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Hífen

Restaurantes, Petiscos Cascais
Escolha dos críticos
4 /5 estrelas
Hífen
1/3
Fotografia: Manuel Manso
Hífen - Mousse de Chocolate
2/3
Fotografia: Manuel Manso
Hífen - Ovo Escocês
3/3
Fotografia: Manuel Manso

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Atenção, continuamos a tentar dar-lhe a informação mais actualizada. Mas os tempos são instáveis, por isso confirme se os espaços continuam abertos.

 Esta ideia dos petiscos para ir partilhando já vem do anterior restaurante de João Matos em Cascais, o Cascas, que deu origem a este depois do encerramento forçado. Ora bem, viraram-se para o mar e abriram um duplex com um bar à entrada com cocktails clássicos e outros de assinatura, que se querem bem ligados à cozinha. Exemplo disso é a caipirinha de aipo. O Hífen esforçou-se para deixar de fora nomes que “como as tascas da esquina ou o não-sei-quê do bairro”, mas nada tema, que o ambiente trendy está la todo: as madeiras claras, os apontamentos azuis-claros e as plantas a cobrirem paredes. Um bar-restaurante-insta-friendly.

Crítica

Toda a gente que vai à praia do Guincho recorre à aplicação Windguru. O Windguru é muito pesquisado por surfistas e pescadores de todo o país, mas em Cascais até a avozinha o usa antes de ir ao Guincho. O Windguru diz com uma precisão absurda que às 12.34 vai soprar uma rabanada de vento e às 12.34 uma rabanada de vento atira-nos areia para as pernas como um ataque de acupunctores.

Aconteceu que neste sábado de início de Setembro, os cascalenses acordaram, consultaram o Windguru e nem queriam acreditar. A
 app apontava para ventos de seis quilómetros por hora, uma brisa subtil e morna. De repente, toda a gente teve a mesma ideia: vestir os miúdos, pôr a sacola ao ombro, e ir para o Guincho.

Às 10.30, o parque de estacionamento já tinha uma fila de meter inveja ao IC19. O fenómeno só não foi trágico por causa da eficiência dos funcionários, do melhor que há no país em termos de parques de estacionamento.
 Na máquina do ticket um 
rapaz belo – podia ser um De Botton ou um Mesquitela – entregava-nos o bilhete em mão com delicadeza aristocrática
 e rapidez proletária; e, ultrapassada a cancela, dezenas de colegas de walkie-talkie e calçãozinho como funcionários do Estoril Open conduziam
os automobilistas para o lugar vago. No fim, agradeciam-nos respeitosamente e não pediam moeda...

Já no areal, grande enchente outra vez. Pagámos 1,30€ por um café e descemos à zona de chapéus de sol. No caminho, ouvimos uma local lamentar “já não haver espaço nem no meio da praia”. Se não havia espaço nem no Guincho Centro era porque o Guincho Norte devia estar ao barrote. E estava.

Sucede que o Guincho Norte ao barrote é como Carcavelos com meia casa. Uma família com cinco filhos ao nosso lado fazia menos barulho do que um casal de namorados aos melos com o seu rap de youtuber na coluna de som em Carcavelos Sul. Outra virtude dos residentes do Guincho era passarem entre a malha apertada de veraneantes sem projectarem areia: prancha de surf num braço, o Antoninho no outro, a Mariana às cavalitas, e eles como bailarinas em pontas contornando toalhas e mochilas Fjällräven.

A beleza da vida em sociedade cascalense prolongou-se ao almoço.

Achámos que 14 euros por um hambúrguer no Bar do Guincho estava carote e em boa hora rumámos ao Hífen, em Cascais, uma viagem de 12 minutos. A mesa marcada em cima da hora estava lá à nossa espera, bem como o trato respeitoso típico da região.

O juvenil sentado à nossa mesa não era de Cascais e atirou copos ao chão, bateu com talheres, entornou 
água – e perante tudo isto o serviço foi rápido a resolver e agradável, deixando-nos à vontade como se estivéssemos na esplanada das bifanas da Feira da Luz.

De resto, também a comida agradou. Cascais não é
 um oásis da restauração, sobretudo no escalão abaixo dos 30€ por pessoa sem baixela de prata. Mas este Hífen não fica atrás de muitas mesas célebres de Lisboa com comida para partilhar e deck de DJ.

O menu tem muitos títulos cliché da petiscaria para partilhar, como tataki e ovos rotos e tempuras e pica-paus. E até tem uma coisa chamada Brás de Bacalhau. Chamar Brás de bacalhau ao bacalhau à Brás é como qualificar esta crónica de “Lacerda de crítica” em vez de “crítica à Lacerda”.

Tudo isto é literatura e o que importa mais para aqui é que se comeu bem ou muito bem. Fomos pelas sugestões do empregado. Tataki de novilho frito, a carne em tiras com cogumelos portobello
 e lascas de parmesão – três dos ingredientes com mais umami da culinária mundial. Javardice boa.

A salada de chèvre, espinafres, nozes caramelizadas e beterraba tinha bom chèvre (queijo de cabra produzido segundo método francês) e pouca alface, que é o que devem ser as saladas.

Lapas em molho manteiga e lima, com mistura de moluscos brancos e pretos, a chegar à mesa em frigideira própria, gulosas. Muito bom o polvo à galega com batata doce, polvilhado de pimentão: tenro, a batata sem se esfarelar, no ponto.

Menos consensual a sopa com ovo Arzac, por causa da couve kale assada que fazia parecer que alguém tinha deixado pegar o tacho. E para terminar, o parfait de manteiga de amendoim com nougat de chocolate preto e caramelo salgado – o doce mais vendido da casa – tecnicamente bem feito e bonito, demasiado doce para o meu gosto, a condizer com o palato médio do tuga.

No regresso a Lisboa, passámos pela Quinta da Marinha, outro idílio de vida boa. Algumas traças são famosas por aparecerem em telejornais, não por causa
 da arquitectura. Outras
não aparecem mas deviam aparecer. Podia-se fazer uma história da corrupção nacional e da criminalidade económico-financeira mapeando aquelas ruas tranquilas de vivendas 
e centros hípicos, onde convivem velhos apelidos do Antigo Regime e novos-ricos do Socialismo Democrático.

Tudo, sempre, com o máximo respeito.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Editores da Time Out Lisboa

Publicado:

Detalhes

Endereço Avenida Dom Carlos I, 48 r/c
Cascais
2750-310
Preço 20-25€
Contato
Horário Dom-Qui 12.00-15.00/19.30-00.00, Sex-Sáb 12.00-15.00/19.30-02.00 (cozinha fecha às 22.30)
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