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Restaurantes, Português Chiado/Cais do Sodré
4 /5 estrelas
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E eis que este Verão o nome André Lança Cordeiro começou a ser falado com frequência pela comunidade de foodies (ou gastrónomos, você decide) de Lisboa. Tudo graças ao Local, o restaurante em open space só com 10 lugares e 18 metros quadrados que abriu no Príncipe Real. Os verdadeiros entendidos da área dirão que já conheciam o nome do chef
 do Palácio do Governador, sítio que marcou o seu regresso a Lisboa depois de vários anos a trabalhar em França e na Suíça. Os que tomam Memofante há vários anos lembrar-se-ão da
sua passagem pela icónica 2780 Taberna, em Oeiras. Eu tenho
 de admitir que apenas comecei
 a ouvir falar do chef cujo nome encaixa que nem uma luva com a área de especialidade quando este se instalou no Ânfora, o
 tal restaurante do Palácio do Governador, espaço que deixou para abrir o Local. Jantei lá num destes dias, gostei da experiência no seu todo, mas permitam-me que me debruce sobre cinco conclusões.

1. Os portugueses ainda 
não sabem estar em mesas comunitárias. O português é desconfiado por natureza. E apesar de este não ser o primeiro nem o último restaurante onde
 é preciso dividir a mesa com desconhecidos, há sempre aquele medo de falar alto, os vizinhos ouvirem e reconhecerem um nome, porque Portugal é uma ervilha. Aconteceu-me dividir a mesa com um casal português
 a primeira meia hora é, não vou suavizar a coisa, desconfortável. Sussurramos ou falamos em tom normal? Dividimos o cesto de pão ou pedimos um para nós? Ouvimos a explicação dos pratos dos outros ou só a nossa? Só ao fim de algum tempo é que se descontrai e, inevitavelmente, a conversa se torna uma só, entre todos.

2. O restaurante exige que haja respeito pelo número de lugares. O Local tem uma só mesa para 10 pessoas, nem mais nem menos, 
e os portugueses, já se sabe, gostam de trazer sempre mais alguém a reboque - “olhe, nós somos magrinhos, apertamo-nos”. Pois aqui a desculpa não cola, não só por falta de cadeiras, como pela mise en place que 
é feita consoante as reservas, obrigatória para não entupir o trabalho na cozinha (aceitam pessoas sem reservas quando têm desistências, regra geral). A vantagem é que o jantar se passa rápido e não há grande tempo de espera entre pratos.


3. A comida do chef André é boa. Base francesa, produto português, menu a rodar consoante a vontade do cozinheiro. Exímio o tártaro 
de novilho com ouriço do mar, prato bonito, servido dentro
 de uma casca de ouriço, com salicórnia e folhas de alga nori. Fresco, ligeiramente picante, com bom sabor a mar e carne de qualidade. Boa a vieira grelhada, com tiras de maçã Granny Smith, um creme de agrião e uns pingos de pimento. Um conjunto interessante, a precisar de uma colher em vez do garfo e faca para apreciá-lo num todo. Excelentes as bochechas de porco estufadas em vinho tinto e sumo de beterraba, a desfazerem-se, a carne saborosíssima, com pedaços de beterraba, redução de trufa, sem ser de mais, nem de menos, e um puré de batata ratte ao mesmo nível. Menos boa a corvina a baixa temperatura com escamas de curgete, espargos e curgete e uma beurre de yuzu com óleo de estragão. Faltou sabor ao peixe, ou mais beurre para o molhar.


4. As sobremesas do chef André são de estalo. E é aí que se vê a verdadeira veia francesa. Ora atente neste trio: mil-folhas
 de baunilha, o único prato que nunca sai da carta, com a massa a estalar, o creme doce qb, bem equilibrado na baunilha; paris breast, numa versão com avelãs, a massa no ponto, sem secar, o creme guloso; canelé, um bolo viciante, com um exterior mais tostadinho e um interior húmido.

5. No Local paga-se a comida e também a experiência. Por duas pessoas, duas entradas, dois pratos, uma sobremesa e dois copos de vinho, são quase 85€. Caro para a média de ordenados dos portugueses, ajustado ao
 que andam a pedir os sítios da moda. A diferença é que aqui
o chef conversa muito, fala de fornecedores, conta pormenores de confecções, discute receitas, permite que se espreite o seu trabalho. É como se estivéssemos a jantar em casa de um amigo muito entendido no assunto. 
E isso, claro, tem um preço.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Marta Brown

Publicado:

Nome do local Local
Contato
Endereço Rua de O Século, 204
Lisboa
1200-435
Horário Ter-Sáb 20.00-23.30
Preço Até 50€
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