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Izakaya Tokkuri

Restaurantes, Japonês Bairro Alto
3 /5 estrelas
Izakaya Tokkuru
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Fotografia: Duarte DragoIzakaya Tokkuru
Izakaya Tokkuru
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Fotografia: Duarte DragoIzakaya Tokkuru
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Fotografia: Duarte DragoIzakaya Tokkuru
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Fotografia: Duarte DragoIzakaya Tokkuru

A Time Out diz

3 /5 estrelas

Um amigo sussurou a dica como quem dá as coordenadas da arca do tesouro. “Já conheces o ramen do Bairro Alto?” Percebi depois que havia uma campanha em volta do sítio. Não era um hype público em jornais ou blogues, mas desses hypes em circuito fechado, informação privilegiada de foodies e chefs que me chegou ao WhatsApp por entre trezentos gifs combinando CR7 e sexo anal.

A excitação actual com o ramen é a prova mais impressionante de como as modas ditam o consumo. Quando Francisco Lopes, dono do restaurante Assuka, na Rua de São Sebastião da Pedreira, 68 estreou a célebre sopa japonesa em Lisboa, há uns 20 anos, ninguém lhe ligou. Lembro-me de me sentar ao balcão a ouvi-lo fazer a pedagogia do ramen enquanto esticava a massa fresca e lembro-me de como na sala, para sua tristeza, toda a gente engolia rolinhos de sushi como amendoins, desprezando a meia dúzia de sopas, todas excelentes, que o português trouxera do Higuma, em Paris, onde aprendera com os melhores japoneses.

Hoje, o ramen é a trufa do hipster, o foie gras do jovem adulto, a cabidela do urbano. Todos querem do bom, mas o bom é difícil de encontrar.

Há boas razões para esta febre. Poucas coisas neste mundo têm tanto umami e nos enchem a alma como noodles imersos num caldo de ossos de porco. Francisco Lopes promoveu isso, cozinhou-o como ninguém. Mas não foi a tempo. Faliu antes da moda. E nós nunca mais tivemos outro ramen assim em Portugal.

Voltemos ao Izakaya.

O sítio está mal enjorcado. Entra-se, tem-se uma garrafeira do lado esquerdo com duas ou três mesas ao largo e depois 
o espaço afunila num balcão comprido, onde se senta a maioria dos clientes. Não há carta, os pratos do dia são escritos numa ardósia fixa na parede de madeira, mas para conseguirmos distância para a ler temos de estar ao balcão ou entrar na cozinha. Nas traseiras, há ainda salas privadas onde as pessoas comem no tataki, ou seja, sentadas no chão, coisa que um homem normal só consegue depois de quinhentas horas de pilates. Adultos emperrados
 com barrigas que éramos, escolhemos a mesa. A casa encontrava-se praticamente vazia, num jantar a meio da semana, mas outras casas também no Bairro Alto funcionavam a meio gás, prenúncio de que a época baixa começou.

Pelas vielas da colina de São Roque, ainda se viam muitos brasileiros dos que votaram em Bolsonaro, mas já sem os magotes de europeus e norte-americanos aos gritinhos. O bairro tinha agora uma serenidade melancólica e 
nós caminhávamos como velhas glórias numa sala de troféus, recordando as noites de anedotas no Caracol, as tertúlias no Cantinho do
Bem Estar e a casa de banho “daquele bar estreitinho” da Rua da Atalaia, que as pessoas usavam para cheirar cocaína ou fazer sexo oral ou ambos, indiferentes aos protestos na fila que se estendia pela pista de dança, buraco escuro onde se ouvia um house como deve de ser. Ah, saudade.

A refeição começou
 sem intróitos da parte do empregado, mas vale a pena explicar que uma izakaya é um bar/tasca do Japão onde tradicionalmente se bebe saké
 e se partilham petiscos, no 
final de um dia de trabalho. No caso, há uma ardósia só com variedades de saké e apetece começar na primeira e acabar na última. Em alternativa, pode-se também escolher bons vinhos ou as cervejas importadas do costume – Asahi, Sapporo e Kirin –, todas bem boas.

Éramos três e começámos com as gyosas de porco, bem seladas na base, a massa grossa mas saborosa, o recheio de carne de porco picada. Prosseguimos com
o nasu dengaku, a clássica beringela assada, aberta ao meio, com cobertura de miso caramelizado. Fora da norma a tempura de camarão, o polme denso de ovo, longe das coberturas leves japonesas, este tendo ainda um toque de alho. Óptimas as yakitori negima, espetadas de pedaços suculentos de frango entremeados com o que me pareceu ser cebolinha assada.

Por fim o ramen. Felizmente vamos tendo sopas de noodles japonesas bem feitas, com caldos sem pozinhos espertos. E este é mais um. Não tem a complexidade nem a estética de outros, mas está lá o essencial. Pedimos o tonkotsu (com caldo de porco), mas havia outras variedades, nomeadamente o shoyu ramen e o miso ramen. O caldo encheu-nos logo a boca e o espírito, a barriga de porco por cima a desfazer-se, o ovo sem estar aberto ao meio mas com a gema cremosa, no ponto, os noodles rijos no centro. Podia ter vindo ainda mais fumegante, que é como se quer um ramen, para aguentar o embate até ao fim sem que a gordura se condensasse, mas ainda assim estava bem.

No final, optou-se por um gelado de sésamo torrado, que é uma coisa que é boa mesmo quando tem gelo, como era o caso.

Serviço sem alma, sem atrapalhar. Este Izakaya tem mais do que um ramen competente. Mas tem menos do que o hype faria supor.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Detalhes

Endereço Travessa dos Fiéis de Deus, 28
Bairro Alto
Lisboa
1200-189
Preço 25€
Contato
Horário Ter-Dom 17.00-02.00
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