixa temperatura. Era um belo naco, macio e lascado, mas sem textura de bacalhau, fruto dessa cozedura lenta que tudo transforma em tenrinho.

E nisto chegou o ensopado de borrego. Não era um ensopado clássico. Já se viu que temos jovens com técnica e escola na cozinha, entre eles Mateus Freire, que cresceu no Claro, de Vítor Claro, e passou pelo Tágide e pela Fortaleza do Guincho. O borrego numa montagem rectangular, com as carnes em camadas, tenrinhas outra vez. Por baixo pão torrado e em redor batatas cozidas e depois caramelizadas, muito boas. A ensopar um molho em que a hortelã foi triturada, com um toque de puré de abóbora barrado no pão. Teria preferido a hortelã inteira, acrescentada no fim, o que me parece garantir outra frescura ao molho, mas ainda assim soube bem o conjunto.

A terminar, mousse de chocolate com abóbora, laranja e amêndoa torrada – bem boa, também. Dizer ainda que: a selecção de vinhos é competente mas curta, sobretudo no serviço a copo. E os empregados simpáticos, ao nível do que se lhes exigiu, capazes de despachar com celeridade um restaurante com meia casa.

Agora, só falta lá ir para a açorda de bacalhau (terça-feira), para a feijoada de sames de bacalhau (quarta-feira) e para o bacalhau à Narcisa (quinta-feira). Bem-haja o bacalhau! Bem-haja quem o faz.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Detalhes

Endereço Rua Dom Pedro V, 96
Lisboa
1250-092
Preço Até 30€
Contato
Horário Dom-Qua 12.00-00.00 (a cozinha fecha às 22.00), Qui-Sáb 12.00-02.00 (a cozinha fecha às 23.00)
É o proprietário deste estabelecimento?

A vossa opinião

LiveReviews|0
1 person listening